Uma noite no sertão

Para o desavisado que resolve passar no Da Silva em noite cuja programação oferece sertanejo universitário, a festa pode ser surpreendente. Nem tanto pelo conteúdo musical, que não oferece tanta novidade assim em relação àquele sertanejo de fins dos anos 1980. No cardápio, uma miscelânea que envolve canções originais, velhos clássicos do gênero e algumas escolhas inusitadas, de artistas díspares como Demônios da Garoa e Fábio Jr. – mas tudo processado e fundido num ritmo acelerado para velhas batidas de viola, como a guarânia e o cururu.

O interessante mesmo é o público da noitada: exemplares jovens (não necessariamente universitários), distintos e bem-nutridos da elite londrinense. Na vestimenta, nada de chapelões, fivelas gigantescas, botinas e quetais. Estão lá para curtir sertanejo universitário, mas, pelas roupas, bem poderiam apreciar um recital do Nelson Freire: a aparência é muito urbana, muito sofisticada, embora a música que os une seja barulhenta e simplória.

Todos parecem se divertir, menos o garçom Alan Santos, que, cúmplice, pergunta ao repórter deslocado o que está fazendo ali, para depois confessar, rabugento, que o que gosta mesmo é de “sambão”.

Grosso modo, o público pode ser dividido em dois grandes grupos. Os que já se dizem apreciadores do sertanejo de longa data fazem sempre questão de demonstrar certo orgulho pioneiro, mas não deixam de louvar a novidade universitária que trouxe mais fãs ao gênero. “Gosto faz tempo, sou sertanejo de raiz, mas é uma boa ver um novo público, a coisa globalizando”, afirma o estudante de Educação Física José Frazão, 21. “Meus amigos que não gostavam agora gostam”, comemora a fonoaudióloga Juliana Cardoso, 31. O vendedor Paulo Vitor, 20, que declara altivo suas raízes agrárias, aparece com a explicação mais sintomática da noite: “Os playboys, que antes achavam sertanejo brega, não ouvem mais putz-putz, agora vêm pra cá”.

Os neófitos, por sua vez, revelam que as razões para estar ali passam longe de significativas mudanças musicais no sertanejo: “Não sou grande fã da música, venho mais pelos amigos”, explica o vendedor Danilo Poujo, 24. “Não gosto, mas em todas as baladas só dá sertanejo. Ou você vai ou não sai de casa”, dramatiza Daniela Álvares, 29, desempregada. A estudante de psicologia Roberta Farias, 22, é de uma síntese quase poética: “Não gosto. O ritmo é tudo a mesma coisa. Venho pela modinha”, confessa, sem o menor sinal de rubor.

Se na música em si não se percebe muita diferença, por que afinal o sertanejo universitário é esse fenômeno que atrai um público novo e distinto? A resposta pode ser tão simples quanto a do garçom Alan, meio constrangido ao ser flagrado pelo repórter cantarolando uma melodia da dupla da noite. Mas você não gostava de sambão, meu caro? “É que a gente ouve tanto essa coisa que acaba grudando na nossa cabeça.”

As aventuras do Dr. Gari

Há alguns dias, ganhou manchetes um concurso para gari no Rio de Janeiro. O extraordinário foi o fato de 22 inscritos terem se declarado mestres e outros 45, doutores.

Para completar a situação inusitada, o processo seletivo não inclui testes cognitivos, apenas provas de resistência física. Quem já frequentou nossas academias (não as de ginástica!) sabe bem que mestres e doutores não costumam primar pelo corpinho atlético. Assim sendo, é bem capaz de que, mesmo com tantos anos de estudo, falhem na ambição desesperada de se tornarem garis.

Deve-se fazer a ressalva de que, como os dados vieram de fichas de inscrição que não exigiam comprovante de títulos, muita gente atribui o fenômeno a erros na hora do preenchimento, ou a simples trote, ou a sei lá o quê – simplesmente se recusando a acreditar na possibilidade de mestres e doutores disputando um salário de R$ 486,10, com alguns (poucos) adicionais.

Seja como for, é um fato que incita a reflexão sobre o tão sofrido sistema educacional de nosso país. Também é divertido especular sobre o convívio de um Dr. Gari, recém-aprovado, com colegas mais antigos na profissão.

Imaginem o veterano tentando enturmar o novato:

– Rapaz, que goleada essa do Palmeiras, hein? Pra que time cê torce?

– Observo com severas restrições essa entrega frívola, de paixão desarrazoada, a um vício esportivo que sublima frustrações e embota a consciência social da nação. Perde-se tempo com futebol para não haver chance de se refletir sobre as mazelas…

– Ô, Zé Mazela! Acorda que o saco de lixo abriu, tá cego? – interfere um terceiro, repleto de consciência social.

Também seria interessante observar o momento em que o gari mais velho, cansado da lida ao fim da jornada de trabalho, tenta desabafar para seu companheiro.

– Deus do céu, hoje o negócio tá brabo… E agora ainda começa a chover, só falta cair um raio na minha cabeça!

– Tecnicamente, meu caro, os raios não caem, eles sobem, por um desequilíbrio entre as cargas positivas dispersas na base da nuvem e os elétrons espalhados na Terra. São os elétrons que fluem, procurando o caminho de menor resistência elétrica. Como o clarão é mais alto em cima, a impressão que se tem…

– Acho que eu ouvi minha avó me chamando, tenho de ir, até mais.

E o que dizer do gostoso momento em que se combina uma reunião de amigos para o fim de semana?

– Beleza, Fonseca. Então amanhã vamos no Pedrinho, pro churrasco…

– Permita-me corrigir – interrompe o Dr. Gari –, mas “vamos” é uma conjugação do presente do indicativo; já que estão falando de amanhã, o correto seria usar “iremos”. Sem falar da preposição…

– Tanto faz “vamos”, “iremos”, porque você não tá convidado de qualquer jeito. Cê é muito chato, doutor.

– Tudo bem. Tenho mesmo de ficar em casa para reler o sétimo tomo do “Em Busca do Tempo Perdido”. No original, claro.

– Olha, espero que encontre esse tempo perdido e traga pra gente na segunda-feira. Sem falta.

Das chuvas em Londrina

Chove em Londrina. Chove muito. Chove tanto que é quase um convite à propagação do velho lugar-comum “está desabando o mundo”. Vendo o espetáculo dantesco – e lá se foi outro clichê – de árvores caídas, ruas interditadas, casas destelhadas e postes derrubados com fios de tensão dançando temerariamente, parece mesmo que desse jeito a Terra não dura muito.

Ainda assim, não é um, nem são dois, nem três que vejo pelas ruas, quando a tempestade dá um tempo, contemplando com fascínio os estragos. É muita gente maravilhada com a desgraça. Alguns mais empolgados tiram fotos e ressoam interjeições entusiásticas.

Prefiro me distanciar, acho tudo isso meio tétrico. Tá certo, há o encanto ancestral do homem pelos espetáculos da natureza, dá pra entender. Mas quando a coisa adquire essas proporções ameaçadoras, acho mais prudente certo retraimento respeitoso ante o imponderável, ante o Mistério. Não é coisa para se brincar.

O Mistério. Os meteorologistas podem vir com mil explicações, camada de ar frio, camada de ar quente, alteração brusca de temperatura, mudança climática pelo aquecimento global, sei lá mais o quê. Para nós, pobres mortais que não distinguimos cirros, cúmulos e nimbos, não é tudo uma grande força misteriosa?

Eu por mim, mesmo sendo homem de pouca fé – ou talvez justamente por isso – morro de medo de chuvas que se adequam à expressão “proporções bíblicas”. Lembro-me logo de Noé, dilúvio, castigo, necessidade de reconstrução do mundo…

E nestes tempos amargos é quase consenso que uma reconstruçãozinha do planeta não seria de todo mau, não é verdade? No caso particular de Londrina, então, haja vista consecutivos resultados eleitorais controversos, uma intervenção divina aplicada com parcimônia viria bem a calhar.

Mas por ora é só neurose, não há nenhuma punição dos céus. Existe é uma fatalidade da Natureza que, como tal e pelos prejuízos que vem causando, exige certa reverência que às vezes é esquecida.

Afora isso, não posso me queixar. O único castigo a que fui submetido foi ter de subir, pela consequente falta de luz no prédio onde moro, dolorosos onze lances de escada. Levando em consideração os quilogramas a mais acumulados ao longo da vida, chega a ser ajuda providencial.

Aventura n°27

Nunca espero mais do que seis toques de chamada ao telefone. Se o cara não disser “alô” depois disso, ou não está a fim ou não pode me atender – ambas me parecem razões justas para parar com a pentelhação. O número de tolerância (seis toques) eu aprendi num programa da Angélica: ela ligava prum camarada e se depois dessa espera ele não desse o ar da graça, perdia um prêmio qualquer. Falem o que for da Angélica, mas aqui ela demonstrou um senso de equilíbrio e ponderação perfeitos, praticamente sabedoria oriental: seis toques é o justo. Findos os seis toques – juro para vocês – desisto de telefonar. Mas às vezes é preciso encontrar a pessoa, de um jeito ou de outro. Infelizmente, era esse o caso – e eu não desistiria assim tão cedo.

Perguntei pra Julia se topava a missão, ela achou divertido e quis ir comigo. Fomos então para aquele fim de mundo onde o desgraçado devia ter se enfiado, já que parecia não estar em casa. Chegamos lá já anoitecia, eu estava mais chato do que o habitual, cansado, puto – e não havia uma campainha para tocar.

Qual é, por Deus, a dificuldade de se colocar uma campainha numa casa? E, podem reparar, as pessoas que não adotam esse tão prosaico mecanismo são aquelas que já moram longe da civilização. Por que não vão viver na Groelândia duma vez?

Pode haver coisa mais embaraçosa do que, em pleno século XXI, prostar-se em frente a um portão, bater palminhas e bradar algo como “Ô de casa!”? É como ser teletransportado ao Sítio do Picapau Amarelo. A Julia reprovou meu constrangimento, atribuiu-o ao fato de eu sempre ter morado em apartamentos e se pôs ela mesma a fazer as honras. Daí fiquei constrangido por razão diversa, precisar de auxílio para fazer “ô de casa”, que inaptidão completa. Até pensei em, orgulhoso, voltar ao ataque, mas a Julia é tão graciosa, até o “ô de casa” dela tem todo um charme, então a deixei trabalhando enquanto admirava sua tentativa.

Inglória tentativa, devo dizer. Quinze berrados minutos depois, parecia evidente que estávamos sozinhos.

Mas habitada ou sem vivalma, aquela casa guardava o meu objeto de desejo. O idiota que se danasse, eu só queria o que a mim pertencia – e eu sabia, tinha a estranha convicção de que só podia estar lá. Era urgente.

Arrombar o portão foi fácil, mesmo para a dupla de leigos. Entramos, abrimos gavetas, reviramos estantes, deslocamos móveis, descobrimos passagens secretas – mas finalmente achamos, escondida atrás de um quadro, a receita de pudim de caramelo da minha avó.

Dormi bem.

I

Minha namorada se chama Julia e não só por ela ser minha namorada como por se chamar Julia devo declarar meu amor. Amo-a em cada letra do seu nome e em cada gesto de namorada.

Julia. Não é bonito? E ela merece o nome – mais do que isso, define-o e o eleva a uma condição nunca antes alcançada e à qual jamais novamente há de se chegar. Tal como o número das camisas de jogadores importantes, seu nome deveria ser aposentado depois de sua passagem pela Terra, para não desonrá-lo. Ah, mas me esqueço aqui que não haverá Terra depois de sua passagem. O mundo vai se acabar.

Julia seria o nome de minha irmã, caso fosse mulher o Fábio, meu irmãozinho nascido em setembro de 1993. Quando minha mãe estava grávida de minha pessoa, decidiram ela e meu pai – eu não pude dar palpites por barreiras de língua – que, fosse menino, o filho deles se chamaria André (eis-me aqui); fosse menina, chamar-se-ia Marília. Para o nascimento do filho mais novo, no entanto, já estive presente e fiz valer minha obstinada opinião: não aceitava Marília como irmã, seria Julia e pronto. Surpreendentemente, acataram meu voto. Julia se impõe de maneira firme, ainda que suave.

Bem, não houve Julia irmã. Mas houve Julia namorada, anos e anos depois. Acho que já ansiava pela entrada de Julia em minha vida, previa-a, queria antecipá-la. Tanto é que agora até acho Marília um nome bonito, perfeitamente aceitável para uma irmã. Mas entendo minha obsessão de outrora: quando se pode optar, não há outro possível nome de mulher. Julia sobra. Valeu a pena esperar.

E ainda a espero a cada dia, na esperança doce de quando se sabe que à espera vem a chegada. E ela sempre me vem inteira, mesmo quando se dá aos pedaços; sempre radiante, mesmo quando chora; sempre clara, mesmo quando revela suas dúvidas.

Ah, a Julia me ama, e como é bom poder dizê-lo com total segurança, sem necessidade de afetar um tom pretensioso ou cabotino – nem é o caso de me orgulhar disso, não há sentido em se orgulhar do que é certo e natural: não me orgulho de ter nascido, embora seja bom que tenha me agraciado esse acaso.

Não fiz nada para ganhar o amor da Julia. Por isso a amo, eu a amo, eu te amo, eu amo você. Por me permitir me ser. Errado, teimoso, temperamental – e amado. Poderia ser melhor? E como eu a poderia não amar, sendo você Julia, em tudo que isso abrange? Criança do oceano, as Lennon said. Sincera companheira. Estrela da terra.

Julia pode insistir mil vezes – nunca se repete; Julia é hoje de beleza insuperável – amanhã há de estar mais bonita; Julia faz aniversário uma vez por ano – nasce a cada dia.

De quando se acaba o amor

Escrito para o Londrina Mais

Quando se acaba o amor, é bom – bem, para falar a verdade, nunca vai ser realmente bom quando o amor se acaba; tudo o que se pode tentar são paliativos, e é a isto que a crônica se dispõe.

Feita essa necessária ressalva, quando se acaba o amor, é bom caminhar desolado na chuva. Como nem sempre São Pedro colabora quando se acaba o amor, um banho longo e gelado também pode ser de alguma serventia, a ideia é o afogamento terapêutico.

Complementado com a necessária bebedeira, evidente. Mas não seja essa uma bebedeira vulgar: sorva algo a que o corpo não esteja acostumado. E se for abstêmio, entorne qualquer, qualquer coisa mesmo – pro diabo as convicções. Pelo mesmo raciocínio, se já for um ébrio convicto, dispense a tradição do porre de dor-de-cotovelo e aproveite para jurar nunca mais colocar uma gota de álcool na boca.

As juras são mais belas quando se acaba o amor. Jurar por Deus, por todos os santos, por Alá, Buda e Raul Seixas. Fazer promessas nobres, resoluções grandiosas, alternar brados assassinos e sinceras pretensões de castidade eterna. E se você, meu caro, levar a cabo qualquer uma das juras, das mais elevadas às mais indecentes, é um patife que nunca amou de verdade. Respeite a insanidade exclusiva do amor.

Pode-se correr aos braços maternos, à Morrissey, the soil’s falling over my head, se ainda há mãe. No caso de a Protetora Suprema não estar mais presente, deve ter sobrado algum amigo. Sim, porque mesmo os que estiveram distantes voltam quando se acaba o amor. Arrisco a dizer que gostam, pois assim eles o têm mais presente – mais do que mais presente, mais íntegro.

E há a possibilidade de voltar a praticar telefonemas despropositados às três da manhã, coisa que, quando se ama, só se faz para o ser amado (e olhe lá, depende do amado). Poucas coisas são melhores do que a certeza de ter várias pessoas para ligar às três da manhã, sabendo que jamais será inconveniente.
Não leia livros quando se acaba o amor; melhor, não leia nada. Nem assista a filmes ou a peças, nem perca tempo com qualquer forma de arte (música é um caso particular). Desnecessário dizer que é imbecil remexer papéis ou fotografias antigas.

Prefira jogar pingue-pongue, tomar sorvete, andar de bicicleta, caçar borboletas ou armar um churrasco. Aproveite o salvo-conduto para fazer coisas que não se permitiria normalmente, tipo sair de camiseta regata em público ou ir ao Empório Guimarães. A idéia é agir, andar, em detrimento da contemplação – a não ser para contemplar menininhas gostosas passantes (ou o equivalente, de acordo com a orientação sexual de cada um).

Todas essas são orientações decentes para a lamentável ocasião de quando se acaba o amor.

Mas o melhor mesmo é ter alguém na reserva.

As cem maiores canções da música brasileira

Todo mundo se diverte quando topa com uma lista de cem-melhores-qualquer-coisa. Diverte-se, mas também se irrita – nunca vi ninguém apreciar uma dessas relações sem proferir impropérios desqualificando as mães dos autores. Para poder conjugar a diversão e a ausência de irritação, resolvi organizar minha própria lista (das cem maiores canções da música brasileira, no caso), escolhendo como votantes apenas fontes ilibadas, confiáveis e indiscutíveis: minhas auto-suficientes opiniões.

Na elaboração do rol de canções, vali-me de critérios muito particulares, tão particulares que nem eu sei bem quais são. Uma mistura de relevância histórica, proporcionalidade entre compositores, divisão de épocas, sofisticação e estima pessoal com largas pitadas de incoerência.

Canções que geralmente costumam figurar em listas correlatas foram deixadas de fora, como “Rosa”, de Pixinguinha e Otávio de Souza (acho tanto a melodia quanto a letra muito rococós), ou “Aquarela do Brasil” (essa, mesmo com toda a fama e glória, acho chata, que posso fazer?, não iria mentir). Também não foi por esquecimento a omissão de “Águas de Março”, “Chega de Saudade”, “Garota de Ipanema”, “Desafinado”, “Samba de Uma Nota Só”, “Corcovado” e “Samba do avião”. Apenas acho que o Tom Jobim tem canções muito melhores do que essas mais famosas.

Noto eu mesmo uma ausência espantosa: não há nada aqui do Tim Maia, músico de importância e originalidade inegáveis, grande cantor, excelente no conjunto da obra, mas que, em minha opinião, não conseguiu legar uma canção distinguível como obra-prima. Qual então? “Azul da cor do mar”? “Você”? Alguma das doidonas do álbum Racional? Não me parece suficiente.

Bem, deixemos de explicações e vamos à lista, disposta com as canções em ordem alfabética:

Acalanto, de Dorival Caymmi
Amor em paz, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes
Asa branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira
Atrás da porta, de Francis Hime e Chico Buarque
Balada do louco, de Arnaldo Baptista e Rita Lee
Beatriz, de Edu Lobo e Chico Buarque
O bêbado e a equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc
O bem do mar, de Dorival Caymmi
Boas festas, de Assis Valente
Brasil pandeiro, de Assis Valente
Canção do amanhecer, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes
Canto triste, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes
Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro
Castigo, de Dolores Duran
Chão de estrelas, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas
Choro bandido, de Edu Lobo e Chico Buarque
Clara Crocodilo, de Arrigo Barnabé e Mario Cortes
Codinome beija-flor, de Cazuza, Reinaldo Arias e Ezequiel Neves
Coisa mais linda, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes
Começar de novo, de Ivan Lins e Victor Martins
Comida, de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto
Como uma onda, de Lulu Santos e Nelson Motta
Construção, de Chico Buarque
Copacabana, de João de Barro e Alberto Ribeiro
Coração Vagabundo, de Caetano Veloso
Correnteza, de Tom Jobim e Luiz Bonfá
Derradeira primavera, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes
Desde que o samba é samba, de Caetano Veloso
Detalhes, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos
Dindi, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira
Disparada, de Geraldo Vandré e Théo de Barros
Domingo no parque, de Gilberto Gil
Dora, de Dorival Caymmi
Eu e a brisa, de Johnny Alf
Eu não existo sem você, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes
Eu sei que vou te amar, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes
Eu te amo, de Tom Jobim e Chico Buarque
Falando de amor, de Tom Jobim
Feitio de oração, de Noel Rosa e Vadico
A felicidade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes
A flor e o espinho, de Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha
Foi um rio que passou na minha vida, de Paulinho da Viola
Gabriela, de Tom Jobim
Geléia geral, de Gilberto Gil e Torquato Neto
História de pescadores, de Dorival Caymmi
Índios, de Renato Russo
Insensatez, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes
Inútil, de Roger Moreira
Luiza, de Tom Jobim
Maior abandonado, de Frejat e Cazuza
Manhã de carnaval, de Luiz Bonfá e Antônio Maria
O mar, de Dorival Caymmi
Marcha da quarta-feira de cinzas, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes
Maria Maria, de Milton Nascimento e Fernando Brant
Matita Perê, de Tom Jobim e Paulo Cesar Pinheiro
Minha namorada, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes
Miséria, de Arnaldo Antunes, Sérgio Britto e Paulo Miklos
O mundo é um moinho, de Cartola
A noite do meu bem, de Dolores Duran
Nunca, de Lupicínio Rodrigues
Oceano, de Djavan
Olha Maria, de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Chico Buarque
Olhos nos olhos, de Chico Buarque
Pais e Filhos, de Dado Villa-Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá
Panis et circenses, de Caetano Veloso e Gilberto Gil
A paz, de João Donato e Gilberto Gil
País tropical, de Jorge Ben
Pedaço de mim, de Chico Buarque
Pérola negra, de Luiz Melodia
Por causa de você, de Tom Jobim e Dolores Duran
Pra machucar meu coração, de Ary Barroso
Primavera, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes
Quase um segundo, de Herbert Vianna
O que será (à flor da pele), de Chico Buarque
O quereres, de Caetano Veloso
Qui nem jiló, de Luiz Gonzaga e Humerto Teixeira
Refém da Solidão, de Baden Powell e Paulo Cesar Pinheiro
Retrato em branco e preto, de Tom Jobim e Chico Buarque
Rosa de Hiroxima, de Gerson Conrad e Vinicius de Moraes
As rosas não falam, de Cartola
Samba da bênção, de Baden Powell e Vinicius de Moraes
Samba da minha terra, de Dorival Caymmi
Samba em prelúdio, de Baden Powell e Vinicius de Moraes
Sampa, de Caetano Veloso
San Vicente, de Milton Nascimento e Fernando Brant
Sandália de prata, de Ary Barroso
Sangue latino, de João Ricardo e Paulinho Mendonça
Saudades de Itapoã, de Dorival Caymmi
Se eu quiser falar com Deus, de Gilberto Gil
Se todos fossem iguais a você, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes
Sem fantasia, de Chico Buarque
Sentinela, de Milton Nascimento e Fernando Brant
Só louco, de Dorival Caymmi
Todo o sentimento, de Cristóvão Bastos e Chico Buarque
Trem das onze, de Adoniran Barbosa
O trem das sete, de Raul Seixas
Tristeza, de Haroldo Lobo e Niltinho
Tropicália, de Caetano Veloso
Último desejo, de Noel Rosa
Você já foi à Bahia?, de Dorival Caymmi

Conversas com Woody Allen expõe rara intimidade do diretor e consagra sua neurose

Os fãs de Woody Allen bem sabem o quão produtivo ele é: desde 1982, a cada temporada ele realiza pelo menos um longa-metragem. Porém, o fim de ano no Brasil pode ser considerado excepcionalmente farto de material sobre o diretor, mesmo para os mais acostumados à sua prolificidade. Seu mais recente filme, Vicky Cristina Barcelona, indicado para quatro prêmios Globo de Ouro e ainda em cartaz no país, já arrecadou mais de um milhão e meio de dólares apenas em terras brasileiras, o recorde de Allen por estas plagas; quatro de seus títulos antigos (Bananas, Memórias, Broadway Danny Rose e A Era do Rádio), até agora inéditos em dvd, estão sendo lançados com alarde de marketing; como se não bastasse, a Cosac Naify coloca no mercado Conversas com Woody Allen, compilação organizada pelo jornalista norte-americano Eric Lax.

Um livro de entrevistas não é a idéia mais original do mundo, mas o perfil esquivo do entrevistado traz interesse extra ao trabalho: Allen não vai à cerimônia do Oscar (nem quando há prêmios a receber); tem horror a discursos, festas e badalações em geral; não permite que na transposição de suas películas para dvd haja extras, pois “no próprio filme está tudo o que queria dizer”; recusa-se a entregar seus roteiros para os atores contratados, só lhes revelando suas falas específicas; jamais conversa com seu elenco, a ponto de Meryl Streep ter dito, cheia de ressentimento, após trabalhar em Manhattan, “Eu acho que Woody Allen nem sequer se lembra de mim”.

Com uma personalidade tão arredia, é um feito e tanto ter-lhe arrancado quase 500 (!) páginas de entrevistas que, garante Lax, foram transcritas integralmente na publicação, abrangendo conversas com o diretor num período de 36 anos (de 1971 a 2007). Em toda a carreira do cineasta, o jornalista foi realmente dos pouquíssimos a lhe conquistar a confiança, chegando a acompanhá-lo em locações e salas de montagem. Este livro vem complementar seu já tradicional trabalho sobre Allen, que passa por duas biografias (lançadas em 1975 e 1991).

Embora contenha diversos trechos copiados das biografias anteriores, perdendo a atração do ineditismo, e não possa ser considerado um perfil definitivo (afinal, Woody continua com uma produtividade sem par no cinema norte-americano), Conversas com Woody Allen, em seu tamanho imponente e edição bem-acabada, é uma tour de force jornalística, servindo como fonte única para entender o processo de criação do diretor. Ademais, é interessante reconhecer a persona neurótica dos filmes em suas falas como entrevistado, mesmo que a negação da correspondência personagem/autor seja repetida por Woody enfaticamente ao longo do livro.

As entrevistas não estão dispostas em ordem cronológica, mas em curiosa divisão por capítulos temáticos que correspondem às etapas de elaboração de um filme (“A idéia”; “Escrever”; “Casting, atores, atuação”; “Filmagens, sets, locações”; “Direção”; “Montagem”; “Trilha sonora” e um capítulo adicional de balanço da obra intitulado “A carreira”).

A edição inusitada acaba contribuindo para a fluência da leitura e para um mergulho nos métodos do autor. Afinal, o texto atende fartamente aos interessados em pormenores técnicos do cinema, com o diretor esmiuçando suas criações em plena autoridade: Allen, além de escrever, dirigir e não raro atuar, tem autonomia total em seus filmes, dando a última palavra desde a seleção de atores até a fotografia e edição final – sua independência em relação aos estúdios é algo raríssimo no cinema norte-americano.

Para além da parte tecnicista, porém, o livro também entra em meandros que fazem a delícia dos fãs: com sua rabugice típica, Allen passeia descompromissadamente por assuntos como religião, política, artes e fobias, aproveitando para apontar seus filmes favoritos, dos outros e dele mesmo (a saber, Ponto final, A rosa púrpura do Cairo e Maridos e esposas, embora relute em demonstrar apreço por quaisquer de seus títulos). Os que esperam detalhes escabrosos de sua vida pessoal, no entanto, hão de sair decepcionados: sua escandalosa separação de Mia Farrow é ignorada sumariamente.

* * *

A palavra “legado” tem a pompa fácil e adequada para laudatórios superficiais – um prato cheio para o humor de Woody Allen, que no livro reflete sarcasticamente sobre a utilidade de legar algo quando já se está morto. É inevitável, no entanto, quando se o percebe como cineasta crucial da segunda metade do século XX, especular sobre as razões de sua permanência.

A questão ampla não permite respostas peremptórias. Um dos caminhos possíveis, e a leitura de Conversas com Woody Allen reforça essa impressão, é apontar o valor de sua influência como resultado direto do momento em que assumiu e desenvolveu sua linguagem da neurose.

Mais especificamente, a partir da linguagem apresentada em Annie Hall, de 1977, e estabelecida em Manhattan, de 1979. Woody pode ter outros preferidos, mas é inegável perceber esses dois filmes como as pedras fundamentais de todo o seu trabalho posterior: se é verdade que apresentou obras com maior apuro técnico, estas já não contavam com a prerrogativa da novidade.

Annie Hall, quadruplamente oscarizado, foi conscientemente um turning point, a primeira aparição do personagem clássico de Woody Allen: o homem urbano, intelectual, cônscio de seus problemas relacionados à vida moderna, que o atrapalham em seus relacionamentos, mas contra os quais não consegue lutar. Além da questão temática, também foi inaugurada uma série de procedimentos-padrão: o primeiro filme locado em Nova Iorque, o primeiro com a marca registrada dos letreiros brancos em fundo negro, o primeiro a soar tão autobiográfico – o personagem de Woody, Alvy Singer, é um comediante, e Annie Hall é uma corruptela de Diane Hall Keaton, atriz protagonista que realmente se envolveu com o diretor.

A grande sacada foi se apropriar do humor judaico, cuja premissa básica é saber rir de si mesmo, já trabalhada em cinema pelos seus ídolos Irmãos Marx, e expô-la de maneira direta e sem adornos: Woody dispensou bigodes falsos, andares esquisitos, charutos, chapéus e roupas excêntricas, à moda de Groucho ou Chaplin, e se apresentou às câmeras, como personagem, com linguagem, ambientação, angústias, veleidades e visual idênticos aos de si mesmo. Daí não mais interessa, como sempre faz questão de afirmar, que os fatos apresentados não sejam autobiográficos: estava feita a ponte do humor judaico para o humor urbano neurótico, num estilo inovador.

Manhattan, após o intervalo de Interiores, um drama bergmaniano que, sem juízo de valor, fracassou comercialmente, repetiu o padrão de Annie Hall, tendo como protagonista um personagem, Isaac Davis, que poderia muito bem ser novamente Alvy Singer. Longe, porém, de ser visto como repetição estéril, Manhattan firmou um estilo, acrescentando-lhe importantes elementos (notoriamente a metrópole como protagonista viva e a música jazz como ressaltante recorrente de emoções). Mais pragmaticamente, devolveu-lhe os espectadores perdidos na incursão dramática.

Estava definido o que o público esperaria de Woody Allen e, talvez à sua revelia, o desenvolvimento de sua obra posterior. Mesmo quando não atuou em seus filmes, ou até quando finalmente atingiu sucesso comercial e crítico com um drama, em Ponto final, de 2005, foi explorando conflitos neuróticos que foi bem-sucedido. Possivelmente seja essa a maior estranheza do público em relação a Interiores, Setembro e A Outra: mais do que lhes privar do humor, esses dramas são ensaios frios sobre a condição humana, enquanto Ponto final, apesar da trama trágica, tem como protagonista um assassino neurótico e angustiado em uma grande cidade, atrapalhado ao ponto de o desfecho resvalar no humor negro, o que pode ser uma explicação para o sucesso surpreendente do trabalho – não desprezando os encantos de Scarlett Johansson, femme fatale perfeita para a exploração da indústria, embora com limitações dramáticas.

Cabe aqui entrar um pouco em Vicky Cristina Barcelona, recente demais para ser debatido em Conversas com Woody Allen: com elenco ainda mais estrelado do que o de Ponto Final (além de Scarlett, há os almodovarianos Javier Bardem e Penélope Cruz), houve sucesso comercial semelhante e sucesso artístico mais profundo – a despeito do que o próprio Allen possa pensar.

Neste novo século, o diretor vinha alternando comédias ligeiras (Dirigindo no Escuro, Scoop) e dramas pesados, à moda européia (Ponto Final, O Sonho de Cassandra), além do caso singular de usar os dois gêneros em um único filme sem misturá-los (Melinda e Melinda).

Tratados os estilos como estanques, não se obtinha o potencial máximo do cineasta: no padrão estabelecido em Annie Hall e Manhattan, seus maiores clássicos, o que há são filmes de difícil classificação, comédias românticas tristes (?), comédias dramáticas (??). Se há algo que Allen provou, e fez disso seu maior legado – a palavra! – ao cinema, é a possibilidade de se unirem a leveza da linguagem cômica e a profundidade reflexiva do drama. Vicky Cristina Barcelona retoma essa linha com louvor, retratando, numa visão muito pessimista, em que nem o convencionalismo nem a liberdade sexual trazem satisfação, a dificuldade da realização amorosa. Ainda assim, tem o poder de arrancar risos da desgraçada condição humana.

Só é irônico observar que, notoriamente avesso ao sistema hollywoodiano, reconhecido pelo cinema de autor e tido como artista sofisticado, Woody tenha sua influência mais perceptível em produtos da cultura de massa: nas séries de TV (as chamadas sitcoms, desde Seinfeld até um exemplo caseiro como Os normais) e nas comédias românticas (vide Harry & Sally, um Annie Hall pediátrico) é que se vê o quanto o universo alleniano pode se incorporar como clichê – e se isso não é lisonjeiro, ao menos é prova de popularidade.

* * *

Evidente, Conversas com Woody Allen não vai converter os que sempre se aborrecem com os tiques e manias do diretor, celebrizados na tela e confirmados em livro; aos que se interessam por seu trabalho, porém, tomar fôlego e encarar as 500 páginas vale a pena. Se a neurose é chave fundamental para entender o cinema de Woody Allen, nada mais adequado do que o trabalho obsessivo de um jornalista que passou mais de metade da vida biografando e rebiografando um mesmo artista, observando angústias pouco alteradas ao longo de tantos anos. A neurastenia necessária para uma leitura tão extensa com temas sempre recorrentes é pequena paga.

Ressaca eleitoral londrinense

O Sr. Luiz Carlos Hauly é o maior culpado pela volta do Tio Bila à prefeitura de Londrina. Assumiu a responsabilidade de ser a candidatura anti-Belinati da vez e não deu conta – o que até um mosca-morta como o Nedson foi capaz de fazer, aproveitando a enorme rejeição belinatista.

A incompetência de Hauly seria só triste se não fosse revoltante. Barbosa Neto era obviamente o nome com mais chances para vencer o digníssimo tri-prefeito no segundo turno, mas o tucano, não-convencido de seu patente estigma loser, resolveu tomar-lhe a vez. Para tanto, lançou mão da desconstrução de candidatura, marca registrada de seu colega José Serra – Roseana Sarney e Ciro Gomes que o digam. O fato de Barbosa Neto, certamente ressentido, ter feito merda depois, apoiando Bila, em nada diminui a torpeza da metodologia tucana, que além de ser intrinsecamente baixa, vale-se de formas escusas para anular o adversário a qualquer custo: empréstimo de candidaturas nanicas para fins difamatórios, uso de testemunhas desqualificadas e, no famoso caso Lunus, até manobra da Polícia Federal.

Mas nem assim Haulão conseguiu vencer, puta que o pariu. Seu carisma, historicamente sofrível, nestas eleições atingiu patamares inacreditáveis. Para compensar, resolveu brincar de missionário. Eu vi, ninguém me contou, Hauly dizendo coisas como “minha candidatura é de Cristo”, “eu entrego as eleições pra Deus” e, às raias do retardamento mental, um “Xô Satanás” para se referir a uma contrariedade. Então vai, entrega pra Deus e fica aí com essa cara de bunda pra ver no que dá.

Nem dá pra ficar com raiva de Belinati. Ele foi o mesmo patife de sempre, com seu populismo abjeto e sua retórica escapista – que infelizmente podem ser vistos como carisma, identificação com os pobres, astúcia verbal, etc. De qualquer modo, já era sabido o jogo de Bila e o precedente de como derrotá-lo estava aberto. Hauly deve se envergonhar de sua incapacidade e nunca mais se candidatar a cargo executivo nenhum.

Quanto ao Barbosa, sua decisão de apoiar Belinati no segundo turno se mostrou politicamente acertada, embora moralmente reprovável. Eu mesmo, quando soube de sua descambada, fiquei, além de mortalmente decepcionado, pois cheguei a cogitar dar-lhe meu voto no primeiro turno, com a impressão de que era uma imbecilidade tremenda jogar fora duma vez todo o esforço construído lentamente para conseguir a confiança da classe média – o próprio Hauly, como se tivesse moral para analisar estratégias políticas, disse coisa parecida.

A grande resposta das urnas é Quem precisa da classe média? Belinati está aí de novo e Barbosa se credencia para ser seu sucessor político. A típica elite londrinense (o termo recende ao mais arcaico esquerdismo, mas é inevitável usá-lo) considera o mundo aquilo que se apresenta diante do nariz: tagarela nos shoppings contra o Lula e acha que os índices de aprovação presidencial só podem ser manipulados. Do mesmo modo, tinha certeza de que Hauly iria ganhar.

“No segundo turno, até um poste derrota o Belinati, porque os eleitores dele já se manifestaram.” Quantas vezes, com diferentes palavras, ouvi essa tese? O excesso de confiança também foi decisivo para a tragédia, parecia não ser possível a volta do velho Bila. E mesmo aos que atentaram para a gravidade da situação, como fazer campanha, se daqui do mundinho parece que todo mundo vota no Hauly? De minha parte, praguejei um pouco nas minhas aulas, leciono num cursinho gratuito, estudantes teoricamente de baixa renda, a classe econômica tida como cativa do Belinati. Ainda assim, a maioria lá se dizia Hauly.

Por Deus, onde estão os eleitores do 11? Não adianta adotar a postura babaca de culpar só o Cincão. De fato, lá está o QG do belinatismo, mas só aqueles votos não garantiriam seu sucesso. Resta a triste conclusão da existência de muito eleitor envergonhado, que não declara, mas bota fé no “rouba, mas faz”. Triste. E repito: isso seria perfeitamente superável se o antípoda não fosse tão tosco.

A imprensa londrinense também foi de uma pusilanimidade inexplicável. Nem o JL, fundado pelo grupo de Wilson Moreira (!), teve capacidade de recomendar voto no editorial. A Folha, então, deveria ganhar prêmio de imparcialidade. Quando ninguém precisa, resolvem ser neutros. Na verdade, o único foco nítido de resistência anti-belinatista no jornalismo foram as crônicas do Paulo Briguet – ainda assim, sem a liberdade de citar nomes.

Agora é aquela velha histórica de tentar aproveitar os erros para o amadurecimento: a classe média tem de assumir sua posição de elite (embora isso seja uma contradição semântica) e notar a existência do mundo além do horizonte; os cidadãos e a imprensa devem se preparar para a fiscalização rigorosa e crítica do governo por vir.

E Hauly, por favor…

Carta paulistana

Chegando a São Paulo atrasado, mais de uma hora, por conta de chuva e do congestionamento na marginal, ambos previsíveis. Para completar, metrô lotado, eu com mochila e mala enorme. Desci na Sé, para mudar de linha, e depois no Paraíso, justo essas duas, oito da manhã: dá para imaginar o tranco, também previsível. Você não agüentava mais isso, todo dia deve ser o inferno, mas pra quem visita uma vez por mês dá até pra sentir uma certa poesia do caos. O não previsível foi minha anfitriã, que se prontificara a me receber, deixando-me esperar mais de duas horas por sua chegada, havia passado a noite com o namorado, largou seu apartamento trancado, e “esqueceu” de acordar cedo para voltar. Beleza. Nem pude reclamar muito, hospedagem grátis, né? E além do mais, a Amanda é adorável, não é uma falhinha dessas que a fará descer no meu conceito. Um soco nos dentes já equilibrou a situação.

Além do mais, de certa maneira foi bacana ter ficado de bobeira tanto tempo, pude apreciar as redondezas, o frenesi paulistano: fiz amizade com o tiozinho da padaria, com a moça que distribuía os jornais gratuitos, com a menina de bela-bunda-numa-calça-apertada que me perguntou – justo a mim, de mala enorme e ares de perdido, que sem noção! – onde ficava o Hospital do Coração.

Mas o mais divertido foi no viaduto do Paraíso. Notei uma pequena multidão se apertando para ver algo e corri juntar-me ao grupo na esperança de presenciar algo realmente notável: a fama do paulistano é de não se impressionar com nada, se baixasse um marciano na Praça da República ele não ficaria nem no Top 10 dos mais esquisitos.

O espetáculo do viaduto, no entanto, comoveu alguns passantes: uma menina com asas planava sobre a 23 de Maio. Geralmente, quando alguém impressiona por fugir da média, é por expor algo agressivo, berrante. Mas a menina com asas era só suave poesia na manhã paulistana, saltava do viaduto, voava leve por uns instantes e depois voltava, sereno sorriso. Não sei qual era o truque, se é que havia truque, mas o vôo era real, palpável. Apaixonante, a menina com asas. Logo, as pessoas se cansaram, já indiferentes à beleza, sabor da novidade com gosto rapidamente perdido, tal qual chiclete vagabundo. Seguiram o rumo de suas vidas. Eu, que custo a achar um rumo, ainda pude ficar sozinho, não sei exatamente quanto tempo, admirando a menina com asas. Ela até me olhou um pouco, tenho a esperança de que tenha gostado de mim, embora ela tivesse asas (!) e eu, apenas uma mala enorme e o eterno ar de perdido. Daí ela entrou numa nuvem e não mais a vi, hora de ir para casa, a Amanda provavelmente já chegara.

Voltei para o mundo real, mas sei que voltarei a vê-la, a menina com asas. De algum modo – mesmo com tão pouco tempo juntos, eu posso sentir – ela espera alguém que a entenda, acompanhe seus vôos e a acolha quando o chão se fizer chamar. Ai, ele sempre chama! Mas eu quero estar lá, fazer-me digno para a menina com asas não precisar se recolher à nuvem.

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