Gina
Não gosto de cachorros, não importa a raça, o tamanho, ou a quantidade de barulho que façam. Não gosto de nenhum cachorro. Também não os quero mal, apenas me desagrada a proximidade, acho que é direito meu. Há quem julgue um índice de caráter não gostar de cães e, sendo assim, eu seria um ser tosco e insensível. Só posso lamentar a minha falha de constituição, já nasci assim. Não foram poucos os que tentaram me vencer com um “Mas do meu cachorro você vai gostar, ele é tão isso ou tão aquilo”. Jamais abri exceção, sou democrático e incorruptível.
Também não gosto de gatos. Eles são grudentos e cheios de pelos que se soltam. E fedem. Além do mais, há aquela velha história de associar gatos à traição, com a qual concordo plenamente. Mesmo evitando ao máximo o contato, já fui arranhado algumas vezes, o que é uma sacanagem, porque se não gosto deles, jamais cometi alguma crueldade contra gatos. Nem contra qualquer animal, mesmo em criança, não fui daquelas cruéis. É mais uma questão de eu cá e eles lá. Ah, e miados também são dos barulhos mais insuportáveis sobre a Terra, quase joguei um gato do sexto andar quando dormi (ou tentei dormir) na casa de uma amiga muito querida. Fosse outra amiga, e não fosse essa minha índole pacífica…
Não gosto de pássaros, de um modo geral. Quando estão presos, tenho dó deles, acho tão desnecessário fazer aquilo com os bichinhos… Mas mesmo assim não deixo de achar irritantes o barulho e a sujeira que fazem. Quando estão soltos, a coisa é pior: tenho um medo crônico, acho que sempre estão prestes a cagar na minha cabeça. Ou que me ataquem mesmo, à Hitchcock. Pensem bem, um ser que consegue voar, é muito assustador.
Não gosto de bois, galinhas e porcos, a não ser para alimentação. De peixes, então, não gosto nem para alimentação. E a visão (e o cheiro) de um aquário precisando ser limpo é algo que desejo para pouquíssimos inimigos, só os mais desgraçados mesmo. Também não gosto de cavalos, tartarugas, hamsters, lagartos, coelhos e macacos, pelas mais diversas razões.
Eu gosto de girafas. Nem sei por quê. Elas são simpáticas. Elas são amigas. Pena que não são domesticáveis.
Por isso anseio tanto pela girafa-pônei.
Sonhos sonhos são
Chega uma hora em que não dá mais. Pegou quase toda a grana que recebeu depois de 18 anos trabalhando numa companhia de seguros e resolveu abrir uma sorveteria. Um antigo sonho. Ele gostava de sorvetes, certamente mais do que de seguros. Na verdade, ele adorava sorvetes.
E, evidente, sua sorveteria não seria uma sorveteria qualquer: o estabelecimento venderia um produto de qualidade superior. Considerava seu sorvete, que ainda nem tinha ideia de como fazer, uma obra de arte a ser lavrada, que merece atenção e zelo do gênio criador.
Conforme foi aprendendo a lidar com o produto – um curso aqui, diversas leituras acolá, muito dinheiro gasto em estudo e maquinário –, tomou mais gosto pela coisa, viu seu sonho se materializar. Diabos, ele sabia fazer um sorvete fodido de bom. Seu empreendimento estava fadado ao sucesso.
Tinha alguns amigos na imprensa – e restavam algumas economias. A inauguração foi alardeada em colunas sociais, seções gastronômicas, até falaram num programa de rádio. Chegado o dia de descerrar as cortinas, tudo correu lindamente, com a presença de diversos ilustres e asseados membros da sociedade. Recebeu elogios que realmente pareciam verdadeiros.
Nos primeiros dias após a abertura, o movimento esteve assim assim. Nada estupendo, mas ainda dava ânimo para ir tocando o barco. Só que conforme as semanas passavam, os fregueses iam minguando e minguando… No Brasil, o consumo de sorvete é muito sazonal, quando a temperatura ameaça baixar já não se toma mais. Sinceramente, ele não se importava: mesmo se não fosse pra ficar rico, prosperar e abrir mil filiais, agora ele fazia o que gostava. Tinha orgulho de seu sorvete.
Num belo dia, entrou na loja uma senhora para a qual parecia que o termo “vulgar” havia sido inventado, trazendo a tiracolo uma criança de aparência não menos detestável. Aquele cabelo platinado, aquele perfume doce, céus… Para confirmar todos os seus preconceitos, as primeiras palavras que lhe dirigiu foram:
– Tem sorvete de blue ice?
Sua resposta veio didática:
– Minha senhora, meus sorvetes são feitos de maneira artesanal. A receita leva apenas cinco elementos: leite, creme de leite, açúcar, gemas de ovos e o ingrediente central, que pode ser, por exemplo, morangos. Não uso gordura vegetal, estabilizantes, corantes artificiais, aromatizantes artificiais, emulsificantes artificiais. Levadas em consideração essas circunstâncias, é impossível eu produzir sorvete de uma coisa que não se encontra na natureza, como essa que recebe a alcunha de “blue ice”. Ao menos, é claro, que eu esteja enganado e a senhora me traga uns cinco quilos de blue ices fresquinhos, com que eu poderei fazer sorvete de blue ice e oferecer à senhora isentando-a de cobrança.
– Obrigada – disse a loira com a criança, deu meia-volta e foi embora.
O próximo a entrar perguntou se havia sorvete de kinder ovo.
Foi então que pela primeira se perguntou se não teria sido melhor manter o sonho como sonho e continuar vendendo apólices de seguro.
Altamente confessional
Sentou-se e relembrou os acontecimentos do dia, desde quando a escutara dizer “Eu não funciono sob pressão” – quase um bordão em sua boca –, passando pelos momentos de inevitável silêncio constrangedor e culminando na tentativa desastrada de apaziguar os ânimos, “Vamos ao supermercado?”. A resposta veio cuspida, “Qual a necessidade de ir com você, não sabe escolher batatas sem mim?”.
Mesmo sentindo o baque, não deixou de admirar a espirituosidade da mulher. E respondeu algo do tipo “Quando as pessoas querem ficar juntas, não importam as necessidades, existem sempre pretextos”. Achou sua própria frase muito bonita, mas na prática não servia para nada: estava realmente acabado. Quisera tentar, quimera tentar. E agora, revendo a coisa toda, como não sabia fazer mais nada além de escrever, apontou o lápis e compôs uma lista inconclusa, sem destinatário preciso, uma carta que jamais seria entregue para ninguém:
Queria escrever algo tão dilacerador, tão forte, que a faria num primeiro momento ter pena de mim. Mas esse dó passaria logo, pois não é possível sentir comiseração de alguém que escreve algo tão dilacerador, tão forte. E então seu sentimento se desenvolveria para uma surpreendente admiração. E ainda cresceria, transformando-se em temor. Como seria adorável percebê-la tendo medo de mim, agora eu queria isso mais do que tudo na vida, mais do que você me amando.
Queria escrever algo que a fizesse ter orgulho e arrependimento, ao mesmo tempo, uma mistura tão intensa que causasse ânsias de vômito. E que você tivesse vontade de mostrar meu escrito para seus amigos, seu professor, sua irmã, sua mãe, mas não mostrasse por temer as reações. Então acabaria guardando para si, e aquilo a queimaria por dentro, mas você jamais teria coragem para jogar fora.
Como gostaria de escrever algo que a fizesse chorar, nem de tristeza, mas de culpa, que fizesse você se sentir a pior pessoa do mundo. Queria escrever algo que a fizesse se sentir burra. Nos dois primeiros parágrafos, uma identificação tão grande que a levasse a pensar, ‘Deus, essas palavras poderiam ser minhas’. Mas depois constatasse que ainda lhe falta muito arroz com feijão. E se sentisse humilhada pela minha superioridade.
Queria escrever algo em que todas as contradições soassem harmônicas. Pois você também notaria carinho em minhas palavras, e emergiria do todo um grande conforto, uma grande ternura. Você se sentiria adorada, indubitavelmente querida e privilegiada por ser depositária de sentimento tão elevado. Não obstante, você me veria como uma pessoa asquerosa, baixa, vil, teria nojo de mim. E teria ímpetos de trepar comigo no banheiro da balada, juntamente com o desejo de passear, de mãos dadas, na madrugada com sereno. E dançar ao som de uma valsa vienense e ser beijada à luz da lua cheia.
Queria escrever algo que a fizesse rever conceitos, quebrar os próprios dogmas, questionar sua posição no mundo. Algo que, depois de lido, tornasse-a alguém diferente, renascida. Queria escrever com sangue, sem perder a elegância. Queria escrever algo completamente sincero e completamente fictício.
Sobre os trotes nas universidades
Vejo na TV mais uma reportagem, como é comum nesta época do ano, sobre trotes de iniciação nas universidades. Um calouro de algum curso de Ciências Biológicas, veterinária ou agronomia, se não me engano, alega ter sido obrigado a beber álcool, fumar, pedir esmolas e ainda de quebra ter levado uns tapas quando se negou a cumprir o protocolo impingido pelos veteranos.
Seria leviano de minha parte relativizar o sofrimento deste aluno em questão, porque não sei as circunstâncias precisas do caso. Também não se podem esquecer as ocorrências dramáticas em que jovens até morreram por causa desses trotes imbecis.
Só não deve ser desconsiderado um fato que a cobertura da imprensa, de modo geral, prefere ignorar: a maioria dos ingressantes na universidade gosta, eu diria mais, até anseia pelos ditos trotes. Adora se emporcalhar de tinta, acha libertador tomar ovos com farinha na cara, sente-se muito esperta quando rouba uns trocados de uns velhos tontos no sinal fechado e vibra com a possibilidade de poder encher a cara sob o aval da sociedade, afinal, “eles merecem, depois de tanto esforço”.
Nesse sentido, as reportagens por aí são muito ingênuas. Pensando bem, nem é o caso de ingenuidade, é preguiça mental mesmo. Chega o inverno, o editor manda o repórter fazer uma matéria sobre os desabrigados, que é basicamente sempre a mesma, ano após ano, com alguns nomes trocados. Não se tem interesse em discutir a raiz da questão, apenas em cumprir uma pauta óbvia que preenche facilmente o espaço. O problema dos trotes é análogo.
Deve-se se atentar para o fato de que a coisa se dá, na maioria absoluta das vezes, com a anuência total dos calouros, que querem ser legais, enturmar-se, etc. A coação física, hoje em dia, com a repressão sistemática das reitorias, é muito difícil de acontecer. Ocorre geralmente é certo assédio moral. Tome-se de exemplo meu caso.
Quando entrei no curso de jornalismo na UEL, até topei subir na cadeira no primeiro dia de aula, apresentar-me, falar o que queria da vida. Acho que me mandaram imitar um macaco também, cada calouro tinha de fazer um negócio diferente. Eu concordei.
Daí perguntaram se eu não deixava que cortassem meu cabelo. Eu disse não. Fizeram cara feia e foi tudo o que fizeram. Duvido que alguém seja louco de pegar a cabeça de alguém dentro de uma universidade e, à força, mandar ver na tesoura. Dá expulsão.
Depois, anunciaram que no dia seguinte nos esperariam no centro da cidade em tal hora para pedirmos dinheiro, aprontarmos sei lá o quê. Eu manifestei meu desinteresse em participar da atividade. Daí um camarada ameaçou, “Vai dar uma de cuzão, vai passar o resto do curso desenturmado”, ao que respondi, “Ótimo, achei que ia ter de trabalhar pra conseguir isso, mas você já está me oferecendo a oportunidade logo de cara, obrigado”. E me livrei fácil assim e nem passei o resto do curso desenturmado.
Se eu tivesse ido ao centro no dia seguinte, estaria me submetendo à agenda deles, não teria por que reclamar do comportamento dos veteranos. Todo mundo sabe o que acontece. Só que tem bobão que não aguenta o tranco e depois vai chorar pra mamãe.
Isso é o que acontece na média. Fique claro, não estou defendendo uma posição fascistoide de achar que, por exemplo, aquele descendente de japonês calouro de medicina que se afogou há alguns anos seja responsável pela própria morte, numa linhagem de pensamento “Também, com essa roupa, tinha mesmo de ser estuprada”.
Mas acredito fortemente que a questão dos trotes nas universidades é muito mais complexa do que se quer ver, e o oba-oba retardado dos calouros tem tanto peso quanto o despotismo dos veteranos nesse panorama tosco que se estende por décadas e nos casos mais agudos causa tragédias.
Salinger
Enquanto estava viajando, morreu J. D. Salinger, o escritor norte-americano. Fiquei bastante isolado durante minha ausência de Londrina, então só fiquei sabendo da coisa por acaso, de passagem, uma legenda vista na TV de um boteco, “Morre Salinger, aos 91 anos”.
Pensei, “Nossa, estou perdendo uma grande repercussão” e mentalmente maldisse a vida bucólica e louvei as vantagens da comunicação rápida e de tudo que é urbano. Mas voltando à minha casa e lendo os jornais em retrospecto, percebi que se deu muito menos destaque ao Salinger do que eu imaginara, dada sua óbvia importância literária. Tudo o que vi foi pouco mais do que obituários estendidos. Nenhuma análise aprofundada de seu trabalho, nenhum ensaio inédito, nenhum debate entre estudiosos… E a desculpa de que a pouca visibilidade dada à sua morte reflete seu comportamento recluso me parece infame.
Então, mesmo estando longe de ser especialista em sua obra – tudo o que li de Salinger foi seu romance O apanhador no campo de centeio e um conto –, sinto-me como que obrigado a dizer uma coisa ou outra para honrar sua memória.
Acho que meu problema com O apanhador no campo de centeio foi que o li tarde demais, já adulto. Então não apreciei a experiência epifânica que muitos jovens tiveram ao lê-lo – e entre esses jovens estão muitos que depois se tornariam escritores e artistas importantes. Tivesse o lido antes, pelos meus 14, 15, 16 anos, talvez “O apanhador” causasse o mesmo impacto que títulos como 1984, O lobo da estepe, Pessach: a travessia e O encontro marcado exerceram sobre mim.
Claro que achei o romance bem escrito, fluente, original, mas, sei lá, por falta de termo melhor, a coisa não bateu. Aquele sentimento tão comum, do tipo, “é bom, mas não fez minha cabeça, tenho outras prioridades”. Li “O apanhador” em português, o que também não ajudou muito: o romance tem forte carga coloquial, muitas gírias, e na tradução aparecem termos obsoletos como “gaita” para designar dinheiro, o que tira a espontaneidade do texto. Enfim, fiquei com a impressão de que nunca mais teria interesse em ler algo diferente vindo do Salinger. Eu, por mim, não iria ao seu encontro, mas ele veio até mim.
Fui à casa da Julia, acho que cheguei cedo demais, ela ainda não estava pronta. E me estendeu um exemplar velhinho do Nove histórias, dizendo “Leia enquanto eu estiver tomando banho”. Foram uns quinze minutos, só deu pra ler o primeiro conto, “Um dia ideal para os peixes-banana”.
Foi o suficiente. Quando ela voltou, eu estava boquiaberto. Agora sim eu provava o efeito catártico que Salinger propiciara a tantos, só que por meio de outro texto que não seu mais famoso. A leitura de “Um dia ideal para os peixes-banana” foi das experiências literárias mais fortes que tive na vida. Só que logo depois de findo o conto, saímos, acabei não lendo o resto do livro. Desde então me prometi ler a obra completa do Salinger – que, afinal, não é tão extensa assim. Sei lá por que, essas coisas da vida, fui adiando, adiando…
Pena que só cumprirei a promessa com Salinger morto.
O que você não é
Na primeira vez em que ouvi você falar, até dei um riso forçado, murmurei algo retórico como “é a vida” e delicadamente mudei de assunto. Mas depois que a vi repetindo, em diferente contexto, para distintas pessoas, a frase “Preferia ter nascido rica a ter nascido linda”, percebi que você lera o chavão num lugar tosco qualquer, algum blog, sei lá, e o adotara como bordão.
Até aí, tudo bem. O problema é que pelo jeito você realmente se identificou com a frase, acredita nela. Então me sinto no dever de informá-la, antes que outro alguém o faça, e de maneira mais cruel. Em suma, aquele velho papo de “Quem avisa amigo é” – embora eu não seja exatamente seu amigo, tenho-lhe afeto e consideração, acho que sabe disso.
Melhor ser direto: você não é linda. Não, não é, não adianta. E você pode me responder “muita gente acha” ou “pelo menos garanto que estou melhor do que você”, ou ainda qualquer outra frase ressentida que não vai mudar a realidade simples e inexorável: você não é linda.
E para completar o choque de realidade, vou além: duvido que muita gente ache você linda. Os padrões de beleza são bem estabelecidos, variações de apreço estético no que diz respeito às mulheres não são brutais. Tem gente que prefere a Angelina Jolie, tem gente que prefere a Scarlett Johansson, mas praticamente todo mundo há de concordar que são fêmeas atraentes. E ninguém, em sã consciência, prefere a Glória Pires. Que não é uma mulher horrorosa, vamos combinar. Apenas… não é linda. Deve ter outros atributos fantásticos, é boa atriz, por exemplo.
Então é mais ou menos por aí, você tem atrativos suficientes para ser desejada, é uma companhia bacana. Logo, os homens, para se aproximarem de você, ou, sendo pragmático, com a intenção última de levá-la para a cama, dizem coisas como “você é linda” – mas você não é. Porque apesar de não ser linda, é linda o suficiente para ter quem queira te comer. E, verdade, o “suficiente” nesse quesito é bem baixo, mas devo dizer em sua justiça que você tem uma bunda bem feita, uma bunda admirável.
Só, por Deus, tire essa ideia da cabeça, você não é linda. Eu mesmo, naqueles tempos, dizia que você era linda, não é? Pois é, tudo mentira.
Agora, a boa notícia: ninguém precisa ser lindo. Eu, a Marlene Mattos e o Stepan Nercessian vivemos bem sem sermos lindos. Pode-se conseguir muita coisa, inclusive atrair pessoas lindas, sem ter nascido com a graça da lindeza. Só acho que é bom estar cônscio de sua condição, conhecer-se melhor, não viver iludido. E sua apreciação dos quadros de Cézanne, dos jogos do Corinthians, da música do Tom Jobim, do cachorro-quente do Rob’s, dos sonetos do Vinicius e dos prazeres do sexo oral não mudará em nada, você vai ver.
Só é triste pensar que, segundo os chocantes dados do IBGE, você esteja mais próxima de ser rica do que de ser linda.
Keaton X Chaplin – a delícia das dualidades inúteis
Se formos parar pra pensar friamente, as dicotomias aplicadas à arte são, no mais das vezes, grande besteira: artistas não são competidores, muitas vezes posições tidas como antagônicas são complementares e, de quebra, não raro aqueles tomados como inimigos são até camaradas na verdade. Aceitemos isso como razoável.
Mas que é gostoso discutir, com paixão e de modo despropositado, sobre quem é melhor – de acordo com o nível intelectual e/ou etílico da conversa –, Sarte ou Camus, Chico ou Caetano, Beatles ou Stones, Corinthians ou Palmeiras, ah!, isso é.
No cinema, a mais notória dessas rivalidades é provavelmente a de Truffaut e Godard, que de fato, a partir de certo ponto de suas carreiras, quebraram o pau em proporções épicas. É um embate simbólico, dá muito pano pra discussões acadêmicas e pra papo de boteco, porque de certo modo revive a clássica oposição entre o apolíneo e o dionisíaco.
Outra grande disputa se dá entre os que preferem Buster Keaton e os que estão no time de Charles Chaplin. Não é, no entanto, uma disputa tão emblemática, principalmente por uma singela razão: Chaplin, passados quase cem anos de sua estreia cinematográfica, ainda é um ícone pop, perfeitamente reconhecível por criancinhas do mundo inteiro, por gente que nunca viu nenhum de seus trabalhos. Sua imagem, sua persona – a mais forte da história do cinema, a do vagabundo – superam em visibilidade qualquer um de seus filmes.
Já Buster Keaton só é um nome famoso entre iniciados. Sua mãe, sua tia, seu vizinho provavelmente nunca ouviram falar na figura.
O engraçado – ou seria melhor, o dramático – da história é que, nos anos 1920, ambos os comediantes do cinema mudo norte-americano gozavam de sucesso similar. A carreira de Keaton entrou em declínio depois de assinar um contrato predatório com a MGM: seu primeiro filme para a produtora, O Homem das Novidades (The Cameraman, 1928), é geralmente visto como seu canto de cisne; a partir daí, o ator (e diretor e produtor e roteirista, assim como seu antípoda) perdeu o controle criativo de seus trabalhos, sendo obrigado a obedecer às vontades dos estúdios. Chaplin, co-proprietário da United Artists, nunca teve semelhantes problemas, fazendo basicamente o que lhe dava na veneta, como as lendárias refilmagens de meses para uma única cena em Luzes da Cidade (City Lights, 1931).
A transição para o cinema falado acabou de vez com a fama de Keaton, que nunca conseguiu se adaptar adequadamente. Chaplin, em plena era sonora, obteve a proeza de fazer grande sucesso com dois filmes mudos, tidos geralmente, aliás, como suas maiores obras-primas, o já mencionado Luzes da Cidade e Tempos Modernos (Modern Times, 1936).
A decadência repentina de Keaton foi de tal modo sintomática que em pelo menos dois filmes – por sinal, suas mais notáveis atuações na era do cinema falado – interpreta papéis que são alegorias do artista em ostracismo: primeiramente, no clássico de Billy Wilder Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950); depois, em Luzes da Ribalta (Limelight, 1952), de ninguém menos do que seu pretenso rival Charles Chaplin.
Corre muito falatório em torno da única vez em que os dois contracenaram: há quem diga que Chaplin convocou Keaton para uma ponta com fins únicos de atestar historicamente sua superioridade, uma coisa meio “Estão vendo como sempre fui melhor? Ele é só um figurante num filme meu”; outros afirmam que o convite para um artista que passava por dificuldades é prova cabal de que nunca houve inimizade na relação, donde os mais afeitos a Keaton rebatem dizendo que sua participação no filme foi significativamente reduzida por Chaplin, porque o coadjuvante estava roubando a cena do protagonista e enorme ego chapliniano não permitiria isso… Mesmo mutilada (será mesmo?), a bela cena com Keaton e Chaplin juntos transcende qualquer debate sobre a maior excelência de um ou de outro.
Mas transcendido ou não, o debate permanece.
Há muitas razões para preferir Keaton a Chaplin, mas me parece que a mais difundida é uma falácia. É comum ler e ouvir por aí que Keaton seria uma opção mais cerebral ante o sentimentalismo exacerbado de Chaplin. Besteira. Mesmo nas primeiras produções chaplinianas havia uma preocupação político-social que nunca ocorreu a Keaton, ingênuo, sempre apoiado no humor físico e igualmente sentimental – basta dizer que todos os seus longas-metragens variam em cima de um único tema, algo próximo de um complexo de Hércules: o homem que é capaz das mais inacreditáveis proezas para conquistar sua amada. Não que a repetição de argumento seja um demérito, pois, justamente por ter em mãos uma linha de enredo sempre muito simples e ampla, Keaton conseguiu realizar vários filmes sem passar perto de esgotar seu vasto e expressivo arsenal de gags.
Outra razão duvidosa – mas perfeitamente compreensível – para gostar mais de Keaton está no charme de apreciar o obscuro: confere mais status intelectual fazer referências sobre aquele que, hoje em dia, para o público médio, é um perfeito desconhecido. Difícil conseguir impressionar alguém falando sobre Tempos Modernos, filme que rapazotes de quinta série, ou ainda mais jovens, veem na escola.
Feitas essas ressalvas, fique claro que Keaton não é só um produto cult – e aqui emprego o termo com a carga mais pejorativa possível. O cara é bom mesmo. E acessível. E atemporal. Como Chaplin, aliás.
Mas Keaton tem algumas coisas que Chaplin não tem.
Sua persona do “grande cara de pedra” é originalíssima e absolutamente genial: seja lá o que acontecesse, de bom ou ruim, com o protagonista vivido por Keaton, seu rosto permanecia impassível. Um comediante que não ri, enquanto o espectador extravasa e projeta suas próprias emoções.
Mais uma? Seu domínio da técnica de câmera rápida, aliado à facilidade de lidar com cenários móveis e ao traquejo (estamos em mil-novecentos-e-vinte-e-pouco!) na direção de sequências com muitos figurantes é algo único no cinema. O virtuosismo de Keaton nas cenas de velocidade, tanto como ator-acrobata quanto como diretor, tem qualquer coisa de hipnótico – uma perseguição envolvendo seu personagem equivale a um passo deslizante de Astaire ou a uma baforada de Bogart: momentos compostos de gestos absolutamente simples, mas nos quais se instaura a magia, com o perdão do lugar-comum.
Pra terminar, há de se convir que em seus melhores filmes, como Nossa Hospitalidade (Our Hospitality, 1923), Sete Oportunidades (Seven Chances, 1925), O Homem das Novidades e principalmente Sherlock Jr. (1924) e A General (The General, 1927), Keaton exibe uma sofisticação de mise-en-scène incomparável para o cinema norte-americano dos anos 1920. Sim, superior àquele cara da bengala, chapéu-coco e bigodinho. Tecnicamente, The Great Stone Face era melhor, e é uma vergonha que esteja tão incógnito.
Keaton é ótimo, são bons argumentos… Mas não tem jeito, não sigo a velha tendência humana de torcer pelo lado mais fraco: prefiro Chaplin mesmo.
Festival estúpido
Termina nesta semana o 1º Festival Gastronômico Sabor Londrina. Durante dois meses, de segunda a quinta-feira, 55 estabelecimentos da cidade, entre bares e restaurantes, ofereceram um determinado prato em preço promocional, nunca superior a R$ 12. De brinde, o freguês levava um produto Itaipava (cerveja ou água mineral).
Se você mora em Londrina e não tomou parte na brincadeira, ou nem sequer ouviu falar do Festival, pode ficar tranquilo: não perdeu nada. Eu sou entusiasta dessa coisa de comer fora, então quando ouvi falar do negócio me empolguei e quis participar, mas me decepcionei amargamente.
A ideia de mobilização gastronômica parece ter vindo da Restaurant Week, que há alguns anos agita algumas cidades do país, destacadamente São Paulo – e, por sua vez, a Restaurant Week brasileira foi inspirada num conceito original novaiorquino, que se espalhou pelo mundo, leio eu.
Na última edição da Restaurant Week, por R$ 27,50 no almoço ou R$ 39 no jantar, mais de cem estabelecimentos paulistanos ofereceram uma refeição com entrada, prato principal e sobremesa inclusos. A ideia é democratizar o acesso à cozinha de alta qualidade e movimentar de modo geral a cena gastronômica.
O negócio mexe com a cidade que é um assombro, filas enormes, discussões na imprensa, etc. Claro, por conta da demanda incomum, não faltam depoimentos contrários à Restaurant Week, geralmente dizendo que a qualidade dos serviços oferecidos decai muito em relação à temporada regular.
Mas, oras, pelo menos é um fato novo. E uma oportunidade do cidadão comum visitar lugares que jamais teria cacife de pisar. Imagina, bacalhau no Antiquarius por R$ 27,50, com entrada e sobremesa! É uma atração turística.
Aqui em Londrina, a ideia também era, em sua essência, democratizar o acesso à cozinha de alta qualidade e movimentar de modo geral a cena gastronômica. Só que em vez de bacalhau no Antiquarius temos a Batata Suíça Falcon “P”, a ridícula proposta do Villa Badú. Digam-me, que tipo de imbecil pensa, “Ah, hoje é segunda-feira, não é dia de sair à noite, mas estimulado pela possibilidade de uma Batata Suíça Falcon ‘P’ por 12 reais, quebrarei minha rotina”. Provavelmente nem de graça eu quereria uma Batata Suíça Falcon “P” – e haja vista confidência que ouvi da própria dona do Villa Badú, muita gente compartilha da minha opinião, simplesmente não aparecendo para reivindicar seu direito quando ela distribui cupons valendo batatas falcon, ou comandos em ação, ou coisa que o valha.
Fique claro que o problema não está na falta de bons estabelecimentos em Londrina: para o tamanho da cidade, come-se bem aqui, e com preços bastante razoáveis. Mas pouquíssimas boas casas aderiram ao Festival.
A grossa maioria dos participantes se formou de restaurantes meia-boca e botecos de maior ou menor porte. Pelo menos poderiam aproveitar para se unir e oferecer algo vantajoso, mas não: os descontos oferecidos nos pratos selecionados foram por regra insignificantes ou nulos. Todo o propósito de um Festival vai para o ralo, simplesmente não vale a pena sair de casa.
Divertido comentar dois casos particulares: no Vilão, por 12 pilas, no Festival, pôde-se apreciar uma porção de chilli com feijão. O gozado é que às quartas-feiras, em qualquer época do ano, pode-se comer o quanto se quiser de chilli com feijão, no mesmo bar, por menos de dez reais. Outra pior? O preço normal do cheese salada com uma porção de fritas, no Hamburguers, é de R$ 11. Já para o Sabor Londrina, como é, afinal de contas, uma ocasião especial, decidiram modificar o preço do item, aumentando-o para 12 contos. Curioso, perguntei a uma atendente a justificativa para a surreal oferta. Sem ficar vermelha, a moça disse que a diferença de preços vinha por conta do brinde Itaipava – mas, por Deus, o conceito de brinde não é… Deixa pra lá.
Como exceções à pilantragem generalizada, destaco o La Gôndola, que ofereceu uma massa simples, porém digna, e o Tomate Seco, que ironicamente faliu com o Festival em curso. Não tive oportunidade de ir ao Bella Itália nem ao Restaurante do Toninho, mas estes também pareciam contar com opções interessantes. De resto…
De quebra, a organização contou com um amadorismo vexatório: nos primeiros prospectos, anúncios, releases e folhetos propagandeando o evento, simplesmente não havia o endereço dos restaurantes participantes. Básico assim. Algum gênio deve ter percebido a cagada e com a coisa já pela metade foram impressos novos panfletos devidamente corrigidos. Também se destaca a breguice atroz de oferecer um livro de receitas àqueles que visitaram pelo menos dez dos estabelecimentos cadastrados. Sim, um livro de receitas. Ah, e as visitas deveriam ser comprovadas por meio de carimbinhos num “passaporte”.
Infelizmente, tudo isso diz muito sobre parte da elite londrinense, e o mesmo raciocínio se pode estender a áreas bem distantes da gastronomia: julgam-se antenados, de acordo com as mais modernas tendências, mas falham no básico, no essencial, no estrutural.
E é por isso que, não tenho acesso a dados, mas posso apostar, o 1º Festival Gastronômico Sabor Londrina não aumentou em nada o movimento das casas participantes. E é por isso que o 1º Festival Gastronômico Sabor Londrina foi, mais do que um fracasso, um engodo completo.
No cabeleireiro
O cabeleireiro queria conversa.
Muita gente vai a psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e quetais; outros preferem a segurança de emissários do Senhor e ouvem atentamente os conselhos de padres e pastores; o grupo mais numeroso, no entanto, acredito eu, não tem dinheiro para contratar profissionais da psykhé e prefere guardar certo distanciamento respeitoso em relação aos ensinamentos, essencialmente rígidos, da Igreja. Essa gente, então, frequentemente aluga os ouvidos de cabeleireiros, taxistas, garçons e outros profissionais de atendimento ao público cujo atendimento costuma se estender por um tempo mais longo.
Os cabeleireiros, taxistas e garçons sabem da tarefa adicional que tacitamente lhes é esperada e grosso modo, de bom grado, cumprem a função de ouvir vantagens e mazelas, passar um conselho ou outro, corroborar opiniões políticas contraditórias, analisar desventuras amorosas e relatar um pouco da própria experiência, etc. Assim, todo mundo sai feliz e não precisa gastar com terapeuta nem rezar cem ave-marias e temer o inferno.
Mas eu não sou assim, não sei bem por que, não é esnobismo… Só não me sinto confortável dividindo coisas íntimas com gente que mal conheço. Também não sou habilidoso com conversas fáticas, papear sobre o tempo ou o trânsito geralmente me deixa nervoso. Então costumo ficar quieto frente a cabeleireiros, taxistas, garçons.
Só que desta vez era o cabeleireiro que queria conversa. Difícil inibi-lo.
– Então, como foi de férias, pra onde foi, cê tá vermelho, esteve na praia?
– Quisera.
– Pra onde viajou então? – a possibilidade de eu ter ficado vermelho em Londrina por uma razão ou outra lhe era inconcebível.
– São Paulo.
– São Paulo? Ah, foi passar com a família, ver os pais…
Por preguiça de fazer uma correção que me parecia desnecessária, deixei-o seguir:
– Não tem coisa melhor do que voltar a ver os pais…
– Pois é…
O ruim da mentira é que quase sempre implica desdobramentos também mentirosos.
– Há quanto tempo está aqui?
– Seis anos – me vi sem remédio senão suspirar uma invenção qualquer.
– E agora não dá mais vontade de voltar, né? Quem sai de lá, aquela confusão, e vem pra cá… Embora aqui também não esteja mais tão tranquilo assim, né? Mas é uma cidade boa, seu lugar é aqui agora – vaticinou, e aquela conversa toda, além do aborrecimento de ter me levado a mentir, rumara para caminhos melancólicos: ainda bem que acabou logo.
Mas eu precisava esperar alguém, havia combinado de nos encontrarmos no salão para eu dar uma carona, fiquei fazendo hora com uma revista ruim nas mãos.
Até que o cabeleireiro passou a atender outro cliente e iniciou conversa corriqueira, sobre coisas da vida, tal qual havia tido comigo. Observei.
E súbito aquilo me pareceu muito interessante, até poético, de verdade.
Verde amarelo
É engraçado, embora também seja triste, rever com a imaginação cenas passadas nas quais você acha que poderia ter dado rumo diferente a um diálogo. Alguém diz algo, engole-se seco; passado um tempo, já em casa, imagina-se como seria fantástico se você houvesse respondido tal coisa: as palavras vêm rápidas, claras e bem-articuladas, por que não disse isso naquela hora, seria tão admirável minha astúcia verbal… Consegue-se até pensar em réplicas e tréplicas, e nas interjeições e nos risos de admiração dos circundantes ao ouvir tantas tiradas inteligentes.
Mas geralmente, é como disse, quando os períodos brilhantes surgem já se está na cama, olhando para o teto, e a coisa toda só serve para alimentar fantasias. Não sei, pelo menos comigo é tão comum…
* * *
Era uma festa daquelas que você tem de ir, porque seria um desperdício muito grande não dar o ar da graça. No entanto, quando se está lá, o sentimento mais sincero é “Que diabos estou fazendo aqui?”.
Eu estava de terno, que em sua natureza já não é a coisa mais confortável do mundo. Este estava ligeiramente apertado, mas era o que eu tinha, e não iria comprar outro só pra aparecer na porcaria da festa metida a besta. Pra completar, deus, estava calor, mas eu, jamais, no orgulho desarrazoado que me resta, cederia ao ordinário strip-tease socialmente autorizado tão comum nessas celebrações: o cara começa tirando a gravata, o blazer, abre a camisa, saca um charuto de quatro reais… As mulheres, por sua vez, trocam o salto-agulha por um par de havaianas que veio socado em alguma bolsa, o que não as impede, claro, de ficar com os pés emporcalhados pela mistura de poeira, cerveja quente e outros fluidos que fatalmente se imiscuem entre seus dedinhos. Que horror.
Nesse deprimente contexto, resolvi, que consolo, tomar uísque. Não que eu goste de uísque (até gostaria de gostar, acho bonito gostar, bebida de macho): prefiro drinks mais adequados a ladies, tipo gim-tônica, fazer o que, esse negócio de gosto não é coisa que se possa escolher. Mas como minhas únicas oportunidades para tomar uísque razoável se dão justamente nessas ocasiões, e embarcando na lógica decadentista da coisa toda… Um monte de pedras de gelo no copo e um pouco daquele líquido amargo e valioso.
Alguém me observara e, não obstante nunca ter trocado palavra comigo, sentiu-se no direito de tecer comentário.
– O negócio fica em tonéis de carvalho por não sei quantos anos, vale uma nota, e você vai e mistura com gelo? Água congelada?
Se eu fosse um cara espirituoso, teria respondido assim:
– Nossa, verdade, como é que não pensei nisso antes, que bobagem eu fiz! É mais ou menos como eu me sinto em relação à picanha, sabe?, quando fazem churrasco. Um corte bovino tão nobre, mais de vinte paus por quilo, e os caras vão lá e colocam sal em cima! Sal! Tão barato, tão vulgar… Argh!
Mas a pessoa em questão era uma mulher, alta, vestido decotado, verde…
Eu apenas sorri amarelo.
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