Inaugural

A primeira vez é, de fato, coisa complicada.

Da inexperiência vêm o tremor, a falta de jeito, os terríveis lapsos de confiança: pavor ante o desconhecido e imprevisível. Surgem em ajuda frases ensaiadas, passos em coreografia, reações imaginadas de antemão para propiciar uma tréplica brilhante… Mas toda a prática cai por terra quando as coisas não saem conforme o roteiro – e, invariavelmente, elas não saem. Falta sempre combinar com o adversário, como disse o sábio jogador de futebol.

Fica pior ainda quando à natureza já apavorante do desvirginar se acrescenta um quê de mito. O exemplo mais bem-acabado disso é o clássico “A primeira impressão é a que fica”. Está completamente fora de moda discordar da sabedoria popular, eu sei. Mas, convenhamos, que rematada bobagem!

A primeira impressão não perdura muito, nunca. Quanta coisa estabelecida e sólida não evapora depois de um único passo em falso! Quisera a impressão inicial fosse a mais forte mesmo, para aplacar esses casos terríveis – e tão, tão comuns.

Invertendo-se a lógica, porém, a falsidade do ditado boçal traz um panorama mais auspicioso. Um começo em desastre sempre será mais marcante para quem fez a besteira do que para quem a presenciou. É pretensão descabida do homem achar que suas imbecilidades serão lembradas, quando mesmo as poucas coisas úteis cometidas raramente ganham notoriedade.

E o que vão pensar de mim depois disso? Não vão pensar nada, idiota arrogante. Você e suas besteiras não merecem tanta atenção. É aquele diálogo do Casablanca: “Você me despreza, não?”, para a sublime resposta, “Se pensasse em você, talvez desprezasse”. E contar com a desatenção alheia é a chance para sair por cima depois de mau início.

Além dessa falta de memória, há também em benefício dos marinheiros de primeira viagem uma larga complacência. Por maior que seja a asneira ou gafe do camarada, coitado, era só sua primeira vez, ainda tem tanto a aprender, em nova oportunidade mostrará seu potencial, blá blá blá.

E não há que se ter vergonha ao se agarrar a essas muletas, está longe de pecado usar da caridade alheia num momento inaugural. Quando o princípio já está distante, quando a experiência é conhecida e aliada, é que o fardo do erro pesa mais. Enquanto, por um motivo ou outro, ainda existe a benevolência, é tratar de aproveitá-la.

Recorrer a subterfúgios, deixar de lado um pouquinho do orgulho…

Tanta coisa, tudo isso, só para lhe pedir um pouco dessa benevolência, minha cara. Entenda, é só minha primeira vez.

7 comentários até agora

  1. boneco on

    Ótimo texto.

  2. materizzi on

    Gostei! Melhor que a Federação. Agora publica “o velho”

  3. Helô on

    começou bem!!!

  4. fffalleiros on

    Simão simão simão.

    Vc deveria passar esse texto para os adolescentes virgens para que após seu fracassado inicio eles possam usar dessas palavras para ganhar outras chances! aUhaUH!

    Gostei do texto, principalmente o fato de que vc pode usar para tudo, pq em momento algum vc deixou a perceber do que vc estaria falando, mesmo pq o assunto pode estar na cara (ou nao, nunca sabe-se o q uma mente pensa), mas mesmo assim, apesar de tanta merda q falei acima, um sonoro:”começou bem” acho q rende aki!

    abrazz meu caro!

  5. Ana Laura on

    A questão da complascência em relação às primeiras viagens foi expecional…

    Muy bien, chico.
    Bjos!

  6. Jaque Frizon on

    Minha primeira vez por aqui…

  7. _Maga on

    O pior da primeira vez – qualquer uma – é sempre o não saber o que fazer com as mãos (essas impertinentes). rs


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