Ângela

Ângela, por que tão triste, assim, agora? Não era esse seu desejo? – e você me garantiu ser “decisão pesada e refletida, demorei justamente para não me deixar levar por coisa de momento”. E, vejam só, seja com tudo pesado e refletido ou leve e irrefletido, pego-a chorando, chorando. E tudo quanto existe parece chorar também.

Não poderia enxergar, estava tão longe, mas juro que vi seu rosto na janela daquele avião. Você disse que me viu também, naquela espera inútil e impotente das partidas, uma sensação dolorosa de alívio quando decolou. Mas você ainda voltaria, sabíamos. Voltou. Eu morro de medo de voar, sabe bem, e ficou me provocando com detalhes da viagem, “Lá embaixo a Terra parece um mapa, é tão lindo, você precisava ver”. E ante minha careta, consolou-me mordaz com um “Mas as nuvens quase sempre encobrem, não precisa se preocupar”.

Tudo era mais fácil, tudo era provisório. A dúvida tem suas vantagens: não se precisa escolher, economizam-se as perdas (parecem-me sábias as palavras da analista, embora num sentido totalmente oposto àquele em questão). E se você optou, à minha revelia, só posso aconselhar, patético, não tente evitar a dor. Encare-a, beba-a e faça dela força.

Sempre, Ângela, você foi mais de insinuar do que de estender, fácil, as respostas. No entanto, dentro de seu próprio mistério, agora está tão diferente… Seu rosto, singular, mesmo para mim, que lhe conheço tantas nuances. E de repente, não sei se profundamente otimista ou com um fatalismo devastador, me pego achando que finalmente é o tal do amor a nos surpreender, Ângela.

Tarde demais. Mas há “tarde demais” nessa matéria? Deve haver uma resposta, mas não sei se quero ouvi-la. Deve haver uma saída, falta-me coragem para tomá-la. Quisera uma vez na vida não me preocupar com o futuro; relevar, superior, o passado. E me atentar apenas ao presente único, belo e bastante, desta madrugada quente e envolta em neblina: súbito, eu a vejo em minha frente, Ângela, cheia de mistério, enquanto nos surpreende o amor.

Para o amigo Leonardo Borges, sob a bênção de “Ângela”, de Tom Jobim.

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3 comentários sobre “Ângela

  1. Finge-se que economiza-se as perdas… quando deixamos de escolher, vamos deixando a vida passar, assim, sem mais… e sem mais vamos nos acomodando a viver mal. As vezes pode ser sábio não escolher (“E agora, José?”). Em geral, é mais angustiante que escolher.

    A não ser com remédios, não conheço formas de evitar a dor – não depois do acidente. O melhor a fazer depois do acidente, é mesmo seguir o seu conselho – ou socar Prozac garganta abaixo hehehe.

    Tarde demais? Na dúvida vou pela sabedoria popular: antes tarde, que mais tarde… rs

    Um abraço

  2. li ontem… o mais bonito.
    é tão bonito que torna tudo em mim feio, e o meu feio não consegue se expressar.

    annie hall pela terceira vez, ontem a noite na tv. cada vez uma coisa nova.

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