Posts de Fevereiro, 2008|Página de posts mensais
Amostras de minha inusitada produção acadêmica III
Machado de Assis, pelo que consta, nunca teve acesso às obras de Sigmund Freud. [...]
Ainda assim, existem diversos trabalhos acerca da relação entre os dois grandes autores. Um dos mais ousados é o de Luiz Alberto Pinheiro de Freitas [...], no qual o autor afirma [...] uma suposta homossexualidade recalcada em Bentinho, personagem do clássico Dom Casmurro (1899). O ciúme doentio por sua mulher, Capitu, a quem acusava de ser apaixonada por Escobar, seria uma deturpação dos próprios sentimentos em relação ao amigo. [...]
Se a análise de Freitas é curiosa e instigante, também, deve-se admitir, conta com um componente altamente forçado, pecando pela falta de índices que delicia os detratores freudianos. Contudo, não será por conta de uma ou outra interpretação duvidosa que se deve descartar a dita interseção entre Machado de Assis e Freud. [...]
Neste estudo, pretende-se relacionar a obra do escritor brasileiro e do doutor austríaco tomando como base um texto ainda mais antigo: o roteiro da peça Quase Ministro, de 1862 – quando Freud, nascido em 1856, ainda deveria estar na fase fálica.
Quase Ministro, comédia em um único ato, conta a história de Luciano Martins, deputado atormentado pelo assédio de pretensos amigos quando corre o boato de sua iminente posse como ministro; assim que o falatório se revela falso, os bajuladores partem em debandada.
As peças de Machado, em geral, são criticadas como não estando à altura de seus romances, contos e crônicas – até aí, ponto pacífico. Os argumentos mais comuns para a detração do Machado dramaturgo, porém, parecem-nos simplistas, quando não errôneos: seus textos para teatro seriam comédias leves, pontuadas por boas tiradas rápidas, porém inofensivas. Algo anódino, portanto. [...]
O chiste e sua relação com o inconsciente (1905), de Freud, ajudará numa revisão desse suposto caráter inócuo das comédias machadianas – que defendemos como falso. [O livro], e aqui entra um resumo grosseiro, analisa primeiramente as técnicas e tendências do chiste. Depois de recapitular exemplos vários de piadas, Freud chega à conclusão de que um chiste se estrutura por meio da condensação, deslocamento e representação indireta – da mesma forma, portanto, descrita em relação ao trabalho onírico em seu Interpretação dos sonhos (1900).
A partir da coincidência formal entre sonho e chiste, o autor vai além e deduz também a semelhança de conteúdo: ambos exprimem um desejo reprimido ou inconsciente. Leva ao riso (portanto, ao prazer) o gasto psíquico economizado na redução de uma idéia que, desdobrada, não seria cômica – lembrando o conhecimento popular do “explicar piada perde toda a graça”.
A função social do chiste seria poder dar vazão a pensamentos que, colocados de outra maneira, encontrariam repressões internas e do “outro”. Fazer piadas, portanto, é uma forma de driblar as censuras, ou, como coloca o autor ao cabo de seu livro, uma maneira de retomar “o estado de ânimo de nossa infância, em que não conhecíamos o cômico, não éramos capazes do chiste e não necessitávamos do humor para nos sentirmos felizes na vida”.
Freud esmiúça os chistes de maneira tal que, concordando ou não com a psicanálise, sendo junguiano, lacaniano, behaviorista radical, behaviorista complacente, ou até mesmo achando tudo isso um grande vício burguês, fica difícil duvidar de sua contribuição à matéria.
Em Quase Ministro, mais do que em outras peças de Machado, cremos estar evidente nas passagens cômicas, em especial no uso de sua célebre ironia, a função, apregoada por Freud, de dizer aquilo que de outra forma seria indizível, liberando uma grande carga de agressividade. [...] Foram ridicularizados, por meio de personagens alegóricos, a imprensa, a poesia, os militares, os políticos e a classe artística [...]. Também é dever ressaltar a atualidade do drama, numa cena política brasileira ainda assolada pela nefasta troca de favores e pelas especulações. [...]
Querendo criticar negativamente as peças de Machado, devem ser encontradas razões outras que não a inocência de seu texto. Por trás das cenas breves, dos chistes rápidos, há questões que driblam a censura – consciente e inconsciente.
(Deste leigo, com toda a humildade e carinho do mundo, para Marcela Ortolan. Querendo dar uma olhada no artigo completo, eu mando.)
Amostras de minha inusitada produção acadêmica II
João do Rio viveu apenas 40 anos (1881-1921). Teve tempo suficiente, no entanto, para revolucionar a crônica brasileira, ser membro da Academia Brasileira de Letras – e também um dos escritores mais difamados de seu tempo. Curiosamente, as contradições que se vêem na vida de João do Rio condizem com o estilo do gênero que o consagrou: a crônica é gênero anfíbio, misto de jornalismo e literatura, de difícil definição.
O certo é que com João do Rio a crônica ganha definitiva roupagem literária. [...] Consagrou-se, então, como “o cronista mundano por excelência”, não se bastando a interpretar ou a dar toques subjetivos aos fatos: havia também franca criação de personagens e um toque ficcional a seus relatos. Pela primeira vez, com João do Rio, a crônica se aproxima do conto. [...]
As religiões do Rio (1900) é título exemplar da carreira do cronista porque destaca dois aspectos essenciais, e inovadores, de seu método de trabalho. Primeiramente, ao propor um jornalismo mais participativo: João do Rio não se bastava a esperar informes na redação para construir seus textos. O escritor apurava in loco os fatos que serviriam de matéria-prima a seu trabalho, resultando daí uma descrição vívida. Isso não o impedia de redigir de maneira literária suas crônicas, mudando a linguagem e estrutura folhetinescas.
O segundo aspecto, complementar ao primeiro, é o estudo apaixonado do Rio de Janeiro, que muito apropriadamente lhe deu o pseudônimo com o qual se notabilizou. A figura de João do Rio é indissociável de sua cidade, e sua obra é retrato minucioso dos múltiplos aspectos da vida carioca nas duas primeiras décadas do século XX, período pródigo em mudanças sociais. [...]
João do Rio tinha consciência de seu papel jornalístico, ao testemunhar esse momento de metamorfose e ambigüidade. Assim, por um lado, não se furta a expor o pitoresco, o bizarro, o lado do povo e da malandragem carioca. [...] Por outro lado, em títulos como Pall-Mall Rio, o autor relata, com a mesma minúcia e encantamento, a elite carioca. Tal ambigüidade não era suportada por muitos homens da vida literária brasileira, valendo-lhe pesadas críticas. Principalmente a partir de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, em 1909, João do Rio colecionou desafetos e ironias dirigidas a sua pessoa. Mais do que seu estilo literário, eram alvo de ditos maliciosos sua homossexualidade e sua cor mulata.
Lima Barreto foi um dos mais renhidos detratores de João do Rio, não lhe perdoando a “frescura” (o termo aparece repetidas vezes em correspondência de Barreto a Monteiro Lobato) e o fato de pretensamente esconder suas raízes negras. [...]
Reacionário ou contestador? De fato, por se recusar ao maniqueísmo e por transitar sem constrangimentos entre a classe alta carioca, João do Rio não pode ser tomado como um exemplar de literatura combatente. No entanto, quando se refere à elite, o texto é constantemente mais irônico do que quando o relato vem dos morros cariocas. [...] Embora, em suas crônicas, João do Rio se limitasse ao papel de observador agudo, não deixando transparecer em seu texto proselitismo político, o autor tinha uma visão crítica contundente da sociedade.
Ademais, por incorporar como ninguém dantes o papel de flâneur na literatura brasileira, caminhando pelas ruas do Rio de Janeiro e deixando um retrato vivo de uma sociedade em transição; por apresentar de maneira pioneira ao público leitor uma visão nem pejorativa nem demagógica dos brasileiros marginalizados; por contribuir para o estabelecimento de um gênero tão brasileiro como a crônica; pela qualidade e fluidez de seu texto, por fim, João do Rio merece o reconhecimento como grande escritor nacional e a saída do relativo ostracismo em que se encontra.
Leite condensado
A natureza é suscetível a erros; a indústria, não.
Meu amigo Gabriel Borges, frasista à altura de Nelson Rodrigues, é o autor da preciosidade que escrevi acima. Embora seja evidente exagero para fins cômicos, às vezes me pego, pequeno burguês, realmente extasiado com as maravilhas únicas do setor secundário.
O leite condensado, por exemplo.
Os defensores das “delícias campestres” que me perdoem, mas a fauna e a flora, sem uma ajudinha, não conseguem produzir semelhante quitute. O leite condensado e a roda são as provas máximas do domínio humano sobre a natureza. E assim como se usa a roda nos mais distintos lugares, sem se avaliarem as circunstâncias de sua criação, o leite condensado é para ser desfrutado dispensando especulações sobre sua feitura.
Eu deveria saber isso. Mas não, como o menino abestalhado que, acho, sempre serei, fui lá perguntar, sem anúncio ou introduções explicativas, a minha protetora:
– Ô mãe, como faz leite condensado?
O bom é que, decerto já acostumada, foi logo respondendo sem estranhar a gratuidade do questionamento: com leite e açúcar, oras. Só isso? Só, e haja fôlego para ficar mexendo sem parar… Antigamente, as coisas demoravam mais.
Saí ligeiro do assunto, como quem não quer nada. Foi à calada da noite: insuspeito, procurei na rede por “leite condensado caseiro” e me dispus a proceder à tenebrosa experiência na madrugada amiga.
A mãe não tinha completa razão: além de leite e açúcar, o negócio levava uma colher de manteiga e quatro de maizena. Mas, de fato, pelo jeito, ia dar um trabalho lascado para fazer: coisa de uma hora entre fervuras, diluições e muita ginástica com a colher de pau. Se dá mão-de-obra, deve ficar bom, pensei, à luz do senso comum.
Confesso, foi divertido: senti-me como cientista louco entre borbulhas e fumaças, condensações, liquefações e sei lá mais o quê – a maldita dor no braço do day after eu relevo. E foi gloriosamente que, depois da longa, hercúlea empreitada, estanquei defronte um grude com cor de leite condensado, textura de leite condensado e gosto de… Amido de milho, terrível. Resta agora um recipiente ocioso na geladeira, poderia ser aproveitado para melhores fins.
Antigamente, as coisas demoravam mais – e não eram necessariamente melhores.
Deixe um comentário
Deixe um comentário
Comentários (4)