Posts de Junho, 2008|Página de posts mensais
Senhor dos Palcos e cidadão londrinense
Texto escrito originalmente para a Revista do FILO, excluído da publicação na edição final.
“Teatro é a arte do ator; cinema, a arte do diretor e TV, a arte do anunciante”. Essa definição espirituosa, repetida hoje em dia como máxima, muitas vezes sem o devido crédito, é da lavra de Paulo Paquet Autran, grande ator brasileiro – também notável frasista, como se pode observar no período que abre esta matéria.
E poucos teriam a autoridade necessária para se manifestar assim sem resvalar na incoerência ou na suspeita de inveja financeira: aclamado como o maior ator brasileiro desde, pelo menos, meados da década de 1960, Autran recusou diversas propostas que lhe assegurariam reconhecimento mais popular e global para se dedicar àquilo em que realmente acreditava: o teatro.
“Morreu trabalhando” é algo que se diz de muita gente, mas com Autran a coisa se aproxima da verdade literal: nascido no Rio de Janeiro, em 1922, fez sua estréia em fins da década de 1940 e só deixou de atuar quatro meses antes de sua morte, em outubro do ano passado, quando um avançado câncer de pulmão não o deixou prosseguir com seu trabalho. Com formação em Direito no tradicional Largo São Francisco, em São Paulo, deixou de lado promissora carreira na advocacia para se dedicar integralmente, com paixão e sem garantias de sucesso, ao teatro, no qual era então apenas amador. O sucesso veio ligeiro, sendo premiado logo por sua primeira atuação como profissional, em Um deus dormiu lá em casa; quanto à paixão, nunca o abandonou: na sua última performance, em O Avarento, com texto de Molière, a crítica foi de aprovação quase geral (unanimidade seria burrice); o público se espantava e se deliciava com a vitalidade cênica de alguém que, todos sabiam, estava muito doente.
O “Senhor dos Palcos” escolhia bem a hora de trabalhar em outras áreas: quando o fazia, era com distinção invariável. Foram relativamente poucas participações em filmes, para uma carreira tão longa, mas uma delas é antológica: sua representação de Porfírio Diaz, o fascista de Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, é séria candidata a atuação mais marcante de toda a cinematografia brasileira, com um Autran intencionalmente caricato. Quanto à televisão, embora o ator se referisse ao meio com indisfarçado desprezo, suas aparições a conta-gotas eram sempre especiais: Guerra dos Sexos (1983), de Sílvio de Abreu, é a novela da famosa seqüência ao lado de Fernanda Montenegro – com quem Autran jamais contracenou nos palcos –, na qual os personagens se lançam numa infantilóide guerra de comida sem perder o ar blasé. Novamente, essa passagem é praxe em seleções dos melhores momentos da dramaturgia televisiva brasileira de todos os tempos, sendo repetida à exaustão em videoshows e congêneres.
Mas foi mesmo no teatro que Paulo Autran fez virtualmente de tudo, e muito: de clássicos internacionais de todas as épocas, como o já citado Molière, Sófocles, Shakespeare, Tennessee Willians, Pirandello, Dickens, Dumas, Sartre, Noel Coward, Samuel Beckett, Bernard Shaw, Arthur Miller e Brecht – a lista tende ao exaustivo, afinal foram 90 (!) peças em 60 (!) anos de carreira – às glórias da dramaturgia brasileira, com Gonçalves Dias, Antônio Callado, Osman Lins, Millôr Fernandes, Paulo Rangel, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar e Oduvaldo Vianna Filho, passando por autores semidesconhecidos; também foi produtor, diretor e até escreveu uma única peça, Quadrante (1988), sucesso de público; trabalhou com atrizes do porte de Tônia Carrero, amiga de toda a vida e primeira incentivadora na profissão, Bibi Ferreira e… Adriane Galisteu. E fez tragédias e fez comédias e monólogos e musicais e arte engajada e mero entretenimento e tudo quanto quis e pôde fazer.
A lacuna mais notável em seu currículo talvez seja a de nunca ter encenado Nelson Rodrigues. Indagado sobre as razões, desconversava, mas se sabe que as divergências políticas com o dramaturgo carioca, um confesso reacionário, pesaram na escolha (E eu já fui citar aqui logo o próprio Rodrigues, com esse papo de unanimidade ser burrice… Talvez tenha sido escolha equivocada em se tratando de homenagem a Paulo Autran… Bem, agora Inês é morta.).
É que o ator, embora fosse homem discreto e avesso às chatices de patrulhas ideológicas, tinha posições firmes, muitas vezes o levando a polêmicas públicas. Algumas de seu rol: cuspiu em Paulo Francis para defender a amiga Tônia Carrero de uma crítica agressiva; recusou uma condecoração, em 1981, do então governador de São Paulo, Paulo Maluf, por não concordar com sua política cultural; declarou publicamente que “crer em Deus é a mesma coisa que acreditar em Papai Noel”; embora simpatizante do Partido Comunista e expressamente contrário ao regime militar brasileiro, causava estranhamento na esquerda ao se sair com frases como “Nacionalismo em arte é retrocesso”; colecionou desafetos no meio teatral, atacando tendências – “Em geral acho teatro experimental muito chato, sou obrigado a assistir 99 bobagens para ver uma coisa interessante” – e os intocáveis diretores Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa. Deste, chegou a dizer que “… faz um teatro muito específico. Entrar no teatro para ver dois rapazes se masturbando não me interessa, absolutamente. Mas muita gente gosta, masturbação parece que atrai público”, para ouvir de volta que “Esse teatro que ele [Paulo Autran] faz é para a terceira idade”.
Estilos à parte, o certo é que Autran marcou a história do teatro nacional e serve como padrão de referência brasileiro para a qualidade de atuação, assim como Picasso para a pintura, uma Mercedes para os carros e uma Brastemp para as geladeiras. Explico a analogia inusitada: de um ator que, embora com qualidades, não consegue convencer plenamente, pode-se dizer sem receio que “Não é um Paulo Autran, mas…”.
* * *
O espaço parece mesmo a ponta de uma ilha, com pequenos palcos de madeira espalhados; há árvores, pedras gigantescas e água, muita água ao fundo – o mar? O cenário pode parecer exótico ao londrinense, mas se trata do muito familiar Lago Igapó. O ano é 1994 e estamos em uma encenação pública de A Tempestade, última peça escrita por Shakespeare, ambientada numa ilha misteriosa, aqui montada pelo grupo local Armazém, do diretor Paulo de Moraes. Só isso já seria o suficiente para tornar o evento especial. Acontece que quem está ali no palco, representando Próspero, protagonista do texto do dramaturgo inglês, é Paulo Autran. Com isso, o status do evento especial se eleva para um dos maiores marcos da cultura da cidade.
Autran já havia atuado em Londrina antes e voltaria a atuar depois; no entanto, a montagem de A Tempestade foi marcante por motivar sua presença aqui por quase três meses: literalmente, ele morou na cidade, participando desde os primeiros ensaios até a consecução de dez apresentações da peça, gratuita para o público, no Lago Igapó. Estima-se que 10 mil privilegiados assistiram à temporada londrinense, que depois se estenderia, em palcos tradicionais, por diversas capitais do Brasil, totalizando quase 50 mil espectadores.
O livro Espirais – Armazém Companhia de Teatro, da Editora Kan, uma espécie de biografia do grupo londrinense, que posteriormente se radicou no Rio de Janeiro, revela aspectos curiosos da época. O financiamento da peça pela prefeitura de Londrina estava condicionado à presença de Paulo Autran como protagonista, termo sugerido pelo próprio Paulo de Moraes. O diretor aceitava o risco, pois sabia que sua idealização da peça só funcionaria com Autran. E por que ele era ideal para sua montagem de A Tempestade? A resposta de Moraes é singela: “O Paulo era simplesmente o maior ator do Brasil”.
Autran não conhecia o grupo, mas depois de estudar sua história e de se assegurar da seriedade do Armazém, aceitou o desafio de trabalhar com os mais jovens. O resultado positivo transcendeu a peça: “Havia uma alegria muito grande na cidade pelo Paulo estar fazendo esse trabalho aqui”, lembra Moraes. Aqueles que puderam conviver com Autran durante sua estada londrinense relatam comumente sua absoluta falta de estrelismo, seu humor cáustico e sua elegância rabugenta, um aparente paradoxo que nele se resolvia à perfeição.
Moraes se permite um tom confessional para falar da significação de Paulo Autran em Londrina: “A presença dele foi fundamental. Ele me marcou como artista, mas também como amigo”. A cidade pode dizer o mesmo.
Antropologia teatral volta ao FILO
Texto escrito para a Revista do FILO, aqui em sua versão original.
A quadragésima edição do FILO tem tudo para ser um marco. Razões não faltam para a afirmação vir com segurança: há a comemoração de uma data simbólica (40 anos do primeiro Festival, no mítico 1968); o cardápio de eventos cada vez mais vasto e significativo, com nomes regionais, nacionais e internacionais; os famosos grupos teatrais que estavam devendo uma visita e vêm pela primeira vez à cidade; ou, por fim, mas não menos importante, as atrações que já se destacaram em anos anteriores e retornam para esta edição especial.
Nesse quesito, é impossível não destacar a volta do Odin Teatret, dirigido pelo legendário Eugenio Barba. O grupo se apresenta nos dias 19, 20 e 21 de junho, sempre às 22 horas, na Casa de Cultura, com O Sonho de Andersen, peça baseada em anotações encontradas no diário do escritor Hans Christian Andersen – deste, o nome pode até não lhe dizer muito, mas você certamente conhece algumas de suas histórias: já ouviu falar de Patinho Feio, Soldadinho de Chumbo, Pequena Sereia, ou aquela do “O rei está nu!”? Pois é, tudo obra desse dinamarquês, que agora tem seus sonhos adaptados para teatro sob o prisma da antropologia teatral, a marca mais forte do grupo de Barba.
Mas além de um nome de impacto, o que vem a ser antropologia teatral? A resposta, infelizmente, não pode ser dada em poucas linhas sem que se incorra no simplismo. É que Eugenio Barba, embora seja essencialmente um teatrólogo, também faz muitas reflexões teóricas sob seu trabalho, registradas em vários livros publicados ao longo de sua carreira. Em suma, seu vocabulário pode parecer hermético aos leigos. O diretor define: “Antropologia Teatral é o estudo do comportamento humano numa situação de espetáculo na qual uma técnica corporal extra-cotidiana substitui uma técnica corporal cotidiana”.
Complicou demais? Bem, para tentar uma definição didática, pode-se começar dizendo que a antropologia teatral busca atores das mais diversas regiões do globo. Depois de um trabalho preparatório que exige extrema disciplina (física e mental) e busca o auto-conhecimento, procuram-se, nas performances, revelações da expressão humana anteriores à cultura adquirida por cada um.
Mas mais fácil e proveitoso do que entender a teoria é assistir à prática dessa escola de teatro reconhecida em todo o mundo – oportunidade que os londrinenses têm, este ano pela terceira vez, por meio do FILO. Em última instância, a antropologia teatral, como o nome evidencia, valoriza a figura humana no palco sobre todos os outros elementos, lição que Barba absorveu quando trabalhou com Grotowski. Aqui já vale a pena entrar na história do diretor do Odin Teatret:
Eugenio Barba nasceu na Itália, em 1936, mas emigrou logo aos dezessete anos para a Noruega, onde freqüentou a Universidade de Oslo, graduando-se em literatura francesa e norueguesa e história da religião. Depois de formado, sempre itinerante, foi para a Polônia, sendo assistente, por três anos, de Jerzy Grotowski, diretor polonês central no teatro do século XX.
A influência dessa passagem no trabalho de Barba seria enorme e permanente: com Grotowski, aprendeu que figurinos, iluminação e cenários são supérfluos quando comparados à força representativa do ator. As lições do diretor polonês, no entanto, seriam amplamente retribuídas quando Barba se tornou o primeiro grande divulgador das teorias de Grotowski no Ocidente, rompendo a cortina de ferro comunista. Em Busca de Um Teatro Pobre (1968), livro editado por Barba contendo as teorias de seu mestre, é hoje um clássico essencial para se entender o teatro de vanguarda, do qual, aliás, os dois são considerados figuras máximas.
Em 1964, Barba retorna a Oslo, onde funda o Odin Teatret e prepara sua primeira produção. Dois anos depois, viajando em turnê pela Dinamarca, o grupo recebe o convite da pequena cidade de Holstebro – com apenas 18 mil habitantes à época – para se estabelecer por lá; com falta de apoio financeiro na Noruega, a proposta é aceita. Pelo jeito, o negócio foi bom para ambas as partes, pois a companhia de Barba prosperou, permanecendo até hoje na cidade, que agora é reconhecida como sede de uma das mais importantes companhias teatrais do mundo.
Com a tranqüilidade de uma base fixa, o Odin Teatret pôde passar de mais um grupo teatral para um verdadeiro teatro-laboratório. A amplitude de suas atividades (com experimentação constante, pesquisa e publicação, cursos e seminários, intercâmbio cultural com regiões distantes dos grandes centros) gerou tanta notoriedade para o grupo quanto propriamente as peças de seu repertório – que podem levar até dois anos de preparo.
O avanço dos estudos do homem em situação de representação culminou, em 1979, na fundação da ISTA (International School of Theatre Antropology), um centro para a investigação no campo da antropologia teatral, que realiza periodicamente sessões públicas em diferentes cidades.
Em 1986, numa de suas constantes viagens de pesquisa pelo mundo – “Sinto que minhas raízes se firmam em viagens, tanto no espaço quanto no tempo”, disse Barba –, o diretor conheceu o Brasil. Aqui, realizou verdadeira missão exploratória, buscando conhecer as diferentes manifestações culturais do país. Também travou amizade com diversos brasileiros ligados às artes, entre eles, Nitis Jacon, uma das criadoras do FILO, Presidente de Honra do Festival e, na época, sua diretora.
Desse contato, veio a possibilidade de realizar, no FILO de 1991, a Mostra Odin Teatret, com uma extensa programação de quatro diferentes peças, exibição de filmes, conferências, oficinas, cursos e manifestações ao ar livre. Um marco para o Festival, tanto pela qualidade do evento quanto por firmar a internacionalização do FILO.
Ainda mais notável, na edição de 1994, foi a realização do 8ª Sessão Pública da ISTA. Londrina foi a primeira cidade não-européia – e até a data presente, a única – a sediar um encontro da escola de antropologia teatral. Muitos defendem essa conquista como a mais importante dos 40 anos do FILO. Coroando o Festival daquele ano, Barba apresentou a peça Theatrum Mundi em um palco flutuante no Lago Igapó, contando com atores e músicos de Bali, Índia, Japão, Brasil e Europa.
Para quem não pôde estar presente nessas ocasiões anteriores, e também para quem quer relembrar a experiência, o quadragésimo FILO oferece novamente a experiência da antropologia teatral do Odin Teatret; de quebra, uma oportunidade para celebrar o Festival, o Teatro, o Homem.
BOX
O Sonho de Andersen une o intimista ao grandioso
Efeitos sonoros e audiovisuais, elenco reunindo atores de vários lugares do mundo, texto com trechos de cinco línguas diferentes (dinamarquês, inglês, espanhol, italiano e português), direção do mítico Eugenio Barba sob argumento de Hans Christian Andersen, o célebre autor de histórias infantis. Superprodução?
Depende do ponto de vista. Se levada em consideração a qualidade do espetáculo oferecido, com certeza. Mas um olhar mais desatento pode estranhar que uma peça reunindo currículos tão notáveis seja apresentada para, no máximo, 150 pessoas – em Londrina, na Casa de Cultura, com aproximadamente 120 ingressos disponibilizados.
É que a antropologia teatral de Eugenio Barba valoriza o trabalho do ator acima de tudo. Por isso, o diretor prefere se apresentar em lugares pequenos, onde cada expressão representativa possa ser captada pela platéia, que deve se deixar levar pelo clima da peça.
O Sonho de Andersen parte de anotações encontradas no diário do escritor dinamarquês: já perto de sua morte, Andersen sonhou que havia sido convidado pelo rei para participar de um cruzeiro em sua nave; a bordo da embarcação, compreende que havia sido, na verdade, capturado em um navio de escravos.
A montagem de Eugenio Barba faz uma adaptação livre: sem nave na peça, o que vale é o potencial alegórico do sonho, com atenção especial à estranheza do olhar estrangeiro e ao terror da escravidão. A barreira da língua do (pouco) texto é amenizada por efeitos e, sobretudo, pelo vasto repertório gestual dos atores, treinados sob a folclórica exigência disciplinar de Barba. No elenco, o brasileiro Augusto Omolú, que se juntou ao grupo de Barba a partir da Sessão da ISTA em Londrina, e a veterana Roberta Carreri, atriz do Odin Teatret desde 1974.
Eugenio Barba estará em Londrina para acompanhar sua companhia no Festival, e a organização do FILO prepara atividade didática a ser coordenada pelo diretor. É a antropologia teatral marcando mais uma vez a cultura da cidade.
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