Antropologia teatral volta ao FILO
Texto escrito para a Revista do FILO, aqui em sua versão original.
A quadragésima edição do FILO tem tudo para ser um marco. Razões não faltam para a afirmação vir com segurança: há a comemoração de uma data simbólica (40 anos do primeiro Festival, no mítico 1968); o cardápio de eventos cada vez mais vasto e significativo, com nomes regionais, nacionais e internacionais; os famosos grupos teatrais que estavam devendo uma visita e vêm pela primeira vez à cidade; ou, por fim, mas não menos importante, as atrações que já se destacaram em anos anteriores e retornam para esta edição especial.
Nesse quesito, é impossível não destacar a volta do Odin Teatret, dirigido pelo legendário Eugenio Barba. O grupo se apresenta nos dias 19, 20 e 21 de junho, sempre às 22 horas, na Casa de Cultura, com O Sonho de Andersen, peça baseada em anotações encontradas no diário do escritor Hans Christian Andersen – deste, o nome pode até não lhe dizer muito, mas você certamente conhece algumas de suas histórias: já ouviu falar de Patinho Feio, Soldadinho de Chumbo, Pequena Sereia, ou aquela do “O rei está nu!”? Pois é, tudo obra desse dinamarquês, que agora tem seus sonhos adaptados para teatro sob o prisma da antropologia teatral, a marca mais forte do grupo de Barba.
Mas além de um nome de impacto, o que vem a ser antropologia teatral? A resposta, infelizmente, não pode ser dada em poucas linhas sem que se incorra no simplismo. É que Eugenio Barba, embora seja essencialmente um teatrólogo, também faz muitas reflexões teóricas sob seu trabalho, registradas em vários livros publicados ao longo de sua carreira. Em suma, seu vocabulário pode parecer hermético aos leigos. O diretor define: “Antropologia Teatral é o estudo do comportamento humano numa situação de espetáculo na qual uma técnica corporal extra-cotidiana substitui uma técnica corporal cotidiana”.
Complicou demais? Bem, para tentar uma definição didática, pode-se começar dizendo que a antropologia teatral busca atores das mais diversas regiões do globo. Depois de um trabalho preparatório que exige extrema disciplina (física e mental) e busca o auto-conhecimento, procuram-se, nas performances, revelações da expressão humana anteriores à cultura adquirida por cada um.
Mas mais fácil e proveitoso do que entender a teoria é assistir à prática dessa escola de teatro reconhecida em todo o mundo – oportunidade que os londrinenses têm, este ano pela terceira vez, por meio do FILO. Em última instância, a antropologia teatral, como o nome evidencia, valoriza a figura humana no palco sobre todos os outros elementos, lição que Barba absorveu quando trabalhou com Grotowski. Aqui já vale a pena entrar na história do diretor do Odin Teatret:
Eugenio Barba nasceu na Itália, em 1936, mas emigrou logo aos dezessete anos para a Noruega, onde freqüentou a Universidade de Oslo, graduando-se em literatura francesa e norueguesa e história da religião. Depois de formado, sempre itinerante, foi para a Polônia, sendo assistente, por três anos, de Jerzy Grotowski, diretor polonês central no teatro do século XX.
A influência dessa passagem no trabalho de Barba seria enorme e permanente: com Grotowski, aprendeu que figurinos, iluminação e cenários são supérfluos quando comparados à força representativa do ator. As lições do diretor polonês, no entanto, seriam amplamente retribuídas quando Barba se tornou o primeiro grande divulgador das teorias de Grotowski no Ocidente, rompendo a cortina de ferro comunista. Em Busca de Um Teatro Pobre (1968), livro editado por Barba contendo as teorias de seu mestre, é hoje um clássico essencial para se entender o teatro de vanguarda, do qual, aliás, os dois são considerados figuras máximas.
Em 1964, Barba retorna a Oslo, onde funda o Odin Teatret e prepara sua primeira produção. Dois anos depois, viajando em turnê pela Dinamarca, o grupo recebe o convite da pequena cidade de Holstebro – com apenas 18 mil habitantes à época – para se estabelecer por lá; com falta de apoio financeiro na Noruega, a proposta é aceita. Pelo jeito, o negócio foi bom para ambas as partes, pois a companhia de Barba prosperou, permanecendo até hoje na cidade, que agora é reconhecida como sede de uma das mais importantes companhias teatrais do mundo.
Com a tranqüilidade de uma base fixa, o Odin Teatret pôde passar de mais um grupo teatral para um verdadeiro teatro-laboratório. A amplitude de suas atividades (com experimentação constante, pesquisa e publicação, cursos e seminários, intercâmbio cultural com regiões distantes dos grandes centros) gerou tanta notoriedade para o grupo quanto propriamente as peças de seu repertório – que podem levar até dois anos de preparo.
O avanço dos estudos do homem em situação de representação culminou, em 1979, na fundação da ISTA (International School of Theatre Antropology), um centro para a investigação no campo da antropologia teatral, que realiza periodicamente sessões públicas em diferentes cidades.
Em 1986, numa de suas constantes viagens de pesquisa pelo mundo – “Sinto que minhas raízes se firmam em viagens, tanto no espaço quanto no tempo”, disse Barba –, o diretor conheceu o Brasil. Aqui, realizou verdadeira missão exploratória, buscando conhecer as diferentes manifestações culturais do país. Também travou amizade com diversos brasileiros ligados às artes, entre eles, Nitis Jacon, uma das criadoras do FILO, Presidente de Honra do Festival e, na época, sua diretora.
Desse contato, veio a possibilidade de realizar, no FILO de 1991, a Mostra Odin Teatret, com uma extensa programação de quatro diferentes peças, exibição de filmes, conferências, oficinas, cursos e manifestações ao ar livre. Um marco para o Festival, tanto pela qualidade do evento quanto por firmar a internacionalização do FILO.
Ainda mais notável, na edição de 1994, foi a realização do 8ª Sessão Pública da ISTA. Londrina foi a primeira cidade não-européia – e até a data presente, a única – a sediar um encontro da escola de antropologia teatral. Muitos defendem essa conquista como a mais importante dos 40 anos do FILO. Coroando o Festival daquele ano, Barba apresentou a peça Theatrum Mundi em um palco flutuante no Lago Igapó, contando com atores e músicos de Bali, Índia, Japão, Brasil e Europa.
Para quem não pôde estar presente nessas ocasiões anteriores, e também para quem quer relembrar a experiência, o quadragésimo FILO oferece novamente a experiência da antropologia teatral do Odin Teatret; de quebra, uma oportunidade para celebrar o Festival, o Teatro, o Homem.
BOX
O Sonho de Andersen une o intimista ao grandioso
Efeitos sonoros e audiovisuais, elenco reunindo atores de vários lugares do mundo, texto com trechos de cinco línguas diferentes (dinamarquês, inglês, espanhol, italiano e português), direção do mítico Eugenio Barba sob argumento de Hans Christian Andersen, o célebre autor de histórias infantis. Superprodução?
Depende do ponto de vista. Se levada em consideração a qualidade do espetáculo oferecido, com certeza. Mas um olhar mais desatento pode estranhar que uma peça reunindo currículos tão notáveis seja apresentada para, no máximo, 150 pessoas – em Londrina, na Casa de Cultura, com aproximadamente 120 ingressos disponibilizados.
É que a antropologia teatral de Eugenio Barba valoriza o trabalho do ator acima de tudo. Por isso, o diretor prefere se apresentar em lugares pequenos, onde cada expressão representativa possa ser captada pela platéia, que deve se deixar levar pelo clima da peça.
O Sonho de Andersen parte de anotações encontradas no diário do escritor dinamarquês: já perto de sua morte, Andersen sonhou que havia sido convidado pelo rei para participar de um cruzeiro em sua nave; a bordo da embarcação, compreende que havia sido, na verdade, capturado em um navio de escravos.
A montagem de Eugenio Barba faz uma adaptação livre: sem nave na peça, o que vale é o potencial alegórico do sonho, com atenção especial à estranheza do olhar estrangeiro e ao terror da escravidão. A barreira da língua do (pouco) texto é amenizada por efeitos e, sobretudo, pelo vasto repertório gestual dos atores, treinados sob a folclórica exigência disciplinar de Barba. No elenco, o brasileiro Augusto Omolú, que se juntou ao grupo de Barba a partir da Sessão da ISTA em Londrina, e a veterana Roberta Carreri, atriz do Odin Teatret desde 1974.
Eugenio Barba estará em Londrina para acompanhar sua companhia no Festival, e a organização do FILO prepara atividade didática a ser coordenada pelo diretor. É a antropologia teatral marcando mais uma vez a cultura da cidade.
2 comentários até agora
Leave a reply
hein?
I love your site!
_____________________
Experiencing a slow PC recently? Fix it now!