Senhor dos Palcos e cidadão londrinense

Texto escrito originalmente para a Revista do FILO, excluído da publicação na edição final.

“Teatro é a arte do ator; cinema, a arte do diretor e TV, a arte do anunciante”. Essa definição espirituosa, repetida hoje em dia como máxima, muitas vezes sem o devido crédito, é da lavra de Paulo Paquet Autran, grande ator brasileiro – também notável frasista, como se pode observar no período que abre esta matéria.

E poucos teriam a autoridade necessária para se manifestar assim sem resvalar na incoerência ou na suspeita de inveja financeira: aclamado como o maior ator brasileiro desde, pelo menos, meados da década de 1960, Autran recusou diversas propostas que lhe assegurariam reconhecimento mais popular e global para se dedicar àquilo em que realmente acreditava: o teatro.

“Morreu trabalhando” é algo que se diz de muita gente, mas com Autran a coisa se aproxima da verdade literal: nascido no Rio de Janeiro, em 1922, fez sua estréia em fins da década de 1940 e só deixou de atuar quatro meses antes de sua morte, em outubro do ano passado, quando um avançado câncer de pulmão não o deixou prosseguir com seu trabalho. Com formação em Direito no tradicional Largo São Francisco, em São Paulo, deixou de lado promissora carreira na advocacia para se dedicar integralmente, com paixão e sem garantias de sucesso, ao teatro, no qual era então apenas amador. O sucesso veio ligeiro, sendo premiado logo por sua primeira atuação como profissional, em Um deus dormiu lá em casa; quanto à paixão, nunca o abandonou: na sua última performance, em O Avarento, com texto de Molière, a crítica foi de aprovação quase geral (unanimidade seria burrice); o público se espantava e se deliciava com a vitalidade cênica de alguém que, todos sabiam, estava muito doente.

O “Senhor dos Palcos” escolhia bem a hora de trabalhar em outras áreas: quando o fazia, era com distinção invariável. Foram relativamente poucas participações em filmes, para uma carreira tão longa, mas uma delas é antológica: sua representação de Porfírio Diaz, o fascista de Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, é séria candidata a atuação mais marcante de toda a cinematografia brasileira, com um Autran intencionalmente caricato. Quanto à televisão, embora o ator se referisse ao meio com indisfarçado desprezo, suas aparições a conta-gotas eram sempre especiais: Guerra dos Sexos (1983), de Sílvio de Abreu, é a novela da famosa seqüência ao lado de Fernanda Montenegro – com quem Autran jamais contracenou nos palcos –, na qual os personagens se lançam numa infantilóide guerra de comida sem perder o ar blasé. Novamente, essa passagem é praxe em seleções dos melhores momentos da dramaturgia televisiva brasileira de todos os tempos, sendo repetida à exaustão em videoshows e congêneres.

Mas foi mesmo no teatro que Paulo Autran fez virtualmente de tudo, e muito: de clássicos internacionais de todas as épocas, como o já citado Molière, Sófocles, Shakespeare, Tennessee Willians, Pirandello, Dickens, Dumas, Sartre, Noel Coward, Samuel Beckett, Bernard Shaw, Arthur Miller e Brecht – a lista tende ao exaustivo, afinal foram 90 (!) peças em 60 (!) anos de carreira – às glórias da dramaturgia brasileira, com Gonçalves Dias, Antônio Callado, Osman Lins, Millôr Fernandes, Paulo Rangel, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar e Oduvaldo Vianna Filho, passando por autores semidesconhecidos; também foi produtor, diretor e até escreveu uma única peça, Quadrante (1988), sucesso de público; trabalhou com atrizes do porte de Tônia Carrero, amiga de toda a vida e primeira incentivadora na profissão, Bibi Ferreira e… Adriane Galisteu. E fez tragédias e fez comédias e monólogos e musicais e arte engajada e mero entretenimento e tudo quanto quis e pôde fazer.

A lacuna mais notável em seu currículo talvez seja a de nunca ter encenado Nelson Rodrigues. Indagado sobre as razões, desconversava, mas se sabe que as divergências políticas com o dramaturgo carioca, um confesso reacionário, pesaram na escolha (E eu já fui citar aqui logo o próprio Rodrigues, com esse papo de unanimidade ser burrice… Talvez tenha sido escolha equivocada em se tratando de homenagem a Paulo Autran… Bem, agora Inês é morta.).

É que o ator, embora fosse homem discreto e avesso às chatices de patrulhas ideológicas, tinha posições firmes, muitas vezes o levando a polêmicas públicas. Algumas de seu rol: cuspiu em Paulo Francis para defender a amiga Tônia Carrero de uma crítica agressiva; recusou uma condecoração, em 1981, do então governador de São Paulo, Paulo Maluf, por não concordar com sua política cultural; declarou publicamente que “crer em Deus é a mesma coisa que acreditar em Papai Noel”; embora simpatizante do Partido Comunista e expressamente contrário ao regime militar brasileiro, causava estranhamento na esquerda ao se sair com frases como “Nacionalismo em arte é retrocesso”; colecionou desafetos no meio teatral, atacando tendências – “Em geral acho teatro experimental muito chato, sou obrigado a assistir 99 bobagens para ver uma coisa interessante” – e os intocáveis diretores Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa. Deste, chegou a dizer que “… faz um teatro muito específico. Entrar no teatro para ver dois rapazes se masturbando não me interessa, absolutamente. Mas muita gente gosta, masturbação parece que atrai público”, para ouvir de volta que “Esse teatro que ele [Paulo Autran] faz é para a terceira idade”.

Estilos à parte, o certo é que Autran marcou a história do teatro nacional e serve como padrão de referência brasileiro para a qualidade de atuação, assim como Picasso para a pintura, uma Mercedes para os carros e uma Brastemp para as geladeiras. Explico a analogia inusitada: de um ator que, embora com qualidades, não consegue convencer plenamente, pode-se dizer sem receio que “Não é um Paulo Autran, mas…”.

* * *

O espaço parece mesmo a ponta de uma ilha, com pequenos palcos de madeira espalhados; há árvores, pedras gigantescas e água, muita água ao fundo – o mar? O cenário pode parecer exótico ao londrinense, mas se trata do muito familiar Lago Igapó. O ano é 1994 e estamos em uma encenação pública de A Tempestade, última peça escrita por Shakespeare, ambientada numa ilha misteriosa, aqui montada pelo grupo local Armazém, do diretor Paulo de Moraes. Só isso já seria o suficiente para tornar o evento especial. Acontece que quem está ali no palco, representando Próspero, protagonista do texto do dramaturgo inglês, é Paulo Autran. Com isso, o status do evento especial se eleva para um dos maiores marcos da cultura da cidade.

Autran já havia atuado em Londrina antes e voltaria a atuar depois; no entanto, a montagem de A Tempestade foi marcante por motivar sua presença aqui por quase três meses: literalmente, ele morou na cidade, participando desde os primeiros ensaios até a consecução de dez apresentações da peça, gratuita para o público, no Lago Igapó. Estima-se que 10 mil privilegiados assistiram à temporada londrinense, que depois se estenderia, em palcos tradicionais, por diversas capitais do Brasil, totalizando quase 50 mil espectadores.

O livro Espirais – Armazém Companhia de Teatro, da Editora Kan, uma espécie de biografia do grupo londrinense, que posteriormente se radicou no Rio de Janeiro, revela aspectos curiosos da época. O financiamento da peça pela prefeitura de Londrina estava condicionado à presença de Paulo Autran como protagonista, termo sugerido pelo próprio Paulo de Moraes. O diretor aceitava o risco, pois sabia que sua idealização da peça só funcionaria com Autran. E por que ele era ideal para sua montagem de A Tempestade? A resposta de Moraes é singela: “O Paulo era simplesmente o maior ator do Brasil”.

Autran não conhecia o grupo, mas depois de estudar sua história e de se assegurar da seriedade do Armazém, aceitou o desafio de trabalhar com os mais jovens. O resultado positivo transcendeu a peça: “Havia uma alegria muito grande na cidade pelo Paulo estar fazendo esse trabalho aqui”, lembra Moraes. Aqueles que puderam conviver com Autran durante sua estada londrinense relatam comumente sua absoluta falta de estrelismo, seu humor cáustico e sua elegância rabugenta, um aparente paradoxo que nele se resolvia à perfeição.

Moraes se permite um tom confessional para falar da significação de Paulo Autran em Londrina: “A presença dele foi fundamental. Ele me marcou como artista, mas também como amigo”. A cidade pode dizer o mesmo.

2 comentários até agora

  1. Anônimo on

    Quero ver uma crônica sobre o Jamelão

  2. Lari on

    Ah, Paulo Autran. Última vez em que ouvi este nome foi no Terceirão! Ótimo texto, senhor mestre jornalista ;D
    Beijos :**


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