Adega União comemora 50 anos

Alguns bares de Londrina atravessam gerações, ganhando contornos clássicos. São muitos os pais que, ao ver suas crias freqüentando os mesmos ambientes apreciados por eles no passado, deixam-se perder na nostalgia de frases como: “Sabia que conheci sua mãe no Vilão?” ou “O macarrão do Valentino ainda é tão bom quanto era há 20 anos?”. E assim a tradição dos botecos se afirma.

Na história, porém, sempre há múltiplas e distintas versões, mesmo quando se trata de história relativa à boemia. Completando impressionantes 50 anos, a Adega União resiste como o segundo bar mais antigo da cidade – perde apenas para o sexagenário Bar Brasil, com a vantagem de nunca ter trocado de proprietário. No entanto, mesmo com tanta longevidade, a Adega parece excluída da crônica oficial da beberragem londrinense. Se papai e mamãe iam lá, não se atrevem a confessar. Por que será?

As razões para a fama incompatível com a idade do lugar são fáceis de perceber: a Adega não prima pelo conforto e assepsia, tendo banheiros certamente reprováveis para a Vigilância Sanitária; o atendimento também está longe do lema “O cliente sempre tem razão”, com a expulsão sumária, nem sempre com motivos evidentes, sendo prática usual; os mais assíduos no lugar são gente realmente esquisita, não universitários remediados brincando de despossuídos; por fim, mesmo o vinho, o carro-chefe da casa, sofre de uma inconstância gustativa pra lá de suspeita.

Com tantos e vários atributos intimidantes, a questão se inverte: como um bar a princípio tão pouco convidativo consegue perseverar por meio século? Esta resposta também é simples: José Felix da Silva, paraibano de Campina Grande, fundador da Adega União aos 28 anos, espelha perfeitamente a casa que até hoje administra. Há em Seu Zé, com suas histórias, seus inesperados repentes nordestinos, um caráter lúdico que também se encontra em seu bar, fazendo deles (adega e dono) diversão garantida.

Ir à Adega, tão próxima, parece uma viagem espaço-temporal. O ambiente rústico, somado à gama de freqüentadores bizarros, pode parecer ameaçador; mas não deixa de ser engraçado observar bêbados autênticos, folclóricos, daqueles de piada, fazendo suas peripécias: na maioria absoluta das vezes, eles são pacíficos. Essa mistura inusual de atemorizar e fazer rir também se encontra em Seu Zé, e em versão refinada. Seu humor, instável e explosivo – do tipo que uma hora sorri e trata como amigo para, logo depois, aos berros, expulsar do bar porque “está na hora de ir embora” –, poderia ser ofensivo se não fosse deliciosamente espirituoso. Não se costuma encontrar bares (e donos de bar) como esse(s) hoje em dia, ainda mais logo ali, na Rua Brasil entre a Espírito Santo e a Goiás. É o charme da periferia no centro da cidade.

Há uma atração adicional: parece haver um acordo implícito entre Seu Zé e visitantes para que toda sorte de fatos incríveis seja solenemente ignorada. Pessoas vomitando, bêbados se estatelando no chão, loucos cantando a plenos pulmões – coisas que em qualquer lugar “normal” se tornariam o centro das atenções, na Adega não merecem nem um olhar de atenção, admiração, reprovação que seja. A postura blasé em meio a lugar tão pouco pomposo resulta hilariante.

Passando em frente àquele boteco tão simples, dá para pasmar quando se sabe de sua data de fundação. Mas não adianta: se a história de uma cidade passa por seus bares, Londrina tem um pouco das unhas arroxeadas de Seu Zé.

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Entrevistar Seu Zé exige a cautela de um papo com Darth Vader: a figura impõe respeito e nunca se sabe o que virá. Para alívio do repórter, porém, a conversa foi toda agradável e gentil. Logo quando soube que o tema do falatório seria o aniversário de seu bar, abriu-se em orgulhosas redondilhas: “É a matéria na cidade/ Que está aparecendo/ Você, como jornalista/ Já está se apercebendo”. Assombra a vivacidade do homem que, aos 77 anos, mantém o mesmo bar desde a década de 1950, sem luxo nem glória.

Como surgiu a idéia de fundar a Adega União?
Seu Zé – Eu gosto de beber. Tomo diariamente meus cinco ou seis copos de vinho mais minhas quatro ou cinco garrafas de cerveja. Saí da Paraíba de navio, com 20 anos. No primeiro porto que parei, em Recife, já estava bêbado. Fiquei alguns anos no Rio, trabalhando como taxista. Daí, em 1958, passando férias em Londrina, eu e meu irmão tivemos a idéia de abrir uma adega.

Qual a diferença da Adega da década de 1950 para a de hoje?

Seu Zé – Antigamente havia menos concorrência. Nunca ganhei muito dinheiro, mas a situação antes era mais tranqüila. Hoje em dia, se der pra pagar as contas e beber, já tá bom.

E a questão da falta de segurança? Não aumentou?

Seu Zé – Eu me sinto seguro. Não tenho problema com bandido, sabe por quê? Porque não cagüeto ninguém, não chamo a polícia. Cada um tem que ser sua própria polícia, se for depender dessa que tá aí…

Mas nunca houve casos de violência no bar?

Seu Zé – De vez em quando tem coisas, mas do lado de fora… Me chamaram para depor, eu disse que não vi nada. Ficaram bravos comigo, mas eu vou falar o quê? Outra vez, entrou um bêbado aqui, apontando um revólver pra todo mundo. Eu era novo na época, desarmei ele, não tenho medo, revólver pra mim é brincadeira. O coitado se estatelou no chão. Quando ele acordou, perguntei por que ele tinha feito aquilo. Devolvi o revólver sem as balas e começamos a beber juntos.

O estilo dos freqüentadores da Adega mudou ao longo dos anos?

Seu Zé – Aqui vem de bandido a doutor, e eu respeito todo mundo. Pra você manter um estabelecimento por tanto tempo tem que ter um certo gabarito, saber lidar com as coisas. Com tudo que aconteceu aqui dava pra escrever um livro… Eu não cagüeto ninguém, tenho minha própria justiça, vou levando… E estou forte, quero viver cem anos. Beber um pouco ajuda, deixa a pessoa animada, disposta.

Qual o seu maior orgulho à frente da Adega União?

Seu Zé – Eu só estudei o primário, mas com a Adega consegui formar todos os meus filhos. Meu orgulho é trabalhar e beber, porque eu gosto de beber. Mas agora, depois de cinqüenta anos, já tá na hora de parar. Acho que vou pra chácara pescar lambari.

2 comentários até agora

  1. amanda on

    rs
    o seu zé é um fofo.
    ótima matéria andré
    bjs

  2. dom violeto on

    Esse texto eu já conhecia, hem…


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