Posts de Setembro, 2008|Página de posts mensais
Carta paulistana
Chegando a São Paulo atrasado, mais de uma hora, por conta de chuva e do congestionamento na marginal, ambos previsíveis. Para completar, metrô lotado, eu com mochila e mala enorme. Desci na Sé, para mudar de linha, e depois no Paraíso, justo essas duas, oito da manhã: dá para imaginar o tranco, também previsível. Você não agüentava mais isso, todo dia deve ser o inferno, mas pra quem visita uma vez por mês dá até pra sentir uma certa poesia do caos. O não previsível foi minha anfitriã, que se prontificara a me receber, deixando-me esperar mais de duas horas por sua chegada, havia passado a noite com o namorado, largou seu apartamento trancado, e “esqueceu” de acordar cedo para voltar. Beleza. Nem pude reclamar muito, hospedagem grátis, né? E além do mais, a Amanda é adorável, não é uma falhinha dessas que a fará descer no meu conceito. Um soco nos dentes já equilibrou a situação.
Além do mais, de certa maneira foi bacana ter ficado de bobeira tanto tempo, pude apreciar as redondezas, o frenesi paulistano: fiz amizade com o tiozinho da padaria, com a moça que distribuía os jornais gratuitos, com a menina de bela-bunda-numa-calça-apertada que me perguntou – justo a mim, de mala enorme e ares de perdido, que sem noção! – onde ficava o Hospital do Coração.
Mas o mais divertido foi no viaduto do Paraíso. Notei uma pequena multidão se apertando para ver algo e corri juntar-me ao grupo na esperança de presenciar algo realmente notável: a fama do paulistano é de não se impressionar com nada, se baixasse um marciano na Praça da República ele não ficaria nem no Top 10 dos mais esquisitos.
O espetáculo do viaduto, no entanto, comoveu alguns passantes: uma menina com asas planava sobre a 23 de Maio. Geralmente, quando alguém impressiona por fugir da média, é por expor algo agressivo, berrante. Mas a menina com asas era só suave poesia na manhã paulistana, saltava do viaduto, voava leve por uns instantes e depois voltava, sereno sorriso. Não sei qual era o truque, se é que havia truque, mas o vôo era real, palpável. Apaixonante, a menina com asas. Logo, as pessoas se cansaram, já indiferentes à beleza, sabor da novidade com gosto rapidamente perdido, tal qual chiclete vagabundo. Seguiram o rumo de suas vidas. Eu, que custo a achar um rumo, ainda pude ficar sozinho, não sei exatamente quanto tempo, admirando a menina com asas. Ela até me olhou um pouco, tenho a esperança de que tenha gostado de mim, embora ela tivesse asas (!) e eu, apenas uma mala enorme e o eterno ar de perdido. Daí ela entrou numa nuvem e não mais a vi, hora de ir para casa, a Amanda provavelmente já chegara.
Voltei para o mundo real, mas sei que voltarei a vê-la, a menina com asas. De algum modo – mesmo com tão pouco tempo juntos, eu posso sentir – ela espera alguém que a entenda, acompanhe seus vôos e a acolha quando o chão se fizer chamar. Ai, ele sempre chama! Mas eu quero estar lá, fazer-me digno para a menina com asas não precisar se recolher à nuvem.
Caetano e Roberto cantam em homenagem a Tom Jobim
O cinqüentenário da bossa nova vem motivando eventos aos montes. Entre shows, especiais de TV, exposições e debates acadêmicos, alguém teve um lampejo de originalidade – e, admita-se, instigante: reunir Roberto Carlos e Caetano Veloso para interpretar canções de Tom Jobim.
A aparente salada se justifica: Tom é o compositor icônico da bossa nova, embora também tenha escrito música nos mais vários gêneros; Caetano Veloso, para a posteridade o líder do grandiloqüente tropicalismo, sempre afirmou a audição da minimalista “Chega de Saudade” como seu despertar para a criação; já Roberto Carlos, antes de enveredar pela jovem guarda, era franco imitador de João Gilberto.
Idéia boa, faltava combinar com os artistas em questão. Quando se falou com Roberto, nem os próprios organizadores acreditaram na facilidade com que aceitou participar: afinal, o Rei é cheio de senões, manias e jamais havia dedicado um show inteiro a um repertório que não fosse o dele próprio. Com tudo acordado, o espetáculo se encheu de frisson, pelo ineditismo, pela efeméride e porque, afinal, por restrições autorais que se possam fazer, são dois cantores tecnicamente irrepreensíveis interpretando o maior compositor de música popular brasileira.
Foram marcadas apenas quatro datas, para apresentações nos mesmos lugares (duas em São Paulo, uma no Rio de Janeiro e outra em Salvador) e com a mesma organização dos concertos de João Gilberto; assim como no caso do baiano, os poucos ingressos disponíveis desapareceram em minutos.
As semelhanças param por aí. No saguão do Auditório Ibirapuera já podiam se notar as discrepâncias: enquanto os espectadores de João Gilberto aguardavam pacientemente o ídolo, desprezando quaisquer outros notáveis que aparecessem por lá, o que se viu nessa última segunda-feira foi um verdadeiro evento social paulistano, com flashes disparando a cada vez que Cicarellis e congêneres davam o ar de sua graça.
Na hora da música em si, nada de banquinho e violão: ambos cantaram sempre acompanhados de numerosa banda e orquestra de cordas. Na distribuição geométrica do repertório de 20 canções, houve seis ouvidas em duo, seis apenas com Caetano, mais seis com Roberto sozinho, ainda um tema instrumental (“Surfboard”) e “Águas de Março” para o pianista Daniel Jobim, neto do homem, tentar cantar, honrando a tradição afônica da família.
Tudo muito organizadinho, até demais: algo estranho se notava no sempre loquaz Caetano, visivelmente desajeitado sem seu violão, repetindo falas ensaiadas e piadinhas que a imprensa já havia transcrito como presentes no concerto anterior, no Rio. Roberto insistindo em abaixar a cabeça para ler no teleprompter letras de canção como “Garota de Ipanema”, que qualquer um sabe de cor, também não ajudava na espontaneidade. Em uma leitura bondosa, pode-se dizer que os astros da noite, acostumados à badalação, estavam ali em tom solene, contidos e respeitosos, para homenagear um mestre comum.
Roberto, no geral, se saiu melhor do que Caetano. Grande parte da vantagem se deve ao fato de que, enquanto este teve seu bloco de canções arranjado pelo sempre pomposo Jacques Morelenbaum, aquele contou com Eduardo Lages na regência, mais contido e portanto mais adequado ao clima intimista da maioria das canções. Deve-se ressalvar, porém, que enquanto Roberto optou por cantar apenas clássicos, Caetano fez escolhas surpreendentes, fugindo da bossa nova e se arriscando livremente pelo cancioneiro de Tom.
Ambos, no entanto, tiveram pontos luminosos. Caetano cantando “Inútil paisagem”, em registro muito agudo, foi de ousadia recompensadora e “O que tinha de ser” revelou novas belezas na voz do baiano; Roberto conseguiu dar a “Por causa de você”, “Samba do avião” e “Lígia”, canções muito batidas, uma elegância de interpretação que desfez possíveis narizes tortos ao viés popularesco do Rei. Cantando juntos, ficaram mais descontraídos, especialmente na jocosa “Tereza da praia” e na sempre tocante “Se todos fossem iguais a você”.
Agora, atrevendo-se em terreno sagrado de João Gilberto (“Garota de Ipanema”, “Wave”, “Ela É Carioca”, “Meditação”, “Insensatez”, “Corcovado”, “Chega de Saudade”), não se pode passar de uma interpretação menor – o que, dada a grandeza do repertório, já é muito bom. E assim foi a noite: em seus melhores momentos, brilhante; nas oscilações negativas, ainda assim não deixou de ser gostoso estar ali. De qualquer modo, valeu a pena.
João Gilberto celebra os 50 anos de sua bossa nova
“Mas fazer resenha de show do João Gilberto é fácil, nem precisava ter vindo de Londrina pra cá”, disse a recepcionista ao entregar o ingresso a este repórter, “é só escrever que ele chegou atrasado, que reclamou do som, do ar-condicionado, é sempre assim”.
O despeito da moça em relação ao baiano e aos seus famosos chiliques, compartilhado por muita gente por aí, esteve longe de contaminar o público que compareceu ao Auditório Ibirapuera, na última sexta-feira, para assistir à sua concorridíssima passagem por São Paulo: em apenas duas datas, cerca de 1500 ingressos disponíveis, que se esgotaram minutos depois de iniciadas as vendas. João ainda se apresenta uma vez no Rio de Janeiro, outra em Salvador, e é só: eis toda sua turnê comemorativa dos 50 anos da bossa nova, com extensão inversamente proporcional à badalação na imprensa.
Com a sabida raridade do concerto, a espera na ante-sala do auditório era tensa, numa mistura de ansiedade (“Será que ele vai atrasar muito?” ecoava) e a curiosa tietagem blasé típica dos fãs do artista, que o veneram sem perder a pose. Em meio a um público heterogêneo – que ia desde velhinhas de bengala a uma menina zangada, de tênis all star e um cabelo que poderia ser descrito como emo – celebridades aguardavam de pé, francamente esnobadas pelo restante dos espectadores: a impressão é que se o Papa resolvesse baixar por ali para curtir um banquinho e violão, ninguém se importaria em pedir a bênção, pois o objeto de adoração já estava bem definido.
A demora prevista pela bilheteira nem foi tão grande para os padrões gilbertianos, apenas uma horinha. E, mais impressionante, sua única reclamação durante toda a uma hora e meia de concerto foi em relação à imprensa, que dera exagerado destaque ao seu atraso do dia anterior. Verdadeiro milagre em se tratando do artista, muito comunicativo e declarando repetidas vezes seu amor por São Paulo.
Se nem os ouvidos folclóricos de João captaram falhas na acústica, o público de audição “comum” pôde se deliciar com a sutileza de suas interpretações: em momentos como “Ave Maria no Morro”, o violão e a voz de João Gilberto pareciam ser os únicos sons do mundo. De impressionar o mais cético em relação a seus talentos. Qualquer mínimo ruído do público – uma tampa de água com gás sendo aberta, um zíper de bolsa manuseado – soava como estrondo terrível. A mocinha ao meu lado que se rendeu à ousadia de sussurrar junto com o cantor os primeiros versos de “Chega de Saudade” levou uma bela cotovelada do namorado. E aceitou resignada, ciente de sua culpa.
Se o baiano ganhou fama por suas interpretações enormes, repetindo exaustivamente o mesmo tema com variações harmônicas e rítmicas, desta vez optou por um programa extenso, de 31 canções, cantando-as apenas uma ou duas vezes, mas sem prescindir da originalidade. No repertório, clássicos da bossa nova (“O Pato”, mereceu um “Tão bonitinho os patinhos na lagoa…”, como se fosse a primeira vez que prestasse atenção à letra), sambas antigos em versão minimalista e até uma canção inédita do bissexto compositor João Gilberto, em homenagem ao Japão. Também ficaram como provável última homenagem em vida a Dorival Caymmi, seu mestre conterrâneo que morreria horas depois, as sempre marcantes interpretações de “Doralice” e “Rosa Morena”, além de “Você Já Foi À Bahia?”, nunca registrada em disco por João, com elaborada reinvenção harmônica.
O público, ganho por antecedência, não se decepcionou e saiu maravilhado. Tom Jobim já compunha antes e continuou a escrever muito além do movimento; Vinicius, este então, teve carreira das mais ecléticas; a exposição na Oca do Parque Ibirapuera, logo ao lado, fez-se totalmente desnecessária: aquele homem aplaudido de pé, vivo, era a própria bossa nova.
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