Caetano e Roberto cantam em homenagem a Tom Jobim
O cinqüentenário da bossa nova vem motivando eventos aos montes. Entre shows, especiais de TV, exposições e debates acadêmicos, alguém teve um lampejo de originalidade – e, admita-se, instigante: reunir Roberto Carlos e Caetano Veloso para interpretar canções de Tom Jobim.
A aparente salada se justifica: Tom é o compositor icônico da bossa nova, embora também tenha escrito música nos mais vários gêneros; Caetano Veloso, para a posteridade o líder do grandiloqüente tropicalismo, sempre afirmou a audição da minimalista “Chega de Saudade” como seu despertar para a criação; já Roberto Carlos, antes de enveredar pela jovem guarda, era franco imitador de João Gilberto.
Idéia boa, faltava combinar com os artistas em questão. Quando se falou com Roberto, nem os próprios organizadores acreditaram na facilidade com que aceitou participar: afinal, o Rei é cheio de senões, manias e jamais havia dedicado um show inteiro a um repertório que não fosse o dele próprio. Com tudo acordado, o espetáculo se encheu de frisson, pelo ineditismo, pela efeméride e porque, afinal, por restrições autorais que se possam fazer, são dois cantores tecnicamente irrepreensíveis interpretando o maior compositor de música popular brasileira.
Foram marcadas apenas quatro datas, para apresentações nos mesmos lugares (duas em São Paulo, uma no Rio de Janeiro e outra em Salvador) e com a mesma organização dos concertos de João Gilberto; assim como no caso do baiano, os poucos ingressos disponíveis desapareceram em minutos.
As semelhanças param por aí. No saguão do Auditório Ibirapuera já podiam se notar as discrepâncias: enquanto os espectadores de João Gilberto aguardavam pacientemente o ídolo, desprezando quaisquer outros notáveis que aparecessem por lá, o que se viu nessa última segunda-feira foi um verdadeiro evento social paulistano, com flashes disparando a cada vez que Cicarellis e congêneres davam o ar de sua graça.
Na hora da música em si, nada de banquinho e violão: ambos cantaram sempre acompanhados de numerosa banda e orquestra de cordas. Na distribuição geométrica do repertório de 20 canções, houve seis ouvidas em duo, seis apenas com Caetano, mais seis com Roberto sozinho, ainda um tema instrumental (“Surfboard”) e “Águas de Março” para o pianista Daniel Jobim, neto do homem, tentar cantar, honrando a tradição afônica da família.
Tudo muito organizadinho, até demais: algo estranho se notava no sempre loquaz Caetano, visivelmente desajeitado sem seu violão, repetindo falas ensaiadas e piadinhas que a imprensa já havia transcrito como presentes no concerto anterior, no Rio. Roberto insistindo em abaixar a cabeça para ler no teleprompter letras de canção como “Garota de Ipanema”, que qualquer um sabe de cor, também não ajudava na espontaneidade. Em uma leitura bondosa, pode-se dizer que os astros da noite, acostumados à badalação, estavam ali em tom solene, contidos e respeitosos, para homenagear um mestre comum.
Roberto, no geral, se saiu melhor do que Caetano. Grande parte da vantagem se deve ao fato de que, enquanto este teve seu bloco de canções arranjado pelo sempre pomposo Jacques Morelenbaum, aquele contou com Eduardo Lages na regência, mais contido e portanto mais adequado ao clima intimista da maioria das canções. Deve-se ressalvar, porém, que enquanto Roberto optou por cantar apenas clássicos, Caetano fez escolhas surpreendentes, fugindo da bossa nova e se arriscando livremente pelo cancioneiro de Tom.
Ambos, no entanto, tiveram pontos luminosos. Caetano cantando “Inútil paisagem”, em registro muito agudo, foi de ousadia recompensadora e “O que tinha de ser” revelou novas belezas na voz do baiano; Roberto conseguiu dar a “Por causa de você”, “Samba do avião” e “Lígia”, canções muito batidas, uma elegância de interpretação que desfez possíveis narizes tortos ao viés popularesco do Rei. Cantando juntos, ficaram mais descontraídos, especialmente na jocosa “Tereza da praia” e na sempre tocante “Se todos fossem iguais a você”.
Agora, atrevendo-se em terreno sagrado de João Gilberto (“Garota de Ipanema”, “Wave”, “Ela É Carioca”, “Meditação”, “Insensatez”, “Corcovado”, “Chega de Saudade”), não se pode passar de uma interpretação menor – o que, dada a grandeza do repertório, já é muito bom. E assim foi a noite: em seus melhores momentos, brilhante; nas oscilações negativas, ainda assim não deixou de ser gostoso estar ali. De qualquer modo, valeu a pena.
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