João Gilberto celebra os 50 anos de sua bossa nova

“Mas fazer resenha de show do João Gilberto é fácil, nem precisava ter vindo de Londrina pra cá”, disse a recepcionista ao entregar o ingresso a este repórter, “é só escrever que ele chegou atrasado, que reclamou do som, do ar-condicionado, é sempre assim”.

O despeito da moça em relação ao baiano e aos seus famosos chiliques, compartilhado por muita gente por aí, esteve longe de contaminar o público que compareceu ao Auditório Ibirapuera, na última sexta-feira, para assistir à sua concorridíssima passagem por São Paulo: em apenas duas datas, cerca de 1500 ingressos disponíveis, que se esgotaram minutos depois de iniciadas as vendas. João ainda se apresenta uma vez no Rio de Janeiro, outra em Salvador, e é só: eis toda sua turnê comemorativa dos 50 anos da bossa nova, com extensão inversamente proporcional à badalação na imprensa.

Com a sabida raridade do concerto, a espera na ante-sala do auditório era tensa, numa mistura de ansiedade (“Será que ele vai atrasar muito?” ecoava) e a curiosa tietagem blasé típica dos fãs do artista, que o veneram sem perder a pose. Em meio a um público heterogêneo – que ia desde velhinhas de bengala a uma menina zangada, de tênis all star e um cabelo que poderia ser descrito como emo – celebridades aguardavam de pé, francamente esnobadas pelo restante dos espectadores: a impressão é que se o Papa resolvesse baixar por ali para curtir um banquinho e violão, ninguém se importaria em pedir a bênção, pois o objeto de adoração já estava bem definido.

A demora prevista pela bilheteira nem foi tão grande para os padrões gilbertianos, apenas uma horinha. E, mais impressionante, sua única reclamação durante toda a uma hora e meia de concerto foi em relação à imprensa, que dera exagerado destaque ao seu atraso do dia anterior. Verdadeiro milagre em se tratando do artista, muito comunicativo e declarando repetidas vezes seu amor por São Paulo.

Se nem os ouvidos folclóricos de João captaram falhas na acústica, o público de audição “comum” pôde se deliciar com a sutileza de suas interpretações: em momentos como “Ave Maria no Morro”, o violão e a voz de João Gilberto pareciam ser os únicos sons do mundo. De impressionar o mais cético em relação a seus talentos. Qualquer mínimo ruído do público – uma tampa de água com gás sendo aberta, um zíper de bolsa manuseado – soava como estrondo terrível. A mocinha ao meu lado que se rendeu à ousadia de sussurrar junto com o cantor os primeiros versos de “Chega de Saudade” levou uma bela cotovelada do namorado. E aceitou resignada, ciente de sua culpa.

Se o baiano ganhou fama por suas interpretações enormes, repetindo exaustivamente o mesmo tema com variações harmônicas e rítmicas, desta vez optou por um programa extenso, de 31 canções, cantando-as apenas uma ou duas vezes, mas sem prescindir da originalidade. No repertório, clássicos da bossa nova (“O Pato”, mereceu um “Tão bonitinho os patinhos na lagoa…”, como se fosse a primeira vez que prestasse atenção à letra), sambas antigos em versão minimalista e até uma canção inédita do bissexto compositor João Gilberto, em homenagem ao Japão. Também ficaram como provável última homenagem em vida a Dorival Caymmi, seu mestre conterrâneo que morreria horas depois, as sempre marcantes interpretações de “Doralice” e “Rosa Morena”, além de “Você Já Foi À Bahia?”, nunca registrada em disco por João, com elaborada reinvenção harmônica.

O público, ganho por antecedência, não se decepcionou e saiu maravilhado. Tom Jobim já compunha antes e continuou a escrever muito além do movimento; Vinicius, este então, teve carreira das mais ecléticas; a exposição na Oca do Parque Ibirapuera, logo ao lado, fez-se totalmente desnecessária: aquele homem aplaudido de pé, vivo, era a própria bossa nova.

apenas um comentário

  1. Marcela Ortolan on

    Lindo.


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