Conversas com Woody Allen expõe rara intimidade do diretor e consagra sua neurose
Os fãs de Woody Allen bem sabem o quão produtivo ele é: desde 1982, a cada temporada ele realiza pelo menos um longa-metragem. Porém, o fim de ano no Brasil pode ser considerado excepcionalmente farto de material sobre o diretor, mesmo para os mais acostumados à sua prolificidade. Seu mais recente filme, Vicky Cristina Barcelona, indicado para quatro prêmios Globo de Ouro e ainda em cartaz no país, já arrecadou mais de um milhão e meio de dólares apenas em terras brasileiras, o recorde de Allen por estas plagas; quatro de seus títulos antigos (Bananas, Memórias, Broadway Danny Rose e A Era do Rádio), até agora inéditos em dvd, estão sendo lançados com alarde de marketing; como se não bastasse, a Cosac Naify coloca no mercado Conversas com Woody Allen, compilação organizada pelo jornalista norte-americano Eric Lax.
Um livro de entrevistas não é a idéia mais original do mundo, mas o perfil esquivo do entrevistado traz interesse extra ao trabalho: Allen não vai à cerimônia do Oscar (nem quando há prêmios a receber); tem horror a discursos, festas e badalações em geral; não permite que na transposição de suas películas para dvd haja extras, pois “no próprio filme está tudo o que queria dizer”; recusa-se a entregar seus roteiros para os atores contratados, só lhes revelando suas falas específicas; jamais conversa com seu elenco, a ponto de Meryl Streep ter dito, cheia de ressentimento, após trabalhar em Manhattan, “Eu acho que Woody Allen nem sequer se lembra de mim”.
Com uma personalidade tão arredia, é um feito e tanto ter-lhe arrancado quase 500 (!) páginas de entrevistas que, garante Lax, foram transcritas integralmente na publicação, abrangendo conversas com o diretor num período de 36 anos (de 1971 a 2007). Em toda a carreira do cineasta, o jornalista foi realmente dos pouquíssimos a lhe conquistar a confiança, chegando a acompanhá-lo em locações e salas de montagem. Este livro vem complementar seu já tradicional trabalho sobre Allen, que passa por duas biografias (lançadas em 1975 e 1991).
Embora contenha diversos trechos copiados das biografias anteriores, perdendo a atração do ineditismo, e não possa ser considerado um perfil definitivo (afinal, Woody continua com uma produtividade sem par no cinema norte-americano), Conversas com Woody Allen, em seu tamanho imponente e edição bem-acabada, é uma tour de force jornalística, servindo como fonte única para entender o processo de criação do diretor. Ademais, é interessante reconhecer a persona neurótica dos filmes em suas falas como entrevistado, mesmo que a negação da correspondência personagem/autor seja repetida por Woody enfaticamente ao longo do livro.
As entrevistas não estão dispostas em ordem cronológica, mas em curiosa divisão por capítulos temáticos que correspondem às etapas de elaboração de um filme (“A idéia”; “Escrever”; “Casting, atores, atuação”; “Filmagens, sets, locações”; “Direção”; “Montagem”; “Trilha sonora” e um capítulo adicional de balanço da obra intitulado “A carreira”).
A edição inusitada acaba contribuindo para a fluência da leitura e para um mergulho nos métodos do autor. Afinal, o texto atende fartamente aos interessados em pormenores técnicos do cinema, com o diretor esmiuçando suas criações em plena autoridade: Allen, além de escrever, dirigir e não raro atuar, tem autonomia total em seus filmes, dando a última palavra desde a seleção de atores até a fotografia e edição final – sua independência em relação aos estúdios é algo raríssimo no cinema norte-americano.
Para além da parte tecnicista, porém, o livro também entra em meandros que fazem a delícia dos fãs: com sua rabugice típica, Allen passeia descompromissadamente por assuntos como religião, política, artes e fobias, aproveitando para apontar seus filmes favoritos, dos outros e dele mesmo (a saber, Ponto final, A rosa púrpura do Cairo e Maridos e esposas, embora relute em demonstrar apreço por quaisquer de seus títulos). Os que esperam detalhes escabrosos de sua vida pessoal, no entanto, hão de sair decepcionados: sua escandalosa separação de Mia Farrow é ignorada sumariamente.
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A palavra “legado” tem a pompa fácil e adequada para laudatórios superficiais – um prato cheio para o humor de Woody Allen, que no livro reflete sarcasticamente sobre a utilidade de legar algo quando já se está morto. É inevitável, no entanto, quando se o percebe como cineasta crucial da segunda metade do século XX, especular sobre as razões de sua permanência.
A questão ampla não permite respostas peremptórias. Um dos caminhos possíveis, e a leitura de Conversas com Woody Allen reforça essa impressão, é apontar o valor de sua influência como resultado direto do momento em que assumiu e desenvolveu sua linguagem da neurose.
Mais especificamente, a partir da linguagem apresentada em Annie Hall, de 1977, e estabelecida em Manhattan, de 1979. Woody pode ter outros preferidos, mas é inegável perceber esses dois filmes como as pedras fundamentais de todo o seu trabalho posterior: se é verdade que apresentou obras com maior apuro técnico, estas já não contavam com a prerrogativa da novidade.
Annie Hall, quadruplamente oscarizado, foi conscientemente um turning point, a primeira aparição do personagem clássico de Woody Allen: o homem urbano, intelectual, cônscio de seus problemas relacionados à vida moderna, que o atrapalham em seus relacionamentos, mas contra os quais não consegue lutar. Além da questão temática, também foi inaugurada uma série de procedimentos-padrão: o primeiro filme locado em Nova Iorque, o primeiro com a marca registrada dos letreiros brancos em fundo negro, o primeiro a soar tão autobiográfico – o personagem de Woody, Alvy Singer, é um comediante, e Annie Hall é uma corruptela de Diane Hall Keaton, atriz protagonista que realmente se envolveu com o diretor.
A grande sacada foi se apropriar do humor judaico, cuja premissa básica é saber rir de si mesmo, já trabalhada em cinema pelos seus ídolos Irmãos Marx, e expô-la de maneira direta e sem adornos: Woody dispensou bigodes falsos, andares esquisitos, charutos, chapéus e roupas excêntricas, à moda de Groucho ou Chaplin, e se apresentou às câmeras, como personagem, com linguagem, ambientação, angústias, veleidades e visual idênticos aos de si mesmo. Daí não mais interessa, como sempre faz questão de afirmar, que os fatos apresentados não sejam autobiográficos: estava feita a ponte do humor judaico para o humor urbano neurótico, num estilo inovador.
Manhattan, após o intervalo de Interiores, um drama bergmaniano que, sem juízo de valor, fracassou comercialmente, repetiu o padrão de Annie Hall, tendo como protagonista um personagem, Isaac Davis, que poderia muito bem ser novamente Alvy Singer. Longe, porém, de ser visto como repetição estéril, Manhattan firmou um estilo, acrescentando-lhe importantes elementos (notoriamente a metrópole como protagonista viva e a música jazz como ressaltante recorrente de emoções). Mais pragmaticamente, devolveu-lhe os espectadores perdidos na incursão dramática.
Estava definido o que o público esperaria de Woody Allen e, talvez à sua revelia, o desenvolvimento de sua obra posterior. Mesmo quando não atuou em seus filmes, ou até quando finalmente atingiu sucesso comercial e crítico com um drama, em Ponto final, de 2005, foi explorando conflitos neuróticos que foi bem-sucedido. Possivelmente seja essa a maior estranheza do público em relação a Interiores, Setembro e A Outra: mais do que lhes privar do humor, esses dramas são ensaios frios sobre a condição humana, enquanto Ponto final, apesar da trama trágica, tem como protagonista um assassino neurótico e angustiado em uma grande cidade, atrapalhado ao ponto de o desfecho resvalar no humor negro, o que pode ser uma explicação para o sucesso surpreendente do trabalho – não desprezando os encantos de Scarlett Johansson, femme fatale perfeita para a exploração da indústria, embora com limitações dramáticas.
Cabe aqui entrar um pouco em Vicky Cristina Barcelona, recente demais para ser debatido em Conversas com Woody Allen: com elenco ainda mais estrelado do que o de Ponto Final (além de Scarlett, há os almodovarianos Javier Bardem e Penélope Cruz), houve sucesso comercial semelhante e sucesso artístico mais profundo – a despeito do que o próprio Allen possa pensar.
Neste novo século, o diretor vinha alternando comédias ligeiras (Dirigindo no Escuro, Scoop) e dramas pesados, à moda européia (Ponto Final, O Sonho de Cassandra), além do caso singular de usar os dois gêneros em um único filme sem misturá-los (Melinda e Melinda).
Tratados os estilos como estanques, não se obtinha o potencial máximo do cineasta: no padrão estabelecido em Annie Hall e Manhattan, seus maiores clássicos, o que há são filmes de difícil classificação, comédias românticas tristes (?), comédias dramáticas (??). Se há algo que Allen provou, e fez disso seu maior legado – a palavra! – ao cinema, é a possibilidade de se unirem a leveza da linguagem cômica e a profundidade reflexiva do drama. Vicky Cristina Barcelona retoma essa linha com louvor, retratando, numa visão muito pessimista, em que nem o convencionalismo nem a liberdade sexual trazem satisfação, a dificuldade da realização amorosa. Ainda assim, tem o poder de arrancar risos da desgraçada condição humana.
Só é irônico observar que, notoriamente avesso ao sistema hollywoodiano, reconhecido pelo cinema de autor e tido como artista sofisticado, Woody tenha sua influência mais perceptível em produtos da cultura de massa: nas séries de TV (as chamadas sitcoms, desde Seinfeld até um exemplo caseiro como Os normais) e nas comédias românticas (vide Harry & Sally, um Annie Hall pediátrico) é que se vê o quanto o universo alleniano pode se incorporar como clichê – e se isso não é lisonjeiro, ao menos é prova de popularidade.
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Evidente, Conversas com Woody Allen não vai converter os que sempre se aborrecem com os tiques e manias do diretor, celebrizados na tela e confirmados em livro; aos que se interessam por seu trabalho, porém, tomar fôlego e encarar as 500 páginas vale a pena. Se a neurose é chave fundamental para entender o cinema de Woody Allen, nada mais adequado do que o trabalho obsessivo de um jornalista que passou mais de metade da vida biografando e rebiografando um mesmo artista, observando angústias pouco alteradas ao longo de tantos anos. A neurastenia necessária para uma leitura tão extensa com temas sempre recorrentes é pequena paga.
5 comentários até agora
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Gostei. Pena que o jornal não aproveitou o texto todo. Obrigada por dividir!
Final de ano, hora de voltar a Woody Allen.
Seria Woody Allen o teu Papai Noel?
Um abraço
ps.: um livro dele este ano, Sem Plumas, não lembro se já havia comentado contigo. Puro non sense. Bom!
Saiu em DVD o primeiro filme dele..
aquele What´s up little tiger!…
Talvez o Gazzoni não curta este texto. hehehe
Quantos mil Reais custa o livro em comento?
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