Posts de Agosto, 2009|Página de posts mensais
I
Minha namorada se chama Julia e não só por ela ser minha namorada como por se chamar Julia devo declarar meu amor. Amo-a em cada letra do seu nome e em cada gesto de namorada.
Julia. Não é bonito? E ela merece o nome – mais do que isso, define-o e o eleva a uma condição nunca antes alcançada e à qual jamais novamente há de se chegar. Tal como o número das camisas de jogadores importantes, seu nome deveria ser aposentado depois de sua passagem pela Terra, para não desonrá-lo. Ah, mas me esqueço aqui que não haverá Terra depois de sua passagem. O mundo vai se acabar.
Julia seria o nome de minha irmã, caso fosse mulher o Fábio, meu irmãozinho nascido em setembro de 1993. Quando minha mãe estava grávida de minha pessoa, decidiram ela e meu pai – eu não pude dar palpites por barreiras de língua – que, fosse menino, o filho deles se chamaria André (eis-me aqui); fosse menina, chamar-se-ia Marília. Para o nascimento do filho mais novo, no entanto, já estive presente e fiz valer minha obstinada opinião: não aceitava Marília como irmã, seria Julia e pronto. Surpreendentemente, acataram meu voto. Julia se impõe de maneira firme, ainda que suave.
Bem, não houve Julia irmã. Mas houve Julia namorada, anos e anos depois. Acho que já ansiava pela entrada de Julia em minha vida, previa-a, queria antecipá-la. Tanto é que agora até acho Marília um nome bonito, perfeitamente aceitável para uma irmã. Mas entendo minha obsessão de outrora: quando se pode optar, não há outro possível nome de mulher. Julia sobra. Valeu a pena esperar.
E ainda a espero a cada dia, na esperança doce de quando se sabe que à espera vem a chegada. E ela sempre me vem inteira, mesmo quando se dá aos pedaços; sempre radiante, mesmo quando chora; sempre clara, mesmo quando revela suas dúvidas.
Ah, a Julia me ama, e como é bom poder dizê-lo com total segurança, sem necessidade de afetar um tom pretensioso ou cabotino – nem é o caso de me orgulhar disso, não há sentido em se orgulhar do que é certo e natural: não me orgulho de ter nascido, embora seja bom que tenha me agraciado esse acaso.
Não fiz nada para ganhar o amor da Julia. Por isso a amo, eu a amo, eu te amo, eu amo você. Por me permitir me ser. Errado, teimoso, temperamental – e amado. Poderia ser melhor? E como eu a poderia não amar, sendo você Julia, em tudo que isso abrange? Criança do oceano, as Lennon said. Sincera companheira. Estrela da terra.
Julia pode insistir mil vezes – nunca se repete; Julia é hoje de beleza insuperável – amanhã há de estar mais bonita; Julia faz aniversário uma vez por ano – nasce a cada dia.
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