I
Minha namorada se chama Julia e não só por ela ser minha namorada como por se chamar Julia devo declarar meu amor. Amo-a em cada letra do seu nome e em cada gesto de namorada.
Julia. Não é bonito? E ela merece o nome – mais do que isso, define-o e o eleva a uma condição nunca antes alcançada e à qual jamais novamente há de se chegar. Tal como o número das camisas de jogadores importantes, seu nome deveria ser aposentado depois de sua passagem pela Terra, para não desonrá-lo. Ah, mas me esqueço aqui que não haverá Terra depois de sua passagem. O mundo vai se acabar.
Julia seria o nome de minha irmã, caso fosse mulher o Fábio, meu irmãozinho nascido em setembro de 1993. Quando minha mãe estava grávida de minha pessoa, decidiram ela e meu pai – eu não pude dar palpites por barreiras de língua – que, fosse menino, o filho deles se chamaria André (eis-me aqui); fosse menina, chamar-se-ia Marília. Para o nascimento do filho mais novo, no entanto, já estive presente e fiz valer minha obstinada opinião: não aceitava Marília como irmã, seria Julia e pronto. Surpreendentemente, acataram meu voto. Julia se impõe de maneira firme, ainda que suave.
Bem, não houve Julia irmã. Mas houve Julia namorada, anos e anos depois. Acho que já ansiava pela entrada de Julia em minha vida, previa-a, queria antecipá-la. Tanto é que agora até acho Marília um nome bonito, perfeitamente aceitável para uma irmã. Mas entendo minha obsessão de outrora: quando se pode optar, não há outro possível nome de mulher. Julia sobra. Valeu a pena esperar.
E ainda a espero a cada dia, na esperança doce de quando se sabe que à espera vem a chegada. E ela sempre me vem inteira, mesmo quando se dá aos pedaços; sempre radiante, mesmo quando chora; sempre clara, mesmo quando revela suas dúvidas.
Ah, a Julia me ama, e como é bom poder dizê-lo com total segurança, sem necessidade de afetar um tom pretensioso ou cabotino – nem é o caso de me orgulhar disso, não há sentido em se orgulhar do que é certo e natural: não me orgulho de ter nascido, embora seja bom que tenha me agraciado esse acaso.
Não fiz nada para ganhar o amor da Julia. Por isso a amo, eu a amo, eu te amo, eu amo você. Por me permitir me ser. Errado, teimoso, temperamental – e amado. Poderia ser melhor? E como eu a poderia não amar, sendo você Julia, em tudo que isso abrange? Criança do oceano, as Lennon said. Sincera companheira. Estrela da terra.
Julia pode insistir mil vezes – nunca se repete; Julia é hoje de beleza insuperável – amanhã há de estar mais bonita; Julia faz aniversário uma vez por ano – nasce a cada dia.
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Não tenho palavras para descrever o quão feliz me deixou. Ah, você sabe.
Também te amo muito.
“…seu nome deveria ser aposentado depois de sua passagem pela Terra, para não desonrá-lo. Ah, mas me esqueço aqui que não haverá Terra depois de sua passagem.”
Lindo!! Uma perfeita declaração de amor, que conseguiu ser mais elegante que ridicula – e Fernando Pessoa (foi ele?) que me perdoe… – cheia de uma inteligencia cheia de graça.
Julia, um feliz aniversário para o que é anual, e uma vida cheia de amor, para o que é cotidiano…
Um grande abraço
a ambos
Obrigada, Marcela!
Tudo de bom para você também…
Abraços.
Adoráveis exageros com os quais tenho que concordar.
Nada de “julias” pós nossa querida Julia.
Ótima crônica André! E os mais sinceros parabéns, minha amiga!
Me deu na lembrança agora aquele seu ademais do ademais, e eu digitei no google pra ver se existe registro: existem 3, dois seus, que aliás são um mesmo. O outro cara acho que escreveu lá pra 2006, então acho que foi alguma influência dos astros ou da eletrostática. De qualquer forma, parabéns pela invenção, que ainda espero ser útil para mim. Dê meus parabéns ao Danilo, “aliás do aliás”, pela citação do João Bosco na coluna dele no Jornal, que foi mais original que aqueles ditados do biscoitinho da sorte que saem na Folha, ou sei lá onde.
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