Aventura n°27

Nunca espero mais do que seis toques de chamada ao telefone. Se o cara não disser “alô” depois disso, ou não está a fim ou não pode me atender – ambas me parecem razões justas para parar com a pentelhação. O número de tolerância (seis toques) eu aprendi num programa da Angélica: ela ligava prum camarada e se depois dessa espera ele não desse o ar da graça, perdia um prêmio qualquer. Falem o que for da Angélica, mas aqui ela demonstrou um senso de equilíbrio e ponderação perfeitos, praticamente sabedoria oriental: seis toques é o justo. Findos os seis toques – juro para vocês – desisto de telefonar. Mas às vezes é preciso encontrar a pessoa, de um jeito ou de outro. Infelizmente, era esse o caso – e eu não desistiria assim tão cedo.

Perguntei pra Julia se topava a missão, ela achou divertido e quis ir comigo. Fomos então para aquele fim de mundo onde o desgraçado devia ter se enfiado, já que parecia não estar em casa. Chegamos lá já anoitecia, eu estava mais chato do que o habitual, cansado, puto – e não havia uma campainha para tocar.

Qual é, por Deus, a dificuldade de se colocar uma campainha numa casa? E, podem reparar, as pessoas que não adotam esse tão prosaico mecanismo são aquelas que já moram longe da civilização. Por que não vão viver na Groelândia duma vez?

Pode haver coisa mais embaraçosa do que, em pleno século XXI, prostar-se em frente a um portão, bater palminhas e bradar algo como “Ô de casa!”? É como ser teletransportado ao Sítio do Picapau Amarelo. A Julia reprovou meu constrangimento, atribuiu-o ao fato de eu sempre ter morado em apartamentos e se pôs ela mesma a fazer as honras. Daí fiquei constrangido por razão diversa, precisar de auxílio para fazer “ô de casa”, que inaptidão completa. Até pensei em, orgulhoso, voltar ao ataque, mas a Julia é tão graciosa, até o “ô de casa” dela tem todo um charme, então a deixei trabalhando enquanto admirava sua tentativa.

Inglória tentativa, devo dizer. Quinze berrados minutos depois, parecia evidente que estávamos sozinhos.

Mas habitada ou sem vivalma, aquela casa guardava o meu objeto de desejo. O idiota que se danasse, eu só queria o que a mim pertencia – e eu sabia, tinha a estranha convicção de que só podia estar lá. Era urgente.

Arrombar o portão foi fácil, mesmo para a dupla de leigos. Entramos, abrimos gavetas, reviramos estantes, deslocamos móveis, descobrimos passagens secretas – mas finalmente achamos, escondida atrás de um quadro, a receita de pudim de caramelo da minha avó.

Dormi bem.

apenas um comentário

  1. Julia on

    :D


Leave a reply