Das chuvas em Londrina

Chove em Londrina. Chove muito. Chove tanto que é quase um convite à propagação do velho lugar-comum “está desabando o mundo”. Vendo o espetáculo dantesco – e lá se foi outro clichê – de árvores caídas, ruas interditadas, casas destelhadas e postes derrubados com fios de tensão dançando temerariamente, parece mesmo que desse jeito a Terra não dura muito.

Ainda assim, não é um, nem são dois, nem três que vejo pelas ruas, quando a tempestade dá um tempo, contemplando com fascínio os estragos. É muita gente maravilhada com a desgraça. Alguns mais empolgados tiram fotos e ressoam interjeições entusiásticas.

Prefiro me distanciar, acho tudo isso meio tétrico. Tá certo, há o encanto ancestral do homem pelos espetáculos da natureza, dá pra entender. Mas quando a coisa adquire essas proporções ameaçadoras, acho mais prudente certo retraimento respeitoso ante o imponderável, ante o Mistério. Não é coisa para se brincar.

O Mistério. Os meteorologistas podem vir com mil explicações, camada de ar frio, camada de ar quente, alteração brusca de temperatura, mudança climática pelo aquecimento global, sei lá mais o quê. Para nós, pobres mortais que não distinguimos cirros, cúmulos e nimbos, não é tudo uma grande força misteriosa?

Eu por mim, mesmo sendo homem de pouca fé – ou talvez justamente por isso – morro de medo de chuvas que se adequam à expressão “proporções bíblicas”. Lembro-me logo de Noé, dilúvio, castigo, necessidade de reconstrução do mundo…

E nestes tempos amargos é quase consenso que uma reconstruçãozinha do planeta não seria de todo mau, não é verdade? No caso particular de Londrina, então, haja vista consecutivos resultados eleitorais controversos, uma intervenção divina aplicada com parcimônia viria bem a calhar.

Mas por ora é só neurose, não há nenhuma punição dos céus. Existe é uma fatalidade da Natureza que, como tal e pelos prejuízos que vem causando, exige certa reverência que às vezes é esquecida.

Afora isso, não posso me queixar. O único castigo a que fui submetido foi ter de subir, pela consequente falta de luz no prédio onde moro, dolorosos onze lances de escada. Levando em consideração os quilogramas a mais acumulados ao longo da vida, chega a ser ajuda providencial.

apenas um comentário

  1. Julia on

    Excelente!
    Como sempre…


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