Sofia

“Tirando as produções do Bob Fosse, que foram um suspiro de originalidade, os musicais se estagnaram no fim dos anos 50. É um gênero esgotado no cinema. West Side Story foi o último grande musical.”

Nunca fomos apresentados formalmente, nem sequer nos falamos – duas frases truncadas pelo telefone não devem mesmo ser levadas em consideração. Nós nos encontramos, olhares nervosos que se cruzam e fogem rapidamente. É tão estúpido. Eu sei quem você é. Você sabe quem eu sou. Eu sei que você sabe quem eu sou, você sabe que eu sei quem você é. No entanto, nada, nenhuma forma de comunicação direta. Não sei se para você tudo bem assim, mas eu tenho uma enorme curiosidade sobre sua pessoa. Enorme. Gosto de fantasiar que você gostaria de me conhecer também.

Mas isso provavelmente não acontecerá. Duvido. Permaneceremos como perfeitos desconhecidos, ainda que distinguíveis, identificáveis no meio da multidão.

E da próxima vez que eu a vir, falarei alto novamente – doendo de remorso ao relembrar a cena, no dia seguinte; na verdade, no momento preciso em que instalo o teatro já estou arrependido, tenho noção do ridículo. Mas é inevitável prosseguir. E começo a contar piadas inteligentes, faço referências a artistas dos quais sei que você gosta, cito amigos em comum. Tudo para ser impossível não chamar sua atenção.

E o efeito é duplamente inútil: primeiro porque sei que você me nota sem eu precisar fazer nada especial; segundo porque, tendo sua atenção desperta, não farei nada com ela. Acho que só quero parecer espirituoso, fazer você pensar “como pode, ele é tão melhor do que o outro”. Ou então só tentar fazer comum esse desejo de descobrir, de desvendar.

Embora eu talvez prefira manter sua imagem nessa atmosfera fantasiosa. A coisa toda atingiu um grau de idealização tão absurdamente alto que decepcionar-me seria inevitável se viéssemos de fato a travar relações. E é incrível eu perder tanto tempo nesse fetiche, alguém por quem nem me sinto atraído fisicamente. Temos um ódio em comum, basta.

Eu sei coisas de você. Das suas angústias, suas relações familiares conturbadas, sua sexualidade ambígua, da sua cantoria, seus gritos e sua tendência a quebrar objetos de madrugada.

“Ainda hei de escrever um romance cuja primeira frase será ‘Era uma casa muito engraçada – embora tivesse teto e tudo o mais’”.

2 comentários até agora

  1. cindyoko on

    rocky horror picture show é um excelente musical

  2. Umas Palavras on

    E que casa engraçada…


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