De preconceitos

Admito que tenho uma postura preconceituosa quando alguém vem me falar de preconceitos. Se o sujeito pronuncia a palavra destacando a primeira sílaba, com um “e” aberto, achando-se muito esperto porque conseguiu identificar um prefixo, nem ouço o que tem a dizer – terrível intolerância de minha parte, pode ser que o cara, apesar do idiotismo linguístico, guardasse algo interessante a expor (é ainda pior quando o préconceito vem marcado por aspas feitas pelos dedos).

Mas mesmo quando o papo versa sobre “preconceito”, articulado direitinho, ainda assim me encho de resguardos, postura meio cética quanto ao que vem a seguir. Primeiro, porque se costuma falar da coisa como se fosse algo que pudesse ser evitado, quando simplesmente não é. Se você vai a um restaurante, olha para uma carne asquerosa, uma lasanha grudenta, um feijão rançoso e deduz, baseando-se apenas no aspecto visual, que a comida não deve ser lá muito saborosa e talvez tenha lhe faltado a assepsia recomendável para o preparo adequado, está cometendo um ato preconceituoso que o levará a evitar o estabelecimento. E arrisco a dizer que é um preconceito salutar, instinto de sobrevivência que levou à evolução das espécies.

Depois, há o erro complementar de achar que em se eliminando os preconceitos desapareceriam todas as mazelas da humanidade. O preconceito como inimigo número um. Preconceito contra os homossexuais, preconceito contra os índios, contra os negros, contra as empregadas domésticas, contra os vegetarianos, contra os fãs de Paulo Coelho. O problema aqui não é o preconceito que, quando muito, é sintoma, consequência de uma questão muito maior – nunca a causa.

Peguemos os homossexuais como exemplo. Afirmar que os gays são sensíveis, bem-vestidos, inteligentes, sofisticados, argutos e compreendem a alma feminina é tão preconceituoso quanto responsabilizá-los pela proliferação da AIDS, declarar que são todos promíscuos e julgá-los más companhias para os filhos.

Deve ter muita bicha tosca por aí. Mas o Luiz Mott não vai comandar nenhuma passeata exigindo o fim da associação, disseminada nos mais vários meios comunicativos, entre o homossexualismo, ops, homossexualidade e a inclinação artística. Donde se vê que o alvo não são todos os preconceitos, de modo geral: são alguns, determinados. Quais?

Embora os próprios homossexuais – e os negros, os índios, as empregadas domésticas, qualquer minoria – possam muitas vezes não se dar conta, a desgraça a se temer não vem do preconceito, essa palavra meio afetada, em moda, de significação vaga. O negócio é mais simples e direto. O fantasma está no velho medo de ficar sozinho, de não ser compreendido, de ser rejeitado.

3 comentários até agora

  1. Fernanda Gabriela on

    acho que o “pré-conceito” é para lembrar que essa palavra tão repetida tem algum sentido.
    mas do preconceito deriva os estereótipos, estigmas… esses sim são os pontos críticos. a cor, a sexualidade, a diferença defini todo o resto que caracteriza um ser.

  2. fofaun on

    sempre que falam em emprega domestica, não consigo fugir, me vem a música…

    Deixe essa vergonha de lado! Pois nada disso tem valor
    Por você ser uma simples empregada /não vai modificar o meu amor…
    heheheh

    texto foda… gostei!!!

  3. Umas Palavras on

    O pré está no antes. No julgar antecipado. Por si, se define, como lamentável…


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