Ódio e ignorância
Não é raro topar por aí com alguém que se denomine antiamericano – ou antiestadunidense, como querem os mais radicais dos antiamericanos. Embora eu mesmo não seja antiamericano, nem concorde com os motivos apontados por essa turma, é perfeitamente possível entender de onde vem o ódio que leva a esse sentimento.
(Já com os argentinos a coisa é distinta, não sei por que diabos espezinhar tanto os hermanos, é tudo por causa do futebol? Tendo a atribuir esse negócio de ódio mortal a certo despeito, fácil de verificar nos habitantes de lugares menores em relação aos moradores de praças mais desenvolvidas: assim, brasileiros volta e meia detratamos os americanos quando estes mal sabem nosso lugar no mundo, londrinenses adoramos falar mal de Curitiba enquanto lá se tem uma vaga noção do que seja Londrina, etc. Não é normal perder tempo chutando algo considerado mais baixo. Donde o horror à Argentina, estatisticamente inferior ao Brasil em aspectos econômicos, é, além de injustificável, estranho.)
A política externa dos Estados Unidos, apelando para o belicismo no mais das vezes, com constantes decisões arbitrárias de que se valem os povos dominantes, surge como a causa mais óbvia para despertar essa grande raiva. Ademais, quando se vê tanta gente sem o menor senso crítico, sem contestar nada, sem indagar nada, tomando como dogma a verdade transitória da indústria, elegendo como meta para a felicidade o acúmulo de bens de consumo, recusando patê feito em casa porque só come patê industrializado (história verídica), é fácil atribuir a culpa da desgraça ao maior país do mundo.
Não é o caso de odiar toda uma nação por conta disso, e essa atribuição de culpas está longe de ser simples assim. Mas de qualquer modo são razões, justas ou injustas, para certa antipatia.
Daí a afirmar que o máximo de cultura produzida pelos norte-americanos foi o catchup e a goma de mascar vai uma longa distância. E só se justifica pela ignorância, ou esquecimento, da originalidade inegável de figuras como Arthur Miller, Ernest Hemingway, Tennessee Williams, Orson Welles, Walt Whitman, Woody Allen, George Gershwin, Cole Porter, Fred Astaire, Frank Sinatra, Andy Warhol, Chet Baker, Groucho Marx, Bob Dylan, Brian Wilson – e Michael Jackson. Para não falar nos nativos de outras terras que só nos Estados Unidos encontraram condições ideais para seu trabalho: Alfred Hitchcock e Albert Einstein, ficando só nos que lembro da letra “a”.
Ódio e ignorância sozinhos são uma doença. Juntos são metástases de um câncer terminal…