Meu filho
Afora o amor de Jesus Cristo, o amor dos pais em relação aos filhos – especialmente da mãe em relação aos filhos, sentimento este cujo ícone máximo é a mãe judia – costuma ser tido como o que há de mais puro e elevado.
Neste mundo em desgoverno, genocídios, estupros, esquartejamentos costumam despertar atenção apenas como mera curiosidade, ainda assim só quando envolvem números ou circunstâncias extraordinárias. Mesmo casos de filhos matando pais não duram muito tempo nas manchetes. Agora, quando são pais assassinando suas crias, ainda temos tempo para o pasmo. Inacreditável. Como pôde? Que monstro! Uma coisa dessas não pertence à espécie humana – é comoção nacional certa.
Isso posto, é caso para um sociólogo, ou linguista, ou psicólogo, ou sei lá quem avaliar: como pode vir tanto desprezo da expressão “meu filho”, dita sobre certas circunstâncias?
São as mesmas duas palavras, mas o sentido não poderia ser mais distinto: há o “meu filho” da mãe que afaga a cabeça do menino que fez alguma cagada, ficou bêbado, sei lá, aquele “meu filho” cheio de perdão, de complacência; o “minha filha” do pai que conta de como a Isabela passou em primeiro no vestibular de arquitetura, ela é tão estudiosa, tanto orgulho; o “é isso aí, meu filho” exultante de quando a criança desastrada, depois de mil capotes, conseguiu finalmente andar de bicicleta; ou simplesmente o “meu filho” e, ato contínuo, um longo abraço depois de tanto tempo sem ver a mãe.
Por outro lado, há o “minha filha” da Dilma Rousseff quando se dirige à jornalista que só cumpria sua função de perguntar provocativamente, “você está confundindo uma coisa, minha filha, uma coisa é blecaute, outra é apagão”; o superior impaciente se dirigindo ao empregado, “eu já expliquei mil vezes, meu filho, será que você não consegue mesmo entender?”; qualquer “especialista” em qualquer coisa menosprezando alguém menos experiente, “ah, meu filho, você ainda há de estar em meu lugar, este dia há de chegar”.
Nesses casos, não há “filho da puta”, “imbecil”, “lixo humano”, “ser desprezível”, “fedelho ignorante de merda”. “Meu filho” é a expressão que guarda mais ódio e repulsa. Que coisa, não?
Filhos são uma espécie de quadro branco na qual pais tentam repetir hisórias eliminando frustrações… Balela!!!