Ao acaso

Esperando com tédio no ponto, resolvo acender um cigarro: é uma estratégia relativamente barata para o ônibus aparecer logo. Impressionante como, às primeiras tragadas, surge no horizonte o transporte, sempre o da linha desejada. O triste é ter de desperdiçar um cigarro. Como a demora já é grande, julgo ser um investimento válido. Além disso, não gasto muito dinheiro com o mau hábito, posso me dar a esse pequeno luxo.

Fumo pouco não por falta de gosto ou zelo com a saúde, mas por indisciplina. Ser um viciado exige compromisso e regularidade de horários aos quais não estou disposto. Comedidamente, porém, é uma prática prazerosa, ainda mais como agora, acrescida de outras funções. O cigarro tem dessas: além da satisfação rápida da nicotina, propicia algumas vantagens, para compensar as várias e propaladas desvantagens. Apressar a vinda do ônibus é apenas uma delas. Há, por exemplo, o benefício de quando se está sozinho num lugar como um bar; aquela sensação horrível de que todos os seres sociáveis estão observando jocosamente o desgarrado solitário é fortemente atenuada só pelo fato de o cigarro estar lá, entre os dedos.

Alheia aos meus devaneios e desavisada da eficácia do meu estratagema, a moça me pede fogo. Penso em alertá-la que as tragadas serão poucas, mas ela me tomaria por louco – o que não seria de todo injusto, mas, sem dúvida, desagradável. Mal me devolve o isqueiro, lá vem ele, óbvio, inevitável, o imponente coletivo azul.

Ela então me sorri, com gracioso desconsolo e cumplicidade.

Passo a observar melhor minha companheira de espera: bonita, sem dúvida. Fito-a de costas, enquanto sobe a escadinha. Está toda de preto, calça e blusa. Os sapatos de salto alto conseguem lhe conferir elegância sem afetação – eis uma mulher que sabe andar de salto, coisa cada vez mais rara. Conseguir, com naturalidade, subir de salto alto num ônibus é um feito.

Os cabelos, loiros, estão presos num rabo-de-cavalo. Não sou o tipo para o qual Os Homens Preferem As Loiras foi feito, mas esta me agrada. Novamente, a naturalidade me conquista, não é um loiro forjado ou reforçado, mas um tom evidentemente próprio – para mim, um purista em vários âmbitos, isso sempre conta pontos.

Provavelmente, é uma jovem vendedora com seu uniforme. Arrisco dizer de uma loja de roupas. E eu, que sempre tive fobia incontrolável a vendedoras de lojas de roupas, asfixiantes, todas elas. Esta tem em comum com suas colegas de profissão o ar altivo, mas lhe sobra doçura onde as outras são opressoras: adaptando a frase do poeta, a elegância não foi feita para humilhar ninguém.

Procuro um banco vazio qualquer e me acomodo. A moça não se senta ao meu lado, mas logo à frente. Já é um bom sinal. Com tantos lugares vazios, espontaneamente veio a um lugar próximo. Será que, por algum motivo remoto, ela simpatizou comigo? Seria compreensível, não sentou junto, para não dar muito na cara, mas evitou se afastar.

Quanta bobagem. Mas faz bem, é sempre uma distração. Encontros fortuitos com desconhecidos têm esse aspecto fascinante, pode-se idealizar à vontade, deixar a imaginação solta. Não lhe sei o jeito nem os gostos, tenho apenas meus palpites e impressões – talvez seja melhor assim, vai ver ela é uma bruxa.

Sem aviso nem razão, ela se vira; ao me ver novamente, novamente sorri. Um sorriso inequívoco, um sorriso simpático – o que está longe de ser uma redundância. Só pode ser provocação.

Qual será o nome dela? Nunca vou saber. De onde vem, para onde vai? Posso apenas supor. E certamente ela percebeu meu embaraço – estúpido que sou – ao ter me sorrido pela segunda vez. Deve estar com aquele tão típico ar de superioridade, maldita. Sou capaz de apostar que mesmo se eu pulasse em sua frente ela faria que não me viu. De qualquer forma, não há mais tempo para nada, desço no próximo ponto.

A moça se adianta e aperta a campainha – um arroubo de contentamento, bendita coincidência. Levantamo-nos praticamente no mesmo instante, mas, como era de se esperar, sou francamente esnobado. Não importa. Deixo-a ir à frente e sigo imprudentemente (quase indecentemente) próximo.

Com alegria canalha, penso que tenho uma visão privilegiada. Belo corpo, um andar cadenciado, sedutor. Posso ouvir-lhe a respiração. Ela sabe que a busco, talvez goste disso; mais provável que tenha medo. Gosto de me imaginar com esse poder.

Dobro a esquina para tomar a rua de minha casa. A moça segue andando, sempre em frente, até se perder no horizonte.

Das projeções para o futuro

É uma prática gostosa e comum, ao ver filmes de ficção científica, perder-se em devaneios sobre como será o futuro – se muito diferente da atualidade ou apenas uma variação do nosso trivial cotidiano.

Há basicamente duas tendências nesses filmes (ou romances, peças de teatro, seja o que for do gênero): uma, idílica, aponta que, graças às novidades tecnológicas, teremos facilidades mil, a vida será cheia de engenhocas para nos entreter e evitar o fardo do trabalho; a outra, apocalíptica, prevê que os mesmos brinquedinhos serão responsáveis pela reificação da humanidade. A máquina escravizando o homem em vez de servir a ele, os sentimentos embotados em bytes e chips, esse tipo de retórica de vaga herança marxista.

Sinceramente, fico no meio do caminho: não creio que as máquinas serão a causa da miséria crescente da humanidade – mesmo sem elas, teríamos estupidez suficiente para garantir um futuro desgraçado.

Ao apontar-se o excesso de tecnologia como criador de mazelas muitas e várias, comete-se um erro muito comum: toma-se a conseqüência pela causa. O fato de máquinas estarem cada vez mais usurpando o trabalho humano; a tristeza de ver relacionamentos verdadeiros sendo substituídos por babaquices virtuais – tudo isso é índice inequívoco da degradação dos valores da sociedade, jamais a origem do estado em que estamos.

Adotando uma histérica postura de caça às bruxas (conservadora e estúpida, como toda patrulha ideológica é), mandando queimar computadores, substituindo a calculadora pelo ábaco, revogando a eletricidade – não é esse o modo de se tornar as coisas melhores. A humanidade já vinha em descaminho antes da era da Internet, agora só há novas formas de demonstrar sua perdição.

Por outro lado, há um certo romantismo em mim que aprecia coisas antigas, mesmo as de um tempo em que não vivi: gosto de surpreender amigos (principalmente amigas, devo admitir) enviando cartas pelo correio; não me desfiz de meus discos de vinil (e ainda roubei alguns de meus pais); considero o vídeo-cassete uma ferramenta essencial para a boa formação cultural. Esse gosto por velharias, no entanto, é mais um apreço estético do que uma opção ideológica: não acho que estou salvando a humanidade preferindo Beatles e Beach Boys a Franz Ferdinand e Strokes.

Meu pessimismo congênito (e depois incentivado pela vida afora) não me permite falar de um futuro alvissareiro e florido. A miséria, a desigualdade social, o egoísmo dos homens – todas esses lugares-comuns do ativismo social são de fato perturbadores e não vejo perspectiva próxima para uma mudança positiva. Contudo, se por um acaso que espero, mas não acredito, houver um jeito de encaminharmos, enfim, nossa raça, não será preciso prescindir da tecnologia para fazê-lo. A máquina pode estar a serviço do homem – se o êxito nesse âmbito até agora tem sido duvidoso, a culpa é do criador, não da criatura.

Eu, em cômodo equilíbrio, permito-me ouvir um vinil de Dolores Duran enquanto escrevo estas linhas usando a digitação em vez da datilografia – embora, dado o estado deste meu computador, talvez fosse melhor voltar à máquina de escrever.

Diálogo Improvável

– Não acredito!

− Putz! Quanto tempo!

(abraço fraternal) − Sumidaço, hein rapaz?

− Tenho andado meio ocupado mesmo…

− Ocupado? Ouvi dizer que cê agora só tá saindo com bem-nascido, com uma turminha de gente alinhada, não quer mais saber da.

− Que é isso, cê tá delirando, nem brinca com essas coisas. Não sou de trair o movimento não, não viro burguesinho do dia pra noite.

− Ainda bem. Sabia que era intriga da oposição, cara. Tem que ter atitude, sem ficar se preocupando com roupinha e perfuminho pra sair. Tava achando estranho esse negócio de você andar com essa gente fechada, cê que sempre foi da galera.

− Besteira. Não sei onde cê ouve essas coisas. É que sabe como é a vida, muito trabalho. Mas quando saio, faço questão de ir no lugar mais vagabundo e nojento possível, porque sei que lá que rola uma vivência. E já que você falou, só pra relembrar os velhos tempos, vamo dar uma passada no Joelho’s hoje?

− Que horas?

− Tem que ser cedo. Lá pelas sete e pouco.

− Não dá.

− Por quê?

(tosse seca) – Essa hora eu volto do analista.

(sorriso maligno) − Ué, cola direto de lá pro Joelho’s.

(segredando) − Não rola ir com a mesma roupa direto do analista pra lá, né? Pega mal. Imagina, eu chegando de carro, com pinta de quem chega do analista? Não quero que pensem mal de mim, quando a verdade é que.

− Relaxa. Também já passei por isso. Só separa uma camiseta do Che Guevara e coloca em cima da hora. Mas não esquece de deixar o carro na esquina e chegar a pé. Não tem importância se você atrasar um pouco, também. Apesar de estar atolado de trabalho, eu agüento por um velho amigo.

(aliviado) − Então beleza. Vou aproveitar e levar a minha mina. Aliás, vou levar a irmã dela também, gente finíssima, (sorriso canalha) e adora você.

(pasmo) − Como assim?

− Falei de você pra ela. Ela pirou quando soube daquele seu projeto aprovado pelo PROMIC, de fazer um livro sobre a influência da arquitetura egípcia nos Cinco Conjuntos. A mina é cabeça, admira essas coisas. Pena que não deu pra terminar o projeto este ano, né?

(subitamente nervoso) − Pois é. Eu me esforcei. Trabalhei sim. Mas ainda não deu pra levantar alguns pontos. A pesquisa faltou que.

− Sossega. Certeza que vão reconhecer sua bagagem cultural. Entra de novo no edital deste ano e arranja mais uma verbinha pra poder terminar com calma.

− É, já tô vendo isso. Tenho fé que eles serão camarad. Quer dizer, justos. Mas me conta, essa irmã da sua mina é inteligente mesmo?

− Nem brinca. Pra você ter noção, ela usa óculos de armação grossa e já viu três filmes do David Lynch. Melhor você arranjar umas citações pra impressionar.

(assustado) − Nossa!… Bom, eu ando lendo umas coisas do Vinícius.

− De Moraes? Cê tá bobo? Já viu quantas vogais tem no nome dele? Assim você não chega a lugar nenhum.

− Tem razão. Que tal Nietzsche?

− Bom. Mas aquele diretor do A Puberdade É Branca seria ainda melhor.

(em transe) − Nietzsche eu tenho uma coletânea de frases no original, em inglês. (solene) Thus Spoke Zarathrusta… Mas ela é bonita, a mina?

− À primeira vista pode parecer meio comum, já vi nego invejoso falando que ela era feia. Mas, velho, ela faz seu tipo, uma beleza exótica.

(entregue) − Adoro belezas exóticas!

− Isso aí meu irmão, te prepara. Tenho que ir agora, até mais tarde então. (hesitante) Tem certeza que Che Guevara serve?

(nas nuvens) − Sim, sim… Beleza exótica… Thus Spoke Zarathrusta…

A arte de tomar um café

Bem sei que é uma bebida importante e nobre, com sofisticadas nuances, distintas maneiras de preparo, diversas qualidades; sob seus auspícios cresceu minha Londrina e prosperou nosso Segundo Império; como se não bastasse, tem a função única de ser a prova final da aptidão feminina para o casamento.

Mas não adianta, mesmo consciente de suas tantas virtudes, não consigo gostar do café.

Não me apetecem seu aspecto, seu cheiro e gosto, seja puro, com leite, com conhaque, acompanhado de mil cremes, espresso ou inexpressivo; nem mesmo em forma de bolo, pudim, bala, mousse ou quaisquer meiguices afins o café me desce. Desculpem-me. O mais próximo que estive de apreciá-lo foi quando, nos idos dos meus 15 anos, ao fazer um elogio desajeitado a uma colega de sala, descobri nele uma bela cor de esmalte.

Mas que tipo de pessoa não gosta de café?, já me interpelaram, com justificada ira. Pesaroso e culpado por tamanho lapso no gosto pessoal, encontrei uma singela forma de compensação: mesmo nunca concretizados literalmente, meus convites para uma saída descompromissada por aí geralmente vêm em forma de “Vamos tomar um café?”.

O chamado para um café está carregado de características e charme próprios. Não peca pela triste vagueza de um “Vamos beber alguma coisa?”, que dá impressão de desleixo; não exige o compromisso alcoólico implícito em um simples e direto “Vamo bebê”; nem é constrangedor como “Vamos tomar um sorvete?”, uma opção atraente no âmbito gastronômico, mas que parece coisa de gibi da Mônica.

Há elegância e sutileza, há uma gama de significações que vão muito além de simplesmente ingerir a bebida quando se pede para tomar um café com alguém.

Custa-me lembrar disso, pois minha companhia melhor e mais freqüente para um café se encontra distante geograficamente. Ali, o ritual do café se realizava pleno.

Podia ser qualquer dia, qualquer hora. O convite vinha repentino, com uma rara casualidade verdadeira. Não havia o enfadonho da antecedência, do cálculo, do preparo artificial. E lá estando, não havia hora para voltar – ou, se havia, o pensamento ficava longe disso. Preferíamos gastar nossa imaginação com ocupações mais importantes.

Como falar mal da vida – da própria e, principalmente, da alheia. E fazer planos, mil planos, maravilhosos e completamente imbecis. Passar horas discutindo um único ponto, obsessivamente, irritando eventuais ouvintes. Ou, pelo contrário, evoluir de A a Z com uma naturalidade estonteante, só nós podíamos compreender. Acompanhando, qualquer coisa, refrigerante, cerveja, chá, gim, cigarro – ou até mesmo café, mas não da minha parte. E quando era tarde, e se precisava voltar, e não havia carro, era bonito ir a pé para casa, confabulando com estrelas e mendigos.

Para tomar um café como aquele novamente, eu até poderia bebê-lo.

Faminta madrugada londrinense

Que se louvem as delícias de morar em cidade pequena: vida tranqüila, rotina amena, menos estresse e violência, aquele gostoso clima antiquado de proximidade, um céu azul e salpicado de estrelas…

Mas nem todo o bucolismo do mundo pode encobrir as ótimas unicidades dos grandes centros. Em uma daquelas tão características tiradas, Woody Allen vai bem ao ponto dizendo que “é ótimo morar num lugar onde você sabe que, em qualquer dia, se quiser comida chinesa às três da manhã, poderá encontrar – mesmo sabendo que nunca vai querer comida chinesa às três da manhã”.

A frase é ótima, mas nem o cineasta nova-iorquino poderia prever que, em uma longínqua Londrina, um insone faminto (ou desocupado contumaz) poderia realmente querer se alimentar em tão adiantada hora – não necessariamente de comida chinesa, mas de qualquer grude mesmo. Em crônica crise existencial sobre seu tamanho e grandeza, a cidade seria capaz de prover o inusitado glutão?

O dia adequado para por à prova não poderia ser outro que não segunda-feira. Porém, por conta de algumas renitentes diferenças entre Manhattan e nossa pequena Londres, dou uma hora de bônus à minha cidade e saio de casa não às três, mas as duas da manhã.

O lugar mais óbvio para se ir é o Valentino, com seu macarrão – mais famoso do que propriamente saboroso – alimentador de múltiplas gerações cult de Londrina. Qual a minha decepção ao chegar lá e ter como único vulto humano na área a Desirée Soares, em ameaçadora pose para o cartaz – talvez me censurando hábitos alimentares tão pouco saudáveis.

Com o célebre bar fechado, a próxima meta é o Habib’s: suas esfihas minguadas não são exatamente um sonho de consumo, mas pelo preço e pelo fato de haver recentemente se convertido em lugar de funcionamento 24 horas, o lugar ganha uma chance – a idéia de um ambiente que não fecha nunca me é tão atraente que todos eles têm meu irrestrito respeito e admiração, seja lá o que oferecerem. A lanchonete está lá, aberta, mas não distingo vivalma dentro dela ao passar lentamente de carro pela fachada. O fato de eu estar sozinho, aliado à presença de dois rapazes que minha mãe definiria como mal-encarados próximos ao estabelecimento, impede-me uma investigação aprofundada.

Vou então para a região da Quintino, ciente de que lá alguma coisa eu encontro. O alguma coisa encontrado, mais adiante, no fim da Rio Branco, é o carrinho de lanches alcunhado por algum maldoso como X-Bactéria. Sem muita opção, faço o pedido e espero o sanduíche, divertindo-me ao reparar a freguesia: o velhinho ao lado coloca uma quantidade de molho de pimenta no lanche suficiente para temperar minha comida pela década, e os travestis encostados num poste discutem exaltados a primazia do ponto. Quando um deles começa a me olhar de modo convidativo, aproximando-se, a diversão de súbito se esvai: embora muito lisonjeado, prefiro cancelar meu pedido e dar o fora.

Derrotado, ando a esmo pelas ruas da cidade, prestando tributo às criaturas da noite. É impressionante: em todos os lugares, Quintino, Rio Branco, Maringá, até na Higienópolis, nossa Avenida Paulista, uma enorme quantidade de putas, travestis e congêneres. Segunda-feira deve ser uma espécie de dia nobre para o ramo.

Não há outra opção se não ir para o Pátio San Miguel. Evitava o lugar desde o começo, por ser quase covardia: Natal, Ano Novo, Carnaval, o Pátio resiste a tudo com as portas abertas. Antes de ver qualquer coisa, sinto o cheiro de desinfetante. Só depois percebo as geladeiras viradas, o chão molhado e os poucos salgados restantes dispostos com desleixo, conscientes de que no estado em que se encontram não serão consumidos por ninguém. Nas mesas do lado de fora, meia dúzia de infelizes. Para completar a desolação, a Patrícia, garçonete atenciosa que certamente daria um jeito nas coisas, não se encontra.

Mas não falta a loirinha antipática que às vezes faz as vezes de caixa. Lá está ela, pronta para receber o dinheiro referente a uma caixa de chicletes, minha única aquisição da noite. Travamos uma cruel disputa para ver quem pronuncia a primeira palavra: a ficha mostrada, o dinheiro recebido, o troco pego, tudo no mais absoluto silêncio. Ao final da transação, ela diz um muito a contragosto “obrigado”, para meu duplo júbilo, pela capitulação e pelo erro de gênero. É uma alegria besta, eu sei, mas é meu triunfo solitário e devo comemorá-lo.

Estou em casa, o desafio acabou, malogrado – mas não a fome. Rendo-me ao único sabor de miojo restante na dispensa: galinha caipira.

Noite no ônibus

Compromisso para as onze e vinte e oito da noite. Quem marca alguma coisa para um horário esdrúxulo desses não espera pontualidade. A natureza do encontro, porém, não me permitia manter minha saudável política de leves atrasos, incentivada pela inusual hora marcada.

Pois meu compromisso era com um ônibus.

Estou convicto de que, num mundo ideal, as pessoas primariam pela pontualidade infalível, daquela atribuída aos britânicos não sei bem por quê. Durante uns tempos, tentei fazer a minha parte; aos poucos, porém, cioso de minha brasilidade e de pertencer a um mundo longe de perfeito, fui desistindo da ingrata tarefa. Restaram-me duas opções: chegar sempre precavidamente adiantado ou em confortável atraso. Entre a precaução e o conforto, preferi o segundo, seguindo lógica egoísta: melhor ser esperado do que esperar.

Esse ardil, porém, peca por falhar vez ou outra com alguns chatos intolerantes em relação a atrasos. Entre os impacientes estão os ônibus de rodoviária, e era para um desses que eu me dirigia, entristecido por saber-me impotente. Como compensação pela minha derrota pessoal, esperava ao menos uma viagem tranqüila, meta que envolve muitas e diversas variáveis, mas, para mim, pode ser basicamente traduzida em um companheiro de assento que não me encha o saco.

Tenho minhas idiossincrasias ao andar de ônibus. Contrariamente à maioria, prefiro sentar junto ao corredor a me acomodar próximo à janela (que, de tão querida, é costumeiramente mencionada no diminutivo, a despeito de sua larga proporção). A idéia de obrigar alguém ao deslocamento caso eu queira me levantar é terrível o suficiente para justificar minha predileção inusitada – não que eu costume me levantar durante as viagens.

Tendo esse pavor de incomodar, natural que eu reclame o direito de não ser perturbado. Infelizmente, são muitas as maneiras pelas quais um passageiro pode ser importuno. A primeira e mais comum delas é falando. A mim me parece bastante claro que qualquer conversa durante uma viagem de ônibus é necessariamente enfadonha e constrangedora. Sabendo para nem todos existir essa clareza, busco, sempre que possível, fazer viagens noturnas. Alguns renitentes, contudo, pensam não haver hora para fazer novas amizades. É um transtorno.

Há também os corpulentos, sempre expansivos. Viajar espremido é uma experiência memorável, no pior sentido possível. Ainda há os malcheirosos, que parecem ter saído direto do cooper para o ônibus. Enfim, todo um rol de tipos a temer, o glutão, o adepto dos jogos eletrônicos, o cdf que liga a luzinha na sua cara para fingir que lê algo – e tudo a fazer é rezar para não topar com um desses.

Já dentro do ônibus, onze e meia, ninguém ao meu lado. Mas sabia ser uma ilusão. O inevitável companheiro viria, gozando do atraso que eu não ousara. Aterrava-me a expectativa de fitar aquele que dormiria tão próximo de mim.

Quando enfim chegou, parecia bom demais para ser verdade. Um senhor elegante, de porte discreto, sem nenhuma bagagem incômoda nas mãos. Ao tomar seu lugar à janela, não me pediu licença, não me sorriu, não me dirigiu palavra – na verdade, nem sequer olhou para mim. Tamanha amabilidade de modos deixou-me encantado, na perspectiva de uma bela noite de sono.

A noite de sono dele veio antes, porém. Estrepitosamente, ruidosamente. Era pior do que imaginara: o cara roncava. Nojentas, nojentas aquelas ondas intermitentes de ruídos, quando se acostuma ao fluxo, há uma quebra de tempo e qualquer resquício de sono se esvai.

Impedido de dormir, remoia meu ódio e pensava seriamente se poderia haver hábito mais detestável em uma pessoa do que roncar durante uma viagem de ônibus. Além do óbvio inconveniente, há a inimputabilidade: a raiva crescia por saber-me incapaz de alertá-lo, culpá-lo, xingá-lo por acabar com minha noite. Afinal, ele não era de todo responsável por ser o porco que era.

Seis horas de ressonância nos meus ouvidos. Nem nas duas paradas do caminho – doce esperança – houve trégua.

Faltando coisa de 20 minutos para chegarmos, meu algoz acordou. E seu acanhamento havia sumido: ao me ver acordado, desatou a falar sobre quem era, o que fazia, os filhos, o jogo do final de semana, o diabo. Humor renovado, uma outra pessoa. E para terminar a palhaçada, sua frase lapidar: “Nada como uma boa noite de sono”.

Defesa (algo interessada) do antipático

É bom ser simpático: consegue-se muita coisa com mais facilidade graças à simpatia, desde um emprego até uma quantidade extra de batatas fritas na porção. Com tantas distintas e claras vantagens, é natural a busca pelo status de simpático. E ao finalmente conseguir inspirar simpatia, o sujeito ainda ganha a marca de “gente boa”, uma qualificação bônus – embora uma coisa não tenha nada a ver com a outra.

Que se queira ser simpático a todo custo, vá lá; só é chato quando, por oposição, a antipatia é tratada como o mais abjeto dos defeitos. Há muitas coisas piores por aí e realmente reveladoras do caráter de uma pessoa: o egoísmo, a desonestidade, o vício de furar filas, o não gostar de sorvete de flocos… E, se mesmo isso se perdoa, por que pegar tanto no pé do pobre antipático?

A simpatia, aqui ouso dizer, também tem seus problemas, sendo o principal o desperdício de riso. Penso que o sorriso deveria substituir o sono como medida de justeza. “O sono dos justos”, que besteira!, quando vem o cansaço o mais torpe dos homens dorme que é uma beleza. Agora, um sorriso de verdade pode de fato significar muita coisa.

E o simpático sai por aí, profanando o sacramento do riso, abrindo o rosto a torto e direito, para qualquer um – uma promiscuidade.

O antipático, pelo contrário, faz de cada um de seus sorrisos uma deferência, um momento especial dedicado a alguém: ganhando um sorriso de um antipático, a pessoa pode se julgar lisonjeada. Mas quando é um simpático a sorrir, como saber se a manifestação foi conquistada ou se faz parte de um procedimento padrão?

Na irreversibilidade da simpatia está seu aspecto traiçoeiro: manter o rótulo exige ser simpático a todo custo, a cada momento – um movimento enganoso põe tudo a perder. Como não é prudente arriscar, trata-se de dar atenção a todos indistintamente. Impossível cumprir a hercúlea tarefa com sinceridade, e se dá que em algum momento o simpático esbarra no superficial, quando não no francamente hipócrita.

Já o antipático tem na distinção seu trunfo, pois é ela que lhe dá credibilidade e, ademais, edifica as relações de afeto de um modo geral. O que é ser amigo senão ser exclusivo para alguém?

Pela retidão moral, é absolutamente necessário ser antipático – e livre para escolher o momento e o destinatário adequados para fazer florir a simpatia. Muito melhor do que o simpático contumaz, manchado pela desonra de sempre refrear seus arroubos de antipatia, que devem ser tantos…

Tá bom, sei que exagerei um pouquinho. Talvez isso tudo seja inveja, não sei.

Mas realmente acredito que os antipáticos são mais confiáveis.

Liberdades e Revistas

A liberdade está em moda. A promessa de democracia plena vem alardeada num mesmo pacote com a necessidade de autonomia sexual, política, de expressão, de imprensa, gastronômica, e sabem-se lá quantas mais liberdades possam ser inventadas.

O clima de permissividade total, porém, é algo enganoso, quando não perigoso. “Faça o que quiseres”, mas não espere deixar de ser observado, medido, comentado e difamado. Prega-se o livre-arbítrio, mas sempre há uma escolha mais certa e outra equivocada, segundo determinação do imponderável. O receio do proibido dá lugar ao medo do constrangimento. É a patrulha ideológica.

Vem-me um exemplo simples à cabeça, mas francamente sintomático: por consenso, é embaraçoso ser pego folheando uma dessas revistas femininas – sobretudo quando se é um homem.

E até mesmo as mulheres, notadamente as “sérias”, evitam a leitura, pelo menos em público, ostensivamente. Afinal, não é coisa para se orgulhar ler exemplar tão bem-acabado da estereotipagem feminina, do arcaísmo na relação entre sexos, da perpetração da sociedade patriarcal e quejandos.

Mas não adianta, homem ou mulher, sério ou não, todos já nos rendemos vez ou outra ao encanto dessas revistas. A atração exercida por elas é inegável, e prova disso é a incontestável liderança numérica nas salas de espera de dentistas e cabeleireiros. A opção unânime desses profissionais certamente não é à toa: dentistas e cabeleireiros são díspares, mas ambos sabem o que fazem – pelo menos quando se trata de fazer seus clientes esperarem.

Particularmente, considero as revistas femininas uma forma adorável de literatura. Agradáveis, fluidas – e podem até ser muito instrutivas! Sempre há testes a fazer, deliciosos por sinal. Já aprendi com eles muito da natureza humana. Da minha própria natureza, nem tanto, pois sempre os abandono no meio: à medida que me aventuro, vou conferindo as respostas no final da página; quando o resultado – e isso ocorre invariavelmente – se me afigura desastroso, interrompo amedrontado o questionário para evitar o pior. Nada que diminua o valor do teste e da empreitada.

Ademais, pude aprender alguns truques no trato com as damas. Para minha alegria, li que as mulheres se derretem com um pouco de charme auto-depreciativo num homem, aquele negócio de inspirar “vontade de cuidar” – coisa que sei fazer muito bem. Também estava escrito para não exagerar, porque ninguém agüenta lamentos e reclamações o tempo todo – nessa parte ainda preciso treinar, mas estou no caminho certo.

E aqueles manuais de sexo então! Cada coisa insuspeita! Há 437 formas de levar uma mulher ao orgasmo. Tolos os que se contentam com um, dois orgasmos, três já são contados como façanha. Há mais 434 para alcançar uma performance razoável.

E por que abrir mão de leitura tão produtiva? Por um pudor tiranicamente imposto? Quantas vezes, ao ser finalmente chamado pelo dentista ou cabeleireiro, escondi rápido a revista, quando o que eu queria era pedir mais um tempo – afinal, já havia esperado tanto! – para terminar só aquele paragrafozinho final.

A liberdade só é um conceito possível quando engloba a ampla leitura de revistas femininas.

Inaugural

A primeira vez é, de fato, coisa complicada.

Da inexperiência vêm o tremor, a falta de jeito, os terríveis lapsos de confiança: pavor ante o desconhecido e imprevisível. Surgem em ajuda frases ensaiadas, passos em coreografia, reações imaginadas de antemão para propiciar uma tréplica brilhante… Mas toda a prática cai por terra quando as coisas não saem conforme o roteiro – e, invariavelmente, elas não saem. Falta sempre combinar com o adversário, como disse o sábio jogador de futebol.

Fica pior ainda quando à natureza já apavorante do desvirginar se acrescenta um quê de mito. O exemplo mais bem-acabado disso é o clássico “A primeira impressão é a que fica”. Está completamente fora de moda discordar da sabedoria popular, eu sei. Mas, convenhamos, que rematada bobagem!

A primeira impressão não perdura muito, nunca. Quanta coisa estabelecida e sólida não evapora depois de um único passo em falso! Quisera a impressão inicial fosse a mais forte mesmo, para aplacar esses casos terríveis – e tão, tão comuns.

Invertendo-se a lógica, porém, a falsidade do ditado boçal traz um panorama mais auspicioso. Um começo em desastre sempre será mais marcante para quem fez a besteira do que para quem a presenciou. É pretensão descabida do homem achar que suas imbecilidades serão lembradas, quando mesmo as poucas coisas úteis cometidas raramente ganham notoriedade.

E o que vão pensar de mim depois disso? Não vão pensar nada, idiota arrogante. Você e suas besteiras não merecem tanta atenção. É aquele diálogo do Casablanca: “Você me despreza, não?”, para a sublime resposta, “Se pensasse em você, talvez desprezasse”. E contar com a desatenção alheia é a chance para sair por cima depois de mau início.

Além dessa falta de memória, há também em benefício dos marinheiros de primeira viagem uma larga complacência. Por maior que seja a asneira ou gafe do camarada, coitado, era só sua primeira vez, ainda tem tanto a aprender, em nova oportunidade mostrará seu potencial, blá blá blá.

E não há que se ter vergonha ao se agarrar a essas muletas, está longe de pecado usar da caridade alheia num momento inaugural. Quando o princípio já está distante, quando a experiência é conhecida e aliada, é que o fardo do erro pesa mais. Enquanto, por um motivo ou outro, ainda existe a benevolência, é tratar de aproveitá-la.

Recorrer a subterfúgios, deixar de lado um pouquinho do orgulho…

Tanta coisa, tudo isso, só para lhe pedir um pouco dessa benevolência, minha cara. Entenda, é só minha primeira vez.