O Bar Preferido ou A Moça de Pijama

Tem gente que está cá. Tem gente que está lá. Ainda há os que, miraculosamente, conseguem estar cá e lá ao mesmo tempo. Por fim, alguns simplesmente sossegam e se deixam encontrar em um bar preferido.

As vantagens da rotatividade são evidentes e opostas às desvantagens de se plantar num único boteco: mudando de lugar sempre, podem se conhecer várias e distintas pessoas (mais várias do que distintas); não se enjoa das paredes, dos mesmos e contumazes bebuns, daqueles quadros espalhados a esmo tomados como decoração – há, enfim, a fuga da rotina, tão alardeada e cara ao homem moderno.

Estou cônscio desses problemas: mesmo tendo meus eleitos, não me deixo incorporar à paisagem de boteco nenhum. Fico confortável e medrosamente no meio do caminho, ciscando entre alguns conhecidos.

Não deixo de reconhecer, no entanto, as glórias únicas de se ter um boteco de primazia, aquele que funciona quase com uma extensão do lar. Num preferido – e só num preferido –, sente-se à vontade para ir sozinho, quando a necessidade botecal, presente, está no pólo oposto das companhias, ausentes. Você vai, senta, tem como companhia um copo, e não há constrangimento, pois se está em casa. Sem parceiros de mesa, ainda há o ganho adicional de maior disponibilidade para observar a fauna humana.

Senti a falta de um preferido ontem mesmo, quando a situação clássica, vontade de sair versus falta de parceiros para a empreitada, apareceu. Não me deixei intimidar e acabei indo do mesmo jeito, na espelunca mais perto de casa – um bom critério para a seleção. Admito, contudo, que o fiz de modo desajeitado, sentindo-me um pouco invasor.

Depois de algumas medicinais doses, vi uma mulher de pijama entrar no boteco. Havia bebido muito pouco para alucinações, era isso mesmo: provavelmente insone, a moça colocou uma blusa sobre o pijama e veio se distrair em seu bar.

Detalhe importante número um: ela não estava alterada, nem era uma lamentável marginal sem opções de traje. Uma remediada universitária, e confesso, estava até bonitinha em seu pijama. Detalhe importante número dois: visivelmente, ela não colocou a inusitada roupa para chamar a atenção. Não precisava disso. Estava lá, confortável e natural, pouco se lixando para a audiência; apenas lhe deu na telha ir ao bar e não viu o porquê de trocar de roupa.

Depois, até chegou gente conhecida, até ganhei companhia, até conversei com a moça de pijama. Não importava: ela já despertara a minha inveja. Não exatamente por sua aparição em roupa de dormir.

Mas por ter um espaço seu, no qual se sentia à vontade e alheia do mundo. Por haver conseguido um lugar eleito, um lugar preferido.

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Criação e obscurantismo

Coisa comum na vida é dar um passo maior do que as pernas. E como a arte imita a vida – ou a vida imita a arte, ou imita maus programas de TV, sei lá, sempre confundo a ordem dos fatores nesse negócio de imitar –, também no âmbito da criação é comum se precipitar.

Daí surgem aqueles casos de pretensos escultores que mal sabem trabalhar com massinha, aspirantes a sonetistas que separam sujeito do predicado com vírgula, e por aí vai…

E não só os autores, como também os apreciadores, incorrem no erro: verdadeiras obras-primas acabam desprezadas por gente afoita, que alega preferir o underground ao mainstream. Bobagem juvenil.

Confesso, no entanto, que mesmo nunca tendo desprezado o notório, já tive minha fase obscurantista. Depois de perceber o quão perigoso isso poderia ser, parei com a brincadeira. Um fato foi marcante.

Estava eu, tranqüilo e ligeiramente ébrio, na Adega União, quando um vulto, perturbado e completamente bêbado, aproxima-se. Até aí, nada demais – rotina do lugar. Esse beberrão, porém, era mais ousado: apresentou-se como Stallone, embora seu físico em nada lembrasse o ator americano, e pediu para tocar meu violão. Sem muita alternativa, cedi-lhe o instrumento. Foi impossível conter o riso antes seus acordes desastrados. Percebendo que era motivo de piada, ofendido, interrompeu a música. E se pôs a contar sua história.

Agora, ao tocar, ele só fazia os outros rirem, mas já havia sido grande. Em princípios dos anos 80, fez parte do grande conjunto Placa Luminosa, compondo inclusive destaques do repertório, como “Eu Não Me Arrependi”. Por desavenças financeiras e discordâncias quanto ao rumo do grupo – que preferia trabalhar em covers a investir em canções próprias –, retirou-se do projeto, sem nunca receber o que lhe era devido. Mas ele nem se importava. Já que era impossível emplacar no Placa, fundaria sua própria banda.

E assim nasceu o Abadia Joel, depositário de seus sonhos. Na formação do grupo, ainda teve a sorte de achar uma modelo gaúcha, loira, competente para atrair público – nem tanto por seu talento ao tocar baixo, mas por ser gostosíssima. As composições eram ótimas, público crescente, a fama nacional eram favas contadas; tudo ia bem, em suma, embora a baixista, depois de certo tempo, começasse a desmarcar shows por conta de uma agenda comprometida com participações em filmes duvidosos do cinema nacional, como “Amor, Estranho Amor” e “Fuscão Preto”.

Logo se percebeu que a baixista era boa demais para a banda – não como instrumentista, desnecessário ressalvar. O rompimento se deu sem brigas, embora frio. Enquanto o Abadia Joel lutava, digno, mas sem nunca repetir a glória dos tempos da baixista boazuda, a ex-integrante iniciava uma carreira promissora namorando jogadores de futebol e – quem diria! – apresentando programas infantis. Nunca mais procurou os antigos colegas; Stallone, novamente, pouco se importava, orgulhoso.

Só se importou quando, ao ser transferida para a maior rede de TV do país e lançar um álbum diamante-duplo, apropriou-se de seu trabalho indevidamente. “Doce, doce”, a música de trabalho, era uma corruptela infantilizada de uma antiga canção do AJ – como o grupo era carinhosamente chamado pelos persistentes fãs. Ferido, tentou fazer valer seus direitos, procurou advogados, promotores, o diabo – mas foi esmagado por um aparato monstruoso e, imerso em drogas e problemas financeiros, aceitou dinheiro para se calar.

Deprimido pela humilhação, torrou a grana do insidioso acordo, desfez o Abadia Joel – e entrou em franca decadência. Passou a viajar a esmo pelo Brasil, nem mais se lembrava por onde andara. Agora era vidraceiro em Londrina e mal sabia pegar num violão, mas ele já havia sido grande, tinha certeza – concluiu logo antes de tomar o último gole e se retirar.

A história tinha cara e cheiro de balela, mas, sabe-se lá por quê, resolvi pesquisar na Internet, chegando em casa. E – por Deus! – os indícios, embora encobertos, estavam todos lá: fotos, textos, até arquivos em mp3. Montei um diretório para abrigar a descoberta, mas nem tive tempo de espalhar o material. No dia seguinte, meu computador foi invadido por algum hacker. Estranhamente, depois de levado para conserto, todos os arquivos puderam ser recuperados – exceto os que tratavam do Abadia Joel.

Coincidência ou não, resolvi me precaver, e desde então me atenho aos clássicos. Eles me bastam.

Réquiem a Plutão

A decisão é irrevogável, sem dar margem a contestações e contra-argumentação: em consenso, a União Astronômica Internacional rebaixou Plutão, que agora não é mais planeta.

As lamentações não tardaram, por muitos e vários motivos: educadores terão de desdizer Plutão como planeta, e sem ajuda dos livros escolares, que rapidamente ficarão desatualizados. A já penosa tarefa do ensino será dificultada por uma confusão literária. Ademais, Plutão está no imaginário coletivo como planeta – como negá-lo agora?

Astrólogos, entre resignados e desdenhosos, garantem a manutenção de Plutão em seus mapas astrais. Independentemente de resoluções arbitrárias, de questões gravitacionais ou de formato orbital, sua força mitológica permanece intacta. Para o entendimento do homem por meio dos céus, Plutão jamais será rebaixado.

Levando em consideração meu particular e egoísta usufruto, tanto faz como os livros didáticos hão de retratar Plutão agora. Neles, já aprendi o que me foi possível aprender – e não foi muito, é dever admitir. Também não chegam a me abalar eventuais alterações no mapa astral que nunca me foi feito. Lastimo, contudo, a queda de Plutão.

Simpatizar com Plutão espelha a velha tendência humana de torcer pelo mais fraco: ele estava lá, humilde, o mais distante, o menor, mal recebendo as vitais emanações solares; valente e altivo, no entanto, jamais foi visto reclamando das injustiças da vida. Sua condição de planeta lhe bastava, era seu orgulho, seu sustento. Como desgraçadamente costuma acontecer, foi de quem já pouco tinha que resolveram tirar.

A sacanagem começou desde cedo: enquanto outros planetas foram batizados em referência aos deuses do céu, do mar e do amor, a Plutão foi reservado o nome do deus guardião dos infernos. Com a habilidade dos grandes – a despeito de seus parcos 2 mil e 300 quilômetros de diâmetro –, conseguiu reverter a campanha difamatória, fazendo esquecer a origem da designação e angariando uma imagem simpática. Tratado no aumentativo, assim como um amigo que, apesar de baixinho, merece a deferência por ser gente boa: Plutão, incontestável camarada. Simples, porém honesto; lento, mas sempre eficiente. Sem a pecaminosa luxúria de Saturno, com seus anéis, ou a opulência desnecessária de Júpiter, e muito menos a belicosidade intimidante de Marte. Como foram mexer logo com ele?

E mexer com Plutão, como se não bastasse, é uma sintomática perda de extremos. Triste condição a nossa: buscando incessante e barulhentamente respostas e soluções, não conseguimos achar limites nem em abrangência tão grande como a do Sistema Solar. Mas o planeta-anão ainda não é o nosso, dizem. Comemoremos.

Dia da recompensa

Queria porque queria, desde muito menina, ser jornalista. Era a profissão adequada para fazer valer seus ideais, expor seus pensamentos, lutar pelo que acreditava; via uma grande beleza no verdadeiro, pressentia orgulho em informar a sociedade, adivinhava alegria em provocar reflexão. Além disso, a moça cria reunir os predicados necessários a uma boa repórter: era bem-informada, possuía um bom texto, tinha a cara-de-pau indispensável para as perguntas espinhosas, admitia (com certo rubor) ter boa aparência – podia se dar bem na televisão. Foi pronta para tomar o mundo e ser tomada como grande profissional que saiu de sua cidade para cursar jornalismo na capital do estado.

Resultado: aos vinte e oito anos, era a reporterzinha (o diminutivo ficava por sua própria conta) da TV local de sua cidade. Sim, ela capitulara e voltara. Do salário baixo, nem reclamava muito – seu vulto prescindia de quantias vultuosas. Agredia-a, porém, a falta de oportunidades, a mesquinhez do trabalho: o não poder expressar-se, o ter de se submeter ao banal, quando há tanta coisa grossa por aí sem a devida cobertura e comentário. Não sabia se era subestimada ou se superestimara a profissão. Mas, no fundo (resquício de educação católica?), acreditava na recompensa vindoura. Tal qual Jacó no soneto, passava os dias na esperança de um só dia, quando seria reconhecida, teria seu potencial devidamente avaliado, poderia expressar sua voz e mensagem.

Eis que um cantor sertanejo, de passagem por aquelas plagas, resolve ter um treco em pleno palco. Do palco para o hospital. E a encarregada de velar noite adentro, aguardando pelo essencial boletim médico do distinto músico, era ela. Ficar plantada naquele corredor, zelando pela saúde de um cantorzinho fabricado, foi-lhe uma dolorosa epifania: lá estava a alegoria perfeita de seus sonhos desmistificados, da renúncia de suas aspirações. E a noite estava fria, fria. Aquilo tudo lhe doía na carne e na alma, mais na alma do que na carne, embora também doesse na carne – e muito.

Lá pelas tantas, já de manhã, veio o anúncio: o artista estava bem, foi tudo um susto, só precisava tomar mais cuidados. Gravou breve mensagem tranqüilizadora (nem podia abrir a boca para falar que o desgraçado devia ter cheirado todas) e foi dormir, humilhada.

Acordou ainda sentindo o cansaço da véspera; abriu os olhos e deu com o sorriso de sua mãe. A sua nota havia sido retransmitida em rede nacional, o país estava preocupado com o bem-estar de figura tão proeminente de nossa cultura. Parabéns, minha filha, todos viram você. Os telefonemas não tardaram. Amigos, parentes, conhecidos, desconhecidos: olha só, tá ficando famosa, hein?, não vá se esquecer de nós agora, não deixe a fama subir a cabeça, rarará, vai ter festa?

Então ela sorriu, com melancólico orgulho, ao sentir que seu dia havia chegado.

Vícios da caridade

Não sei bem o porquê, mas só posso achar preocupante a coincidência. Ultimamente, ao encontrar com conhecidos que não via há muito, tem sido infalível: primeiro o sujeito conta o prazer de me rever (dessa parte eu gosto), para depois mencionar de passagem como a vida dele mudou e, em seguida, num crescendo, tentar me converter a sua nova fé. Olham para mim, com postura grave, e afirmam que eu preciso renascer.

Talvez eu devesse ficar emocionado com tanta gente preocupada comigo, mas não consigo deixar de lamentar o fato de acharem que só nascendo de novo eu tenho jeito. Pode ser ingenuidade, mas ainda pretendo tentar alguma coisa nesta vida mesmo – sem deixar de respeitar os que buscam a salvação em outra esfera.

O último dessa série de convertidos pregadores me abalou bastante: depois de recusar a compra de um livro que ele tentava calorosamente me empurrar, algo como “O Grão de Trigo de Deus”, senti-me culpado; chegando em casa, veio-me uma vontade irresistível de leitura sacra. Julgando-me ainda não preparado para algo tão grave como o grão de trigo de Deus, conformei-me com coisa mais simples, fui de Bíblia mesmo.

Detive-me na famosa passagem da Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios, capítulo 13, aquela que trata da excelência da caridade – em algumas traduções, aparece como “amor”, mas considero uma opção inferior. Crente ou ímpio, impossível não reconhecer humildemente a beleza do texto e sua profunda sabedoria. Há virtude mais bela do que a caridade?

Não cheguei a ter vontade de ir ao culto do grão de trigo aos sábados, mas me peguei surpreso, na agradável sensação de redescobrir uma beleza conhecida, mas há muito não visitada. Terminei a leitura com uma vontade danada de fazer o bem sem olhar a quem. Essas vontades nobres costumam ser efêmeras, mas nem tive tempo de esquecer a intenção.

Foi sair de casa e me procuraram pedindo ajuda.

O sujeito me veio – ele que nunca antes havia me dado bola – cheio de sorrisos e fala mansa, requisitando meu auxílio numa “questãozinha aí”. O objeto de seu pedido me era perfeitamente possível, não soube recusar. Ao concordar, fui premiado com um “Quem tem um amigo como você está garantido na vida”.

Prometi-lhe um favor, que me despenderia trabalho – e com ele não ganharia nada em troca. Sem dúvida, era um caso de caridade. No entanto, não me senti elevado, apenas idiota.

Foi o bastante para perceber que se não ocorre de forma espontânea, se foge do estrito sentido bíblico, a caridade deixa de ser nobre para se transformar em divisora de espertos e otários: de um lado, os imunes ao constrangimento, pedindo e negando auxílio conforme conveniência; de outro, os que não sabem dizer “não” e também evitam solicitações, ou por orgulho, ou por receio de se transformarem em devedores.

A passagem mística toda, enfim, serviu para a constatação de que um pouco menos de caridade às vezes me cairia bem. Não é o suficiente para o grão de trigo do Senhor, mas talvez, cumprindo à risca a verificação, eu seja dispensado de gente querendo me ver renascer.

Múltiplas utilidades

A finalidade última – e primeira – dos jornais diários é informar. Da vária sorte a que se tem acesso, alguns são melhores: boa diagramação, a decantada pluralidade um pouco mais presente, redação bem-preparada e salários menos mesquinhos; no outro extremo, outros, de qualidade sofrível, persistem de forma inimaginável – talvez até dê para imaginar, mas seria muito rabugento para um primeiro parágrafo de crônica que se pretende, excepcionalmente, bem-humorada.

O certo é que, do mais bem-conceituado ao mais requenguela, os jornais cumprem, com maior ou menor margem de erro, a função de informar. Seria estapafúrdio demais, até para este simpatizante das teorias de conspiração, supor que as páginas e páginas impressas sirvam apenas para a alienação e manutenção diária dos tentáculos do capitalismo selvagem.

Observa-se, porém, um ataque generalizado à imprensa, da qual a forma mais obsoleta seriam os jornais diários – aqueles, ainda impressos em papel. As omissões e os erros – que são muitos – são sempre lembrados com certo gozo sádico, enquanto os acertos e contribuições… Quais são mesmo?

Espantosamente, os primeiros a denegrir os jornais são os jornalistas. Pelo secular embotamento devido aos baixos salários, à falta de liberdade de expressão, ao iníquo esquema de pautas, os próprios feitores se encarregam de esculhambar o seu produto, reunindo vários defeitos – realmente existentes, reitero – para resumir a utilidade dos jornais a uma máxima famosa e cruel: amanhã, só servem para embrulhar peixe…

Se a informação impressa no papel hoje pode ser descartada amanhã, a informação gravada na mente de cada leitor não é esquecida no dia seguinte. Até o mais ranzinza há de admitir – há um pouco, nos jornalistas, de charme autodepreciativo – que os mais informados lêem jornal. Elevando ao paroxismo: não há pessoa bem-informada que não leia jornal.

Além do mais, qual o problema em embrulhar peixe? É uma utilidade que outros meios não têm – embora eu, particularmente, não aprecie frutos do mar. Ainda acrescento outras inusitadas vantagens: servir de forro para tarefas as mais variadas, só os jornais impressos. E o pobre que deita no banco da praça para um rápido e amedrontado descanso não consegue se embrulhar nas rápidas notas do jornalismo online.

O almoço

Sem razão ou motivo aparente, começaram a discutir – nada espantoso para aquele lugar, onde as brigas só variavam de horário e, eventualmente, na circunstância. O problema é que o horário e a circunstância que escolheram para a contenda, dessa vez, calharam de ser bem no momento do almoço: uma péssima escolha.

Um observador neutro diria que ali se fazia uma tempestade em copo d’água. Tristemente para mim, que nada tinha a ver com o confronto (mas tinha tudo a ver com o almoço), a tempestade não se limitava aos copos, espalhando-se pela mesa, pelas travessas, pratos, talheres – contaminando com barulho e ressentimento o ambiente onde deveria se fazer uma refeição, quando não alegre, pelo menos tranqüila.

Pessoa mais resignada desistiria de se alimentar em tal situação. Estoicamente, fiz ouvidos moucos à gritaria e me dediquei ao prato repousado sobre a mesa. Não estava lá essas coisas, um arroz-e-feijão apenas decente, carne com nervuras e salada de almeirão – amargo, amargo, não gosto, mas combinava tão bem com o meio que acabou sendo um achado. Ademais, o sábio ditado avisa, “cavalo dado, não se olham os dentes” – e eu não tenho razões para duvidar que o aplicado aos cavalos não possa se estender às refeições. A fome, muita, também não me deixava espaço para pensar na razão do combate, tão pouca. Às favas os problemas dos outros: concentrei-me na comida, era o que tinha e era o que me bastava.

Meu exercício de abstração ia bem até que, entre uma garfada e outra, um dos gladiadores cometeu a deferência de pausar a batalha para se dirigir a minha pessoa. Com peculiar humor, contemplou-me com um “mas você não pára de comer nem com isso tudo, hein?”.

A princípio fiquei lisonjeado, por haver imposto uma trégua à guerra, ainda que involuntariamente. Logo depois, porém, veio-me uma sensação de revolta, pois percebi uma certa reprimenda na fala daquele idiota, que há pouco estava se matando com outros idiotas. Bastou dar uma geral pela sala para perceber que o imbecil em questão não estava sozinho: todos me olhavam, entre o espanto e a censura, por conseguir almoçar quando, entre gritos, protestos e ameaças, discutia-se assunto tão grave e importante.

Daí foi minha vez de ficar estupefato: não bastasse me chatear com aquela rezinga enfadonha, ainda queriam que eu, em deferência, deixasse de comer. Muita ousadia! Sempre achei estúpido esse negócio de perder o apetite: se algo triste ou chocante acontece, natural que se esmaeça a alegria, a vontade de conversar, cantar, dançar. Dá para entender. Agora, ante uma adversidade, por si só dolorosa, adicionar o estorvo do jejum, parece-me uma besteira só inteligível levando em conta a herança de algum deturpado código de expiação de culpa lá dos idos medievais do catolicismo.

Pois bem. Inúmeras transformações ao longo do tempo, mas uma norma prospera séculos afora: a mesa tem entre suas principais funções servir de centro para uma refeição. Sendo o horário meio-dia e meia e se estando num refeitório, a serventia passa a ser incontestável. E é essa a tradição que quebravam – e queriam que eu entrasse na reforma – a título de uma briga inútil da qual não fazia nem tomei parte. A luta tomando o lugar do mantimento: não deixa de ser uma boa alegoria dos tempos em que vivemos.

Com redobrado vigor, ataquei meu prato, terminando-o em instantes. E já que o rapaz espantou-se tanto ao me ver comer, dei-me o direito de traçar a parte dele também. Estava frio, mas não me importei. Achei uma delícia.

Cabelos, pinturas e machismos

A história parece ser mesmo real, com vários elementos a lhe atestar credibilidade, a despeito de uma pequena discrepância temporal nas distintas versões existentes.

Consta que a mulher, de belos e longos cabelos, ao voltar de viagem, preparou uma surpresa ao saudoso marido, apresentando-se sem os mesmos belos e longos cabelos – ela não estava careca, apenas havia deixado curtas as madeixas. A reação conjugal não foi das melhores, motivando uma evasão do leito conjugal para o sofá por parte do esposo. Aí entra a dúvida: dependendo da fonte escolhida para contar a anedota, a fuga da cama durou 15 minutos ou uma semana.

Seja lá como for, em um quarto de hora ou sete dias, o acontecimento me foi relatado como exemplo cabal de machismo e intolerância. Para colorir ainda mais a narrativa, comenta-se que depois de concedido o perdão – vindo depois de 15 minutos ou uma semana – o esposo ainda teve a “pachorra” de executar em seu programa de rádio a sintomática canção “I Don’t Want You Cutting Off Your Hair”, na voz tonitruante de BB King. Provocação pura, só podia ser.

Escutei encantado o pequeno conto; porém, embora não me julgue machista ou coisa parecida, foi impossível indignar-me com a conduta da parte masculina do casal. Pelo contrário, identifiquei-me, vi ali um certo charme romântico, à moda antiga, embora talvez extremado pela ausência do leito durante uma semana – ou 15 minutos.

E me pus a pensar em clássicos exemplos de visual masculino execrável para as damas, como a sintomática pochete, ou a hilária unha comprida do dedinho. A ira para com esses infelizes acessórios é absolutamente justa, necessário admitir, mas aleatória, baseada unicamente na questão estética. Ouso afirmar a maior nobreza dos clamores viris, pois, embora fujam da unanimidade, passam sempre por uma questão de pureza. Não é simplesmente repudiar a torto e direito.

Os exemplos artísticos são válidos. Dorival Caymmi é doce em seu lamento: “Marina, morena Marina, você se pintou/ Marina, você faça tudo, mas faça um favor/ Não pinte este rosto que eu gosto/ Que eu gosto e que é só meu/ Marina você já é bonita com o que Deus lhe deu”. E o que dizer da belíssima alegoria da perda de inocência cometida por Brian Wilson e Tony Asher?: “Where did your long hair go/ Where is the girl I used to know/ How could you lose that happy glow/ Oh Caroline, no!”.

As mulheres ainda levam vantagem, pois seus alertas são ouvidos de modo intimidante, como verdade irretorquível – é ditada a postura a ser evitada. Já os pedidos masculinos são desqualificados como bobagem machista: não há registro de mulher alguma que tenha deixado de se pintar ou cortar curto o cabelo por causa de “Marina” ou “Caroline, No”; no entanto, se alguma obra à altura dessas duas canções fosse dedicada ao repúdio da pochete e da unha comprida do dedinho, a extinção desses dois tormentos, por reconhecimento e vergonha, estaria garantida.

A disparidade é evidente: as opiniões femininas são cientificamente embasadas na estética e no bom gosto óbvio e ululante; as masculinas, resquícios vergonhosos da sociedade patriarcal e intromissão indevida na autonomia conquistada à custa de sangue e lágrimas. Olha, não sei se isso é machismo, feminismo, catolicismo ou surrealismo – mas que é injusto, ah! isso é.

Política para cantar

Inevitável e certeiro, o horário eleitoral gratuito [sic] está novamente no ar. Embora a mesmice dite a regra, neste ano estou particularmente receoso pelo que vi até agora.

Minhas exigências, devo esclarecer, não são grandes: propostas inovadoras, planos de governo bem-estruturados, promissoras opções de homens públicos, já me resignei a admitir que não há – e se houvesse, não seriam minutos de estupidez radiofônica e televisiva os reveladores. Por outro lado, também não consigo abstrair totalmente a gravidade do negócio e vibrar com candidatos bizarros. Não faço patrulha ideológica nem culpo os que riem, mas nisso só vejo razão para angústia.

Sendo o horário político, de maneira quase consensual, uma grande festa publicitária, incapaz de fazer distinguir as diferenças históricas e propositivas de cada concorrente – até mesmo porque, cada vez mais, elas minguam – as expectativas a mim ficam restritas dentro do próprio campo da propaganda; mais especificamente, aos jingles de campanha.

Mas até nisso, por Deus!, a tendência é o decréscimo de qualidade. E é fácil aferir o porquê, fazendo um breve retrospecto das últimas eleições presidenciais: os bons jingles coincidiram com o naufrágio das candidaturas.

O pleito de 89, depois de anos de represamento democrático, foi o auge. Vários jingles inesquecíveis embalaram o sonho – algo ingênuo, triste constatar – de um futuro glorioso para a nação por meio do voto. O “Lula-lá” é um marco, e só não pode ser considerado, de maneira definitiva, um clássico do cancioneiro popular, pela eleição do próprio Lula, anos depois. A propaganda se revelou melhor do que o objeto propagandeado, com sua ascensão desmistificando a música de campanha. Se o petista não fosse tão insistente para fazer besteiras na presidência, o jingle haveria de adquirir força simbólica proporcional, no Brasil, àquele retrato do Che Guevara – um beneficiado historicamente porque lhe faltou tempo para decepcionar alguém.

Mas não era só o Lula, naquele ano. O Brizola também contava com uma ótima canção – embora de letra completamente imbecil –, e a do Ulysses Guimarães era tão deliciosa que fez este cronista, então menino, resolver seu problema fonético com o som do “x”, ao cantar empolgado uma passagem que falava “do Oiapoque ao Chuí”. No entanto, com tantas pérolas da publicidade musical, deu Collor. Alguém se lembra do jingle dele?

Rapaz esperto, ligado nas tendências, Fernando Henrique tratou de providenciar uma musiquinha bem safada para a campanha seguinte. Talvez para abrandar a desconfiança com um representante das elites, arranjaram alguém com acento nordestino para cantar algo próximo a um xote, “Tá na minha mão, na sua mão, na mão da gente/ Fazer de Fernando Henrique nosso presidente”, mas completamente descaracterizado por um compasso arrastado; um horror, enfim – que lhe garantiu eleição e reeleição.

José Serra não aprendeu a lição e, tolo, quis fazer um bom trabalho musical na tentativa de suceder seu colega de partido. Resultado: perdeu a eleição para um Lula escaldado, que apostou num jingle inexpressivo intercalado com reedições estratégicas do Lula-lá. Mas que era um primor a música do Serra, ah!, isso era. Na primeira parte, em lá menor, um alerta para a onda vermelha – como isso soa anacrônico hoje! – que podia arrasar o país. Depois, quando a mensagem ficava otimista, falando da onda verde e amarela – essa sim, válida e pela qual valia a pena lutar – havia uma sofisticada modulação para tom maior. A interação perfeita entre letra e harmonia remete a não menos do que “Chega de Saudade”, de Tom e Vinícius. Mas para quê? Deu água.

Como a raça política não comete o mesmo erro muitas vezes seguidas – ao menos quando se trata de próprio benefício –, o que se vê agora é a ausência total de bons jingles. Mas não custa apelar: desprezem os precedentes!, cuspam na superstição! Se já soa inadequado pedir esperança, igualdade, um futuro melhor, ao menos não nos neguem algo para cantar.

Os Incompreendidos

Podem até me chamar de ranzinza – seria complicado negá-lo –, mas, por este caso, acho que seria injustiça: não suporto “manifestações artísticas” infantis.

Esforço-me no momento, mas não consigo pensar em algo mais desagradável e constrangedor do que corais com crianças. Os próprios pais delas, que trataram de enfiá-las na cantoria a força, são sintomáticos da aflição: na hora, ficam até emocionados, chegam a gravar as imagens; depois, convenientemente, esquecem da fita, e quando a resgatam, muitos anos depois, é para encorajar as crias com pérolas do tipo “Como você era ridícula, filhinha, agora você já é gente, cresceu.”

Os teatros infantis de fim de ano, nas escolinhas, feitos sempre com boa vontade, mas invariavelmente detestáveis, são a mesma coisa: criança nenhuma gosta de se ver coagida a fazer aquilo, mas papai-mamãe passam instantes de êxtase vibrando com a interpretação incrivelmente expressiva do filhote, vestido de cachorrinho – até descobrir, ao fim da apresentação, que na verdade ele era o leãozinho.

Não pensem, por favor, que meu libelo vem de algum ódio injustificado às crianças, ou de algum trauma mal resolvido na tenra idade. Pelo contrário, isento os pequenos de culpa: as crianças artistas são horrorosas justamente porque sempre assessoradas, cercadas, coreografadas por algum adulto “experiente”.

Se a coisa se bastasse a corais e teatrinhos, seria só patético, mas vá lá: quem quisesse, era só fechar olhos e ouvidos, e os pais bestas que se embevecessem com a manifestação “livre e espontânea” da criatividade infantil. O problema é quando a besteira evolui para alguma forma invasora de exposição.

Crianças na TV como veículo de publicidade causam-me engulhos. É a mais egoísta projeção de recalques paternos: se não se consegue passar da mediocridade na vida, coloque seu rebento bonitinho num programa qualquer e sua vaidade, por abjeta transferência, será massageada – com o bônus de alguns trocados. É claro, não foram eles, pais diligentes, que impuseram nada; os filhos é que desde sempre – depois de algum pequeno treino, é verdade – insistiram para ser astros. Neste caso, tanto faz cortar cana na roça ou vender sabonetes enfurnado num estúdio: é tudo monstruoso.

Mas descartemos esses casos incuráveis de bestialidade humana e voltemos ao banal.

Não concordo integralmente com a premissa da inocência e falta de maldade das crianças, mas entendo a vontade de celebrar uma fase perdida. Colocando, porém, regras e limites, ou sistematizando uma criatividade que é bela justamente porque anárquica, consegue-se o efeito contrário: é perdida – mais do que isso, ridicularizada – a espontaneidade infantil.

Da minha janela, vejo crianças cantando, dançando, interpretando confusa e deliciosamente suas próprias brincadeiras. Lá está algo a ser admirado. É apenas olhar, sem tentar recriar erroneamente o que já se esvaiu – uma força intrínseca da natureza prescinde de mediação.

À sua maneira, sem palco nem platéia, elas me bastam – até que eu tenha um filho e o coloque num coral.

* * *

A exceção – que serve para confirmar a regra – fica por conta do cineasta francês François Truffaut. Seu trabalho na direção de atores mirins é belíssimo e só dignifica a infância.