Independência alternativa

Sempre é bom receber elogios, de modo que nem pude ficar bravo, mas foi chato quando ela me apresentou, disse que eu era o André e entendia de cinema alternativo.

A intenção foi lisonjeira, fácil perceber, mas o fato é que – nem sei se entendo, prefiro usar outro verbo – eu gosto simplesmente de cinema, não dessa denominação pernóstica e desprovida de sentido que é cinema alternativo. Ninguém me tira a opinião de que é um termo feito sob medida apenas para alimentar vaidades e construir poses: o sujeito pode ser o imprestável que for, se conseguir um óculos de armação grossa e sair falando meia dúzia de obviedades sobre um filme do Irã, ganha uma aura de sapiência incrível.

Não entendi até hoje a que diabos é alternativo o cinema alternativo. A opção mais óbvia seria imaginar uma oposição aos filmes de Hollywood – mas não, alguns diretores americanos com cortes de cabelo menos convencionais também são considerados alternativos. Só posso imaginar que alguns privilegiados, sempre com óculos de armação grossa, sentam e decidem o que é alternativo ao gosto deles, e uma trupe com óculos similares resolve encampar a opinião. Tive engulhos quando vi meu querido Woody Allen repousando na prateleira de filmes alternativos de uma locadora – deve ser porque ele é um predecessor dos óculos espessos.

Por mim, se o Spielberg fizer um filme bom (e ele está em boa fase), assistirei com prazer; quando o Godard cometer algo mais inteligível (faz tempo não acontece), também estarei lá. E se dane o alternativo ou o contrário disso – seja lá o que for. Qualquer desses rótulos, alternativo, cabeça, cult, provoca-me uma imensa dor de barriga. “Filme de arte” também é babaquinha, mas ainda dá para usar, pelo menos consigo compreender algo da expressão.

Quisera a praga se restringisse ao cinema, para a música há até rótulos especiais. Se uma banda é considerada indie, tem um aval de qualidade incontestável. E, novamente, há uma necessidade premente de oposição. O termo vem de “independent”, sendo que não há independência de porra nenhuma – no máximo do bom gosto. Li uma tira do Benett que vai direto ao ponto: o crítico musical está contando sua nova descoberta, uma banda dinamarquesa composta “por três fetos e um cavalo-marinho, que pratica um indie rock SUPER dançante”. Daí alguém chega e pergunta se, cá entre nós, ele ouve mesmo isso. “Não, em casa só ouço The Smiths”.

Não sou indie, nem cult, nem alternativo, e não me constranjo por patrulha ideológica nenhuma para decidir os filmes, as canções e os livros que devo apreciar. Pode parecer presunção, mas talvez seja minha forma de ser independente – assim, em português.

O gentil e o vulgar

Bom deparar com gente elegante e amável. É raro, mas quando se encontra, é um alento para a humanidade. Importante ressaltar que as gentes elegantes e amáveis não devem ser jamais confundidas com os meros simpáticos. Esses, eu os repugno: a simpatia, para ser nobre, deve escolher bem o alvo; justamente o oposto comportamental do simpático contumaz, hipócrita em seus sorrisos indistintos.

Mas se a simpatia deve ser restrita, para seu próprio bem, não deve haver barreiras quanto à gentileza.

Gentil, é isso, é essa a palavra. Rubem Braga definiu como o “adjetivo principal, que toda mulher carece merecer”. Concordo plenamente: difícil conceber algo mais elevado do que a gentileza para uma dama – e também para os cavalheiros, embora “mulher gentil” soe bem melhor do que a versão masculina. O curioso é notar que há muito simpático passando longe de ser gentil.

Porque a gentileza não precisa estar num sorriso, tampouco no verbo. Pode o gentil morar na tristeza, num silêncio, sobretudo num gesto – sempre discreto. Talvez esteja me enganando, mas acho que já se nasce com isso, ou nunca se tem. Há uma aura gentil na pessoa gentil, e é algo indelével, inexorável.

Assim como para a pessoa vulgar – que se não é o oposto semântico, é o contrário espiritual do gentil. Em qualquer língua, em todos os tempos, não poderá haver termo mais degradante. O vulgar nunca é gentil; o gentil, se o é realmente, deve se enojar com a vulgaridade. A maioria dos simpáticos é vulgar, muito embora, quando bem aplicada, a simpatia seja gentil.

Tudo que há de medíocre, de baixo, de maçante, de podre, pode ser resumido no vulgar. E assim como a mulher gentil é mais do que o homem com o mesmo atributo, a vulgaridade feminina é mais vulgar. Não há nada mais belo do que um sorriso gentil de mulher; uma vulgar sorrindo é a coisa mais feia do mundo.

Doce e amargo, céu e mar, dia e noite, paraíso e inferno – tudo bobagem. A oposição maior, realmente determinante, é entre o gentil e o vulgar.

Certas canções

Deviam ser umas seis da manhã, ou quase, hora propícia para confissões. O local também era adequado: uma lanchonete feita sob medida para amenizar os porres da madrugada passada – o meu havia sido proveitoso; o dela, pelo jeito, nem tanto.

A amiga recente me contava suas aventuras e desventuras. Investido de repentina segurança, certamente advinda da noite agradável, fiz minha melhor pose de sábio e sentenciei: por pior ou mais complicado que o caso seja, não é original; procure, sempre haverá uma canção a contar sua história, tornando a mágoa mais amena.

Não poderia imaginar que tão logo teria de recorrer a minha própria receita: na noite seguinte, encontrei-a feliz e saltitante, e eu é que estava numa bela duma fossa. Corri para casa, tranquei-me em meu quarto, como devido, e, contrariando as recomendações médicas, fiz uso da automedicação – e em medidas cavalares. Não tive dó de mim mesmo.

Comecei já apelando, duas doses de Dolores Duran, canções de títulos amenos como O Que É Que Eu Faço e Idéias Erradas. Sem perder o fôlego, passei para Monsueto com a significativa Me Deixa Em Paz; ainda tive saúde para ouvir Nelson Gonçalves cantar Nunca, do velho Lupicínio, e, entrando no repertório internacional, padecer com Burt Bacharach em Walk On By.

Ninguém pode, no entanto, chamar-me de dinossauro. Sei reconhecer o valor de ritmos modernos como o rock, de modo que também apreciei duas canções de um grupo inglês chamado The Beatles, intituladas The Night Before e I Don’t Want To Spoil The Party.

O incrível é que depois dessa sessão homérica de música para dor de cotovelo, se não me senti bem, ao menos me senti com novo vigor. A coisa funciona mesmo: “melhor sofrer em dó menor do que sofrer calado”.

No momento bastante em que toca a canção, há correspondência. As coisas não estão certas, e não existe vontade nem ânimo para importunar um amigo com lamúrias; mas a música, sem favor algum, apóia e embala. A melodia se une à letra para agir como bálsamo: alguém já passou pelo que você passa agora, é bom perceber isso cantando. Naqueles três minutos, não importa o autor, qualquer seja o intérprete, a canção é sua e de mais ninguém.

Sempre há, sempre há uma canção. Tanto que até disso já fizeram música, e das boas: “Certas canções que ouço/ Cabem tão dentro de mim/ Que perguntar carece/ Como não fui eu que fiz”.

Comédia de situação

Madelena começou pelo quarto: o armário veio abaixo. Roupas foram arremessadas ao chão, peças novas e vestidos velhos – destes ela gostava mais. Pensou em arrumar uma mala, mas não teve paciência. Em vez disso, gritou, e foi com as unhas nas cortinas. Tentou arrancá-las, não pôde. Avistou uma tesoura e se pôs a debilmente golpear o colchão, aquele maldito colchão. Não tinha força suficiente para fazer grande estrago, sempre lhe faltou força, aliás. Conseguiu, ao menos, quebrar o espelho com um sapato de plataforma que lançou. Sete anos de azar, somente sete!, seriam quase um bálsamo.

Passou para o banheiro contíguo, lugar adequado para expelir sua raiva. Não partiu outro espelho, mas se divertiu atirando o que estava apoiado na prateleira. Foi fácil: desodorantes, perfumes, cremes, cotonetes, o diabo, alinhadinhos; com uma única passada de mão, tudo desabou com estrondo. Sentiu vontade de urinar: abriu caminho entre as tranqueiras no chão, sentou-se e mijou chorando. Prostrada. Finda a necessidade, limpou-se, deu descarga e abaixou a tampa, como devido.

Havia também um pequeno quarto fazendo as vezes de biblioteca. Ah!, quanto orgulho daquela merda toda, um monte de livros inúteis. Jogou alguns pela janela, mas viu que não fazia tanto efeito. Preferiu abrir as “valorosas obras”, rasgar páginas, fazer pedacinhos de papel, lançá-los ao ar. Só parou ao notar uma dedicatória, faltou-lhe coragem, deixou o livro cair.

Não tocou no quarto dos filhos.

Na sala, partiu para o trabalho pesado. Cadeiras voaram, e uma foi em direção ao tampo da mesa – inúmeros pedaços de vidro, chegou a cortar a mão, ficou assustada, mas não podia parar. A televisão era pesada; conseguiu, no entanto, derrubá-la. Riu medonhamente ao imaginar o prejuízo.

A cozinha era simples, as coisas se resolviam por si mesmas. Todas as cenas quase clássicas: pratos de encontro à parede, quebradeira de copos, louça partida. Resolveu inovar, porque aquilo estava muito asséptico: a comida estocada na geladeira se misturou aos cacos no chão, uma sujeira dantesca, um grande nojo. Isso: um grande nojo. Apanhou uma maçã e a mordeu.

Madalena contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom. Mas não descansou: apenas saiu, levando consigo não mais do que as quarenta e três cartas escritas por ele nos tempos de solteira.

De grifos e rixas

Todo mundo sabe que as campanhas institucionais em prol de uma vida saudável e correta são, em geral, um tremendo desperdício de dinheiro. É fácil atacá-las, com argumentos já conhecidos: não enfocam o ponto correto, usam o medo como elemento de persuasão, a linguagem é inadequada, etc, etc, etc. Não creio haver muitos que deixaram de se drogar, ou de bater na mulher, ou de comer ovos com bacon, meramente por propaganda do governo.

Lembro-me de uma, porém, que se não era eficiente, pelo menos era bonitinha. Usava-se o personagem do Ziraldo, o Menino Maluquinho, como mote de uma campanha pela preservação dos livros escolares. Garotos asseados em plena sala de aula cantavam um rock pedindo cuidado com nossos amigos, os livros.

Gostei daquilo tudo não por fervor politicamente correto – não fui aluno dos mais diligentes; quando minha mãe não encapava meus livros, em poucos dias de uso eles se desmembravam. Mas adorei a canção-tema e, sobretudo, identifiquei-me plenamente com uma passagem que alertava para não fazer uso de grifos.

Ora, meus antigos professores deveriam ouvir aquilo. Quantas vezes me encheram o saco por não marcar as passagens desejadas. Deixava de grifar em parte por preguiça, admito, mas também via qualquer coisa de barbaridade em destacar passagens que nem eram escolhidas por mim. Ademais, tinha uma enorme dificuldade com aquelas malditas canetas brilhantes, geralmente em amarelo ou verde. Emporcalhavam minhas mãos, sempre sempre.

O trauma foi tamanho que, por toda minha vida futura, abri mão do grifo. Minha humilde biblioteca contém apenas livros intactos, mesmo os lidos e relidos. Tenho uma confissão a fazer, no entanto: ainda que não faça uso particular dos grifos, adoro os alheios.

Tomar de empréstimo um livro marcado, rabiscado e anotado é uma delícia, ainda mais para pessoas que, a exemplo deste cronista, adoram observar a fauna humana.

É engraçado: há gente preocupadíssima em não revelar sentimentos, esconder detalhezinhos, manter ocultos segredos comprometedores. São o que se chamam pessoas fechadas, e elas têm seu charme. No entanto, imprudentes, deixam-se pegar por onde não esperam. Retraem-se com perícia, mas às vezes emprestam um livro – e lá está, tudo cheio de anotações.

Invariavelmente, os grifos revelam mais sobre quem marca do que sobre a passagem destacada: daqueles tracinhos, simples e aparentemente inofensivos, uma personalidade pode ser revelada. Quando há observações escritas por extenso, então, nossa! – é quase pornográfico. Estou com um em mãos aqui que é uma maravilha.

As campanhas são chatas, eu sei, mas de vez em quando se deveria prestar atenção no Menino Maluquinho.

Saudação final

Saudades, saudades do tempo das cartas. Quanta poesia havia em todo aquele ritual – e a carta nem precisava ser de amor. Já era um ato amoroso, incomparável à chata e eficiente correspondência eletrônica de hoje, escrever o texto de próprio punho. E pela letra na carta recebida, podiam se adivinhar estados e intenções: havia gente que escrevia muito ou pouco; de maneira direita ou curva; com rascunho prévio ou desordenadamente, idéias vindo em rompante. Sabia-se sobre as pessoas em suas cartas.

E ir ao correio, colar o selo, ter de anotar o CEP (invariavelmente esquecido), esperar dias pelo retorno – até se deparar com a surpresa da carta-resposta. Tudo delicioso e muito pouco prático: esse cerimonial se perdeu para sempre.

Porém, mesmo o que não precisava ser esquecido minguou. Nos e-mails, de modo geral, reinam detestáveis abreviaturas e pobreza de conteúdo. Incrível a linguagem se parecer com a dos antigos telegramas, sendo que agora ninguém paga mais por um pouco de apuro. Triste.

E raramente se usam as saudações, eu as adoro! Nas iniciais, mesmo com maior padronização, há oportunidade de usar palavras raras, legais e afetuosas, como “prezado”, “estimado”, ou “caríssimo”.

Mas é na saudação final que o bicho pega. Mesmo as consagradas são belas: veja o caso de “sinceramente seu”, minha favorita. É quase um verso de poema, uma coisa bonita de entrega, nobre – com a vantagem da sonoridade conferida pelas aliterações em “s”.

E há liberdade para criar sua própria despedida. Pode-se dizer muito em uma boa saudação final: lembro o caso do Vinicius de Moraes, que ao remeter para Antonio Candido um exemplar de seu primeiro livro, escreveu uma dedicatória que terminava em “Com a mão estendida para a amizade”. Uma conquista inevitável.

Só há uma que me desagrada, terrível que é: o “Sem mais”.

Pode haver coisa mais aterradora? Se é para extinguir essa desgraça, melhor acabar logo com cartas e com saudações.

A situação não é a mesma; os encontros se tornam escassos; a graça de estar junto se desvanece; os códigos, comuns a todos os amantes do mundo, mas que ela tem coragem de chamar de “nossos”, perdem o sentido – não desista, amigo, ainda há chance!

Agora, depois de receber um “sem mais”, tenha certeza de que, se estava frio, congelou de vez. Não há mais sentido: acabou, sem mais – nem menos.

O ato e o fato

Se fosse só de minha parte, poderia atribuir ao velho e insistente pessimismo; no entanto, reparo que é geral: mesmo entre os desinformados otimistas, cada vez menos gente se empolga com um filme a ponto de considerar absolutamente necessário vê-lo. As pessoas vão ao cinema, alugam dvd’s, gostam, divertem-se, mas hoje é muito raro aquele encanto coletivo com determinada obra.

Porém, sobrou ainda alguma comoção em torno de determinados vídeos: aqueles veiculados na Internet, geralmente mostrando coisas inusitadas, flagrantes, cenas descartadas de programas de TV – o YouTube gera mais paixões do que a Universal Pictures. É nessa área que resiste a possibilidade gostosa de ouvir de vez em quando um “você precisa ver isso”. Evito esnobar convites; ao me recomendarem algo, procuro assistir. Admito, algumas dessas imagens são realmente hilárias – mas também se perde muito tempo com bobagem.

O último vídeo que, segundo me foi dito, eu precisava ver, foi o da Srta. Daniela Cicarelli em franca libidinagem com seu atual amásio. E eu, francamente, não precisava ter visto.

Não é esnobismo misógino: a moça tem belas curvas, é verdade, e é ainda mais atraente quando não se ouve sua voz. Só que as imagens, embora conclusivas do ato, pouco mostram de fato. E se nem a torpes intuitos o vídeo se presta, não serei eu a embarcar em discussões filosóficas em torno da veleidade das estrelas ou da rapidez destruidora dos novos meios de comunicação.

Receio, no entanto, estar sozinho: a mídia internacional se agita, e diversas teorias são formuladas. Alguns falam em montagem; outros, em arranjo proposital, com efeito de marketing; há ainda quem diga que tudo foi feito para enciumar o Ronaldo – em suma, um amontoado infindável de frivolidades. De tudo lido a respeito, só um comentário me pareceu significativo: “A mulher nem gozou!”

Não tenho meios para garantir a veracidade da informação, tampouco refutá-la. Mas cá entre nós, acho que não deu para ela chegar lá mesmo. De tal modo que nessa tosca frase está o cerne da questão, toda sua estupidez revelada: tanto barulho por uma mulher que nem sequer gozou.

Sinto tentação de voltar ao passado recente, e recomendar a alguns um filmezinho, para variar. Nem que seja pornô.

Ode ao compositor ignorado

Com o perdão de começar esta crônica dominical com tamanha platitude, a média da humanidade é medíocre. De modo que estamos todos mais ou menos acostumados à idéia de passar a vida sem realizar algo decente. Pouquíssimos são os que conseguem chegar ao Grande.

Se isso é desolador, deve ser pior ainda realizar uma bela obra e não ser reconhecido por ela. Penso na canção brasileira, repleta desses casos de injustiça. Os letristas costumam ser os mais avacalhados.

O Milton Nascimento, por exemplo, merece todos os louros por feitos e fatos de sua carreira; mas, por Deus!, não foi ele quem escreveu “Quando você foi embora/ Fez-se noite em meu viver”. Quantas e quantas vezes neguinho querendo impressionar vai lá e manda, cheio de pose, um “como disse o Milton em Travessia…”. Ele não disse nada.

Meu amigo Davi Figueiredo, não sei se é verdade mas a história é boa, conta que certa vez encontrou o Fernando Brant num boteco em Belo Horizonte; bêbado, olhou bem para a cara dele e não resistiu a perguntar: “Tem certeza de que foi você mesmo quem escreveu Travessia?”. Identifico-me plenamente com meu amigo; parece ser impossível que autor de obra tão notória seja um notório desconhecido. E ainda, sempre segundo a versão do Davi, consta que o Fernando Brant se deu ao trabalho de responder, com naturalidade, que sim, ele era o autor. Certamente já está acostumado, o que é uma pena.

São vários os casos: quantos cornos não choraram “aquelas” canções agradecendo ao Ivan Lins pelo alívio da dor de cotovelo, quando deveriam prestar tributo ao Vitor Martins, autor das letras; ou o Aldir Blanc, que tem o desprazer duplo de ver seu atual desafeto João Bosco sendo creditado “pela coragem de escrever canções de protesto como O Bêbado e A Equilibrista em plena ditadura” – até onde eu saiba, não dá para haver música de protesto, apenas letra; mesmo famosos são negligenciados, e por gente importante: em recente filme do Almodóvar, há um personagem que comenta algo do tipo “Como diria Jobim, o amor é a coisa mais triste quando se desfaz”. Em que se pese o bom gosto do diretor espanhol, pois a canção é linda, e a agradável surpresa de obra nacional ser mencionada em terras outras, evidente que o verso é do poeta Vinicius de Moraes.

Fica meu humilde desagravo aos letristas não reconhecidos.

É mais raro, no entanto também acontece de o autor da música ser a parte fraca. Beatriz, A Noiva da Cidade, João e Maria – as letras do Chico têm a habitual maestria, mas o que enleva mesmo é a melodia. E quase ninguém os cita, por isso faço questão de saudar aqui Edu Lobo, Francis Hime, Sivuca.

O pior é que nessa era de mp3, de Internet cheia de informação que desinforma, a tendência é ficar mais difícil dar a César o que é de César. Mas talvez seja bobagem minha, comportamento antiquado: nem lembram mais quem foi César mesmo…

Carta aberta

Caríssimo amigo,

Odeio chamá-lo de imaturo. Não porque você não o mereça (você o merece), mas pelo fato de eu achar uma tremenda asneira ficar invocando maturidade como se fosse grande vantagem. Quem faz isso, grosso modo, está num grau ainda mais elevado da imaturidade irrestrita que é a raça humana, justamente pela ilusão de ter aprendido algo com erros, entre outras ingenuidades. Os homens são estúpidos em qualquer faixa etária, com pouca ou muita experiência de vida.

No entanto, lindinho, não por conta de sua pouca idade, que isso não é desculpa, mas simplesmente por sua falta de discernimento inexplicável, devo repetir: imaturo.

O que, afinal, você quer? E o que vai alegar? Hormônios em polvorosa? Descontrole alcoólico momentâneo? Ou o seu habitual e surrealista “não estou fazendo nada!”?

Já havia lhe dado toques antes – você reagiu como se bobagem fosse, como se o estivesse azucrinando por conta de um quase nada. Hoje, acho que ficou claro, não fui só eu o incomodado. E, por Deus!, o cara é seu amigo!, você é o primeiro a reconhecer, com indisfarçável orgulho. Por que trai a confiança dele? Carência afetiva profunda? Um amor fulminante e incontrolável?

Não, mil vezes não, você já tem com quem estar. E ela é uma garota tão, tão especial… Você sabe disso muito bem, chega a ser ridículo eu ficar dizendo. Sinceramente, fico em situação constrangedora: quando a vir novamente, não saberei disfarçar uma certa pena – um sentimento horrível para se ter por alguém, ainda mais tendo de permanecer calado, pois, desnecessário dizer, por fidelidade a você, não contarei nada, embora a idéia seja tentadora.

Você diz que gosta dela. Eu acredito. Até sofre por ela não reconhecer, ou por não assumir comprometimento sério – vejo tudo isso. Mas, perceba a incoerência!, enquanto não consegue o que quer, vai ficar se comportando de modo a justificar os receios da menina? Não seja imbecil.

Vale a pena arriscar o que já tem por simples prazer efêmero, ainda mais à custa de estremecimento em amizade sua? Ele está pedindo um tempo para desencanar de relação recém-desfeita: nem sei se tem direito, não entro no mérito, pois não o conheço; mas, se cultiva estima por ele, deveria respeitar. E à primeira oportunidade você, subitamente convertido em Casanova, ataca? Lamentável.

Se ainda fosse só essa… Mas você já ficou babando por outras bem piores, verdadeiras putinhas com furor uterino – para usar um termo que me é caro. Limite-se a sua garota: é muito e é bastante. E, desculpe o tom didático, será ainda mais se conseguir lidar com seus sentimentos, se mostrar a ela seu carinho.

Não me tome por moralista: quisera eu conseguisse ser. É que vejo você mesmo insatisfeito com seu pseudo-hedonismo desenfreado. E gosto de você e cometo a ousadia de tentar ajudar-lhe.

Sinceramente seu,

Duas ou três coisas que sei sobre ela

Ela tem uma ligeira dislexia. Já se envergonhou disso, já se preocupou com isso, mas hoje nem liga. À moda antiga, escreve muitas cartas, nas quais se enrosca com os “s”. Quando percebe os erros, faz uma careta e dá um tapa na testa – um gesto gracioso. Assim como têm charme seus ataques de riso, que ganharam fama pela duração, altura e intensidade. Ela ri como se fosse a última vez, chega até a chorar. E fala como se estivesse interpretando. Movimenta-se muito e em todas as direções.

Ela gosta de dançar, e o faz muito bem, modéstia à parte. É algo dela, para ela, quando dança se sente livre – e consegue ser muito atraente, querendo ou não. Ela gosta de filmes trágicos, de cadeiras confortáveis, de potes de todos os tamanhos, de etiquetas, de sapinhos desenhados. Ela gosta de chocolate furiosamente, qualquer tipo, qualquer marca. Ela detesta atrasos.

Ela odeia seus pés, principalmente por causa do dedinho, mas adora suas mãos. Recebeu elogios por uma combinação de esmaltes vermelhos que descobriu: Dara, Rebu e Rubi. Em compensação, foi delicadamente aconselhada a não clarear tanto o cabelo. Não deu bola para a opinião, gosta dele assim mesmo – embora admita que as raízes dêem trabalho.

Ela tem um irmão e uma irmã e se dá bem com eles, apesar da diferença de idade. Ela tem uma mãe meio neurótica, com mania de limpeza. O pai às vezes grita sem motivo aparente, deixando-a magoada. Mas sente falta de todos eles, agora que mora longe. Ela tem um umbigo esquisito. Ela tinha cólicas terríveis, de modo que continua tomando pílula, mesmo agora sem uma vida sexual das mais ativas. Ela nunca fingiu um orgasmo, mas já valorizou bastante. Ela já deixou de ficar com um cara porque ele tinha muitos pêlos no nariz.

Naquele dia em que tirou o sapato e ficou descalça, ela não sabe, mas estava muito sexy. Naquele dia em que seu cachorro morreu, ficou aterrada, nunca mais quis outro. Naquele dia em que entrou na contra-mão sem querer, foi xingada, ficou assustadíssima – mas depois achou engraçado. Naquele dia em que disse “Nunca mais”, sabia que não era sério.

Ela inventa palavras quando não sabe como dizer algo. Ela teve seu nome escolhido por causa de uma canção antiga. Mesmo sem uma grande voz, ela não deixa de cantar quando quer. Ela quer desesperadamente perder dois quilos. Ela quer, no futuro, dois filhos. Ela quer carinho e atenção. Ela chora como se fosse a primeira vez.

Com tudo isso, é mesmo uma pena que seu strogonoff saia sempre um verdadeiro desastre.