Álbuns

Devo estar mesmo fora do tempo, não consigo desacreditar do álbum. O padrão de formatação vem da segunda metade do século XX, mas ainda não há melhor maneira de se reunirem canções. Deixando de baboseira historicista, o fato é que o amante dos álbuns consegue delícias completamente insuspeitas àqueles apreciadores de canções aleatórias.

Para começar, há o ritual de pegar o disco novo – certo, os preços dos lançamentos são exorbitantes, e a passagem do LP para o CD tirou um pouco do charme do negócio. Ainda assim, vale a pena admirar a capa do disco por longos segundos, cuidadosamente, para só depois lhe tirar o lacre. E quando a vontade é muita, e o maldito plástico não quer sair, ah! aflição! Mas quem dá valor ao álbum jamais o deslacra com ferramentas torpes como facas e tesouras: as unhas devem ser bastantes.

E devem se ler todas as informações do álbum antes de sua primeira audição. São uma literatura valiosa, os encartes dos discos. O fascínio das fotos, o nome dos músicos, os instrumentos utilizados em canção, o devido crédito aos autores – é tudo tão rico! Os pequenos detalhes que fazem a diferença: comentava outro dia com uma amiga sobre o Morrissey, só quem viu as letras impressas percebe nuances prazerosas, como seu hábito de destacar trechos ou palavras das canções. O verso é “Because it’s not my home, it’s their home, and I’m welcome no more” e só pode ser apreciado plenamente assim.

O álbum ideal tem características rigorosas, dura entre 36 e 45 minutos; aquém do limite, é curto, pode ser saboroso, mas falta algo; quando vai além, estamos em extremos, ou é excelente ou maçante. E não precisa ser conceitual nem nada, mas o bom álbum deve ter uma certa coerência, contar uma história, para ser ouvido integralmente, na ordem correta das canções. Se o disco é amigo de longa data, é gostoso quando termina uma canção e se pode ouvir na cabeça a música seguinte, antes mesmo de ecoarem os primeiros acordes.

Ouvi, há poucos dias, em palestra, a Ana Maria Bahiana relembrando os anos 70, contando com gosto de reuniões programadas exclusivamente para se ouvir um determinado álbum. Uma nostalgia imensa.

Infelizmente, a última vez que fiz algo parecido foi com um álbum pirata; ainda assim, foi bastante saboroso (e hoje em dia tenho a versão original). O último Oasis, Don’t Believe The Truth, havia acabado de cair na rede, meses antes de seu lançamento. Lembro bem, era uma terça-feira de madrugada: fiz o download assim que pude, passei o álbum para CD, e saí correndo atrás de comparsas, minha namorada de então e um amigo – ficaram meio assustados com o inusitado da chamada, mas não podia deixá-los na mão.

Nós precisávamos ouvir o disco naquele momento, mas era muito tarde, não daria pra fazer barulho na casa de ninguém. Sem pensar em perigo, estacionei o carro na rua deserta: escutamos o álbum, todinho, em silêncio. Depois sorrimos uns para os outros e saímos dali, só a bateria tendo a reclamar.

Vivam os álbuns e sua magia.

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Amigas pressa e perfeição

Quem não tem cão caça com gato.

Admiro francamente os que conseguem decorar períodos intricados de Nietzsche, sentenças espirituosas de Wilde, estrofes inteiras de Pessoa para impressionar em mesas de boteco; eu, na minha inaptidão vergonhosa, no máximo consigo memorizar alguns ditados populares – e alguns deles dizem mais do que muito tratado por aí.

Não estou preocupado com a valorização da sabedoria popular, contraponto à cultura dominante de elite, nem nada dessas teses nobres: apenas acho que se fossem completa besteira, não seriam tão reprisados, os ditos. Certo que mandar um “Em casa de ferreiro o espeto é de pau” não conta tantos pontos quanto aquela frasona bonita do antropólogo escandinavo – que no fundo quer dizer a mesma coisa –, mas sempre é um recurso quando não se tem mais bobagem nenhuma para falar.

A ambigüidade é que acaba matando alguns dos melhores provérbios. Penso no clássico “A pressa é a inimiga da perfeição”. Se estiver relacionado à feitura de algo, tudo bem, até desce: realmente, pessoas que fazemos as coisas nas coxas, deixando tudo para a última hora, costumamos ter alguns probleminhas.

Ainda assim, cabem ressalvas: por vezes, a espontaneidade, o fazer algo que dá na veneta acaba dando um frescor e graça a uma idéia que um processo muito maturado acaba perdendo. É bom agir – de vez em quando! – de supetão: a pressa se transforma, na verdade, em algo próximo da fúria criativa. Saem boas coisas daí.

Se quanto à criação, o dito já tem suas controvérsias, quanto à apreciação, é uma rematada bobagem. Quando se trata de avaliar algo, a pressa é a maior amiga do perfeito. É aquela velha história: um lance rápido, o decorrente deslumbramento, tudo parece belo e florido. Justamente a rapidez vem permitir a impressão do ideal – enganosa, sempre sempre.

Mesmo as avaliações negativas, quando apressadas, se aproximam da perfeição: o sujeito lhe parece um perfeito imbecil. Mas não é bem assim, mesmo aquele lixo humano abjeto deve ter algo que presta. Nem para o mal se consegue ser impecável. E é por isso que pressa e perfeição não são inimigas coisíssima nenhuma: esta só é possível, ainda que brevemente, com a presença daquela.

Combinações e caprichos

Para cada prato, há uma bebida.

Acordo com a frase martelando na minha cabeça, como o resquício de um sonho – que não tive. Só sei que a sentença surgiu clara, quase legível, logo ao despertar. Não sei por quê, realmente, veio-me pensamento tão inusitado, e em horário tão impróprio: poderia ter acordado com um insight genial, uma idéia para romance, filme, quem sabe uma intervenção artística com subsídios estatais, no mínimo um decassílabo.

Mas não: a inspiração divina apenas me proporcionou saber que para cada prato, há uma bebida. Significativo.

Deve haver mesmo muitos pratos e bebidas correlatos, embora eu não domine nada dessas coisas – o que só aumenta minha estranheza ante a frase que me tirou da cama. Penso em vinhos, todo aquele papo hermético: climas, safras e solos, de algum modo intangível a este pobre cronista, estão relacionados diretamente com o tipo de molho que você deve enfiar no macarrão.

Meus conhecimentos de enólogo e gastrônomo, contudo, aliados a uma festejada vivência, só me permitem verificar que a melhor combinação para o vinho da Adega União é mesmo o Mutitos, no sabor churrasco – detalhe imprescindível para a liberação das mais recônditas notas aromáticas do elixir do Seu Zé. Alguns, precipitados, preferem o sabor pimenta, sob o risível argumento do tempero mais forte como multiplicador das qualidades vinícolas. Se fossem menos presunçosos, saberiam que, por um desses desígnios imponderáveis, o sabor churrasco é mais apimentado do que o próprio sabor pimenta.

Taí, não sei de pratos e bebidas, mas posso falar dos caprichos da vida. Basta ver os pequenos gêmeos britânicos Layton e Kaydon, chamando a atenção de todo o mundo por conta de uma raridade raríssima: cada um tem uma cor de pele diferente. Um puxou ao pai, outro à mãe. Especialistas avaliam a probabilidade do evento como de uma em 1 milhão, o que me parece realmente difícil de acontecer. Mas os gêmeos estão aí, firmes e fortes. Quando a curiosidade internacional cessar, eles podem vir ao Brasil e montar uma dupla sertaneja, nome e cacife para isso não lhes faltam.

Vidas a começar e a terminar. Aprendi nos manuais de jornalismo que suicídios não se noticiam, para não se incentivarem novos casos. Hoje, porém, está lá, em manchete de primeira página, o caso do infeliz que tentou matar a mulher – fracassando – para depois se matar – logrando êxito. Presumo ter sido justamente a parte malograda que permitiu a seu trágico sucesso ganhar a imprensa.

Ironias da vida. Cruéis, às vezes; simplesmente absurdas, em outros casos. Enquanto não consigo compreendê-las, vou tentar lembrar que para cada prato, há uma bebida. Quiçá me seja útil.

Ombros, vozes e lágrimas

Leio nas notícias de hoje, em meio a debates e escândalos políticos, mui original e relevante pesquisa sobre a preferência anatômica nacional. Seria ainda a tradicional bunda nossa piece de resistance? Ou já teria ela sido desbancada pelos seios, verdadeira força em ascensão?

Deus é testemunha de que nada tenho contra tão nobres áreas do corpo feminino, mas às vezes fico encucado com tamanha fixação, essa coisa chata e restritiva. Em se tratando de bundas e peitos, então, é para Freud fazer a festa. Não pretendo aqui nenhuma psicanálise de botequim, apenas acho que convém perguntar: esse povo não vê outra coisa para olhar nas mulheres?

Penso nos ombros, os ombros, por que ninguém fala neles? As próprias mulheres, se soubessem o quão atrevidos e significativos os ombros podem ser, não os deixariam de fora assim, impunemente, teriam mais cuidado. Enquanto eles passam desapercebidos, podem se aproveitar os belos exemplares, em sua sinuosidade embriagante, sem maiores embaraços. Fique tranqüilo, meu caro, mulher nenhuma vai repreendê-lo com um “Seu tarado! Pare de olhar meus ombros!”.

No entanto, a pouca atenção a essa área também tem seu lado ruim: leva à negligência. Lembro daquela menina do colégio, tão bonita, tão bem-feita de corpo, mas com ombros pontudos, medonhos – e ela sempre aparecia de tomara-que-caia, um pecado. Um mau ombro pode estragar todo o conjunto.

Fugindo um pouco da área anatômica, mas ainda em âmbito feminino, considero abjeto o homem que não dá atenção à voz. Como uma voz grave de mulher pode desnortear! – evidente, nada masculinizado, isso é broxante. Refiro-me àquele tom de contralto, imponente, pesando cada sílaba: é para subjugar qualquer um, pouco importando o sentido das palavras.

Por fim, arrisco apontar outra injustiça: todos falam do sorriso, mas poucos percebem a grandeza da lágrima feminina, em certo sentido, até superior. Quando ela lhe abre o rosto, por deslumbrante que seja, pode ser algo frio, meticulosamente programado para causar encanto; mas se ela lhe toma o ombro para chorar, naquele momento de fragilidade e entrega, fica desnuda a essência de sua alma.

O sol de domingo

E eis que, ordeira e pacificamente, chega mais um domingo.

Há os que o adoram e os que o detestam; seja como for, não se lhe pode negar algumas virtudes. Para começo de conversa, o domingo preza pela coerência, atributo dos mais admiráveis. Não importam as circunstâncias, a conjuntura política, a taxa Selic, o preço do pão por quilo ou por unidade – ele está sempre lá, com sua dignidade inabalável, inequivocamente depois do sábado e antes da segunda-feira.

E o primeiro dia da semana guarda uma grande personalidade. Ao contrário de outros por aí, não muda suas características só por calhar de ser feriado ou qualquer coisa do gênero. Domingo é sempre domingo, sem se deixar deslumbrar; para o bem ou para o mal, ele tem o seu jeito e não abre mão.

Um jeito forte, mesmo seus detratores hão de convir: pouco, quase nada distingue uma terça de uma quarta, por exemplo. Mas os domingos são inconfundíveis, espirituosos, exatos.

As acusações tradicionais contra ele são das mais vagas, algumas beiram o ridículo: a principal é que o domingo deprime porque lembra a segunda. Ora, isso deveria ser mais uma prova de seu mérito, de sua distinção e superioridade, por eclipsar seu sucessor no calendário; mas não, invertem a lógica e transformam uma qualidade em peça difamatória.

Outra clássica é tentar vender o domingo como o dia tedioso por excelência, de hábitos marcados e rotineiros, missa, macarrão e Silvio Santos. Geralmente, esses são os mesmos que passam a semana inteira reclamando do cansaço, da penúria do trabalho – depois, não sabem aproveitar a providencial pausa. Afinal, ninguém é obrigado a cumprir o programa clássico – e realmente enfadonho – de domingo; se o fazem, é porque querem.

É justamente esse o fascínio do dia: salvo raras exceções, ninguém é obrigado a nada. Nem mesmo àquela necessidade imperiosa de se divertir, que pode sufocar bastante, presente no sábado. Pode-se estar consigo mesmo no domingo.

Mas, para mim, especial mesmo é seu sol. Passasse dias inconsciente, fora do mundo, quando voltasse, fosse domingo, saberia; apenas de olhar para o céu e ver o brilho único, impossível em outra data: é o sol de domingo. E seria mais feliz.

Buster Keaton

Dá medo encarar um canal que resolve mudar de nome para se intitular (ai ai ai…) Cult – embora a denominação anterior, Classic, não fosse lá muito melhor, lembrava marca de chocolate ou sabonete. Devo admitir, no entanto, que esse Festival Buster Keaton é um achado, imperdível para os privilegiados detentores de TV a cabo.

Quem já conhece o homem tem a oportunidade de apreciar novamente algumas pérolas do humor, com o bônus de alguns filmes raros; quem nunca viu mais gordo pode aproveitar para aprender um pouco do cinema, e se posicionar no célebre embate Keaton versus Chaplin.

Eu sei, essas dicotomias são no fundo besteira, a arte não é competição, muitos dos tomados como inimigos eram na verdade camaradas – mas que é gostoso discutir Beatles ou Stones, Chico ou Caetano, Corinthians ou Palmeiras, e tomar parte apaixonadamente por um dos lados, ah!, isso é.

Obviamente, é muito mais legal preferir Keaton, por ele ser um perfeito desconhecido, hoje em dia, para o mundo em geral, enquanto a figura de Chaplin é reconhecível até para quem não sabe seu nome – a velha tendência de torcer pelo mais fraco vai para o lado daquele que se perdeu no advento do cinema falado.

Somado a isso, dá certo status optar pelo obscuro: Keaton, segundo a opinião consagrada, seria uma oposição mais intelectualizada ao sentimentalismo exacerbado de Chaplin. Besteira. Mesmo nos filmes mais antigos do Vagabundo havia uma preocupação política que nunca ocorreu a Keaton, ingênuo, sempre apoiado no humor físico e igualmente sentimental – todos os seus filmes são variações do tema do homem que é capaz das mais elevadas proezas para conquistar sua amada.

De modo algum, contudo, isso depõe contra ele. Feitas as necessárias ressalvas aos rótulos injustos que lhe foram imputados, fique bem claro que Keaton está muito além do mero produto (oh Deus!) cult. Sua criação da persona do “Homem que não ri”, sendo ele um comediante, é simplesmente genial; seu virtuosismo nas cenas de velocidade é qualquer coisa de mágico, hipnótico; como sentença final, admitamos: A General tem um requinte de direção incomparável para os anos 20. Tecnicamente, ele era melhor, e é uma vergonha que esteja tão incógnito.

Mas não tem jeito, prefiro Chaplin mesmo.

Crônica a 38,6°C

Já havia até preparado uma nota para elegantemente me justificar: “Aviso: por motivos de saúde, a crônica de hoje, excepcionalmente, não será publicada”. Alguma coisa do ar matinal, no entanto – fazia tempo não escrevia de manhã –, aliada a uma ingênua esperança de que alguém fosse sentir falta de minhas linhas, fez-me vir à frente do computador.

Além do mais, escrever aqui é um dever; os deveres, haja o que houver, devem ser cumpridos, sempre. Soa um pouco fascistóide, mas não é nada disso: no fundo, apenas acho que os tremores, a indisposição, podem esperar; minhas bobagens, loucas para ganharem vida nesta tela, não são tão pacientes.

E a convalescença serve como boa desculpa para incrementar ainda mais meu nível de besteiras, então se preparem: sabe, vejo um lado bom de se estar doente – excetuando os casos extremos, em que se morre, espero não ser minha vez. Há os clássicos mimos dos familiares, sempre um aconchego; ou aquele torpor agradável de se ver por um dia alheio do mundo e de suas chateações.

A benesse principal, no entanto, é servir para recordar como os males físicos podem suplantar os espirituais: não há dor de corno ou crise existencial que resista a 20 idas ao banheiro num espaço de dez horas. Melhor do que qualquer antidepressivo ou psicanálise – a privada deveria substituir o divã.

Outra ousadia medicinal que não me permitiria dizer em saúde perfeita: desconfio profundamente dos remédios para se tomar em gotas. Eu sei, é uma barbaridade, peço desculpas a sábios da saúde como meu amigo e parceiro Chafic Kallas, o Zé Gotinha está aí a comprovar a validez do método. Mas em minha opinião de leigo, nada como a credibilidade de uma boa agulha; em último caso, um comprimidinho também desce bem.

De modo que desesperei ao constatar ontem em minha casa a falta vergonhosa de um analgésico decente – só havia as gotas ignóbeis, as quais, cheio de orgulho, recusei-me a tomar. Em rápida consulta a amigos, foram-me recomendados métodos de cura tão díspares quanto chá de boldo, Gatorade, suco de limão e sexo. Haja vista a triste indisponibilidade dos itens, capitulei a 75 superlativas gotas de Tylenol, misturadas a litros de Coca-Cola – esta sim, um remédio milagroso que me permitiu algumas horas de sono para estar pronto a aqui escrever.

Talvez tivesse ficado melhor só com a nota de aviso.

Flagrantes solitos

Não sou daqueles que vê na experiência a chave para a sabedoria: pelo contrário, parece-me que, em certas coisas, quanto mais faço a mesma besteira, mais gosto tenho em voltar a fazê-la – é uma teimosia desgraçada. Algo, porém, consegui assimilar em minha humilde existência, e repito como um mantra: não se deixa de fazer algo por falta de companhia.

Claro, há os programas que só têm razão de ser quando se está acompanhado – desnecessário perder espaço com exemplificações constrangedoras. Agora, resguardar-se em casa quando se quer sair, simplesmente por não ter um parceiro disponível, é de uma estupidez tremenda.

Pode parecer desculpa de desamparado, mas não é tão ruim assim se apresentar sozinho em ambientes: há mais tempo para gastar com a observação da fauna humana, um fascinante exercício. E é boa também a autonomia para ir e vir, quando quiser, aonde interessar, sem nenhum amigo Batata a botar defeito em suas resoluções.

Em suma, sozinho pode se estar despreocupado, e assim se estando, tudo parece meio ridículo – sua própria pessoa, inclusive.

Ontem, madrugada de segunda para terça-feira, às três e meia da manhã, cansado de trabalhar – estranhamente, isso é sério –, resolvi tomar um café no Pátio San Miguel. Ainda tentei recrutar companhia, mas ninguém se dispôs a passeio tão agradável, não sei bem por quê.

Sem sócio na empreitada, dirigi-me ao tão familiar local – e não foi lá que ganhei colegas. Só havia funcionários dentro do Pátio, naquele clima bonito de descontração. Tardaram a olhar para mim, na esperança de que fosse embora o inconveniente, mas eu estava resoluto. Por fim, perceberam ser melhor atender-me logo para poderem estar à vontade: ainda fui impedido de ficar do lado de fora (onde há anos me sento, faça o tempo que for), com a desculpa de que estava sendo feita a limpeza. Fiquei triste pela quebra de tradição, ao me estabelecer nas mesas internas, mas valeu a pena.

Delicioso observar as garçonetes, normalmente tão pomposas, brincando de estapearem umas às outras e saírem correndo, enquanto se ocupavam com a tão importante faxina. E dizendo palavrões. E comentando sobre namorados, família e quetais.

Mas o prato principal da noite veio com a loirinha do caixa, antipaticíssima moça que atende pela alcunha de Que Pobreza desde que por mim foi flagrada dizendo a expressão, ao ver uma cliente colocar na bolsa um inocente sachê de catchup – que pobreza!

Que Pobreza, normalmente tão sisuda, estava toda de libidinagem com o segurança, deixando seu posto de caixa para dividir um banquinho com o volumoso rapaz – não me perguntem como isso foi fisicamente possível. Nem a incomodei para ser atendido, preferi observar a poética cena: cada um com um fone no ouvido, e ela, a altos brados, mandando ver: “eu só queeeeero um xodóóóó”. Foi lindo.

Não pelo motivo banal, constrangimento de estar sozinho, mas me fez falta uma companhia no Pátio San Miguel: não consegui rir. Tivesse um amigo ao lado, bastaria uma rápida troca de olhares para a inevitável gargalhada brotar. Sem testemunhas ao lado, ninguém para compartilhar a cena histórica: isso sim foi triste.

Será que aconteceu mesmo? Resta-me lembrar e escrever.

Pedido

Que não seja tão breve a próxima vez.

Para não haver peso, tempo de retração; para que eu não precise voltar ainda mais uma vez àquele tom, irritante, eu bem sei, mas quase inevitável: há uma angústia brava em ficar contando as horas, adivinhar quantos momentos restam, e isso me leva a um sentimento de querer aproveitar o tempo – quando só o acabo desperdiçando.

Se se deixar ficar mais um pouco, posso muito facilmente ficar à vontade para contar várias daquelas histórias cheias de lamúria e cinismo – você gosta tanto delas, não percebo o motivo. Mas você também não compreende por que me interesso pela sua pessoa, no que ficamos então quites. Vamos nos entendendo em nossos desentendimentos.

E poderemos, em havendo mais tempo, buscar algo que nos falta, só com calma virá. Evidente, minhas aspirações são as mais altas possíveis: quero novamente o que já tive; e quero mais, o apenas imaginado – e ainda mais, o nem em sonhos visto, apenas adormecido em algum canto obscuro da mente. Eu quero tudo.

Mas mesmo se os intuitos elevados não puderem vingar, ainda me alegraria o pequeno, e grandemente: sabe, faz falta assistir a um filme com você. Nossa, quando penso nisso – preciso assistir a um filme com você. Nem que seja para você não gostar; ou ficar desapontada e pensar por que insisti tanto nessa maldita “obra”; ou simplesmente dormir (isso seria até poético). Acho que não é muito esse pedido, é?

E você também pode me falar do que se passa, sem medo de me magoar: já estou vacinado. Tenho franca curiosidade e, além do mais, preocupo-me, fico receoso quanto às suas escolhas. Eu sei, é ridículo, “Faça o que achar melhor, mas não me desaponte”. Já disse, tenho um sentimento meio paterno – assim como gosto, às vezes, de ser tratado maternalmente.

Se fosse dado a misticismos, falaria em ligação espiritual. Geralmente, um pequeno tempo sem contato é suficiente para um rompimento profundo de ligações: aquela velha história, o que levou anos para ser construído desmorona em segundos, blá blá blá. Mas você não acha nossa intimidade qualquer coisa de miraculosa? Sempre, sempre volta.

Pode aparecer, viu? Não precisa se sentir responsável.

Que seja em breve a próxima vez.

Achados e perdidos

Dia 7 de abril de 2000 – sexta-feira.

Guardar datas marcantes, para a história do mundo ou para a história pessoal de cada um, é perfeitamente compreensível. Agora, para lembrar com precisão o dia, mês e ano de acontecimentos completamente banais é preciso uma capacidade especial, a qual posso me orgulhar de ter. Não é lá uma grande virtude, mas sempre é interessante se destacar em algo.

Não sei por que cargas d’água me recordo, não houve nada demais, apenas uma caneta. Mas lembro da data e lembro de mais: era aula de biologia. Se em vez de bobagens, usasse essa memória para gravar o que a professora explicava da matéria, talvez tivesse apreendido algo e estaria em melhor lugar hoje.

Logo tocou o sinal e todos saíram rápido para o intervalo – eu, sonolento como de costume, deixei-me deter na carteira mais um pouco. Quando cansei de ressonar, levantei-me e, depois de alguns passos, chutei uma caneta. Um belo exemplar do espécime canetal, daquelas que jamais eu compraria: azul, comprida, porosa, com inscrição em inglês em seu corpo. Detive o instrumento para averiguação e fui finalmente para o recreio, ver se conseguia esmolar dinheiro de alguém para comprar um salgado.

Assim que voltamos para a sala, vi aberto o estojo da menina sentada à frente, na fila à direita: um monte de canetas parecidíssimas com a minha recente aquisição, cada uma em cor diferente – de modo estranho, faltava o azul no jogo dela.

Eu poderia ter devolvido, não fazia tanta questão assim do brinquedinho, mas incompreensível e maldosamente resolvi desfalcá-la.

À noite do mesmo dia, havia a Exposição; encontrei-a lá com uma amiga, já em horário avançado. Ela, que não era de falar muito, estava subitamente tagarela: André, você por aqui?, andei pra caramba, não quer me fazer uma massagem nos pés?

Pensei ser canalha demais massagear uma pessoa a quem se roubou, e recusei a proposta com a bela desculpa de que não conseguiria estar à altura de tão honrada tarefa. Ela riu e foi embora.

Durante dias, na escola, estive a ponto de devolver a caneta. Mas não havia brecha: seria estranho depois de tanto tempo chegar impassível com o objeto perdido, e à medida que o calendário avançava era cada vez pior. Nem pude usar direito o fino utensílio, ele ficava escondidinho. Às vezes, tinha paranóias de que ela sabia do meu roubo e me odiava por isso.

Passado algum tempo, por motivos que me escuso de contar aqui, transferiram-me de turma. Acabou o já pouco contato com a moça.

Coisa curiosa: canetas são a coisa mais fácil de perder. Já me passaram centenas pelas mãos, não consigo retê-las por muito – então prefiro as baratas e de breve duração. Esta daqui, no entanto, acompanha-me, sem que eu faça distinto esforço para guardá-la. De quando em quando ela some, mas sempre volta, como por mágica, sempre útil, sempre funcional. Hoje mesmo me reapareceu no meio de um livro, a caneta da minha colega de colégio.

Lembro da data, lembro das circunstâncias, lembro do seu rosto – mas não consigo recordar o nome da menina. Se ela ainda mora por aqui, se eu a vir, quando a vir, prometo entregar-lhe o que lhe tomei.