Crônica de uma noite insone

Noites insones são, para não me estender em adjetivos, um tormento. Quem já passou por isso sabe bem do que se trata.

Mas é necessário definir claramente o conceito, para não dar margem a desentendimentos e imprecisões. Uma noite insone não é simplesmente passar a madrugada acordado – para isso cabem várias outras designações. O sujeito tem um compromisso para o começo da manhã seguinte, precisa dormir cedo e não consegue porque hoje acordou com o sol a pino; evidentemente, não é um insone, apenas um espécime cansado da extenuante tarefa de dormir.

Assim como é falsamente insone o rapazinho que passa toda a noite enchendo a cara, acompanhado de amigos ou algo próximo a isso, para depois chegar em casa e estranhamente não conseguir o descanso em seu leito.

Porque a insônia é, em sua essência, solitária. E só se é insone quando se quer dormir, têm-se todos os motivos para dormir, amplas condições de dormir, e ainda assim, diabos!, a porcaria do sono não vem.

O pacote básico da insônia é acompanhado de palpitações, zumbidos estranhos que não saem do ouvido, idas e vindas da cama e, assim como nas corridas, falsas largadas para o descanso, subitamente interrompidas por qualquer barulho na rua. Há também o pacote de luxo, muito mais suntuoso, geralmente ganho quando se tem uma preocupação pendente, de preferência sentimental. Esse dá direito a breves alucinações, idéias de planos que no dia seguinte se revelarão uma bosta, tendências a gritos, socos nas paredes e, em casos extremados, vontade de chamar a mãe.

Nem tudo está perdido, porém – até desse estorvo podem se tirar coisas boas. A insônia é o momento ideal para realizar tarefas necessárias, mas eternamente adiadas. Dar um geral nas contas, juntar documentos, jogar fora papéis inúteis, separar roupas velhas, dispor os discos em ordem alfabética. Ou, se você estiver desocupado, mas muito desocupado mesmo, escrever uma crônica.

Prevalece, no entanto, a sensação desgraçadamente angustiante (embora com um quê poético) de estar acordado enquanto o mundo dorme. E se quer fazer algo, e se sentem os meios para fazê-lo – mas não é possível, pois naquele instante só você existe de fato. Resta o consolo de, ao nascer do sol e ainda desperto, imaginar se ela também estará acordada, pronta para um novo dia.

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7 comentários sobre “Crônica de uma noite insone

  1. E eu que pensava ser exclusividade minha os planos perfeitos e mirabolantes que insistem em brotar à noite por entre as curvas do cérebro. Seria capaz de resolver todos os problemas meus e do mundo em uma noite sem sono. O pior é que qto mais se quer, menos se consegue dormir.. É uma pena que quando o sol nasce queima todas as idéias e desfaz por completo os planos………

    Abs

    Janaína

  2. Faço minhas as palavras de Janaina. Achei q era o unico q elaborava mentalmente planos mirabolantes para resolver os problemas meus e do mundo e na manha seguinte ver tudo evaporar… pelo menos mais 3 pessoas me entendem rsrs

  3. É, procurei por “noite insone” no google e vim parar aqui… Adivinha?! Uma noite insone. E este foi um bom texto, parabéns. Agora voltarei aos planos… heheh

  4. entre espaçadores digitais, celulares dual sim e noites insone é que se faz uma cronica nova toda noite…
    obrigada pelo texto…
    seu blog entrou para o “favoritos”

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