Umas palavras

Para qualquer um que perca cinco minutos do seu tempo lendo alguma de minhas bobagens neste espaço, é perfeitamente possível constatar o fato de minhas palavras não valerem muita coisa. Se eu lançasse ações delas no mercado, já teria ido à falência. A despeito disso, gosto de pensar que minha palavra – assim, no singular – tem lá seu mérito.

Não deixa de ser um consolo. Por total incapacidade de ser um homem das palavras, ou das letras, posso ser um homem de palavra. E a observação tem me levado a acreditar na dificuldade de conjugar singular e plural numa só sentença: conheço pessoas de muita facilidade com palavras, brotam a elas como por geração espontânea, livres, fartas, eloqüentes; talvez pelo costume com a multiplicidade, quando se trata de manter uma só palavra, apresentam sérios entraves. É assombroso.

Vou parar com as sutilezas: estou farto de gentes falastronas, cansado de gentes que parecem não dar valor ao afirmado por elas mesmas. As contradições internas são geralmente a desculpa usual – e elas existem, ah, como existem!, é fato. Mas se há motivações ambíguas, a palavra não deveria ter sido dada. Uma vez declarada, deve ser mantida, haja o que houver. Simples assim.

Não se trata de questão moral, longe disso: no máximo, reconheço um certo apreço romântico pela noção antiquada de honra, coisa de quem invariavelmente vibrou em cada uma das contemplações de O Poderoso Chefão – filme bastante imoral, aliás. A segurança está diretamente relacionada à beleza quando se trata de confiar em alguém, sem contratos nem prazos, apenas com a declaração manifesta.

Mas o que me prende ao valor da palavra empenhada acima de tudo, poderia me fazer passar por homem de vulto elevado quando estou longe disso, é apenas uma noção bastante pragmática. Para usar um termo caro às ONGs espalhadas pelo mundo, ser fiel ao acordado contribui com o desenvolvimento sustentável.

É mais fácil, mais eficiente, mais produtivo e mais barato manter a palavra – com a vantagem de não poluir o ar.

Conservador

Desde muito pequeno, fui taxado de conservador.

Lembro-me de meus pais, em tom acusatório, dirigindo essa palavra várias vezes para mim. As lembranças são algo nebulosas, mas creio que o insulto – assim eu o entendia – estava primeiramente relacionado a minha alimentação, pois eu sempre queria as mesmas coisas, do mesmo jeito. E estendia o comportamento a várias áreas de minha incipiente existência, seguindo lógica simples: se está bom, não há razão para mudar.

Ainda que satisfeito com minhas resoluções, o peso do termo me assustava, “Conservador!”, soava como algo abjeto. Com a leitura de livros de História, o complexo recrudesceu: os conservadores sempre pareciam os malvados, a emperrar a possibilidade de um mundo justo. A TV também contribuía, fácil identificá-los nos jornais como aqueles homens de sorriso canalha. Eu não queria ser conservador, eu gostava de outro termo que havia aprendido – progressista.

Mas não adiantava, por mais que eu me esforçasse, minha mãe jamais me chamou de progressista.

E o fantasma do conservadorismo me perseguia. Em minha análise filológica pueril, “conservador” estava ligado a “conservar a dor”. Tudo de ruim estava embutido naquele maldito verbete, ao qual insistiam em me associar. Como era possível, o que eu havia feito de tão terrível?

Com o tempo, com algum esforço desta minha cabeça oca, fui conseguindo discernir diferentes facetas: a palavra pode ter conotação política, moral, de costumes, de índole, conservadorismo para todos os gostos e tamanhos. Um caso de rara aplicação prática de meus estudos à vida cotidiana: aprendi que poderia escolher sempre o sorvete de flocos sem me tornar sócio do Ronald Reagan.

Um alento para meus hábitos, meus gostos, minhas coisinhas, minhas escolhas – podem ser repetitivos sem nunca me enjoar, porque gosto tanto deles.

E nestes tempos de liberdade indesejada, de ausências forçosas, de perspectivas vãs, eu gostaria de realmente contar com o poder conservador. E aceitaria o título de bom grado, até com certo orgulho.

Crônica faminta

Pode-se escrever de maneiras as mais várias, só não se pode escrever com fome.

O assunto pouco importa: a garota que passa, a namorada, a janela, o teto do quarto, o tema mais banal; ou então, pelo contrário, a encrenca pode ser pesada, dissertar sobre a relação entre a história e a literatura, a influência da revolução sexual na economia dos países subdesenvolvidos, a verificação das discrepâncias entre pensamento e ação – tema que me foi sugerido hoje e que indelicadamente recusei. Mas não há assunto bastante quando se está com fome.

Os parágrafos podem ser curtos ou longos, o estilo pomposo ou coloquial, com gírias ou com mesóclises, ou quem sabe uma combinação inusitada de gírias e mesóclises. Atentar às normas gramaticais, desprezá-las, tanto faz. Pode-se escrever bem, muito bem, mal, horrivelmente, ou, como no mais das vezes, de maneira apenas medíocre. O impossível é escrever com fome.

Pode-se escrever ficção ou realidade. Mais divertido: construir ficção que pareça real e relatar as verdades com toda a pinta ficcional. Dá para escrever deprimido, angustiado, feliz, exultante, sonolento, com prazer ou com tédio. Dizem até que pode se escrever bêbado – não tenho por que duvidar. Agora, escrever com fome, isso não.

As motivações são várias: escreve-se por dinheiro, por necessidade, por distração, por sabem-se lá que motivos escusos – de vez em quando se escreve por porcaria nenhuma. Amor, ódio, quiçá vingança: algo ou alguém o agride e não há nada de concreto que se possa fazer – resta o recurso meio loser, mas eficaz, de deitar sarcasmo em um pequeno texto e se saciar com isso. Mas não adianta nem tentar quando se está com fome.

Escrever como cantada é um clássico, merece parágrafo à parte, as palavras cuidadosamente preparadas para tocar alguém. Mas também há a cantada canalhamente preparada para contemplar várias pessoas, é até fácil, incrível como situações e frases se repetem, podendo servir de coringa. Ainda existe a cantada para um ente imaginário – e é incrível quando vêm respostas de doidos achando que a coisa era com eles. Com fome, as cantadas escritas inexistem.

Confessional, informativo, entretenimento, relato, reflexão, belo pelo belo, engajamento social – escreve-se de tudo, mas nunca, nunca, nunca quando se está com fome.

Isso posto, dêem-me licença, pois estou indo jantar.

Aos trancos e barrancos

Definitivamente, o problema não está na preocupação. Preocupado, todo mundo fica, desde o monge até o terrorista, do mais triste ao mais alegre, a nobreza e a plebe; o complicado é se preocupar com a preocupação, sofrer por antecedência.

A tendência da ansiedade exacerbada é a mais absoluta paralisia: por não conseguir fazer o ideal, o sujeito acaba não fazendo porcaria nenhuma – e sofre mais um pouco por conta disso.

Não sei o porquê desse meu arroubo. Deve ser porque estou preocupado – ou preocupado com a preocupação, ou preocupado por estar preocupado com a preocupação, o que beira o infernal. Mas ninguém merece psicologia de botequim, só é bom quando se está no boteco propriamente dito – e não é o caso, infelizmente.

Quisera pudesse estar agora numa boa Adega União: supera Freud, Jung, Lacan e sei lá quantos mais asseclas juntos. Lembro-me das tiras do Adão, da maravilhosa série “mais ou menos anos de análise”, cito como exemplo uma, de memória: descobrir que Papai Noel não existe: 3 anos de análise; ficar excitado com a boneca Suzy: 5 anos de análise; sentar no periquito de estimação: 9 anos de análise; encontrar um terceiro mamilo: 1.000.000 de anos de análise.

Pois uma estada amena no balcão da Adega, quiçá ouvindo um repente nordestino de Seu Zé, comandante da espelunca, ajuda a reverter bastante dessa necessidade, uns bons anos a menos de terapia. A não ser que resolva aparecer um mendigo com intentos sexuais pederastas – cena não incomum –, o que desequilibra a balança e requer um tempo no divã para compensar.

Enfim, as necessidades de análise variam rapidamente; isso posto, não deveria me dar ao luxo de faltar às sessões. Não fui hoje, e pelo motivo mais torpe: dormi demais. Poderia ter sido ao menos uma omissão consciente, “Vou deixar de lado esse vício burguês” – mas não, essa perda de análise por preguiça pura há de me requisitar mais um pouquinho de terapia. Espero que não muita: das melhores tiradas de Woody Allen é “Faço análise há trinta anos e a única coisa inteligente que ouvi de meu analista é que preciso de tratamento”.

Enquanto o tratamento não chega, pelo menos me livro de uma preocupação ao conseguir terminar esta crônica desavergonhada.

A grande dor das coisas que passaram

O Jardim Elétrico fechou as portas e estou profundamente triste por isso.

Com o nome inspirado na canção dos Mutantes, era uma loja de discos que funcionava há dez anos no Centro Comercial de Londrina, sob o particularíssimo comando de Nilson Fakir – com outros nomes e outros donos, o lugar resistia há mais de 20 anos.

E agora acabou. Não tem mais. Já era. Parece-me injusto e quase inacreditável.

Sob um ponto de vista exterior, o incrível deve ser imaginar como uma loja de discos conseguiu sobreviver a tantas crises – o advento do CD, a sofisticação da pirataria, a popularização do mp3 com a conseqüente desvalorização do formato álbum. Mas para quem freqüentava o lugar, aquilo parecia dar tão certo!

Era tão agradável passar manhãs, tardes, às vezes até noites, naquele ambiente repleto de discos de vinil, conversando com gente aficionada por música (e por cinema e por literatura), bebendo alguma coisinha, rindo com as figuraças do centro da cidade que batiam ponto lá… Enfim, aquela salinha tinha um quê romântico, parecia invulnerável ao tempo – tão invulnerável que queríamos esquecer a importância da realidade cada vez mais patente: vendiam-se cada vez menos discos.

Comecei a freqüentar a loja muito menino, junto com alguns amigos. Íamos como curiosos, até com um certo receio de entrar, aquela salinha apertada passava ares de grande centro cultural, o Fakir impunha grande respeito. E foi orgulhosa conquista, com o passar dos anos, ser aceito no “clube”, trocar informações e referências.

Mas informação e referência, infelizmente, não sustentam ninguém. Tratávamos como brincadeira o fato de a loja ser bem freqüentada mesmo sem vender. Agora já não há mais espaço para brincadeiras, ideais e romantismos.

Gostaria de escrever uma crônica menos óbvia, mais pungente, quiçá emocionante, para marcar a grande perda que é o fechamento do Jardim Elétrico. Mas não consigo. Tudo o que posso é, resignado e patético, lamentar o que foi e não existe mais. Lembrar dos bons momentos, bons goles e boas audições. Desejar sucesso ao Fakir em sua próxima empreitada – um abraço!

A última vez em que o vi

Encontrei-o por acaso, depois de muito sem vê-lo, em um bar que ambos não freqüentaríamos em “nosso tempo”. Apesar disso – ou quem sabe justamente por causa disso –, não fingimos grande afetação em nosso reencontro. Acho que dispensamos até os olás, ele foi com naturalidade admirável me contando de um livro ou de um disco ou de um filme. Melhor assim. Sempre admirei sua capacidade de evitar situações embaraçosas. Depois de quinze minutos por ele conduzidos de forma magistral, balbuciei um “Vou ali com uns amigos e já volto” evidentemente falacioso, cumpridas certas convenções não sentia mais necessidade de nos falarmos, e ele sabia disso tão bem quanto eu.

Jurei a mim mesmo não olhar para o lado dele enquanto estivesse por lá, o que cumpri com disciplina. Depois de horas e garrafas, porém, com meus novos amigos de saída, foi impossível não notar que ele continuava ali, sozinho, no balcão. Certas coisas não mudam. E eu não poderia mais ir embora naquele momento.

Sentei-me a seu lado com arrependimento antecipado. E à busca de algo espirituoso para dizer, peguei-me com um sorriso cínico elogiando sua capacidade de se manter imponente mesmo sem companhia. Fosse comigo, estaria nervoso, desconfortável, olhando para os lados. Mas ele era invulnerável a constrangimentos. Uma grande coisa para se orgulhar.

─ Você quer mesmo falar sobre isso? – e o estrago estava feito.

Ele suspirou, sorriu, deu um trago em seu cigarro e disse ser engraçado o jeito como eu o superestimava. Ele não estava tão bem assim, depois de tudo não havia sido um mar de rosas para ninguém, nunca é. E se me dava prazer, começou a relatar uma série de desventuras, às quais reagi com forçosa indiferença.

Mas ele poderia passar por qualquer coisa, as desgraças de Jó multiplicadas sobre sua cabeça, aquele homem falava de tudo com uma segurança, sempre, uma segurança que me humilhava. Impressionante, quanto mais amargas suas palavras, mais superioridade transmitia.

Tentei alguma coisa, algumas parcas glórias na mesa, e seu entusiasmo genuíno – ou perfeitamente dissimulado, o que dá na mesma – com aquelas bobagens me enfureceu. Quis sair apressado, acordaria cedo no dia seguinte; não poderia haver desculpa mais absurda, ele me conhecia. Mas nada transpareceu – apenas me perguntou se eu ainda sabia seu número de telefone.

Sim, eu sabia, e não irei discá-lo novamente. Mas receio que ele me ligue e eu tenha de retornar.

O casamento de Niemeyer

Entre as poucas áreas em que, abusadamente, arrisco dar um ou dois palpites, certamente não está a arquitetura. De modo que nada posso falar da contribuição do Sr. Oscar Niemeyer à matéria. Fosse fazê-lo, revelaria ainda mais claramente minha ampla e irrestrita inépcia, pois minha reação diante de alguns poucos originais de Niemeyer que pude apreciar foi simplesmente o pasmo – como pode sair alguma construção, ainda mais construção grandiosa, desses rabiscozinhos inofensivos?

Rudezas deste cronista à parte, pode-se afirmar sem erro que o arquiteto chama a atenção mesmo dos que ignoramos completamente as nuances de seu trabalho. Sua firmeza ideológica, intocável por tantos e tantos anos, é um exemplo de coerência política – ainda que algumas de suas convicções incluam pontos abomináveis, como a defesa do Stalinismo. Mas ainda não é isso o que me levou a escrever hoje sobre esse senhor.

Leio no jornal que Oscar Niemeyer, aos 98 anos, recém-recuperado de uma fratura no quadril, casou-se pela segunda vez – Annita, sua esposa por 76 anos, morreu em outubro de 2004.

O próprio Niemeyer trata de desmitificar o novo casamento. Segundo o arquiteto, estaria contraindo novas núpcias com Vera Lúcia Cabreira, de 60 anos, sua secretária desde 1992, simplesmente por um desejo piedoso de deixar algum bem para ela. Se a incluísse em seu testamento, a opção mais corriqueira, correria o risco de ter seu desejo anulado por conta de sua avançada idade: algum hipotético prejudicado poderia alegar à Justiça que uma pessoa de 98 anos não controla perfeitamente sua capacidade de decisão.

Não sei se por ingenuidade ou romantismo incurável, prefiro duvidar das palavras do arquiteto: atribuirei sua declaração à típica rabugice comunista. Fosse simplesmente para ajudar a companheira de trabalho, um talão de cheques preenchido em segundos bastaria. O Sr. Niemeyer quis casar, e outros motivos para isso deve ter.

Provavelmente os mesmos e nobres motivos que o levam a prosseguir como profissional de referência em sua área, notoriamente ativo; e o levam a não deixar de opinar quando acha que deve; e o levam a não se furtar de se envolver em polêmicas pelas causas que considera justas.

Niemeyer se casou porque vive.

E espero que, de manhã, tome café junto com sua esposa; e à tarde, possa passar algum tempo com ela, de bobeira, de mãos dadas; e ao fim do dia, despeçam-se com um beijo de boa noite.

Calor

Eu realmente não sei por quê, se é por conta do El Niño, pela emissão indiscriminada de gases poluentes ou simplesmente um Sinal dos Tempos. Mas o fato é que faz muito, muito calor.

Isso posto, usar este tempo para lavrar estas mal-traçadas é, mais do que um desperdício completo, quase uma falha moral. O calor deveria servir como chamado do mundo exterior, que em sua ira climática diz “Venha! Deixe de bobagem, destranque-se e faça alguma coisa!”.

Decerto o mais adequado seria dar umas voltas em torno do Lago, tão perto daqui de casa. A atividade física, dizem, sempre cai bem – no meu caso, necessidade eternamente adiada. E ainda haveria a vantagem de poder observar as moças, distrair-se em notar suas diferenças no modo de andar, correr, enxugar o suor, respirar ofegante, reclamar com uma amiga do cansaço e depois sorrir e continuar.

Para além do exercício e da simples admiração feminina, um casal brigando ou andando de mãos dadas, um velhinho se esforçando nobremente, um maluco cantando a altos brados enquanto corre – tudo isso serviria de matéria para crônica mais ensolarada, com o perdão do trocadilho infame. Só que agora não dá, impossível cogitar exercícios, adiarei a necessidade uma vez mais.

Já que é para ser sedentário, poderia haver uma piscina, quiçá a daquele prédio de tantas lembranças e de tantos amigos queridos. Próximo à água, tomar uma cerveja com o Pará, sem preocupações nem cadastros, falando mal da vida própria e, principalmente, da alheia – imagino poucas coisas mais prazerosas do que isso. Mas não vou incomodá-lo, ele deve ter coisas mais importantes para fazer com seu calor.

Porque não é só para atividades obviamente solares que o calor instiga. Há de se sentir a quentura e ser impelido a praticar o inusitado, ou o há muito protelado – esse é o espírito. Entregar finalmente, com coragem, a carta guardada no fundo da gaveta; telefonar para aquela pessoa e tentar esclarecer o mal-entendido, que se não for abordado, continuará mal-entendido; matricular-se subitamente na aula de piano; comprar uma passagem para o Rio… Eu dou exemplos, mas nada disso me toca, nada disso me convém.

Faz muito calor em Londrina e eu não sei o que fazer.

Revelações

É comum ouvir por aí que nunca conhecemos as pessoas de verdade. Anos e anos de convívio e de repente aquela atitude absolutamente assombrosa – a natureza humana é imprevisível.

Embora não possa deixar de concordar com isso, tenho para mim que, em certos casos, é possível ter uma idéia bastante exata de alguém em apenas um relance. Há certos gestos que, por mais breves, são índices inequívocos de um caráter.

O sujeito que, para ficar num exemplo banal, ocupa duas vagas no estacionamento de supermercado. Pronto, está feito: não preciso – nem quero – saber mais nada sobre esse indivíduo para lhe ter um juízo de valor formado e definitivo. Ele não presta.

A situação oposta é mais rara, mas também acontece.

Dias atrás, estava eu no cinema com dois amigos. Todos gostamos do filme, mas devem se pesar seus 152 minutos de extensão, de modo que não quiseram me acompanhar em meu ritual particular de assistir aos créditos, todinhos, até o final. Respeitavam minha excentricidade, só que agora não dava, perdão, estavam loucos para ir ao banheiro e fumar um cigarrinho, a gente se vê na saída.

As necessidades fisiológicas também me chamavam, uns tragos não seriam de todo ruins – mas não seria por tão pouco minha desistência. Sempre vejo os créditos, é sagrado, e desta vez estava particularmente interessado na autoria das canções da trilha sonora.

Enquanto a debandada acontecia, começou a safadeza: sabem-se lá por que razões obscuras, cortaram o tema musical do filme; como substituta, foi colocada uma dance music incompatível e insuportável, em volume altíssimo. Mas os créditos continuavam sendo projetados, resisti bravamente em meu assento, impassível. Era uma questão de honra.

O poder maior logo se fez valer, no entanto: a paciência do projecionista se esgotou e, sem mais nem menos, a tela ficou branca e triste.

Não podia acreditar no que estava acontecendo.

Estou longe de cliente encrenqueiro, daqueles que parecem estar sempre buscando pretexto para estardalhaço. Mas agora eu me sentia francamente lesado, vontade de gritar: pouco importava eu ser o único louco na sala, paguei para assistir ao filme inteiro e os créditos fazem parte da obra. Tinha direito de vê-los.

Levantei-me irritado: foi quando notei que não estava sozinho. Duas filas adiante, a moça também havia lutado até o fim. Percebendo minha contrariedade, ergueu os ombros, estendeu as mãos e sorriu, em gesto cúmplice de desalento.

Tentei alguma frase espirituosa, mas nada me ocorreu. Na falta de reação, apenas lhe retribuí o sorriso – sem a mesma graça, naturalmente – e saí da sala. Também não consegui reclamar com o projecionista, com a gerência, com Deus, com o diabo. Os entraves às vezes são bastante fortes.

Ao menos com a moça deveria ter falado. Com certeza, ela era especial.

De frases e mercados corrompidos

Cada um deve saber os predicados pelos quais escolhe seus parceiros. As formas de se reconhecer uma amizade são muitas e várias, algumas enganosas; para mim, tem-se no amigo a pessoa que sabe dizer as palavras exatas no momento preciso, quando precisam ser ditas.

Por isso tenho em tão alta estima meu caro Gabriel Borges, notório, brilhante frasista. Capaz de sintetizar mundos em uma sentença – e sem ter de recorrer a livros de citações para se fazer de sábio.

Estávamos num boteco qualquer comendo e discutindo sobre comida – excelente combinação. Em êxtase pela gordura do x-bacon, louvávamos os temerários produtos industrializados em detrimento dos naturalíssimos, saudabilíssimos e chatíssimos verdes. E para provar a superioridade de um sobre o outro, meu amigo se saiu com a seguinte pérola, uma maravilha que merece parágrafo à parte:

A natureza é suscetível a erros; o mercado, não.

Adam Smith, Keynes, Marx, Ricardo, Stuart Mill e demais parceiros que gastaram a vida para escrever tratados econômicos que me perdoem, mas a frase do meu amigo, assim, saída de estalo, é perfeita.

E, ainda na área do rango, há alguns que se aproveitam desse princípio de maneira genial. Meu irmão se delicia com um macarrão em copo, gororoba capaz de transformar miojo em prato requintado. É um verdadeiro milagre que aquilo venda, mas está lá, o mercado é infalível.

Pior são os que abusam, dando ares de requinte a banalidades. Penso no cara que decidiu transformar um pão francês com um monte de mortadela dentro em um sanduíche cult, cobrando o preço devido pelos maravilhosos produtos cult. Ele deve gargalhar sozinho até hoje.

E o tal do petit gateau? Quando comia, em festinhas de aniversário, um pedaço de nega maluca com uma bola de sorvete de creme era a mesma coisa, mas eu não precisava caprichar na pronúncia gaulesa. E de repente a coisa vira o novo prato emergente da moda, mais ou menos como eram os insuportáveis filés ao molho madeira há uns dez anos – hoje, coitadinhos, estão no ostracismo.

É… Com a inépcia típica, acabei deturpando toda a intenção da frase do Gabriel. No que tange àquele x-bacon, no entanto, ele tem razão: o mercado é infalível – e nesse caso, isso é bom.