Fogos (d)e artifício(s)

Sempre me pareceu muito intrigante esse negócio de depressão pós-parto. Em reação que parece contrariar o tão propalado instinto maternal feminino, muitas mulheres são acometidas de uma tristeza inexplicável logo após darem à luz seus filhos. Acabam sendo tachadas de mães desnaturadas quando, na verdade, estão doentes. E ter vergonha de estar triste é uma tristeza dobrada.

A analogia é tosca, mas também vejo por aí, de modo cada vez mais evidente, a depressão pré-ano novo, tão confusa quanto a primeira. Se todos propagam a vida renovada, a prosperidade, a paz e a benevolência, por que diabos ficar amuado? O pobre que não entra no contentamento generalizado acaba passando por estraga-prazeres, turrão ou coisa pior.

Especialistas dizem que a chave do negócio é a maldita obrigação de se estar feliz. A pressão deixa quem não consegue incorporar a satisfação plena se sentindo um pária – e não há Espuma de Prata ou Moet Chandon, nozes ou romãs ou lentilhas, pulos em sete ondas, roupa branca ou lingerie estratégica que aplaque o sentimento.

Há também os fogos de artifício, coloridos, vibrantes, barulhentos. Se se levar em consideração o nome, deixam a impressão de serem muito mais artificiais do que artificiosos. É tudo horrivelmente kitsch – para não usar o mais recente e brasileiro “brega”. Quando se é criança, gosta-se desse apelo lúdico; depois, só se permite apreciar tal tipo de coisa em datas estratégicas, nas quais o normalmente vexatório é tolerado e até incentivado: vale tudo, afinal é ano novo (ou carnaval, ou aniversário, ou sei lá o quê).

Não serei eu a condenar os pequenos desvarios alheios: feliz de quem consegue se sentir feliz com isso. Apenas gostaria que explodissem os fogos também no dia da árvore e no dia dos finados e no dia do funcionário público; e que a mesa fosse farta também no dia do trabalho e na Sexta-feira Santa e no Dia da Independência; e que todos se amassem e estivessem pré-dispostos ao perdão de janeiro a dezembro.

Enquanto isso não é possível, a todos um feliz ano novo, não necessariamente com fogos de artifício, mas com todos fogos e artifícios possíveis.

A água de que todos bebem

Corre nos rios e riachos; está nos mares, nos lagos e lagoas; nas poças formadas pela chuva; nos supermercados; nos filtros, de barro ou, mais modernos, de materiais vários; também no corpo humano, constituído em não sei quantos por cento de água – é um percentual elevado, assusta como podemos ser sólidos com tanta água. Água. Aquela canção brega do Guilherme Arantes sugere que o nosso planeta deveria se chamar Água, pois o líquido está aqui em maior quantidade do que a terra.

A água – que todos bebem.

Embora a importância do querido H2O seja inegável para a vida, desvalorizam-no freqüentemente. Quando algum plano, por infelicidade do destino, malogra ou não vai como previsto, costuma-se dizer que “deu água”. Se algo é sem graça, fraco de temperamento, pode-se falar em “aguado”. Mas todos bebemos a água de que todos bebem.

Os médicos e demais profissionais da saúde recomendam que seja ingerida diariamente em grande quantidade, dois litros ou mais. Alguns mal-intencionados tentam burlar o negócio, contabilizando a água presente em refrigerantes, sucos, café ou miojo – não vale. Tem de ser água pura, preferencialmente insípida, inodora e incolor. Água de que todos bebem.

Há uma rica diversidade de águas potáveis. Água de bica, poço, poço artesiano, o escambau. E há a água gaseificada e há a água tônica, boa para se tomar com gelo – também feito de água –, um pouco de limão e gim. Por fim, há as águas metidas a besta, aquelas que os artistas costumam exigir em seus camarins. Uma vez, em casa de primo de amigos meus, resolvemos experimentar um pouco da famosa Perrier, que estava dando sopa ali na geladeira. Bebemos metade da garrafinha e depois completamos com água de torneira. Foi uma travessura. Agora só me falta provar Evian, a preferida da Madonna. Mas não importa, seja lá em que formato estiver, é água, a água de que todos bebem.

Ela é vulgar – a água de que todos bebem. Ela é comum, estupidamente banal em sua clareza. No fim das contas, serve para matar a sede: já é um préstimo elevado.

Apelo novo

Volta e meia tenho de recorrer a um surradíssimo caderno para realizar meus surrados escritos – creio que é um procedimento comum aos cronistas. As idéias me vêm no meio da noite, parecem-me geniais, e se eu não as anoto, esqueço delas por completo. Geralmente, ao acordar e conferir o apontamento, o brilhante insight se revela uma decepção ou um delírio ébrio. Mas ainda é melhor do que a angústia de tentar recordar um lampejo perdido por falta de papel e caneta, a sensação tormentosa de haver desperdiçado a crônica de sua vida, que jamais voltará.

Sem idéias para escrever, apelei hoje ao caderno de trunfos. E lá estava, em tinta vermelha – raramente uso caneta dessa cor –, ocupando uma página inteira, duas palavras simples, conjugadas: “apelo novo”.

Lembrei-me da circunstância em que havia feito a nota, uma madrugada seca, a caneta vermelha não fora usada à toa, era uma idéia urgente, fulgurante, tão intensa que eu achei não serem necessárias mais do que duas palavras para trazer um brilhante texto à tona. Doce ilusão. Agora estava eu, mesmo havendo usado o caderno, com o gosto amargo do que se foi.

Uma frasezinha só certamente daria conta do problema, tudo me voltaria facilmente. Mas não, em arrogante displicência, achei suficientes duas palavras – que agora não me diziam nada, apelo novo, que diabos. Certamente deveria dar margem a um texto romântico, “o apelo novo de um amor”, talvez…

Os casamentos acabam por falta de um apelo novo, a rotina costuma ser a vilã das uniões estáveis – quem sabe a coisa fosse por aí. Ou então, em âmbito radicalmente oposto, o assunto era o apelo que o novo produz em esfera comercial.

Eu mesmo não resisto a um lançamento: quero logo experimentar qualquer sabor novo que a Kibon lança no mercado, quanto mais estapafúrdio, melhor – embora sempre acabe voltando ao Flocos. Com a Fanta se dá processo parecido, provei todas as novidades da área e são invariavelmente horríveis – menção honrosa para a Fanta maçã – tanto que, assim como vêm, partem não se sabe para onde; no entanto, provarei a próxima nova Fanta assim que algum gênio inventar, arrependendo-me previamente, mas capitulando ao apelo.

Há jeitos e jeitos de se resolver um apelo novo – e nenhum é propriamente uma novidade. É o consolo para o meu apelo perdido.

Papéis

Há muito desisti das resoluções de ano novo, por completa incapacidade de cumpri-las. Nada contra a tradição, até admiro quem a sustente e dela tire bom proveito, mas, no meu particular caso, sejam ambiciosos ou modestos, os planos não resistem até fevereiro. E já que é tão custoso cumprir metas para edificar algo, instituí meu próprio ritual para as viradas de ano, não visando à construção de nada, simplesmente tendo em vista a destruição – de papéis.

É um exercício fantástico, o de destruir papéis. Não exige comprometimento, força de vontade ou concentração. E no próximo ano, em vez de se lembrar do que prometeu e não cumpriu, apenas haverá mais papéis a eliminar.

Só há vantagens na prática: as gavetas, as estantes, os armários – para não falar nos lugares improváveis – estão entulhados de papéis inúteis, sabem-se lá por que diabos ainda estão lá. Não é preciso muito esforço para reuni-los, apenas um momento de determinação, “Basta!”. No simples ato de destruir papéis, pode se eliminar de uma vez por todas aquele vexatório papel que você insistiu em interpretar durante o ano. Deve-se acabar com eles, inapelavelmente: a falta de piedade é essencial nesse instante.

Se o bilhete da antiga namorada lhe olha com ternura, pedindo mais uma temporada na gaveta, não se deixe enganar, dê um fim àquele entulho; se a prova antiga o lembra dos tempos bons que já passaram, largue a mão de ser idiota e dê cabo dela, não será um pedaço de lixo a resgatar o perdido; aquela carta escrita e jamais enviada, por medo ou por vergonha ou por qualquer outra coisa, você sempre volta a fitá-la com angústia, jogue logo no lixo e o problema está encerrado. Sem falar dos papéis absolutamente improváveis, incrível que tenham durado tanto tempo, bulas de remédios, folhetos de festas passadas, contas de luz milenares – adeus a tudo.

Livrando-se dessa porcaria toda, ainda haverá o bônus de finalmente achar aquele documento que você procurou por tanto tempo, aquela receita maravilhosa de pudim que sua tia-avó lhe deu e você havia perdido. Estavam escondidos por ruínas.

Depois, é só escolher o método. Há quem apenas amasse, acho insuficiente: rasgar em pedacinhos tem um caráter terapêutico. E se o montante for elevado, nada como a beleza do fogo, de milenar atração sobre o homem, para destruir a pilha de papéis imprestáveis.

Inócuo e necessário

Este espaço, idealizado para a postagem de crônicas, tem nas miudezas do dia-a-dia a matéria-prima para as bobagens deste que vos escreve. De modo que, por muito longe de miudeza, mas sim uma enorme abjeção, talvez não seja o meio mais adequado para tratar da tão propalada pretensão parlamentar de autoconceder aumento salarial de 91%.

Minha resistência também se perpetrou por dias pelo simples fato de que, com tantos artigos, editoriais, comentários e análises, iradas, reflexivas ou debochadas, tratando do assunto, pouco de novo eu poderia acrescentar sobre o tema – embora alguns dos textos propagados na imprensa sejam tão pobres que até incentivam este cronista a continuar se arriscando na inglória labuta da escrita.

Com efeito, continuo nada tendo de original a comentar: posso, com a humildade do óbvio, afirmar que se trata de uma afronta à população, um escárnio, e as idas e vindas do caso, a evidência do jogo de pressões, apenas demonstram a precariedade e vileza do Legislativo Federal.

No entanto, mesmo sem a prerrogativa do brilhante, seria um desperdício dispor de um espaço para escrever – ainda que de irrisória projeção, como este – e não manifestar indignação ante a manobra. Sem pretensões estilísticas ou de novidade, apenas indignação. Trata-se, para avacalhar ainda mais a qualidade do texto e usar o clichê mais surrado, de cada um fazer sua parte como pode ou acha que pode.

Lembro-me, nos idos de 1992, eu ainda criança, de meus pais me levando a manifestações pelo impeachment do então presidente Fernando Collor. Lá pelas tantas, uma estudante universitária, bonita e sorridente, ofereceu-se para pintar meu rosto com tintas verde e amarela. Já insuportavelmente teimoso, apesar da pouca idade, recusei de maneira violenta. Não gostava de meleca. Ademais, era inócuo para o futuro do país o meu rosto limpo ou borrado – eu não sabia o significado de “inócuo”, mas o raciocínio era esse.

Hoje, tenho mais clareza a respeito do que é inócuo. E sei que este é um texto inócuo, mais do que seria minha cara pintada. Ainda assim, faço questão de escrevê-lo.

Repito o exemplo superior de Janio de Freitas e Clóvis Rossi, reproduzindo aqui lista dos parlamentares que se manifestaram, desde o começo do imbróglio, e anteriormente a pressões externas, de maneira contrária ao aumento descabido. São estas as exceções ao nojo generalizado: na Câmara, Fernando Gabeira e Chico Alencar (RJ); Mendes Theme, Luiza Erundina e Carlos Sampaio (SP); Raul Jungmann e Roberto Freire (PE); Walter Pinheiro (BA); Renato Casagrande (ES); Henrique Fontana e Luciana Genro (RS). No Senado, Eduardo Suplicy, Jefferson Péres, Heloísa Helena e Cristovam Buarque.

Esquecimento

Nesta vida, perdem-se muitas coisas, é uma desventura. E alguns objetos ainda contribuem com a tendência natural, parecendo ser feitos sob medida para se esquecerem por aí.

Os guarda-chuvas são o exemplo cabal. Todo mundo já perdeu um, é inevitável. Tendo-se um guarda-chuva, um belo dia ele será deixado em algum canto para nunca mais voltar. Como, apesar de sempre esquecidos, raramente se encontram guarda-chuvas dando sopa – os próprios e mesmo os alheios –, pode-se atribuir uma aura quase mística a esse enigmático utensílio.

Há ainda outros casos bem sintomáticos: as borrachas, que jamais chegam ao final; os isqueiros, sempre devendo ser comprados no modelo mais vagabundo possível, uma vez que serão perdidos de qualquer forma; ou, para quem se arrisca a tocar instrumentos de corda, as palhetas: ninguém cogita seriamente manter uma por muito tempo.

(Isso para não falar em casos de pertences que serão perdidos fatalmente, mesmo se não forem esquecidos: abrir um pacote de Hall’s ou Trident na frente de um grupo de pessoas é perda total e irreversível.)

Documentos também são excelentes para desaparecer. Procurando outro dia no Pátio San Miguel, a atendente me estendeu uma pilha de identidades, carteiras de motorista, CPF’s, o diabo, e ainda comentou: “Divirta-se buscando, pode ficar à vontade, é impressionante a quantidade de coisas que esquecem por aqui”.

É, sou apenas mais um, também me esqueço das coisas com freqüência assustadora. Mas ao menos a média da população tem o consolo de poder dizer “Só não esqueço a cabeça porque está grudada”. Eu não.

Por defeito congênito, minha cabeça pende como um acessório separado do resto do corpo. Tenho sempre de me lembrar de carregá-la, o que às vezes é difícil.

Em uma ou outra ocasião, as pessoas me recordam que eu estou sem cabeça; pode parecer gozado, mas, se não me falam, eu nem noto, saio sem cabeça numa boa. O ruim é ter de recuperá-la depois, um pouco constrangedor, percebo olhares recriminadores e até mesmo de escárnio.

Afinal, uma cabeça solta na vida chama a atenção. Ela pode estar em lugares comprometedores, e não há como negar que é sua. É terrível não ter como esconder: por mais que você dissimule, todos sabem onde está sua cabeça – e isso dói.

Eu devo amarrar, com nós cegos, ou eu perco a cabeça.

Pela última vez

Pela última, pela última vez, peguei o carro de madrugada sem ter absolutamente aonde ir. E rodei a esmo, vi luzes, pessoas falando alto, e me senti desgraçado. Corri, desacelerei, estacionei em lugares improváveis, corri novamente e quando me dei conta estava em frente a sua casa. E por lá fiquei, olhar fixo, pelo tempo bastante de um cigarro, cigarro que você detesta. Pensei em quando você me esperava, eu sempre atrasado, perto daquela árvore, pela última vez.

Pela última vez, tirei sua foto do fundo da gaveta e mirei seus olhos azuis, buscando alguma comunicação. Desculpei-me ao imaginar que talvez não fosse a mesma pessoa e guardei logo o retrato, assustado. Não o rasguei quando queria, pela última vez. E revi cartas, anotações, bilhetes, livros que valem mais pela dedicatória. Escutei a canção, não pela última vez, mas de forma derradeira naquele espírito; agora há de soar como qualquer canção. Julguei que talvez fosse um pesadelo, que aquilo era impossível, pela última vez.

Pela última vez, dei-me ao trabalho de me surpreender com uma atitude sua. Respondi de maneira elegante às indagações, sorri com precisão, recriminei-me por ter de representar na sua frente – mas também, nunca mais. Deitei-me no seu colo, duas ou três frases bonitas, a humilhação de uma noite de favor (“Eu sei que é muito bom, mas não vá se acostumando”). Única vingança possível, não fiquei feliz até vê-la chorar, pela última vez.

Pela última vez, ri quando você afirma, com meiga pretensão, que toda minha prosa barata é em sua deferência. Não mais compararei seu corpo com o de cada uma, maldizendo-me por ter de lhe dar vantagem. Senti falta do entendimento rápido, com um olhar malicioso, e do seu jeito de pedir, tocar, sorrir, gritar. Achei que você fosse única, juro, pela última vez.

Pela última vez, tive visões suas ao olhar para o céu, os lugares que amo, as pessoas queridas. Pela última vez, reprimi minha arrogância e evitei me sentir superior ao observar sua situação. Pela última vez, invejei sua situação. Pela última vez, não me contive. Seus olhos azuis, novamente, pela última vez. Até a próxima vez.

Razão, motivações, sentidos

Para qualquer fato ou ação, há muitas razões e motivações possíveis, as mais várias, quantas possam existir. Complicado tentar distingui-las. Mas embora ninguém pareça saber direito nem sequer o que faz, há uma tendência obsessiva em se tentar entender as razões e motivações alheias – um esforço inútil.

Essa longínqua preocupação pode ser facilmente notada na língua portuguesa. Não é um exagero a variedade de porquês disponível? Por que, além da função de pentelhar estudantes colegiais e pretensos escritores atrapalhados, a necessidade de tanta variação em cima de uma coisa só? Porque, venhamos e convenhamos, é um saco decorar as regras dessa instituição gramatical. Por quê? Tudo fruto dessa teimosia em tentar compreender as razões, os porquês.

E a coisa toma amplas proporções. Está nos inofensivos romances da Agatha Christie, nos quais não basta haver um crime e um culpado, há de se saber o motivo, sem a elucidação da causa não vale nada. E também está em redações de vestibular. No último exame da Universidade Estadual de Londrina, era pedido para se dissertar sobre o sentido da vida. Simples assim. Em 25 linhas. Parece-me estranho, mas não vou cair no mesmo erro e tentar entender qual a razão de um diabo infeliz propor um tema desses – apenas ouso especular que devem ser razões gravíssimas, patológicas, embora cada vez menos raras.

Com o perdão da afirmação peremptória, arrisco dizer que, grosso modo, as razões pouco importam. Grandes atos foram cometidos sob motivações as mais banais. A Guerra de Tróia por causa de uma moça chamada Helena – a desgraçada devia ser bem bonita –, a expulsão do Paraíso por uma simples maçãzinha – espero que tenha sido Fuji, indubitavelmente a melhor. Assim como aspirações nobilíssimas acabam não dando em nada, ou, pior, resultam em verdadeiros desastres.

Importante ressaltar, isso não equivale a um “os fins justificam os meios”, uma vez que os meios podem gerar vários fins involuntários. Nem se pretende negar a filosofia ou a ciência. Apenas é o caso de pensar se às vezes não é melhor interromper um pouco a busca de razões e aproveitar o que a vida nos dá – o bem, o mal e o sem sentido.

Parede vazia

A parede branca é uma coisa triste – assim ele pensou. Nunca fora acometido por aquela angústia tão comum aos criadores, “o sofrimento do papel em branco”: ia preenchendo os papéis com qualquer bobagem, sem dar tempo a essa aflição tão banal, ele tinha outras para se ocupar.

Mas a parede nua, tão ampla, despertara-lhe certo desconforto, parecia uma alegoria barata de algo de sua vida. Já que era para olhar as paredes, ao menos não fosse para aquele enfadonho vazio – alguma coisinha ali cairia bem. Evidente, ele era incapaz de escolher “qualquer coisinha”, absolutamente impossível. E enquanto não achava a grande figura, a parede continuava intocada.

Se ao menos tivesse uma tia adequada, com dotes artísticos… Sempre achara impressionante o fato de os quadros pendurados nas casas por aí serem invariavelmente da autoria de tias: todo mundo parecia ter uma tia pintora, nunca uma mãe, o que lhe soava como um paradoxo interessantíssimo. Mas em seu caso particular tanto fazia, ele não tinha nem mãe, nem tia, nem pai, nem cachorro pintor – para não mencionar sua própria e vexatória inaptidão, tinha dificuldades até para fazer um círculo com compasso.

“Mas você tem uma amiga, oras”, disse ela, mal disfarçando um sorriso jocoso pelo relato involuntariamente cômico de sua agonia, “se todos os seus problemas se resumem a isso, eu resolvo”. Não, não se resumiam, mas ainda assim… “Você?”, “Sim, por quê? Está duvidando de minha capacidade? Vamos fazer assim, para o natal você terá algo a pendurar em sua parede branca”.

Não queria magoá-la e, afinal de contas, presentes não se recusam. Mas, diabo, era uma situação complicada. Quando o presente é um disco, ou um livro, ou até mesmo roupa, sei lá, pode-se sorrir amarelo ante o objeto indesejado e logo depois enterrá-lo numa gaveta para nunca mais sentir a luz. Mas um quadro era diferente, ainda mais tendo como destinatária uma parede específica – se ele não pendurasse, seria uma ofensa. De modo que ganhou nova e curiosa preocupação: o que viria a ocupar sua parede? Estava completamente à mercê do destino, personificado em sua prestativa amiga.

Mas era bom saber que algo, seja lá o que fosse, preencheria sua parede, tão branca, tão vazia.

Perdas e danos

Pretendia escrever sobre a exposição a qual acabara de visitar; sobre quadros, esculturas, instalações, performances e intervenções – sejam lá o que signifiquem.

No entanto, no caminho de volta para casa, dentro do ônibus – sempre ele –, surgiu coisa mais interessante; das mais interessantes que podem surgir, aliás: uma moça. E quando surge uma moça, são justas as alterações de perspectiva.

Ela veio de trás, levemente esbaforida, com notas evidentes de receio em seu andar e em seu rosto; havia nela uma certa resignação, de quem já espera resposta desagradável, quando perguntou ao cobrador se faltava muito para chegar na avenida tal, a que ela havia pedido para ser avisada quando estivesse próxima.

Fui espectador privilegiado da cena, por estar junto ao cobrador: vi quando ele, com dissimulação odiosa, deu um tapa – infelizmente, fraco – na testa e gaguejou algo estúpido e incoerente, do tipo “Ah! Eu esqueci… Já passou faz muito tempo, agora está longe… Ainda lembrei que tinha de avisar alguém quando chegasse, mas dei uma olhada e não te vi…”.

“Mas eu estava ali…”, limitou-se a murmurar a moça. E pude flagrar em seu semblante, num desses momentos decisivos, a representação exata da frustração; a decepção legítima de quando já não se pede nada grandioso, limita-se ao absoluto banal, e mesmo assim a vida – personificada no cobrador – insiste em desiludir.

A insolência não havia acabado: com um modo cortês que só reforçava o escárnio, o cobrador sugeriu que ela esperasse “o ônibus ir até o ponto final e depois voltar”, daí ele a avisaria, desta vez sem falha, da chegada ao local devido. Mais uma vez – que rosto transparente! –, estava lá estampado, como alegoria perfeita, o pasmo causado pelas propostas absurdas da vida que acabamos tendo de aceitar, por pura falta de opção.

A moça se sentou, cansada, e irá e voltará quantas vezes forem, esperando alguém bondosamente avisar que sua hora chegou. Se pudesse, ajudava a moça, levava-a até onde ela quer – mas eu também estou perdido.