Brincadeiras

Nestes tempos pré-carnaval – o ano, dizem, não começou – muitos são os que vêm a mim, entristecidos, e reclamam de um certo tédio. Sentem falta daquela curtição, baladas muito loucas, uma vibe, muita gente bonita, descolada, calor humano, azaração solta, sem frescura, beijo na boca, o baixo astral ficando do lado de fora.

Não compartilho dessas expectativas; no entanto, por solidariedade aos iluminados seres que sentem falta de “atividades”, darei neste espaço, de forma inteiramente gratuita, sugestões de ocupações lúdicas para preencher o tempo ocioso, enquanto a folia não vem. Para facilitar a prática, mencionarei apenas brincadeiras que requerem poucas pessoas para sua execução.

A primeira, ideal para tardes de enfado ou noites de insônia em viagens de ônibus, é a espetacular Inversão de Nomes. Estimula o lado direito do cérebro, a memória e a concentração. A coisa é simples: sem auxílio de lápis, caneta, ou qualquer coisa com que se escreva, tem de se montar, de trás para frente, nomes ou frases completas. Eu, por exemplo, virei Seomis Satierf Ed Erdna, um toque de Europa Oriental. Minha amiga Heloísa Zanardi Coltro se transformou em Ortloc Idranaz Asioleh, nome de forte sabor africano – principalmente pelo Asioleh, poderia ser zagueiro da seleção da Nigéria. Vêem como é fascinante?

Para quem busca algo mais movimentado, há a maravilhosa Corrida do Vinho, com um mínimo de dois participantes. As regras são as seguintes: em uma loja especializada – pode ser também na seção vinícola do supermercado, mas não tem tanta graça –, ganha quem achar o vinho mais caro disponível, em um prazo pré-determinado (sugestão: 30 segundos). Apenas há de se tomar cuidado para a empolgação não resultar em quebra de garrafas.

Existem variações menos perigosas: em uma loja de conveniência, escolhe-se uma prateleira; o vencedor é quem apontar, sempre sob um tempo convencionado, o pior produto existente. Ontem mesmo tive a oportunidade de brincar, e fui derrotado quando meu amigo apontou o Açúcar Mascavo Negrinho do Pastoreio, pérola que havia me passado desapercebida. Pode-se conseguir efeito similar com uma lista telefônica, achar o nome mais feio em poucos segundos – antológico foi o dia em que Cleobulo veio à tona. Para os casos nos quais os jogadores não conseguirem entrar em consenso quanto ao vencedor, um juiz isento deve ser apontado.

Há ainda os passatempos mais sugestivos intelectualmente: durante um minuto, um participante menciona pessoas conhecidas, e o outro tem de associar as três primeiras palavras que lhe vêm à cabeça aos nomes listados; depois, invertem-se as funções. Cuidado!, as conseqüências do joguinho podem ser irreversíveis.

A quem, contudo, não apetece nenhuma das brincadeiras supracitadas, o jeito é esperar pelo carnaval para cair naquela curtição, baladas muito loucas, uma vibe, muita gente bonita…

Se todos fossem iguais a você

Já estava com a passagem – de ônibus, Ouro Branco – comprada para voltar a minha Londrina, quando me desperta a atenção na TV uma chamada para um especial dedicado a Tom Jobim, por ocasião dos 80 anos de seu nascimento.

Os flashes com as imagens de arquivo mostrando Tom ao lado de Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gal Costa e vários outros grandes me foi suficiente – em oposição a Oswald de Andrade, que não viu e não gostou, eu ainda não vi e já gostei.

Penso em quanto material histórico a gloriosa Rede Globo possui engavetado e indisponível; como nenhum incêndio suspeito vitimou a emissora, ao contrário da Record, não há por que tanta parcimônia na reprise de suas pérolas – de modo que iniciativas raras como essa devem ser valorizadas.

Em poucos minutos, decidi-me a adiar minha viagem – que coincidia com o horário do especial – para acompanhar as melodias do maestro soberano. Amigos tentaram me dissuadir, maluquice, sua mãe com certeza assistirá, ela grava para você, depois você assiste tranqüilo, não vale a pena todo o trabalho de remarcar o ônibus.

Não deixei de pedir os favores da mãe, que, tenho certeza, há de se esmerar para gravar o programa para seu filho. Porém, isso não invalida minha vontade de ver tudo no exato momento de sua exibição.

Qual a diferença, afinal? Não sei ao certo. Talvez a idéia de estar unido, num mesmo momento, a milhares de pessoas, com um propósito comum – e nobre. Isso me soa belo. Por infelicidades cujo registro não cabe neste espaço, não fui ao show gratuito dos Rolling Stones, em 18 de fevereiro de 2006 – ah, como eu lembro da data! E o que mais lamento ter perdido não é a oportunidade de ver Jagger, Richards e cia. ao vivo, mas sim a chance de estar ao lado de 1,5 milhão de pessoas, todas com mais ou menos os mesmos intuitos.

Não estarei hoje no mesmo espaço físico dos demais espectadores, mas a possibilidade de que alguém se comova ao mesmo tempo que eu, ao ouvir aquela linda passagem de “Se Todos Fossem Iguais A Você”, faz-me sorrir.

Vida, arte e televisão

Em uma de suas frases imortais, Woody Allen disse que “A arte não imita a vida, tampouco a vida imita a arte, mas sim os programas baratos de TV”.

Pensei nisso esta semana, quando, no meio de um espetáculo para 50 mil pessoas, em pleno Parque da Independência, pude presenciar um homem e uma mulher se dedicando à milenar arte da briga conjugal.

Todo o restante do público (exceto este bisbilhoteiro cronista) se deixava levar pela catarse coletiva, erguendo as mãos, cantarolando as canções, vibrando com os solos de guitarra – eles não estavam nem aí. Em um universo particular, a única coisa de existência relevante para os dois era o maravilhoso diálogo que pude escutar e aqui reproduzo:

 Como você pode tratar assim, desse jeito, seu cachorro, sua mulher grávida? Grávida, tá vendo?

 Meu amor, eu te amo. Eu te amo, você não vê?

Não, ela não via. Assim como não via nada do que se passava a sua volta. Eu também não consegui ver muito mais, pois uma corrente humana me levou para longe do casal beligerante, obrigando-me a apreciar o show – que estava ótimo, por sinal. Mas não consegui tirar a imagem da minha cabeça, a intensidade da coisa: no meio da massa ou no deserto, o espetáculo dos dois seria o mesmo, o ambiente pouco importava para extravasar os sentimentos despudoradamente. Novela pura, e daquelas bem safadas.

Chegando à casa do meu anfitrião em São Paulo, mais cenas de televisão ruim: estávamos com fome, meu amigo disse que iria preparar uns hambúrgueres. Ótimo. Mal pude acreditar quando dei um pulo na cozinha e vi o utensílio usado para a feitura do rango: um autêntico George Foreman Grill!

Não achava que fosse possível alguém levar aquilo a sério, ainda mais meu notoriamente pão-duro colega. Ele me tranqüilizou: o brinquedo não era dele, apenas tomara emprestado de uns conhecidos que viajavam. Era primeira vez que pilotava o trambolho, estava curioso quanto aos resultados.

Eu também. E o que me saiu foi um hambúrguer absolutamente medíocre, como era de se esperar. Pior, a coisa grudou, e não escorreu gordura nenhuma na bandeja protetora, como garante a gloriosa propaganda. Mr. Foreman fazia melhor enfrentando Cassius Clay: como vendedor, não consegue nem com que a vida imite seu programa barato de TV.

Comigo, em meu quarto

Foi entrar no meu quarto e avistar um cara que nunca antes havia visto. Apesar de nossa pouca intimidade, ele parecia bem confortável: deitado na cama – até aí tudo bem –, com os sapatos em cima do lençol. Parecia me esperar faz tempo. Protestar seria inútil, sua posição era claramente superior. Também não poderia gritar ou pedir ajuda, o medo me impedia.

O jeito foi abrir espaço na cama (minha cama) e me sentar, esperando suas resoluções – que não vieram. Em acordo tácito, eu não fazia estardalhaço e ele também não me importunava. Olhamo-nos como dois lutadores que se avaliam, com um ódio respeitoso.

Sem palavras, começou a mexer nas minhas coisas. Queria impedi-lo, mas não havia reação possível. Abriu gavetas, vasculhou armários, fuçou nos mais recônditos espaços de meu quarto. E leu antigas cartas, notas, diários – não perdoou nem contas de telefone. Estranhamente, porém, não houve espaço para constrangimento: mesmo ao descobrir coisas as mais íntimas, permanecia impassível, deixando-me em curiosa tranqüilidade. Até me lisonjeou seu interesse por tantos detalhes inexpressivos de minha vida.

Só abriu a boca ao deparar com um retrato já empoeirado, de muitos muitos anos atrás, uma época feliz. Bateu com dois dedos na fotografia e sentenciou, “Fotogênica!”. Não podia acreditar, só podia ser piada, embora em sua feição não houvesse indício de brincadeira. “Você quis dizer patogênica?”, retruquei, e ele sorriu – um sorriso lindo, revelador. Ajudou para quebrar o gelo.

Estava tudo muito bom, mas eu precisava dormir. Não mais me incomodaria com sua presença e sabia que ele também não iria se importar se eu apagasse a luz. Assim o fiz. Mas o sono não veio. O sono não vem.

Agora olho para o teto e ele está lá, pendurado, encarando-me. Por mais bizarra que seja a situação, acalma-me ser velada, mesmo desse jeito pouco ortodoxo. Ele está lá em cima e lá permanecerá quando eu dormir. Só isso para me fazer descansar. Vou amolecendo.

Meu pai não vai gostar de saber que há um cara comigo, aqui, em meu quarto.

O número redondo

O sistema decimal, além de facilitar nossas vidas, criou um mito poderosíssimo: a força do número redondo.

Pelé não usava a camisa 13 (esse era o Zagallo), nem a 17, mas sim a dez – e assim todos os moleques posteriores, quando se arriscaram numa pelada, passaram a aspirar por esse número.

As coletâneas de contos, poemas e crônicas também se aproveitam da brincadeira. Nunca vi como título “Os 83 melhores contos de Beltrano da Silva”, nem “46 sonetos imortais de Fulano Oliveira”. O que falar então das seleções musicais? São sempre “Dez melhores álbuns do ano”, “Cem melhores canções de 1965” ou o fabuloso “Um milhão de hits marcantes de Lulu Santos”.

E assim a coisa desce ladeira abaixo: cem infalíveis receitas de bolo (formas de se agarrar um homem, fórmulas para a felicidade), dez melhores homens de negócio (biquínis para o verão, nós de gravata, marcas de maquiagem, beijos em cenas de cinema).

Nos programas de TV, encher lingüiça é a tônica. Serve qualquer convidado, de qualquer maneira, com qualquer propósito. Quando se chega, porém, à milésima edição, o negócio ganha contornos de gala, inexplicavelmente. Não é pela longevidade, uma vez que essa já havia sido conquistada na 998ª e 999ª edições, sem que ninguém desse a mínima. Não, a pompa, o apresentador de gravata, os convidados especiais, tudo está lá apenas pela magia do número terminado em zero.

Leio hoje no jornal, com sincero contentamento, que finalmente os devotos de Zeus conseguiram, em Atenas, fazer seu culto de forma legal, 1,6 mil anos após os romanos banirem a religião. Era realmente uma vergonha que, Zeus, um deus tão gente boa, não tivesse seu culto devidamente legalizado, com papéis em dia e recolhimento de impostos. Algo me diz, porém, que, se assim o quisessem, os crentes do deus grego supremo teriam conseguido sua celebração oficial há algum tempo. Mas não teria a mínima graça falar em retomada após 1.589 anos: melhor esperar uma data redonda, para a evidência da glória.

Glória que me falta nesta minha centésima crônica, mas eu nem ligo: na falta de outras razões, comemoro mesmo assim.

Agendas e diários

Um objeto curioso, a agenda. Não guarda seu valor em si, mas sim nas lembranças que proporciona a seu dono. Há quem não viva sem ela, em casos de completa dependência. Qualquer possibilidade de compromisso, insignificante que seja, e lá se vai abrir a agenda para tomar notas. Invejo a organização dessas pessoas.

Particularmente, não me dou bem com a agenda. Ela deveria me ajudar a lembrar das coisas, mas primeiro tenho de lembrar de consultá-la todos os dias, uma tarefa ingrata. Melhor ficar sem, e pelo menos não ter a falsa sensação de segurança contra o esquecimento. Minha última agenda é de 2003, gosto dela: o papel é bom, grosso e de comprimento adequado, com um generoso espaçamento entre linhas. Ideal para rabiscos, versos tortos, anotação de números de telefone ditados rapidamente – sem especificar a quem o número pertence, o que provoca posteriores confusões.

Não podendo com as agendas, que deveriam lembrar as coisas a fazer, pensei em ativar um diário, para lembrar das coisas já feitas. Sob certo ponto de vista, são opostos perfeitos – se eu não me dou bem com um, deveria ficar às mil maravilhas com o outro.

Há um certo charme nos diários, embora eles estejam fora da moda. Pode-se argumentar que o advento dos blogs trouxe novo ânimo ao gênero, mas, evidente, refiro-me aos diários encadernados e guardados a sete chaves – esses estão mais obsoletos do que nunca.

No entanto, surgem-me imagens agradáveis ao pensar neles. As coleguinhas de escola, levando-os à sala de aula, para frenesi dos meninos que sempre davam um jeito de roubá-los. Ou grandes escritores, que depois de mortos têm seus diários revelados, e assim vêm à tona detalhes picantes, ou pungentes, ou grandiosos, de suas vidas.

No fundo, o que se pretende quando se mantém um diário é a sua posterior descoberta. Sempre se escreve para alguém, mesmo que para um público imaginário – a graça está em ocultar e imaginar a reação ante a leitura, coisa que um blog, de acesso público, não oferece.

Mas e se quando descobrissem meu diário, em vez de se deliciarem com desejos e segredos, não dessem a mínima? Não quero correr o risco. Melhor sem diários e agendas: apenas as crônicas me bastam.

Raio

Estava correndo para chegar ao bar, caía uma chuva tremenda; quando cruzava o estacionamento, um raio cortou o céu e caiu a uns 15 metros de minha frágil pessoa. Fiquei assustadíssimo, evidentemente, nunca havia presenciado tal espetáculo da natureza de maneira tão próxima: um clarão enorme, faíscas saindo do chão. Estanquei na hora e olhei pasme para a cara de minha amiga, que me tranqüilizou com o clássico “Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”. Sim, mas nada impedia que caísse uns dez metros para trás, onde estávamos agora.

Tratei de entrar logo, na esperança de que a velha casa de madeira fosse abrigo mais seguro. Contei para todos os conhecidos, ainda mais pálido do que em minha convencional cor desbotada, de minha intensa experiência, da noção de fragilidade da vida, da impotência humana diante do imponderável. Não sei se a falta de interesse era com minha vida ou com o raio – talvez ambos –, mas o pungente relato não os impressionou. O máximo conseguido foi arrebatar um “Que massa!” de um sujeito que nunca havia visto mais gordo e por acaso ouviu a história.

Em casa certamente dariam valor a minha experiência transcendental. Introduzi com um infalível “Você não sabe o que aconteceu” e me pus a narrar o caso para minha mãe, que ouviu com toda a atenção para depois sentenciar, definitiva:

− Esses bares são um perigo.

− Mas mãe, que tem a ver o bar? O que interessa é que um raio caiu na minha frente, poderia ter sido em qualquer outro lugar…

− São um perigo, nada de bom acontece nesses antros – e se retirou para seus afazeres, convicta da periculosidade dos bares.

Estava arrasado com a situação; quando já ia me trancando no banheiro para chorar, alguém finalmente pareceu mostrar empatia:

− Como é essa história que você estava contando para sua mãe, filho? Um raio?

− É, pai. Eu estava chegando no bar, no estacionamento, e um raio resolve cair a uns 15 metros de distância, faísca e tudo, fiquei de cara…

− Então, André, deixa eu te explicar. Na verdade, os raios não caem, eles sobem, por um desequilíbrio entre as cargas positivas dispersas na base da nuvem e os elétrons espalhados na Terra. São os elétrons que fluem, procurando o caminho de menor resistência elétrica. Como o clarão é mais alto em cima, a impressão que se tem…

− Tá, tudo bem, mas é que o raio caiu…

− Subiu.

Desisti. E fui para o meu quarto, imune a raios que sobem ou descem, longe das chuvas, do perigo, do trovão.

Treino

A inspiração anda muito bem-cotada ultimamente. Não digo do fenômeno que faz parte da respiração, mas sim da idéia repentina. Tal valorização da espontaneidade pode ser perigosa, à medida que resvala num certo desprezo ao trabalho, à prática.

O termo “gênio”, com seus derivados, também anda muito em voga: qualquer frase engraçadinha, qualquer refrão pegajoso, qualquer filme fora de foco vira genial, se alguns abençoados assim o decidirem. Gostam tanto dos gênios, e parecem esquecer o sábio dito afirmando que eles são compostos por “90% de transpiração e 10% de inspiração”.

Não é caso de desprezar o súbito e o repentino para a criação artística: só é triste quando se percebe, por exemplo, uma certa tendência na crítica de música popular, pela qual “técnica” passou a ser um xingamento. E assim se glorificam ineptos com belos cortes de cabelo, ou grandes doses de “atitude”. Deve se ter claro que mesmo o improviso requer a segurança que só vigora depois de muito tempo sob o cansaço da repetição – repetição, nada glamourosa e absolutamente essencial.

A enganosa glorificação à falta de apuro espalhou suas raízes por outras áreas além da cultural, onde já vigora há algum tempo. Agora, em relacionamentos, no trabalho, no trato com os filhos, o lema parece ser “deixe rolar”, ou variações como “preocupar-se demais não vale a pena”, “só me arrependo do que não fiz” e – ânsia de vômito – “Carpe Diem”, repetido em profusão pelo imbecil sem a mínima noção do contexto original, como se fosse um salvo-contudo para fazer o que der na telha e ainda se achar embasado em “filosofia”.

Esse pseudo-hedonismo é praticado em larga escala por camadas nefastas da sociedade: alcoólatras de fim de semana, adolescentes com mais de 40 anos, dondocas e suas respectivas filhas, cristão fervorosos favoráveis à pena de morte e outros dejetos afins. Todos muito preocupados em não se preocupar, em viver, em curtir, em relaxar.

Pois em verdade em verdade vos digo: até para relaxar, verdadeiramente, é necessário treino.

Otimismo

Divagações metalingüísticas são pernósticas demais para este espaço; reclamações de pretenso escritor incompreendido são ainda piores. À falta de assunto, no entanto, é-me tentador usar como inspiração alguns comentários que tenho recebido por aqui mesmo, ou por e-mail, ou pessoalmente, acerca de meus esforços textuais. Seria bom esclarecer alguns pontos.

Para começo de conversa, nada do que escrevo aqui (este texto incluso) tem compromisso com a verdade. O gênero crônica me permite grande liberdade para misturar dados reais com fantasia, idealizações, adendos imaginários; ou então, pura e simplesmente, incorrer na ficção. Mesmo quando os escritos são mais puxados para o artigo ou comentário, geralmente tento dar uma temperada na coisa, com dados pessoais que podem ser pura lorota: tudo no intuito de um texto mais fluido e agradável – difícil é ter sucesso.

É engraçado quando tomam minha vida a partir deste Umas Palavras: infelizmente, minhas crônicas são mais interessantes do que meu humilde cotidiano. Também acontece de reivindicarem textos, até me agradecem, “Obrigado(a – geralmente a) por escrever sobre mim em seu blog”. Seria terrível desapontar as pobres almas com uma negativa, então costumo deixar passar – às vezes é até vantajoso, embora me doa a mentira.

De modo geral, é ótimo conseguir a resposta de meu grandioso público, chegam a mim sugestões construtivas e análises surpreendentes – sendo o mais surpreendente constatar que há de fato meia dúzia de gatos pingados se dando ao trabalho de me ler. Algumas réplicas, no entanto, são intrigantes.

Por ocasião de meu aniversário, pessoas (mais de meia dúzia!) vieram me perguntar, com estranheza, por que não escrevi sobre a data querida. Pareceu-me mais adequado escrever sobre bacalhau. Não entendo a necessidade temática só por causa de uma data, seria abrir perigosa exceção: no Carnaval, escrever sobre a folia, na Páscoa, sobre ovos de chocolate, no Dia do Trabalho, sobre a labuta – o dia da árvore, da secretária e da banana nanica exigiriam muito engenho.

Pior foi terem me cumprimentado por “finalmente escrever algo otimista, na sua crônica de 4 de janeiro”, quando o texto em questão (assim ingenuamente julgava) era de um sarcasmo evidente, a começar pelo título, “Retrospectiva do perfeito imbecil”. A saber, ainda não me julgo um imbecil – o que já é um fecho bastante otimista.

Lara

Sei que o nome dela é Lara. Estava sentada, junto com uma amiga (desta não sei o nome, nem lhe recordo o rosto), numa mesa próxima à nossa.

Lara é loira. Loira falsa. Não costumo gostar de loiras falsas. Mas gostei de Lara, assim que se fez notar – e ela se fez notar rápida e violentamente. Interrompendo nosso assunto, sem qualquer cerimônia, dirigiu-se a sua pequena platéia e exigiu, aos berros, que brindássemos antes de beber, sob pena de amargar um determinado número de anos, sete, eu acho, sem manter relações sexuais (evidente, as palavras foram outras, umas rimas imbecis). Pareceu-me castigo demasiado para falha tão pequena: respondi desdenhosamente não ter nada com que pudesse brindar.

− Tem gente aqui que não quer meter, hein?

Surpreendi-me comigo mesmo por não achar terrivelmente repugnante tamanho acesso de vulgaridade. Lara estava provavelmente drogada, embora só afirmasse estar bêbada. Enfim, um conjunto desastroso: condições ideais para meu impetuoso espírito entrar em ação, com uma ou duas tiradas rápidas, talvez. No entanto, rendido, procurei uma lata de coca-cola vazia em uma mesa desocupada e perguntei se era suficiente para quebrar o feitiço. Ela sorriu como resposta. Brindamos.

Pedi-lhe um cigarro, ela me estendeu um Carlton. Elogiei-lhe o bom gosto. Como tive sucesso na primeira solicitação, resolvi abusar, requisitando um isqueiro. Dessa vez me negou: passando-me seu próprio cigarro, disse que eu teria de usar seu fogo – e eu poderia entender aquilo como quisesse, mas sem abusar, com cuidado.

Com todo o cuidado, apenas usei a brasa de seu cigarro para acender o meu; ato contínuo, virei-lhe as costas e procurei esquecer sua presença, puxando um assunto qualquer com os amigos, sobre cinema, tenho a impressão. Minha naturalidade, porém, era artificialíssima.

Para que me alongar? Era hora de ir embora. Despedi-me de Lara, com um beijo; por simetria, tive de estender a deferência a sua companheira de mesa. Lara não ficou contente: fez questão de receber mais um beijo, o último. E aproveitou para fazer piada de minha aparência, cantarolando que “por trás dessa lente tem um cara legal”. Confesso que fiquei um pouco constrangido quando ela perguntou se meu zíper estava aberto. Não estava. Gargalhou com meu visível embaraço. Só então lhe perguntei o nome.

Lara, ela me respondeu, e então sei que seu nome é Lara, e é tudo o que sei.