Rapsódia em verde

À primeira vista, sabe-se apenas que é uma garota e está vestida de verde. Verde, assim como são seus olhos – ela deve usar a cor freqüentemente, talvez a considere sua favorita, apenas para combinar. Mas isso já é especulação. Certo mesmo é o fato de ser uma garota, vestir verde, ter olhos verdes e estar sentada à minha frente neste bar.

Melhor: quando digo que usa verde, refiro-me a sua blusa. Para uma descrição cromática mais fiel, sua calça é preta, assim como suas sandálias, e o fato de usar sandálias (pretas) me deixa perceber a cor com a qual ela pintou as unhas dos pés (vermelho). Não gosto de unhas dos pés em vermelho, mas gostei de todo o resto. Uma beleza convidativa, não tão bela a ponto de me oprimir a estudá-la daqui, de onde estou, a, digamos, três ou quatro metros de distância. Penso em avisá-la que, em toda ela, só não me apraz o esmalte usado em seus dedinhos dos pés, mas talvez ela considerasse uma intromissão indevida: melhor ficar quieto e continuar só olhando.

Ela se sabe observada. Olha para cima, olha para os lados, como a procurar algo que nunca vai encontrar. Bate levemente com os pés no chão. Não parece muito interessada no papo de suas amigas; de vez em quando, vira-se para elas, esboça um meio sorriso e volta à procura do imponderável nas paredes do bar. Não me fitou nem uma vez sequer, mas tenho certeza de que se sabe observada.

Parece nervosa e aborrecida. Seria minha insistência, aliada à conversa enfadonha das colegas, que a deixa assim? Quem sabe problemas em casa, ou no trabalho, ela não deveria estar ali perdendo tempo, sente-se culpada. Num clímax de tensão que ninguém, além de mim, percebeu, ela esbarra numa garrafa e a deixa cair no chão.

Agora todos olham para ela e para os cacos de vidro espalhados, não sou só eu a notá-la, obsessivo. Não parece muito abalada: troca algumas palavras com as amigas, mais alguns meios sorrisos e volta aos seus afazeres – que são, na verdade, uma completa falta de afazeres.

Eu imagino toda a sua vida, seus problemas e alegrias, suas misérias, seus amores. Mas os cacos já foram recolhidos. E agora, depois de muitas vistas, continuo apenas sabendo que é uma garota, veste verde, tem olhos verdes e está caminhando com as amigas rumo à porta deste bar.

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Oscar para Scorsese

Hoje é dia de Oscar. Além de ser um prêmio de valor artístico duvidoso – grosso modo os agraciados são escolhidos por razões de política e marketing, não por mérito cinematográfico –, a cerimônia de entrega é uma das coisas mais chatas a que um ser humano pode assistir, cada vez mais longa e repleta de piadas e musicais desesperadores.

Mesmo as divertidas situações inusitadas são cada vez mais raras: Marlon Brando mandando uma índia (falsa) receber o prêmio em seu lugar, em protesto contra sei lá o quê; Woody Allen faltando à celebração, afinal ele não quebraria seu hábito de tocar clarinete às segundas-feiras, o dia em que então se entregavam os prêmios, só porque era o favorito nas categorias filme, direção, roteiro e ator – e acabou ganhando nas três primeiras; Michael Moore espinafrando o presidente Bush, criando delicioso constrangimento.

Apesar dos pesares, seria tolice negar a importância do Oscar, símbolo máximo da mais poderosa indústria cinematográfica do mundo. E é nesse contexto, citando Leonardo DiCaprio – fonte excêntrica para citação, mas aqui é adequada –, que é uma piada o fato de Martin Scorsese jamais ter sido contemplado pela Academia.

Scorsese é, sem dúvidas, o mais influente diretor norte-americano vivo. Sua estética do submundo, o realismo de suas caracterizações, a violência estilizada, coisas que hoje soam como lugar-comum, foram copiadas descaradamente por inúmeros outros realizadores – muitas vezes mal e porcamente. Do filme mais cult ao seriado de televisão mais massificado, todos são seus discípulos.

O diretor de obras-primas como “Taxi Driver” e “Touro Indomável” sofre a maldição de ser comparado consigo mesmo: no começo da carreira, seus filmes eram considerados muito exóticos para ganhar o Oscar; hoje em dia, encontra resistência por não realizar obras que se equiparem às de antigamente.

Assisti a este “Os Infiltrados” e, de fato, achei um trabalho medíocre, como todas suas recentes superproduções têm sido. Seu último título do qual gostei bastante foi “Vivendo No Limite”, uma peça de relativo baixo orçamento que passou completamente desapercebida.

No entanto, mesmo sabendo que há concorrentes com filmes mais fortes, torço por ele hoje. Se nem tanto para lhe valorizar, pois Scorsese está acima disso, para que, livre da obsessão pelo Oscar, possa voltar àqueles filmezinhos tão primorosos.

O perfume da paz

As pressões da vida moderna podem estressar um homem (ou uma mulher) sobremaneira. Felizmente, sempre existem os escapismos. Muitos e vários são os modos que se inventam para aliviar as tensões do dia-a-dia: há quem faça ioga, judô, natação, corte e costura, toque piano, cítara e berimbau, saia de férias para o Rio Amazonas; alguns preferem se dedicar à tríade sexo, drogas e rock and roll, não necessariamente nessa ordem; outros se bastam a se empanturrar de comida; também o conforto pode vir com compras na Daslu, esculhambação de empregados, discursos simultâneos a favor da pena de morte e contra o aborto; ou então, em um modo mais radical, como naquele conto do Rubem Fonseca, a paz de espírito talvez se consiga ao atropelar alguns incautos na rua e depois voltar para o aconchego do lar.

Eu me contento com uma boa ida ao supermercado. Não para comprar muita coisa, que geralmente não tenho fundos para isso, mas simplesmente para me deixar perder por aquelas várias seções, corredores, prateleiras – é uma terapia e tanto. Sempre que me encontro um pouco deprimido, não perco tempo, vou logo ao supermercado, quanto maior, melhor. A perspectiva de abertura de um 24 horas, aqui, pertinho de casa, é uma ameaça séria à minha analista, que poderá perder um cliente. Afinal, quem precisa de terapia freudiana quando se pode visitar a seção de enlatados às três da manhã?

Outro dia, porém, a coisa não estava funcionando. Passeava e passeava e mesmo assim aquele indefinível e inidentificável descontentamento generalizado não queria me deixar. Mesmo apelar para tratamento de choque, uma análise do setor de lasanhas congeladas – das melhores invenções humanas desde a roda – não surtiu o efeito esperado.

Decidi então explorar áreas novas no supermercado, que raramente haviam contado antes com a honra de minha presença. Dei por mim no setor de limpeza, encarando um ursinho estampado num rótulo. Estranhamente, aquilo me transmitiu imediata tranqüilidade.

À minha frente estavam embalagens de amaciante de roupa. Logo entendi meu sossego: os aromas oferecidos não são mais lavanda, ervas, lírios do vale ou quaisquer outras besteiras obsoletas; não, agora a coisa é mais sofisticada. Há sabores nostálgicos como “festa de aniversário”, “casa da vovó”, ou, melhor do que todos, “relax therapy” – do qual pude comprovar os efeitos imediatos.

Mesmo sem precisar, não resisti e levei um exemplar para casa, louvando a capacidade da indústria de antever as necessidades do consumidor. O cheiro da terapia de relaxamento me conquistou.

Celebridades

Era um ator da Globo. Bastou ver a figura para entender por quê, afinal, havia aquele monte de gente se acotovelando, flashes sendo disparados, o rumor crescente até o epicentro da confusão – ele, a celebridade que, sabe-se lá por quais razões, talvez promoção de algum evento estúpido, dava o ar de sua graça no shopping center. Fiz minha melhor cara blasé para a amiga que me acompanhava e a conduzi para desviarmos do tumulto e pegarmos logo a sessão de cinema, já estava em cima da hora.

O filme foi bom, a companhia era ótima, mas a coisa toda durou muito tempo: saímos da sala passando da meia-noite, o shopping estava às moscas. Pedi licença à gentil dama ao meu lado e fui a passos largos para o banheiro. Quando ia chegando lá, feliz pela perspectiva de recinto tão cômodo, quem avisto saindo de um dos boxes, logo após ouvir a descarga sendo puxada duas (!) vezes?

Nunca poderia imaginá-lo fazendo aquilo, ainda mais naquele local – e sem luzes, fãs, aglomeração. Encarei-o tão profundamente, não para intimidar, mas por verdadeiro pasme, que ruborizou e saiu apressado. Depois dei risada sozinho: sem dúvida, algo a acrescentar no currículo, fazer corar um global. Não resisti à curiosidade mórbida e chequei o compartimento que ele havia usado. Aparentemente, ele executava a inglória tarefa como qualquer outro ser humano.

As pessoas tendem a mitificar figuras públicas como uma forma de escapismo à vida cotidiana, banal e árdua. Sonham com um mundo paralelo, asséptico e etéreo, habitado por poucos privilegiados; nesse lugar mágico só há glamour e luxo, cada gesto é um acontecimento, cada banalidade um sucesso memorável – e mesmo eventuais fracassos, perdas e dores não mancham a população desse universo fantástico, pois são vistos como capítulos de uma epopéia formando a tensão para o final feliz.

Só que, no fundo, são pessoas comuns, vão ao banheiro e ficam vermelhas – com a bastante diferença de estarem expostos por uma grande máquina. Tudo isso é uma retumbante obviedade, mas só pude vivenciar plenamente quando vi aquele homem tão notório e proeminente saindo do sanitário, nem melhor nem pior do que a média, sem pompa ou brilho. A curiosa cena foi um impacto para mim, será que outros também se abalariam da mesma maneira? Seria bom se todos pudessem vivenciar experiência análoga.

Mas ao contar para minha amiga a pequena aventura, ela riu e, estranhamente, não acreditou.

O encanto do carnaval

Okay, para não me tacharem de rabugento, invejoso, traidor dos valores pátrios ou coisa que o valha, devo confessar que o carnaval não me é desagradável de todo. Apesar de todo a balbúrdia, a alegria forçosa, a deturpação do samba e quejandos que não me apetecem, há um sub-evento do qual sou fã incondicional: a apuração do desfile das escolas de samba.

É um espetáculo televisivo maravilhoso: vibrante, pungente, emocionante. Sugiro ao Sílvio Santos, sempre ansioso por novas idéias, que institua uma apuração de desfile por semana, não importa qual desfile – na verdade, nem precisa haver um desfile. Será um sucesso retumbante, Show do Milhão virará fichinha. Imaginem o próprio Abravanel, com seu timing e lábia perfeitos, anunciando as notas: “Acadêmicos da Saul Elkind… Hihi… Nove e meio!”. Êxito garantido.

Deixando as alucinações para lá, é impressionante como a apuração é muito mais atraente do que o próprio desfile apurado. O que aquelas escolas passando na avenida têm de enfadonho e modorrento, a leitura das notas tem de encanto e diversão.

Nunca vejo nenhuma escola (de vez em quando abria exceção para a Mangueira, só que agora, sem o Jamelão…), mas não perco a apuração de jeito nenhum e ainda dou meus palpites consistentes: “A fantasia da Unidos da Tijuca não merecia esse nove, que roubo”. Por falar em crime, outra das coisas interessantes é imaginar a coragem que um jurado deve ter para tirar nota de uma escola tradicional. Aparece a foto e tudo! Quanto vale a vida daquele João que tirou o décimo do Salgueiro, fatal para a conquista do título?

Ademais, a apuração mantém o real espírito carnavalesco, das comunidades. Vocês já viram alguma estrela global presente à leitura das notas? Jamais! Lá só está quem interessa. Se num utópico ataque de moralidade prendessem todos os bicheiros do Rio de Janeiro e o desfile das escolas de samba fosse cancelado, seria uma pena se a apuração caísse junto. Por mim, ela poderia vigorar sozinha, independente, pois só lá percebo o tão comentado encanto do carnaval.

18 de fevereiro

Apesar de ser um dos pratos preferidos dos apocalípticos, loucos para enxergar nela um sinal dos tempos, tenho para mim que a Internet é uma ferramenta espetacular. Tão sensacional que consegue até a proeza de ajudar este cronista completamente inapto, sofrendo a agravante da pasmaceira carnavalesca.

Numa crudelíssima falta do que fazer, digitei no campo de pesquisa do Google a data de hoje, 18 de fevereiro, sem muitas expectativas. O resultado me deixou abismado: descobri coisas que mudaram minha compreensão do mundo, meus posicionamentos político-sociais e, por que não?, minha filosofia de vida – embora eu não saiba o que isso signifique.

Quanta coisa aconteceu nos vários 18 de fevereiro que este mundo vasto mundo presenciou! Por razões de economia, vou me ater à Era Cristã, 2.007 distintos 18 de fevereiro, portanto. Melhor: fico só com a Idade Contemporânea.

Pasmei, por exemplo, ao saber que nesta mesma data, no ano do Senhor de 1842, foi fundado o Condado de Santa Rosa. É um pecado que seu aniversário esteja tão esquecido ultimamente, um índice inequívoco da falta de memória de nosso povo, que também negligencia a festa de seu irmão, o Condado de Charlton, criado em 18 de fevereiro de 1854.

Sempre no mesmo dia, em 1930, foi descoberto o nono planeta do Sistema Solar, Plutão (mal sabia o incauto que teria vida curta); em 1959, houve a instalação oficial dos municípios de Itapevi e Embu. E como esquecer da data em 1980, ano em que foi criado o Núcleo Amador da Investigação Arqueológica de Afife?

A política também está marcada no 18 de fevereiro: em 1962, foi criado o PC do B; em 1965, a Gâmbia se torna independente do Reino Unido; 1988 viu a derrota de Pinochet em plebiscito. Mas importante mesmo foi 1997, com o registro definitivo do Partido Renovador Trabalhista Brasileiro, tão auspicioso ao país.

A lista de aniversários é grande e imponente. Fico só com os vivos, pois os mortos estão mortos. Os parabéns a Milos Forman, Ingo Hoffman, John Travolta, Cristiane Torloni, Matt Dillon, Roberto Baggio e Priscila Fantin. Por pudores, não revelo seus anos de nascimento. Aproveito para conceder uma trégua em minha rixa pessoal com Yoko Ono e também a parabenizo, ela que veio ao mundo em 1933.

E me despeço pedindo a proteção de Santa Bernadete, São Flaviano de Constantinopla e Santo Heládio, que dividem a data de hoje para seu louvor. Espero que não sintam ciúmes mútuos.

Antigos carnavais

Parece que o tempo, ao contrário do que dizia o Cazuza naquela canção, dá uma paradinha – sem trocadilho com a manobra da bateria. Não há notícias, os jornais estão magros e vagos. Tudo o que há é o carnaval, simples e bastante.

Nunca fui grande fã da data: a idéia de aproveitar quatro dias como se o mundo fosse acabar, fazer tudo o que a consciência – ou a prudência, ou a decência, ou sei lá o quê – não permite no resto do ano, parece-me de uma mediocridade terrível. No entanto, guardo grande respeito pela tradição musical carnavalesca do país, que nos legou grandes compositores e canções, com seus sambas e marchinhas.

Triste é constatar a dificuldade de se escutar samba nos carnavais de hoje, é um ritmo raríssimo nos bailes por aí. Mesmo os tais samba-enredo para inglês ver estão completamente desfigurados pela aceleração de compasso verificada nas últimas décadas: guardam tanto parentesco com “Pelo Telefone” quanto o último álbum do Iron Maiden.

Quanto às marchinhas, ganharam um tratamento quase folclórico: sempre chega a hora em que a banda ataca as velhas composições, num bloco só para elas, e daí as pessoas vão beber água, dar uma mijada, tomar um ar. Repito o adjetivo: triste.

O carnaval deste ano me parece sintomático da perda de raízes. A Estação Primeira de Mangueira, a mais tradicional das escolas de samba, que tem entre seus fundadores Cartola e Carlos Cachaça, não contará, pela primeira vez em anos, com Jamelão como intérprete (ele odeia ser chamado de puxador). Está se recuperando de um derrame.

Creio que o amor à música notado naquele senhor, que até os 90 e poucos anos tinha garganta para hora e meia de canto ininterrupto, é comovente até para quem odeia fevereiro, folia, rei Momo e congêneres. Jamelão é uma grande figura – e não será visto no carnaval deste ano.

Não verá a sua escola, pela primeira vez na história, aceitar uma celebridade como Rainha da Bateria, em detrimento de uma mulher ligada à comunidade. A honra agora cabe a Preta Gil – é, aquela mesma, que adora aparecer, filha do Ministro da Cultura. É a terceira vez no mesmo texto, mas não resisto: triste.

A furadeira

Por nostalgia ou por charme, são muitos os que evitam os avanços tecnológicos e a praticidade trazida pelas invenções modernas. Assim, conservam suas máquinas de escrever e desdenham os teclados; são capazes de dissertar horas sobre as vantagens dos discos de vinil em relação aos CDs; tacham o telefone celular como símbolo máximo da “perda de privacidade do mundo globalizado”.

Tenho uma relação ambígua com todo esse aparato recente: não descarto computadores, CDs (embora mantenha meus bolachões), celulares, sopas em pó, óculos anti-reflexo e papel higiênico folha dupla. No entanto, para cada novidade proveitosa, sempre há um trambolho; sem contar as áreas deixadas solenemente de lado pela tecnologia, que inexplicavelmente volta sua atenção para besteiras.

Tomemos como exemplo esse aparelho medonho vulgarmente conhecido como furadeira. O homem já chegou à lua, criou bombas atômicas, Internet e o George Foreman Grill – impossível, oh Deus!, não haverem inventado um método para fazer um buraco na parede que prescinda dessa ferramenta arcaica. No entanto, basta haver uma reformazinha qualquer no apartamento vizinho para saber que será ouvido, inevitável como a morte, o excruciante barulho da furadeira.

Há os que enxerguem naquele motorzinho do dentista, ou no ruído de unhas contra um quadro negro, rivais mais qualificados. Pois fico com a furadeira, até por seu uso muito mais constante e imprevisível, como o som mais pavoroso deste planeta Terra.

Só posso pensar que as empresas de furadeira são controladas por mui poderosos agentes financeiros internacionais, formando um holding que faz um sufocante lobby – gastei todo meu inglês aqui – para as furadeiras jamais caírem em desuso. Sim, as furadeiras são um dos sustentáculos do capitalismo.

Só aceitarei, alegremente, a modernidade como sinônimo de conforto quando não mais for acordado por alguém furando a parede do apartamento vizinho – deve haver um certo prazer, para quem usa o diabólico instrumento, ao saber que está torturando próximos. Até lá, terei minha porção dinossauro, menosprezando a utilidade de novos inventos e produzindo crônicas rabugentas como esta.

Sobre a idade penal

Cada vez que um crime bárbaro cometido por um menor de idade acontece, como o que vitimou o menino João Hélio, vem à tona novamente o debate sobre a maioridade penal. Todos aqueles que ousam não se colocar contundentemente a favor da redução imediata são tachados de monstros insensíveis, ou, no mínimo, tratados com escárnio por alienadamente se preocuparem com os direitos humanos de quem é capaz de cometer uma vasta gama de desumanidades.

Pois a campanha pela redução da maioridade penal não me empolga nem um pouco, mas longe de ser por peninha dos pobres assassinozinhos carentes, tão jovens – essa papagaiada de assistente social. Tampouco concordo com o argumento ingênuo de que a prisão funcionaria apenas como escola do crime para os menores; afinal, quem é capaz de arrastar uma criança por sete quilômetros, esfolando-a viva, já atingiu excelência na matéria, prescindindo de lições complementares.

O problema é que a batalha me parece vã, inócua, obtusa. Reduzir por decreto a idade penal não resolve problema nenhum. O buraco é mais embaixo: todos sabem as questões centrais, tão repetidas que até se sente vergonha de falar sobre elas, por soar como clicheria piegas – relação entre baixa escolaridade e violência, má distribuição de renda, estratificação social, Justiça morosa, etc., etc., etc. Se esses apontamentos parecem muito abstratos, pode-se alegar, embasado por estatísticas, que a possibilidade de prisão não serve como desestímulo ao crime.

A histeria observada após casos como esse, infelizmente, mais do que um índice de conscientização coletiva, é uma perigosa manifestação conservadora de uma elite embotada, louca para desafogar sua culpa apresentando soluções simplistas. Pior é quando advêm da comoção sugestões escabrosas, como a pena de morte.

A imputação penal a partir dos 16 anos ou a extensão da pena máxima prevista pelo Estatuto da Criança e do Adolescente para jovens infratores são propostas que não deixam de ter sua coerência. No entanto, deveriam ser discutidas longe do calor casuístico; para mitigar as tragédias que o país chora, são absolutamente irrelevantes.

Nervosismo: serenidade

Ansioso, recorreu a uma dose de conhaque (dupla) antes de encontrá-la. Surtiu rapidamente efeito, logo notou, embora ainda não estivesse de todo tranqüilo. No entanto, se fosse questão de vantagem, poderia dizer que ela estava ainda mais nervosa; essa foi sua impressão quando a viu – e mais tarde ela confirmaria.

Enxergar agitação em uma pessoa pode ser complicado: às vezes, é verdade, os sinais são evidentes, mas há casos em que o flagrante requer arte. Ela, agora, por exemplo. As mãos estão firmes, sem maneirismos, pousadas na mesa, bem-cuidadas (a despeito da lamentável fatalidade de duas unhas ligeiramente partidas); o olhar jamais abaixa, não se desvia nunca; a voz não treme ou hesita, inabalável. Como então perceber algum indício de inquietação?

As frases. Assim que ele diz algo, ela, de modo recorrente, repete as últimas palavras, um tipo engraçado de eco. “Ontem, na festa, deu tudo errado.” “Tudo errado”, completa a menina. Pensa em avisá-la de seu pequeno vício, resolve deixar pra lá: poderia ser irritante, se tudo o que viesse dela não fosse, neste instante, absolutamente encantador para o rapaz. Queima por dentro. Mas ela está nervosa, não é bom.

Resolve elogiar-lhe os ombros. É conveniente para o momento, mas está longe de ser galanteio despropositado, são realmente ombros primorosos. “Não gosto deles”, ela confessa, “têm muitas sardas”. Ele não vê problema nisso, muito pelo contrário. “Meu cotovelo também tem sardas, olha só” – e ele obedece, sorrindo para o gesto deliciosamente inusitado –, “se eu aparecer morta por aí, você pode me identificar fácil”. A colocação é tétrica, mas de algum modo estranho aquilo tudo os aproxima.

Ele pergunta se pode ver como é sua letra, está curioso. “O que eu escrevo?”, indaga a garota, já com papel e caneta na mão. Qualquer coisa. Recebe a nota e, ato contínuo, responde. Guardam – ela na bolsa, ele na carteira – os bilhetes trocados. Bilhetes trocados, olhares trocados. Pede para ela se sentar mais perto, a distância o está incomodando.

A partir daí, ela não repete mais as frases.

E o rapaz, quando chegar em casa, estará radiante. E cantará sozinho uma melodia alegre, apesar do horário, apesar dos vizinhos. E mesmo se o atacar a costumeira insônia, desta vez não haverá espaço para angústia, pois em vez de um turbilhão de pensamentos aflitivos, irá dominá-lo apenas uma imagem – bela, ideal.