As voltas que o mundo dá

Sempre digo, e procuro seguir à risca esta minha proposição, que o mais prudente é adotar uma postura estóica e não se surpreender com nada nesta vida. Afinal, se fosse para dar bola a cada coisa bizarra que aparece, não se faria outra coisa e a paralisia seria conseqüência necessária. Para não ser covarde e ficar só com fatos públicos e recentíssimos, vejamos o que temos: Papa querendo missa novamente em latim, Lula trocando sorrisos com Collor e dizendo que ele tem tudo para cumprir um “mandato excepcional” como Senador, Lobão lançando Acústico MTV e Rabino Sobel sendo pego afanando gravatas, em cena que nem Woody Allen imaginaria. “Onde o mundo foi parar?” aparece como a pergunta cabível: é de enlouquecer qualquer incauto ser humano que se proponha a analisar a sério essas questões. Então, é dar risada e continuar vivendo.

Mas não adianta, por mais que o mundo com seus desmandos haja como anestésico, sempre há o incidente que deixa você de cara, que remete a um universo até então tido como paralelo, pertencente aos livros, às lendas, à História.

Explico-me: em sala de aula outro dia, entre uma e outra cochilada, ouço o vetusto Professor Doutor falando sobre a revolução, “os tempos da Revolução”. Esfrego os olhos para tentar me situar um pouco, de que diabo ele estaria falando, Revolução Francesa, Revolução Bolchevique? Mas isso não teria nada a ver com a disciplina… Levou alguns minutos para eu entender que ele estava chamando a nossa ditadura militar, o golpe de 64, a quartelada de 1º de abril, de “Revolução” – e em lance sinestésico, era possível ouvir claramente o “r” maiúsculo de “Revolução”.

Lembrei-me da minha mãe me contando histórias: “Você sabia, André, que antigamente, nas escolas, a gente era obrigada a chamar a ditadura de revolução? E mudaram a data de 1º de abril para 31 de março, para não associar o golpe ao dia da mentira”. Isso sempre me foi dito como curiosidade histórica morta, como quem fala do tempo em que era escândalo beijo na TV. Mas agora, 43 anos depois, a “Revolução” ainda tem chamas vivas.

O jeito é escutar o Acústico MTV do Lobão.

Feliz aniversário

 E se tantas vezes cantei o instante, a beleza do contato fortuito, com direito a grandiosas projeções. Uma fórmula eficaz para efeitos literários, sem dúvida: mulher se aproxima do homem, desperta-lhe a atenção, por alguns momentos há a ilusão da intimidade, e depois ela se vai, para o distante, para o incerto. O caminho da dúvida tem lá seus atrativos – quando está no papel e serve à poesia, nunca quando está no ar e atormenta a carne e a alma,

E se tantas vezes me vi em idealização, na plena consciência da fantasia: idealizei o conhecido e o desconhecido, e até o que nunca quis conhecer, e até o que só podia dar errado. E fingi gostar e fingi sofrer, antes para mim mesmo do que para os outros. Acreditei na mentira, na minha própria mentira, adorei a já sabida mentira – por necessidade, para compensar uma grande e indecifrável ausência,

E se tantas vezes fiz pedidos, e dei perdidos, e dei por perdido e me deram por perdido. Também dei voltas, rodei a esmo – de ônibus, de carro, a pé, deitado no meu quarto. Murmurei promessas; entrei em discussões estúpidas; falei a verdade quando não precisava e a omiti a quem só queria me ajudar; distanciei-me e até me disseram que eu havia mudado – eu, admirador da coerência,

Se tantas tantas vezes inverti a ordem, pulei etapas, dizimei períodos, contradisse-me, quis anular, sem necessidade, o passado. Errôneo é querer logo completar o que nem se começou; mais errado é ter medo de começar. E se me faltavam a cor, o sabor, o valor e até a dor de viver a intensidade, não a ilusória, mas a única possível,

Foi porque ainda não a havia encontrado – você que, no entanto, sempre em mim esteve tão presente, por ser a resposta ideal. Eternizando o instante, anulando a distância, tornando seguro o incerto e palpável a fantasia. E por sublimar a ausência, ser a perfeita amiga e fazer da dor uma lição, você, linda, sempre doce, faz-me feliz. A luz se acendeu.

E se tantas vezes me fechei para o mundo, foi para agora me abrir com você.

Adorável grande província

Com uma certa dose de razão e um pouco de esnobismo burguês, Londrina é tachada, com freqüência, de provinciana por camadas de sua própria população. O ranço conservador de uma cidade desenvolvida às custas da agricultura é facilmente observável; no entanto, com a providencial riqueza advinda do café, e posteriormente de outros produtos agrícolas, todo um setor de serviços floriu – o velho traço interiorano com toques de capital. Não raro, essas duas facetas de nossa cidade se fundem de maneira muito particular: nem homogeneamente, nem de modo heterogêneo; eu diria em harmonia dissonante.

Os exemplos dessa fauna única são muitos e vários: a gloriosa Exposição Agropecuária (um caso onde os comportamentos observáveis, francamente pós-modernos, podem render tese de doutorado em antropologia); a produção cultural da cidade, quase integralmente dependente de subsídios públicos; a platéia para eventos artísticos, sempre volumosa e bem-vestida, mas também sempre aplaudindo em momentos errados, tossindo tuberculosamente (até hoje não sei por que aqui se tosse tanto) e invariavelmente mal-informada. Há também outros aspectos curiosos de valorização: Londrina é, entre todas as cidades mundiais, o lugar com o maior número de fãs de Bukowski.

Isso posto, gostaria de chamar a atenção para um setor que, à frente de disputas comezinhas entre o antigo e o moderno, desponta de modo alvissareiro: o publicitário. Ainda não temos nenhuma grande agência, é verdade, mas manifestações independentes dão prova inequívoca de nossa criatividade na área.

O ramo dos jingles é exemplar: em poucos anos, peças notáveis de composição, como a música da butique Marton (“Pra curtir a vida/ Eu quero Marton/ Pra cair no mundo/ Eu quero Marton/ Brilhar socialmente/ Eu quero Marton”), a canção para os Supermercados Condor (“O Condor está de mãos dadas com você”) e o magnífico tema da escola de língua inglesa Interstation, composto por meu amigo Bruno Rizzi – que vem sendo muito citado por aqui.

Mas foi um slogan, visto outro dia, por acaso, que realmente me tirou o fôlego e me deu a certeza de um futuro promissor para a região, na publicidade e na propaganda. Na Santos Dumont, ali perto do balão com a JK, confiram, meus caros concidadãos, esta verdadeira obra-prima: “Big Burger – o melhor da canja”. O autor de tamanha grandiosidade deveria assinar seu nome embaixo, tal qual fazem os pintores com suas obras. Peço ao gênio que se identifique para podermos tomá-lo como símbolo de uma guinada profissional.

De chatices, velharias, velhacarias e novidades

Meu grande e célebre amigo Bruno Rizzi me deu a alcunha de “velho precoce”. Gostaria de pensar que há algo positivo nisso, relacionado à maturidade (talvez até haja um pouco), mas, no grosso, é apenas uma alegoria gentil para a contumaz chatice que me acompanha, chatice essa comentada velada e abertamente.

Muito do meu jeito enfadonho pode ser atribuído a meus valores e a meu gosto musical. Sei que deveria ser mais tolerante; apoiar, sei lá, os shows do grupo Tradição e as fornicações típicas do ambiente desse tipo de “espetáculo”, muitas vezes envolvendo os próprios membros da banda. Mas não sei, não consigo achar digno esse tipo de programa. Daí me difamam. Paciência. Devo ser chato mesmo.

Mas voltando à velhice: confesso que meus eleitos da música estão, em sua maioria, num passado remoto – Oasis e Radiohead são exemplos de bandas “recentes” que admiro. Amigos modernos, bem-informados, atualizados, tentam corrigir o idiota incorrigível, dispõem-se a me apresentar a última novidade do Reino Unido. E eu vou lá, não é para fazer tipinho antiquado não, juro que me esforço para gostar, mas não me desperta nada.

Ou pelo menos não havia me despertado nada até agora. Adorei a última última novidade do Reino Unido, na verdade, um libanês radicado em Londres. Atende por Mika. Ele toca piano e canta em falsete e tem um jeitinho bicha poderosa – qualquer semelhança com Freddie Mercury não é mera coincidência. Deve ser por isso que gostei do cara.

Seu primeiro single, “Relax, Take It Easy”, um dance meio óbvio, passou completamente desapercebido. Mas daí veio o segundo compacto, “Grace Kelly”, verdadeira delícia pop que tem o bom gosto de citar a musa loira de Hitchcock e o líder do Queen em uma só estrofe: primeiro lugar nas paradas britânicas e em vários países europeus. Até o chato aqui gostou – vá atrás.

E enquanto eu me esganiçava para acompanhar as notas mais agudas da canção, veio-me à mente que nunca acompanhei desde o primeiro álbum a carreira de um músico do qual gosto. Espero poder quebrar o precedente. O primeiro álbum de Mika, “Life In A Cartoon Motion”, contém várias outras grandes canções. E, olhem só como estou avant-garde!, só será lançado amanhã nos Estados Unidos, embora já circule na Europa e na Internet.

Acompanharemos com interesse a carreira desse rapaz. Apenas lamento que, pelo andar atual da indústria fonográfica, próximo álbum só lá por 2010 – se é que ainda existirão álbuns até lá.

Da grande mulher

E o que disserem, ela é uma grande mulher.

E o que maldisserem, insinuarem, suspirarem pelas alcovas, ela saberá, pois entre seus atributos de grande mulher está o de saber saber, com seu juízo doce e implacável – uma aparente contradição que nela se resolve em harmonia. Mas, fosse apenas por isso, ainda não seria uma grande mulher.

Ela é uma grande mulher porque é forte, e fala alto, e fala quando deve falar, e fala quando não deve falar, e fala – mas jamais tagarela. E porque respeita o silêncio, principalmente para quebrá-lo, o que realiza com maestria, num timing perfeito. E porque preenche os espaços, expande os limites, abre as comportas.

Tem amigos, e se senta sempre no meio. Ela é Amiga. Tem inimigos, toda grande mulher os tem, e os adversários a respeitam, até a citam. E se também a caricaturizam, ela sabe rir, sem despeito. E como sorri!

É grande mulher porque, não sendo a mais bonita, é a mais atraente. Não sendo a mais culta, é a mais perspicaz. Não sendo a mais profunda, é a mais aguda. Não sendo a mais rápida, é a mais espirituosa. E porque, tendo olhos azuis, prefere os castanhos, e não diz isso por estúpida falsa modéstia.

Seus gestos são amplos, seus passos são largos, seus movimentos são definitivos. Mas seu “por favor” é delicado, e agradece como ninguém. Sabe ouvir elogios, a grande mulher, também sabe fazê-los, de modo que o elogiado não possa ter dúvidas de sua sinceridade e nunca haja constrangimento, apenas carícia. (Sempre olha nos olhos. Seu olhar tem algo de triste.) Em compensação, há algumas dificuldades com críticas; por pudor, busca não demonstrar. A grande mulher guarda rancor, mas é capaz de perdoar – se lhe pedem perdão. E quando o faz, é para valer.

Pode-se dizer, sem dúvidas, que é decidida e independente, mas não gosta que a rotulem assim, diz que “decidida e independente” é eufemismo para vaca. Talvez seja um pouco preconceituosa, a grande mulher. Quem não é? Depois de tudo, ela é gentil, nunca nunca vulgar.

Ela é uma grande mulher porque assim se sabe.

Economia de bom senso

Não entendo patavinas de economia. Quando leio nos jornais aqueles montes de siglas, gráficos e estatísticas, sinto franca vontade de chorar, tamanha a minha ignorância.

Academicamente, cheguei a cursar duas disciplinas de introdução aos estudos econômicos, mas não me foram muito úteis: da primeira, lembro que o professor dava dez para todo mundo, o que não motivou muito meus esforços; na segunda, tínhamos como instrutora um ser genial, sempre a nos brindar com pérolas como “A vinda de D. Pedro II para o Brasil foi de suma importância” e “Na noite negra de 29, foi consenso: todos os ricos se reuniram e descobriram que, na verdade, eram pobres”. Transcrevo com segurança porque eu, que nunca anoto nada, providenciei um caderno para gravar as maravilhas proferidas em classe, tão logo percebi a dimensão do brilhantismo de nossa docente. (Aproveito a oportunidade para confessar, professora doutora: sim, fui eu que escrevi “Perua louca” na contracapa do seu livro.)

Desestimulado pela universidade, tentei o autodidatismo, mas não passei do clássico “A História da Riqueza do Homem”, de Leo Huberman, e de um livrinho da série Folha Explica, “A Especulação Financeira”, de Gustavo Patú. Logo depois de ler, achei que estava manjando alguma coisa, mas uma semana depois já não lembrava nada – não culpo os autores, é tudo por conta de minha vergonhosa inaptidão. Pensando bem, meu contato mais intenso e permanente com a matéria está nas advertências paternas, reforçadas desde a infância até agora, afirmando que “é importante economizar”.

Pois bem. Talvez seja essa minha falta de instrução, mas sinto algo errado quando, num passe de mágica, numa revisão de cálculos, o índice do PIB entre 2003 e 2005 sobe de 2,6% para 3,2%. Pior: os novos números foram amplamente festejados pela equipe econômica. Os 0,6% a mais, revelados agora, não melhoraram em nada a situação de quem penou entre 2003 e 2005, um tempo passado. No entanto, a sensibilidade do governo parece não se basear na análise das carências de seu povo, mas sim em dados frios; assim sendo, tendo um dado a mais para cotejar na disputa de jardim de infância com FHC sobre quem fez a gestão mais medíocre, os palacianos ficam felizes. Como se não bastasse, se a gloriosa marca modifica alguma coisa, é para pior: com um PIB superior, o governo terá de cortar gastos para pagar os juros da dívida – numa dessas atrelagens que ninguém nunca entende e sempre nos fodem.

Não entendo patavinas de economia, mas acho que não sou o único.

Carta aberta ao Sr. Muffato

A sabedoria milenar recomenda não recusar convites, sob o risco de não mais ser convidado numa próxima vez. E é por isso, apenas por isso, que aceitarei participar do coquetel de inauguração da nova unidade do Super Muffato. Chegou um convite bonito aqui em casa, papel vermelho, espesso.

Evidente, não estou entre os ilustres convocados por quaisquer distinções minhas – sob o pressuposto generoso que eu as tenha –, mas apenas por morar próximo ao local da instalação do supermercado. Tenho de ligar confirmando presença. Mas isso não é problema, até aí está tranqüilo. Também não guardo grandes expectativas quanto ao menu: se rolar um tanjal, quiçá umas coxinhas, para mim é de bom tamanho. Em suma, não é por falta de deferências especiais que estou chateado com o Sr. Muffato, o problema é outro.

O Sr. Muffato feriu meus sentimentos de maneira atroz. Partiu meu pobre coração. Decepcionou uma alma repleta de esperança.

Há meses, ventilava na cidade, com força crescente, a notícia de que o novo Super Muffato funcionaria 24 horas por dia. Como não houve desmentidos durante toda a fase de construção do prédio, meu ser incauto já vibrava ansioso pelo alento vindouro: finalmente a possibilidade bendita de comprar uma lasanha bolonhesa congelada às 3 da manhã.

Mas agora, agora que tudo já parecia um fato consumado, vem essa tremenda ducha de água fria. Não vai ficar sempre aberto coisíssima nenhuma. Há até o requinte sádico na propaganda divulgada pela TV: em vez de 24 horas, o Muffato fica aberto “até 24 horas”. Enganei o bobo na casca do ovo, poderiam completar.

Por que fizeste isso, oh Muffato? Ludibriaste, iludiste – zombaste de puras ilusões.

Mas também já me disseram, não sei se é verdade, que a culpa não é do velho Muffatão. A encrenca seria por conta da prefeitura, não permitindo um estabelecimento 24 horas em nossa provinciana Londrina. Se é esse o caso, peço desculpas, meu caro Muffato. E aproveito para afirmar que estamos com você.

Seria o caso de cartazes, panelaços, gritar palavras de ordem? “Queremos supermercado 24 horas!” E que abram também locadoras, padarias, igrejas, lavanderias, lojas de ferramentas – tudo o que esteja sempre aberto ao povo será aceito de bom grado.

Culturas e culturas

Em corajoso artigo para a Folha de S. Paulo, Barbara Gancia se pôs a atacar, usando seu melhor estilo deliciosamente rabugento, o emprego de verbas federais para o incentivo à “cultura hip-hop” – idéia concebida por nosso célebre ministro Gilberto Gil.

Tomo a liberdade de reproduzir largos trechos de sua coluna: “[…] eu pergunto: a que ponto chegamos? Desde quando hip-hop, rap e funk são cultura? Se essas formas de expressão merecem ser divulgadas com o uso de dinheiro público, por que não incluir na lista o axé, a música sertaneja ou, quem sabe, até cursos para ensinar a dança da garrafa? […] Na última quarta-feira, em meu comentário diário na Rádio Band-News FM, tomei a liberdade de dizer o que pensava sobre esse lixo musical que, entre outros atributos, é sexista, faz apologia à violência e dói no ouvido. Para quê? Imediatamente a caixa postal eletrônica da rádio foi inundada por protestos tachando-me de racista e fascista. […] Quer dizer que se eu afirmar que a música sertaneja é uma porcaria alienante, tudo bem. Mas se disser que usar boné de beisebol ao contrário na cabeça, calça abaixada na cintura com a cueca aparecendo e tênis de skatista é coisa de colonizado […], sou racista e fascista? […] Por anos, fiz com o mestre Silvio Luiz um programa de esportes chamado ‘Dois na Bola’. Uma vez por semana, nós apresentávamos um grupo musical. Cansamos de receber artistas do hip-hop que hoje estão aí com música na trilha sonora da novela. E vira e mexe, depois de eles terem passado pelo programa, descobríamos, para nosso espanto, que os tais gênios musicais eram ligados ao tráfico de drogas”.

Palavras de tanta sapiência politicamente incorreta me incentivaram a externar aqui minha pequena revolta pueril, que, imagino, poderá ser tachada de preconceituosa. O negócio é o seguinte: o bar que eu freqüentava, aqui perto de casa, está uma nhaca. Antes tão amplo, ganhou tristes grades; para entrar, agora é preciso passar por uma corredor estreito, margeado por grades de cerveja, lembra-me as trincheiras do “Glória Feita de Sangue”.

Tudo por conta do aumento de freqüência do local. Os “manos” passaram a dar suas caras por lá, promovendo esporádicas quebradeiras, e os donos do estabelecimento (com razão) decidiram tomar alguma iniciativa. Certo que eu não posso reclamar muito do requinte atual da freguesia: aquilo sempre foi um boteco, no sentido mais tosco do termo. Mas os antigos habitués – mendigos, traficantes falidos, putas velhas – tinham lá seu charme, davam um interessante aspecto folclórico à espelunca. E nunca me senti intimidado com eles, apenas divertido. Já esses manos não tem nada de charmoso: são apenas ameaçadores e estúpidos.

O jeito é descobrir um novo bar e deixar esse em posse da cultura hip-hop, para que ela possa quebrar alguns copos, garrafas, cadeiras e mesas, quiçá sob os auspícios da Lei Rouanet, da Petrobrás e do Programa Municipal de Incentivo à Cultura.

Na sala de jantar

Sentou-se à mesa de jantar com a família, era sábado. Tudo a sua volta parecia gritar o contrário (a sala ampla, móveis suntuosos, quadros, a esposa convenientemente satisfeita, as duas belas namoradas dos filhos, todos sorridentes e perfumados), mas o que sentia era uma atmosfera de decadência – decadência confortável e até feliz, mas com a inclinação para o acabamento própria a todas as decadências.

E por quê? Há tempos seus êxitos, de toda sorte, não eram mais comemorados: não via razões para isso, já que o previsto e conhecido prescinde de celebrações. Se posto em termos absolutos, encontrava-se muito bem, nem poderia afirmar o contrário, com tudo aquilo; mas quando comparava seu estado atual, já longevo, às aspirações da juventude… Em que belo burguês havia dado!, com toda a clicheria burguesa de direito.

Não é que ele alguma vez tivesse querido mudar o mundo, nunca achou o mundo merecedor de tamanho esforço de sua parte, mas havia algum desejo maior, elevado, que se extinguira. Sua paisagem familiar lhe inspirava um grande “Para quê?” – e se lembrou da canção sobre as pessoas na sala de jantar, ocupadas em nascer e morrer.

Será que era corno? Olhando para sua Ana, a perfeita mulher de César, era difícil de acreditar. Mas devia ser sim, para completar o arquétipo – não que se importasse. Oportunidades não deviam ter faltado, assim como não faltaram a ele, e talvez fosse justo que ambos as aproveitassem.

Afinal, depois de tanto tempo, parecia inverossímil o abalo daquela estabilidade. Mas será mesmo? E se alguém gritasse, e se alguém cuspisse no prato, e se alguém pregasse uma maldição? Não seria ele.

Recordava-se agora de uma garota, perdida nos anos mais antigos do passado, uma vez havia lhe dito que era preciso tomar cuidado com ele, porque prestava atenção a cada palavra dita. Não entendeu como aquilo pudesse ser um defeito: apesar do tom acusatório, até se orgulhou de lhe notarem essa característica.

Na mesa, no presente, as palavras do filho o despertaram. O rapaz pediu ao pai que passasse a salada.

Ótica do capitalismo

Fui até a ótica para pegar uns óculos que havia esquecido por lá – creio que é coisa comum a muita gente, encomendar algo que se quer e depois, quando já ficou pronto, custar a tomar posse do que tanto se desejava. De qualquer maneira, ainda não haviam dado um fim às minhas lentes. Experimentei a armação, razoavelmente satisfeito; estava okay, mas bom mesmo era o modelo da moça que agora me sorria, a atendente da loja. Coisa providencial, pensei, a vendedora usar óculos tão bonitos, serve de propaganda.

De repente, não mais que de repente, uma epifania tomou conta de mim e me virei para conferir o que já sabia interiormente: Todas as atendentes usavam óculos, sem exceção, embora não tão belos quanto os da minha atendente. Fiquei estarrecido com a constatação: no fundo, já devia ter reparado na peculiaridade, mas era a primeira vez que o fato se me afigurava conscientemente.

Saí rápido da loja, encucado – uma pena, nem pude dar uma despedida conveniente à moça dos óculos bonitos, óculos realmente fantásticos, aqueles. Era fácil conferir a dimensão do problema: na rua Souza Naves, o que não faltam são óticas. Entrei numa logo ao lado, boa tarde, e para meu desassossego, todos lá também tinham armação no rosto. Na próxima, nem me dei ao luxo de penetrar: apenas coloquei a cara dentro da salinha para confirmar meus temores e sair amedrontado. Não precisava de mais evidências.

Por que diabos os atendentes de óticas (geralmente, mulheres) têm de usar óculos? Seria realmente uma forma de propaganda, assim como as vendedoras de lojas de ginástica usam trajes esportivos? Mas, partindo desse pressuposto, como é feita a seleção? É pré-requisito para ser aceito ter alguma deficiência visual? (Curriculum Vitae: jovem, formação superior, interessada em crescer com a empresa e portadora de gloriosos 12 graus de miopia.) Ou, pior, uma vez incorporados, são obrigados a desfilarem com os vários modelos de armação, mesmo sem problemas na vista? Nem o argumento do uniforme é válido, afinal, cada situação detém suas particularidades: as vendedoras de lojas de biquíni infelizmente não atendem em traje de banho.

Imperativos tortuosos do capitalismo: sou capaz de apostar que, naquela ótica, só a minha vendedora realmente usava óculos.