O sagüi

O contato com a mãe-natureza não costuma me proporcionar grande satisfação. Grosso modo, prefiro pisar concreto a pisar terra úmida, e as benesses de respirar um ar puro são rapidamente anuladas quando as picadas de mosquito passam de três. Esse meu caráter urbano, também chamado de frescura por bocas menos amistosas, já me fez passar por maus bocados em passeios mais bucólicos. Na melhor das hipóteses, riam de mim; na pior, eu chorava.

Mas hoje não. Hoje eu fui ao parque e vi um sagüi. E gostei. Nem sei exatamente o porquê, só gostei. Não cheguei a ter ímpetos de me filiar ao Partido Verde, nem de virar vegetariano, mas a coisa toda foi bastante agradável, o parque, o sagüi. Deve ter sido qualquer coisa na cara do sagüi, uma cara singela. Na verdade, nem sei se aquele lá era mesmo um sagüi: pode ter sido um quati, uma confusão justa.

Mas posso garantir que os vi todos, sagüis, quatis, cotias, gansos, gralhas azuis e um glorioso “jacaré tronco d’água” (além de uma barata no banheiro masculino), conforme anunciavam as placas (a barata não estava anunciada). Não vi o lagarto de 1m40: embora estivesse anunciado na placa (ao contrário da barata), resolveu não dar o ar de sua graça. Um direito dele que deve ser respeitado, eu acho. Enfim, vi tanta coisa que não sei se aquele particularmente comovedor era mesmo o sagüi ou o quati. Vou chamá-lo de sagüi para todos os efeitos, espero que possa me perdoar no caso de um eventual erro.

Gostei tanto do sagüi que me peguei embevecido. Não gostei de me pegar embevecido pelo sagüi, resolvi soltar uma infame, “Acho que já vi um desses na TV”. Deu certo, riram. Aproveitando o clima humorístico, o homem ao lado também tentou sua deixa sádica: “Vi no Discovery Channel que a mordida desse bicho transmite AIDS”. Deu errado, riram, as criancinhas ao lado, em vez de ficarem assustadas. As crianças estão cada vez mais espertas, devem ser as aulas de educação sexual. De qualquer modo, foi cômico.

E fiquei com a imagem do sagüi na cabeça. Ou talvez nem tenha sido o sagüi: quiçá foi o domingo, a caminhada, a companhia, a graça de um bom momento da vida, tudo sintetizado em forma de sagüi. Não sei. Só sei que hoje fui ao parque e vi um sagüi – ou quati. E gostei. E é o suficiente.

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Uma noite na ópera

Passeando descuidado pelas prateleiras da loja, dou de cara com a pequena jóia, vendida a menos de 15 reais, um preço realmente barato. Seria o caso de levar, fiquei com vontade de levar, estava pedindo para ser levada – não fosse o acaso de eu já ter o álbum em minha coleção. E discos repetidos não costumam ser de muita valia. Então deixei o CD para trás, lamentando não fazer uma compra de excelente relação custo/benefício, mas feliz pelo fato daquela peça de arte estar acessível a possíveis novos ouvintes, prontos a se maravilharem.

Há sempre fases em que você encasqueta com um artista, ou com uma banda, ou com uma canção: fica ouvindo a mesma coisa por semanas a fio. O problema é que minha fase de curtir o “A Night At The Opera” já vem durando bastante tempo. Comprei-o quando estava lá pela sexta série e, desde então, não deve ter passado um mês sem que o ouvisse. Outros vêm e vão, mas a obra-prima do Queen, de 1975, permanece uma fiel companheira.

Tudo no álbum me encanta, a começar pela divertidíssima capa kitsch, desenhada pelo próprio Freddie Mercury, com representações dos signos dos membros da banda. O título também é de extremo bom gosto, uma homenagem ao hilariante filme homônimo dos Irmãos Marx – e a deferência prosseguiria no álbum seguinte do Queen, “A Day At The Races”, não coincidentemente o nome do filme que sucedeu “A Night At The Opera”. Consta que Groucho Marx, já no fim da vida, teve a delicadeza de escrever um cartão de agradecimento à banda pela citação honrosa.

Quanto à música, que é o que interessa, tem o grande mérito de ser extremamente sofisticada, mas sem as aspirações de seriedade acadêmica típicas do rock progressivo. O Queen sempre teve ao seu lado o humor, a sátira – sem cair no extremo oposto de achar que para ser divertido só podia tocar três acordes.

“A Night At The Opera” é o momento mais representativo do Queen, um balaio onde cabem tango, vaudeville, heavy metal, baladas pop, country, hard rock, charleston, progressivo, melodrama e, é claro, a indefinível “Bohemian Rhapsody”. Dando liga a tudo, as orquestrações de guitarra e os arranjos vocais operísticos, sempre presentes – além do enorme carisma de Mercury, visível até quando só se pode ouvir a sua voz. E que voz.

E agora, se me dão licença, vou ouvir “Love of My Life”. Já é tarde, os vizinhos podem acordar, mas é um risco que vale a pena correr.

Vil metal

O dinheiro é sujo? Sim, sempre lhe parecera. Em primeiro lugar, em termos de higiene mesmo, não é a coisa mais asséptica do mundo: as cédulas passam de mão em mão, a maioria delas absolutamente porcas, fétidas, sabe lá por onde andaram aquelas mãos que tocaram as notas que agora ele contava. Mas isso nem era o principal, melhor relevar. “Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém.”

Além da sujeira material, havia sua crônica culpa católica – e aí o negócio pegava. Os tempos de igreja estavam distantes, mais distantes até do que o calendário mostrava. Se encontrasse hoje o garoto de outrora, não só não conseguiria se reconhecer como acharia o moleque um tremendo imbecil. Mas apesar de tudo, os resquícios daquele tipo de educação custam a desaparecer, sejam quais forem os destinos da vida.

E por isso agora estava tão mal. Quanta sujeira.

Fazer o que fizera já era grave por si só. Agora, aceitar dinheiro em troca trazia uma carga extra de culpa com a qual não estava conseguindo lidar. Tentando se perdoar, pensou se toparia mesmo sem receber nada: sem chance, a grana havia sido essencial. Impressionante como veio no prazo prometido, a quantia exata. Não era grande coisa, nem estava necessitado, mas não havia como negar que, embora o patife merecesse o que tivera, não seria ele a sujar as mãos caso inexistisse uma motivaçãozinha extra.

Bela droga de motivação, não sabia o que fazer com aquilo. Num arrebatamento religioso, pensou em devolver o dinheiro. Seria piada pelos próximos cinco milênios e ninguém lhe confiaria mais nada. Outra opção. Rasgar, mil pedacinhos, uma chuva de papel picado, no fim das contas não passava disso, mero papel. Sua imbecilidade estava passando dos limites, melhor pensar em algo útil. Uma doação para os miseráveis da África, para os órfãos, para o Hospital do Câncer. Mas doar aquele dinheiro sujo? Não sabia, não sabia, só não podia continuar mantendo o fardo.

Foi então que decidiu comprar toda a coleção de Sandy e Junior, conseguindo assim dormir (razoavelmente) em paz.

Uma viagem

Normalmente, as pessoas gostam de viajar. É um termo que traz imagens boas ao ser mencionado, com a ressalva de ter dado dor de cabeça a muita gente na escola pelo fato de o verbo se grafar com “j” e o substantivo, com “g”. Regra besta. Mas o viajar é mais que a viagem, como diria aquela canção dos Paralamas. Um verso acertado, muito bonito, sonoro – nem o erro de concordância nominal e a falta de originalidade do tema conseguem estragá-lo. Afinal, o sentido da coisa já estava presente no “O Velho e O Mar”, no “Navegar é preciso”, em vários filmes de guerra e em sei lá mais quantas referências que minha parca cultura não permite alcançar. Mas, além de estar inserida numa canção pop, o fato de trabalhar diretamente com “viagem” dá toda uma coloração nova à velha idéia. É uma palavra muito forte. Na conotação, pode ganhar um sentido alucinógeno: há as famosas viagens de LSD e, mesmo sem drogas, pode-se dizer que uma experiência forte e transformadora “foi uma viagem”. Não que elas sejam sempre emocionantes, longe disso. Há viagens bem enfadonhas, principalmente as agraciadas com os elementos “calor” e “aperto”. Ter um velho ao lado querendo mijar a toda hora também é bastante desagradável (Por que os velhos precisam mijar a toda hora?). Ou ir com um desgraçado companheiro de assento, o que acontece na maioria das vezes. Mas paremos de ser rabugentos, viagens e viajares podem ser excelentes. Para fugir da rotina (ou fugir de qualquer outra coisa), para ver belas paisagens, para aprender uma língua nova, para possibilidades profissionais, para se estar a sós e sem pressa com alguém querido. Só não venham me falar em viagem para aumentar a “bagagem cultural” e ganhar “vivência”. São termos que me irritam. Há qualquer coisa de libertário no viajar – só é complicado pensar em liberdade num ônibus ou num fusca. Para esse conceito idílico, melhor um barco a vela, a imensidão do mar, o vento batendo no rosto. Deve ser mesmo bom viajar num barquinho, embora eu provavelmente fosse enjoar.

Em suma, prós e contras pesados, gosto de viajar. Só não gosto quando os outros viajam.

A ciência

Não sei o que há de errado comigo (nem sei se, nesse quesito, há algo de errado mesmo), mas nunca tive o que costumam chamar de curiosidade científica. Aquele tipo de coisa, sabe, comum à molecada de todo o mundo, de ir perguntar ao pai como é possível funcionar um carrinho de controle remoto. Para mim, se o carrinho andasse, já estava bom. Pior era quando, cansados de esperar pela resposta paterna, alguns resolviam “abrir para ver como funciona”. Esse clássico da investigação infantil jamais me instigou; pelo contrário, só me causava aflição, pois, invariavelmente, depois de aberto, o maldito carrinho não era a mesma coisa.

Mas nem era tão ruim porque, na verdade, eu nunca dei muita bola para carrinhos. Nem dou para carrões. Homens discutindo em linguagem cifrada, com termos assustadores como “esterçar”, “virabrequim” e “ignição”, dão-me suores frios. E não preciso me preocupar, pois, para qualquer problema automotivo, é só chamar meu amigo Pará. Mas não apenas a mecânica me desperta indiferença.

Seria muito insensível de minha parte confessar que nunca me preocupei em saber por que o céu é azul? Até vejo uma bonita sugestão poética nisso, as cores dos céus, mas, na prática, mesmo… O azul sempre foi cor de meu agrado, então está bom como está. Se o céu fosse rosa choque, talvez me preocupasse mais com os porquês.

A única parte que gostava dessa embrulhada toda eram as aulas no laboratório de química. Não que a matéria me interessasse, tirasse boas notas, longe disso. Mas enquanto a maioria se deslumbrava ao ver como duas agüinhas brancas podiam virar um agüinha vermelha, ou fumacinhas se formavam ao mexer dois pozinhos, eu encontrava campo confortável para tirar enormes cochilos sem ser importunado por ninguém. E no final ainda levava para casa um brinde, em cuja feitura evidentemente não havia tomado parte, como um sabonete líquido ou um shampoo de fabricação escolar. Saudades do colégio.

No entanto, no entanto, no entanto, até eu tenho meus momentos de dúvida. Quando me pergunto como uma simples junção de palavras pode despertar tanta emoção; como imagens em movimento podem tocar uma pessoa até lhe tirarem o sono; como uma canção às vezes se faz absolutamente necessária de ouvir; como uma garota pode fazer você relevar o resto da vida. E aí sinto falta da ciência.

Sala escura

Desde fins da década de 1920, o cinema está ameaçado de morte. Alguns apocalípticos – e entre eles estava o grande Charles Chaplin – achavam que a sonorização estragaria o negócio. Dez anos depois, o novo terror era o technicolor; para os puristas, toda a magia estava no contraste entre o preto e o branco.

Não demorou muito, inventaram um aparelhozinho chamado televisão, rapidamente popularizado. Agora sim, podendo ter uma TV em casa, quem iria ao cinema? Mas o danado insistia em resistir, e gerando cada vez mais lucro, uma indústria milionária. Novo golpe demoraria um pouco, mas seria muito bem-elaborado: o videocassete, massificado em fins da década de 1970, dava poder às pessoas para escolherem o que ver em seus televisores, na hora em que bem entendessem, incluindo filmes. Foram criadas videolocadoras, o preço dos ingressos subiu, as salas diminuíram de tamanho – mas ainda havia renitentes, muitos deles, dispostos a pagar para entrar na sala escura.

O mais recente atentado veio com o advento de DVD e home theaters. Alta definição de imagem, excelente qualidade sonora: o slogan fatal do “cinema em casa”. E é mesmo conveniente ter um aparato desses no lar. Pelo preço de metade de uma entrada de cinema, pode-se alugar um disco e assistir a um filme com quantas pessoas você quiser – ou quantas pessoas couberem na sua sala. Ademais, há a economia adicional em pipoca, refrigerante, estacionamento. Ademais do ademais, com balas perdidas cada vez mais encontráveis por aí, é muito mais seguro e confortável ficar em casa. Como se não bastasse, há o fácil acesso a clássicos do cinema que, em salas de cinema propriamente ditas, estavam perdidos.

Racionalmente, dir-se-ia que o futuro do cinema está condenado. Como uma daquelas construções grandiosas do passado que já não têm razão de ser num mundo mais compacto e veloz, um castelo medieval. No entanto, há qualquer coisa fora do racional quando se vai ao cinema. Chato incorrer no clichê, mas não tem jeito: é a magia da sala escura. É único. Ainda haverá vida longa à sétima arte.

E por isso fico puto de constatar que há mais de um mês não vou ao cinema porque a programação está uma verdadeira porcaria.

Perdidos

Eu via o pessoal daqui de casa vidrado naquilo e não conseguia acreditar. Meu irmãozinho, vá lá, tudo bem, ainda é novo, pode se dar ao luxo de perder tempo com esse tipo de besteira. Mas meu pai? Minha mãe, que nunca me fez acreditar em Papai Noel, por ser uma “mistificação estúpida da sociedade de consumo” – eu ouvia isso com uns quatro anos de idade –, rendendo-se aos encantos da nefasta indústria cultural? Quem te viu, quem te vê.

Não deixava barato. Cada vez que os via lá, abobalhados na frente da televisão, vingava-me de minha educação culturalmente repressiva e tascava um discurso pronto sobre a “vergonha de perder tempo com esse lixo, um enlatado americano, um sub-produto alienante e difusor de preconceitos raciais e sociais”. No fundo, era apenas pela diversão de fazer patrulha ideológica, mas levavam a sério minha pequena encenação. Mandavam eu calar a boca, largar a mão de ser chato e vir juntar-me a eles. Eu aprontava cara blasé e fingia ir estudar em meu quarto.

Até que um dia, bastou um dia, cometi a bobagem de, em vez de me trancafiar em minha alcova, sentar-me com o grupo de aficionados no sofá. Eu queria ler o jornal. Fixei-me nas manchetes. Mas houve um instante em que me virei para comentar uma notícia com alguém e ouvi um “shh!” como resposta. Ofendido, olhei para a TV a fim de descobrir a razão da esnobada. Quanta bobagem!, voltei para o diário. De vez em quando, dava uma levantadinha de olhar para ver alguma cena. E outra. E outra. No final do episódio, o jornal estava no chão.

Mas não podia dar o braço a torcer. Foi no meio da madrugada; sub-repticiamente, roubei o estojo de DVD’s para me atualizar sobre a série. Tal qual viciado, assisti um capítulo após o outro. Tal qual viciado, fui vergonhosamente flagrado por não conter o excesso. No dia seguinte, no almoço, eu era a piada. Se rendeu, hein? Cadê todo aquele ódio?

A princípio, fiquei constrangido pela exposição de minha incoerência. Mas depois me sentei no sofá para, desta vez realmente, ler o jornal. E vi uma população indignada com um massacre sem sentido nos Estados Unidos, pasme com o fácil acesso às armas de fogo. A mesma população que, aqui mesmo, em recente plebiscito, deu vivas a pistolas e rifles. E também vi a gloriosa posse de nosso mais novo Ministro, um respeitado intelectual. O mesmo que passou os últimos anos em exclusiva dedicação a descer a lenha no Governo.

Então voltei ao meu enlatadozinho, sem dor, sem culpa alguma e cônscio de minha inócua incoerência.

Tristes notícias

Com doses igualmente grandes – e não-paradoxais – de justiça e puerilidade, lembro-me de sair dizendo, logo após passar no vestibular, que não devia nada do meu pequeno êxito à porcaria do colégio no qual estudara. Nem compareci à festinha dada aos estudantes aprovados: tinha nojo dos professores, diretores e grande parte dos meus próprios colegas. Aquele rapaz chato (que pouco se distingue do atual) queria porque queria demonstrar alguma independência – uma besteirada só. No entanto, mesmo com rancor esmorecido, é verdadeira a afirmação de que a leitura diária de jornais, desde a infância, foi-me de muito mais valia do que qualquer banco escolar.

Por isso, sou um defensor dos bons jornais impressos, mesmo nestes tempos rápidos de Internet. Acredito que, além da informação efetiva, adquirem-se com eles base cultural e conhecimento histórico. A todos os rapazes e raparigas, em idade de vestibular, que encontro por aí, recomendo mais Folha de S. Paulo e menos Apostila Anglo – para desespero de alguns pais que ouvem o conselho e me julgam inconseqüente. E mesmo às pessoas queridas, já um pouquinho mais velhas, vivo louvando as virtudes de se ler jornal todos os dias.

Mas há momentos em que até para este propagandista gratuito dos velhos diários a coisa não desce. É tudo tão deprimente! Nem me refiro aos jornais interioranos, com seus erros de concordância, suas manchetes ambíguas e capciosas, seus colunistas corruptos, seus donos mega-corruptos – isso já seria covardia.

Podem servir como exemplo até mesmo excelentes jornais – ainda assim é deprimente. Há a depressão mais básica, a das desgraças, do horror: tsunamis, terremotos, garotos arrastados, balas perdidas, loucos que entram atirando em universidades.

E existe também a melancolia que vem quase do nada, a partir de algo aparentemente inócuo como “Para enfrentar Fani, que posa para a ‘Playboy’, revista da ‘Sexy’ aposta em ‘Miss Silicone’. Chama-se Sheila de Almeida, tem 27 anos e ostenta o título da mulher com as maiores mamas de silicone do Brasil. Contabilizam-se 14 cirurgias para colocação de próteses de silicone. Segundo a revista, ela colocou 1.200 ml de silicone em cada mama”. Não sei por quê, bate um vazio em mim ao ler tal tipo de coisa…

Mas a notícia recente mais aterradora foi mesmo a da separação profissional da duplinha de irmãos mais querida do Brasil. Sandy & Junior serão agora apenas Sandy e Junior. A tristeza é de todos.

Opinião externa

Porque há vezes em que não adianta. O amigo pode garantir, o melhor amigo pode assegurar, a mãe pode jurar, a namorada pode olhar grave e dizer que está falando sério, que não é só porque ela o ama. E daí você encara o amigo, o melhor amigo, a mãe, a namorada e sorri, e diz que então tudo bem. Mas não está tudo bem. Porque a opinião de qualquer bêbado da esquina valeria bem mais do que a dessas pessoas queridas.

O grande aval para um projeto sempre será o da pessoa desconhecida. Só depois de ouvir uma assertiva de um ser incógnito é que finalmente se pode se sentir mais seguro – ou menos inseguro – para seguir em frente. Antes disso, o incentivo dos mais estimados pouco ou de nada vale. Não satisfaz o estímulo de quem já se conquistou. E é curioso, porque as pessoas de afeto deveriam se sentir mais à vontade para apontar erros e lacunas; os desconhecidos podem opinar favoravelmente apenas por educação, ou para despachar logo o assunto.

Vale lembrar que o curioso mecanismo humano de valoração só tende a desprezar a opinião dos próximos quando esta é positiva; se algum mínimo senão é apontado, ah!, daí o mundo vem abaixo. É como se mexessem num direito adquirido – como pode, eu que tanto confio no cara, ele acabar comigo assim? E daí se se consegue um outro parecer sobre o mesmo assunto, dessa vez favorável, vai-se correndo jogar na cara do pobre coitado que só usou da sinceridade pedida.

Com um pouco de esforço de imaginação, dá até para fazer uma analogia com o expansionismo militar dos grandes impérios. Nunca se fica contente com o já possuído, os terrenos já subjugados são para mera administração. O real prazer vem do alcance do novo, do maior, de mais. O céu é o limite. Muitas potências caíram por não conseguirem lidar com a proporção de suas vitórias.

E é assim também que se perde quando se quer agradar cada vez mais gente. Em algum momento do caminho, vem a dolorosa consciência de que seria melhor ter escutado quem estava sempre ali – firme, forte, seguro, verdadeiro, sólido.

Notas sobre a MPB

A MPB é uma verdadeira instituição musical de nosso país. Ser assinalado como “músico da MPB” se tornou um atestado de sofisticação. Talvez por isso, não raro, artistas popularescos vêm à mídia para reclamar da dificuldade de adesão ao grupo. Uma argumentação muito corrente é a de que se afinal fazem música, popular, não erudita, e produzida no Brasil, não haveria por que lhes negar o privilégio do uso da sigla.

Há, no entanto, uma especificidade muito maior na MPB do que faz suspeitar sua tão abrangente definição – Música Popular Brasileira. Antes da década de 60 do século XX, o termo não era usado, ou usado incidentalmente. A divulgação do nome se dá para classificar a música de oposição à Bossa Nova, tida como elitista e alienante no contexto das tensões políticas de então. Falar de amor e flor não pegava bem com tanques nas ruas. Mais do que contrariedade ao erudito ou feitura pelo povo – os atores principais da MPB também eram bem-nascidos – ser popular significava abordar uma temática de apelo popular. O “P” da sigla, como se vê, poderia facilmente significar Política.

Pois toda a música da MPB é voluntária ou involuntariamente, em menor ou maior grau, uma música política. Desse modo, músicos que não praticam gêneros típicos – como o roqueiro Raul Seixas, por exemplo – podem conseguir a adesão ao clube, mesmo sem querer; já Tom Jobim, influência quase unânime para toda aquela geração, sempre fica atrelado à Bossa Nova, como punição por seu caráter apolítico, embora sua produção transcenda em muito a levada de “Chega de Saudade”. Tom teve dificuldades enormes de aceitação em seu país durante o período da ditadura, tendo de se auto-exilar nos Estados Unidos para continuar compondo. Não se mostrar francamente anti-ditatorial era indesculpável. Só havia possibilidade de consagração em temáticas líricas se a própria ascensão do artista fosse tomada como alegoria política – as redescobertas de Cartola e Clementina de Jesus durante os anos 70 são sintomáticas.

Mais do que simplesmente toda a música popular brasileira, a MPB é um movimento associado a um tempo e a um contexto. Abrigou sub-gêneros, como o Tropicalismo, e repeliu outros, como a Jovem Guarda. Ouso classificar como marco inicial o show Opinião, de Nara Leão, em 1964, no qual a antiga musa da Bossa Nova passou a interpretar canções de sambistas do morro; como ponto final, pode-se colocar a gravação por Elis Regina, em 1979, de “O Bêbado e A Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, tema simbólico da Abertura. Antes e depois disso, pode ser até música, e popular, e brasileira, mas não é MPB.