Revisão do Gênese

No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.

Entediado com tamanha pasmaceira, gritou para que a luz se fizesse – e a luz, obediente, fez-se. Pesquisas apontam que a ordem divina veio em latim, “Fiat Lux!”, sendo a frase posteriormente usada em uma marca de fósforos, sem o devido pagamento de royalties. Piedoso, Jeová jamais cogitou processar a empresa, embora tenha ficado um tanto magoado pela apropriação arbitrária.

Seja como for, com tudo bem iluminado, o Senhor se sentiu à vontade para encher Seu quintal de coisinhas interessantes, tais como planetas, estrelas, minerais, vegetais, animais e o rio Tietê. Tudo estava muito bem, tudo estava muito bom, mas Ele, exigente e perfeccionista, sentia faltar alguma coisa. O que seria?

Demonstrando um pouquinho de egocentrismo – perfeitamente perdoável, porque, afinal, ninguém é perfeito e naquele tempo não havia a psicanálise –, achou que a solução estaria em criar um ser à Sua imagem e semelhança. A idéia era boa, sem dúvida, mas Deus pecou no mesmo quesito que, milênios depois, desabonaria Sérgio Naya: a matéria-prima vagabunda.

É constrangedor admitir, mas a verdade é que o homem veio do barro. Serve como atenuante, porém, o fato de o Altíssimo andar arrebentado àquelas alturas: já era o sexto dia da criação, trabalho em período integral. A baixa qualidade do material empregado não foi caso de desleixo ou economia; extenuado, teve de se virar com o que apareceu pela frente – e barrão tinha de sobra pelas bandas de lá.

Os humanos aparecem nos registros como a última obra do Criador. Não foi bem assim.

No sétimo dia, finalmente puxou uma palha – mas aí já era tarde demais. Logo anteviu a meleca que o bendito homem, fruto mal-resolvido de um momento de cansaço, faria por aí. E Seus prognósticos se confirmaram. Desencantado, Deus deixou o mundo ao deus-dará. Mas antes, em ira divina, como símbolo de um lugar condenado, deu à Terra o quiabo.

Fragmento de roteiro

Decide, então, que vai parar de fumar. Não que esteja realmente precisando: não houve nenhum sinal de alerta do corpo, seu fôlego é bastante razoável, mesmo para alguém que não fume. A questão é outra, apenas caso de eliminar um hábito perfeitamente dispensável. Também há um componente desafiador, coisa que o atrai bastante, ver se ele realmente conseguirá cumprir uma meta proposta. Agora já está bem para iniciar tarefas exigentes de força de vontade. E mal não vai fazer, largar o cigarro, ele que já nem é dos maiores fumantes. De quebra, com certeza irá agradá-la. Ela não fuma, detesta.

Assim, sem mais nem menos, resolve o plano e o põe em ação. Começa agora mesmo, por que esperar? Tudo parece adequado: é segunda-feira – dia consagrado para o início de árduas empreitadas −, é manhã e seu maço acabou, teria de comprar outro e não o fará.

No trabalho, primeiro dia, é mais fácil do que esperava. Motivador. Parece besta, de tão simples, é só não fumar. E ainda bem, ninguém repara quando ele não sai no horário habitual para seus benditos tragos. Até o Jaime, com aquele Camel de filtro amarelo tão convidativo, não pergunta nada e nem o comove.

Os dias passam e o sucesso é notório. Se sentiu vontade de fumar, é algo como ter vontade de comer torta de morango. Imaginar a possibilidade é tentador, mas ele não precisa fazê-lo. Os colegas, claro, já perceberam, todos têm uma palavra cretina de estímulo. A não ser o Jaime, uma ponta de decepção, um “Até tu, Brutus?” no ar. Para ela, não fala nada durante a semana; prefere que perceba sozinha, seria uma grata surpresa, estava certo.

Sexta-feira à noite, coquetel de lançamento de um livro da editora. O autor presente – fumante. A comida é boa, também é boa a bebida. E beber dá vontade de fumar, ele percebe mais nítido do que nunca. Deus, parece que todos na maldita festa estão de cigarro na mão. Já se irritou tanto com a geração saúde, já perdeu tanto tempo por não achar alguém com um isqueiro para lhe emprestar, e agora num antro da nicotina. Poderia enrolar o salão e tragá-lo. Tormento.

No dia seguinte, não resiste, conta a ela da iniciativa. Estava fácil, até o suplício da noite anterior, precisaria de apoio. Mas que não se preocupasse, diz brincando, ficaria saudável para ela. Que parece gostar, sorri, mas não consegue conter uma advertência:

− Que bom, que bom, fico feliz. Mas olha, não precisa fazer nada para mim, eu gosto de você do jeito que você é. Faça por você mesmo.

− Meu amor, pode deixar, não é exatamente algo altruísta, sei que quem vai ganhar sou eu mesmo. Mas não há como tirar sua importância do processo, entende? Você me dá vontade de fazer algo por mim.

O apontador

Já que é para ser confessional, lá vai: eu não sei usar apontador. Também não sei fazer várias outras coisas banais, bola com o compasso, por exemplo, é uma desgraça, a agulha fica saindo do papel, a ponta escorrega, meleca geral. Mas isso não me incomoda (tanto), porque não dou a mínima para bolas e compassos. Agora, o apontador, gostaria de saber usar. Não porque tenha estima especial pelo apontador em si, mas porque gosto dos lápis.

Parecem-me uma excelente forma para escrever, embora estejam meio obsoletos hoje em dia, com toda a parafernália eletrônica por aí. São práticos, eficientes, textura única, gostosos de manusear e têm a vantagem de sua escrita poder ser apagada. Bem mais dignos do que as lapiseiras, eta objeto afrescalhado, nunca me desceram. Ademais, em casos de nervosismo extremado, quebrar um lápis é terapia rápida e barata – não seria viável se dar a esse luxo com uma Montblanc. Quem usa lápis tem personalidade forte.

Assim, a única desvantagem perceptível no uso do lápis é que freqüentemente se requer um aparato auxiliar – o maldito apontador. Será um problema exclusivamente meu? Dou algumas giradas e vejo como ficou: a ponta ainda está malfeita, pequena. Então aponto mais um pouco. Para quê? Quebrou-se. Até conseguir algo minimamente decente, o lápis já vai pela metade.

Repito: maldito apontador. Ainda por cima, produz aquelas casquinhas abjetas, é um terror não saber onde enfiá-las. Poderia enviar para uma fábrica de barra de cereais, lugar onde são utilizadas, mas como o despacho é caro, fica inviável. Outra opção é usar aquele modelo ligado a um coletor plástico de casquinhas, só que é meio infantil, fico constrangido de usar brinquedinho semelhante.

Lembro de uma vez, eu era pequeno, compadecida de minha falta de coordenação, minha mãe me prometeu um “apontador bom”. Eu não podia conceber a imagem para um termo tão misterioso. Era um apontador de metal. Para mim, foi a mesma porcaria.

E quando uma ponta quebrada encalha na lâmina, impedindo a já precária utilização? Ah, apontador, como eu o odeio. Você me impede de escrever. Espero que isso não seja um sinal.

Do sono

Dormir é considerado por muitos uma perda de tempo; outros, pelo contrário, dizem ter no momento de sono o ápice do seu dia. Eu, confortavelmente, fico no meio do caminho: não acho prazeroso o ato de dormir em si (sobretudo quando vêm pesadelos com antigas professoras colegiais), mas ficar sonado é tão medonho que, por oposição, desabar na cama acaba sendo divino mesmo.

O pavoroso do acordar cedo me levou a odiar as manhãs por muito tempo: tinha de me levantar, ainda com o céu escuro, um zumbi perfeito, para encarar as professoras (as mesmas dos pesadelos de até hoje) e sentar numa carteira desconfortável. Tudo isso associado deu numa raiva injustificada − as manhãs não tinham culpa.

O que se pode fazer, quando há espaço para tanto, é passar a se levantar já com o sol a pino. Mas há complicações sociais: o notívago é freqüentemente mal visto. Não adianta você tentar explicar que, durante a noite, além de uma farrinha ocasional, você trabalhou, leu, escreveu – não, o rapazola vai continuar escandalizado por você não estar de pé às dez da manhã. Filho da puta.

No entanto, convenhamos: acordar cedo tem suas vantagens, é o melhor horário para realizar várias coisas. E a madrugada tem tantas outras, silêncio, comodidade, clima inspirador. Como combinar os dois períodos mais produtivos do dia? A resposta traz os entraves de toda obviedade óbvia demais: em se estando acordado de madrugada e de manhã, e alguma maldita hora precisando dormir, elimine as tardes e os começos de noite – desprezíveis.

Assim você pode cumprir seus afazeres com toda a tranqüilidade na doce madrugada e aproveitar para de manhã fazer moral com aquele seu vizinho velho desocupado que vigia a vida de todos. Saia para comprar pão às seis, dê-lhe bom dia. Em pouco tempo, todos saberão que você é um rapaz trabalhador. E enquanto ele faz sua propaganda, você estará dormindo, à tarde, depois de um bom almoço.

O único inconveniente desse plano é o pequeno detalhe dele ser insustentável: o mundo funciona à tarde. Uma pena – fora isso, a idéia é perfeita. Enquanto não dá para executá-la, continuo com meu sono desregulado.

Passando em frente à banca de revista, reparei na manchete: “Dormir certo mudou minha vida”. Eu não quero que minha vida mude.

Sinestesia

Em algum momento de minha acidentada vida colegial, aprendi o significado desta palavra, sinestesia. Ela voltou-me à cabeça esses dias. Refere-se a uma relação entre sentidos diferentes. Usada como figura de linguagem, existem casos clássicos, que chegam a encher o saco: o “doce amor”, a “crítica ácida” e as “cores harmônicas” são velhos clichês sinestésicos.

No entanto, para além do mero lugar-comum feito para preencher discurso pomposo, há vezes em que a união entre os sentidos parece tão natural que é impossível dissociá-los. Penso nos sons. Um acorde menor, por exemplo, guarda uma forte noção de tristeza. Consenso. Mas e quanto à felicidade?

Parece-me que um momento feliz está vulgarmente associado a barulho. Muito barulho. Felicidade é gritaria, música alta, agito. E pode reparar, aquela sua amiga que faz questão de viver dizendo o quanto é feliz também faz questão de emitir notas de dar inveja a Tetê Espíndola quando encontra algum conhecido numa festa. É para mostrar toda a alegria.

Tem-se então a felicidade como uma senhora exibida e espalhafatosa. No cinema, em se havendo a necessidade de ilustrar uma cena de glória plena, já vão enfiando explosões de fogos de artifício − ícone máximo do kitsch. Tal felicidade alegórica deveria ser enquadrada por poluição sonora e visual.

Eu, por mim, desconfio dessa felicidade rumorosa. Soa-me mais como coisa de quem quer provar algo a si mesmo. Longe de querer ser estraga-prazer, mas sempre fico com um pé atrás quando alguém, sem nenhum pretexto, vem me afirmar o quanto está feliz e radiante. Não sei. Será?

Tenho que a felicidade, ao contrário do rezado pelo senso comum, é uma pessoa discreta. Pouco afeita a luzes e brilhos, evita tumultos, é caseira e prefere um escurinho ao multicolorido. Não é explosiva − pelo contrário, é serena, constante. Conta pouco de seus fatos e feitos. Se se pode apontar um defeito nela, talvez seja um pouquinho de egoísmo. Mas nada que chegue a depor contra sua índole. A felicidade é boa. A felicidade é silenciosa.

Pecados e pecadilhos

As habilidades humanas variam de pessoa a pessoa: o que para alguns é fácil para outros é uma pedreira. Com tanta e tamanha diversidade em nossa atroz espécie, difícil achar consenso. Um dos raros casos de unanimidade diz respeito ao pecado. É realmente moleza. Nem bem você percebe, já está pecando. E se o pecado mora ao lado, os pecadilhos então, ah!, esses são honrosos hóspedes.

Todo mundo tem seu pecadilho favorito. Pecadilho é aquilo que faz até Sua Santidade Bento XVI dar uma risadinha ante a idéia de cometê-lo. Não manda ninguém para o inferno – no máximo alguns dias a mais no purgatório.

Particularmente, gosto de ouvir as conversas alheias. Calma, deixem-me explicar, não é o caso de pecado grave. Afirmo com segurança que jamais escutaria atrás de portas conversas que não me dizem respeito; tampouco seria capaz de ouvir telefonemas alheios em extensão, mesmo quando dois atendem ao mesmo tempo eu desligo rápido e nem curioso fico, garanto; não bisbilhoto gavetas, não remexo papéis antigos e tenho tanto respeito pela privacidade do próximo quanto zelo pela minha.

Feita a minha defesa prévia, vou confessar que é uma delícia quando, por acaso, geralmente com desconhecidos, você pega uma frase solta no ar, descontextualizada. Assim, cruzando a rua e você escuta um pai falando pra filha, “Por que você não é como seu irmão?”. Ou então, no ônibus, o rapaz confessando para a namorada, “Hoje vai ser foda agüentar seu velho enchendo o saco”. Mal posso conter o sorriso em casos assim.

A beleza está em imaginar o desenrolar da situação, devanear em cima, roteirizar os diálogos complementares, provavelmente mais saborosos do que os reais – não importa. Serve de estopim a fotografia do cotidiano, espontânea como todas as boas fotografias. E que se releve o pecadilho. Afinal, todo mundo também já deu de presente a um desconhecido uma frase bombástica para apreciação, é justo que se possa desfrutar do prazer sem culpas quando a dádiva chega imprevista. Pecadilhos trocados se anulam.

Estimas melhoras

A amiga pede socorro, eu não sei como posso socorrê-la. Conta que está doente, febre, dores no corpo, o diabo. Meus dotes medicinais não vão muito além de poder recomendar-lhe suco de limão, dizem que tem vitamina C, dizem que faz bem, evidentemente desconheço a razão – tudo muito vago.

Mas não é exatamente a cura que espera de mim. Seu socorro veio pleno de consciência da minha inaptidão na área da saúde, eu que mal posso cuidar da minha. Como então ser-lhe de mais valia do que um suco de limão?

Está arrasada, a amiga. Além do transtorno físico, não pôde sair, não pôde se divertir, uma frustração, uma sensação de perda de tempo pior do que o mal estar em si − e aí é que tenho a dizer algumas palavrinhas.

Com o perdão do possível pecado, creio que a amiga não esteja aproveitando o lado bom da doença. Eu sei, agachada na privada para vomitar é difícil perceber algum lado positivo, mas insisto: há como tirar proveito. E o passo primordial é assumir a doença. Estando numa condição diferente, seus afazeres serão diferentes, é estúpido pensar no que se poderia estar fazendo e não acontecerá. Faça valer outras coisas.

Deitada lânguida na cama, desfrute da falta de responsabilidade, da sensação de poder não fazer absolutamente nada sem ser cobrada por isso. Aproveite as palavras doces das pessoas queridas, sempre vêm à tona em momentos como esse, elas que custam a sair espontâneas na correria cotidiana. Sinta-se querida, sinta-se cuidada.

E cuide de você. A doença é um ótimo período sabático. Leia muito – não o que mandaram você ler, mas aquele livro há tanto na estante, esperando o momento para ser apreciado. Assista aos filmes, aos clássicos, aquele em preto e branco que sua mãe disse ter chorado litros quando viu e você nunca parou para dar uma olhada.

Sobretudo, faça planos. Mesmo que não tenha a mínima intenção de cumpri-los. Trace um roteiro infalível para ganhar o Pulitzer, planeje uma viagem de bicicleta pela América Latina. Ou então simplesmente pense num presente para dar a alguém de surpresa, sem necessidade de data especial. Quem sabe telefonar para aquela amiga de fora, há tanto tempo vocês não se vêem.

Seja como for, volte restabelecida, mais forte e mais bonita.

Impressão

Nunca a havia visto, nem em fotografia. No entanto, com a quantidade enorme de informações que me davam, eu (assim achava) podia ter-lhe uma imagem bastante clara. E não simpatizava com a moça.

O pior é que não eram só dados soltos, descontextualizados, inocentes. Sua descrição, repetida tantas vezes, com riquíssimas variações sobre um mesmo tom, vinha geralmente acompanhada de um “Você tem de conhecê-la, vão se dar muito bem”. Isso quando não tinha de ouvir um irritante “Vocês são parecidíssimos – não fisicamente, mas no jeito”, ainda mais irritante quando garantiam que era muito bonita. Eu não podia saber, pois a madame, pelo jeito, odiava ser fotografada, achar uma foto dela era coisa dificílima. Que frescura.

De qualquer modo, depois de tanta falação, não pude deixar de ficar um pouco apreensivo quando disseram que ela também estaria na festa. A princípio houve certo alívio, “Finalmente, vão parar de encher meu saco”. Mas chegou uma hora em que me peguei pensando se determinada camisa a agradaria: odiei-me por isso. Aquela criatura havia atingido um patamar mítico, impossível não idealizá-la. Eu imaginava as perguntas e antecipava as repostas. Para quê? Talvez não falasse comigo, como eu perdia tempo com bobagens. E nem sequer sabia se ela era mesmo bonita.

Ela era bonita, foi a primeira coisa que notei. Os desgraçados não haviam mentido. E andava com segurança, coisa rara de achar. E fumava com elegância, coisa rara, raríssima de achar. Além do mais, era peituda, uns peitos majestosos, coisa não tão rara de achar, mas igualmente atrativa.

Embora fosse tentador, não iria lá puxar conversa. Sentia que todos os olhares da festa me flechariam caso tentasse algo do gênero – uma possibilidade aterradora. Mas de observá-la agora, percebi algo que nunca havia me ocorrido. Também falavam para ela sobre mim. E não era pouco.

Alguém a incitou a tocar piano. Ela tocava muito bem, estava cansado de saber. E – como agora ficava evidente! – a moça também me sabia um grande admirador. Um grupo se juntou ao redor. Diante das 88 teclas, concedeu-me uma trégua:

− O que você quer ouvir?

− Qualquer coisa. Impressione-me.

− Eu não preciso impressionar você – soprou sem nenhuma arrogância.

E aí fiquei realmente impressionado.

Dólar freudiano

Os dólares movem o mundo – uma verdade que garante a importância incontestável da moeda norte-americana. O que eu, em minha ignorância, não tinha conhecimento é o fato de as verdinhas serem tão superiores que dispõe até de um sistema psíquico.

O caso não foi estudado por Freud e possui nuances obscuras à ciência humana, mas já se tem conhecimento avançado o suficiente para afirmar que o dólar, aqui mesmo, em terras brasílicas, “rompeu o patamar psicológico” dos dois reais, estando cotado agora a R$ 1,983 – esse terceiro dígito depois da vírgula é de suma importância para a análise mental de Sua Excelência, o dólar. Nosso país tem motivos para se orgulhar, devendo divulgar amplamente sua condição de campo de estudo das minúcias intelectuais da tão importante moeda.

Além do campo da psicologia, a superação psicológica do dólar – ainda não se sabe se para o êxito foram necessárias sessões de psicanálise ou se o sucesso se deu espontaneamente – implica mudanças na economia, na exportação, na inflação, na alíquota do imposto de renda, nas taxas de juros, no preço da gasolina, do pão francês, da maconha e (é claro) nos famosos spread bancário e swap cambial reverso. Ademais, as madames poderão consumir anchovas mais facilmente e ir a Miami com mais freqüência. Eu, por mim, quem sabe consiga comprar alguns discos importados na Amazon, aquele dos Beach Boys que estou perseguindo faz tempo.

Não sei por quê, essa história de dólar barato me faz lembrar a época em que o passe de ônibus custava R$ 0,38. Era um tormento para conseguir o troco. Naqueles dias, também, o povo passou a consumir mais frango e iogurte. Foi amplamente divulgado nos jornais. Tempo feliz.

Claro, o Nordeste continuou na miséria, a saúde e educação não melhoraram, o quadro de insegurança só piorou de lá para cá. Mas se comeu mais frango e iogurte – as estatísticas asseguram. Que o dólar barato, com suas barreiras psicológicas superadas, possa trazer de volta período tão auspicioso para os comedores de frango e de iogurte. O resto das mazelas mingua ante fato tão importante: torçamos todos para a saúde mental do dólar.

No lago

Estava com minha namorada, naquele jeito em que não precisam ser ditas muitas palavras. Mas eis que ela, sempre doce, resolve me surpreender com uma pergunta vinda do nada, graciosa e natural, rompendo o silêncio: “O que você gosta de fazer?”. Poderia inquirir por que diabos ela estava perguntando aquilo naquele momento (no fundo queria saber), mas seria uma barbaridade, um atentado contra sua espontaneidade encanto.

Resolvi então entrar na brincadeira e responder sem pensar muito, no que chamam de fluxo de consciência. Fui lá dizendo, ficar com você (evidente primeira posição na lista), ouvir música, assistir a filmes, ler, escrever, conversar com amigos sem me preocupar com o horário, andar no lago…

Andar no lago?

O negócio do fluxo de consciência funcionava mesmo, peguei-me de cara com minha própria resposta. Como eu, notório sedentário, podia haver mencionado aquilo e ter omitido ações bem mais óbvias, como “comer”? Impressionante.

Talvez… Andar no lago, para mim, não está relacionado a exercício físico, como para a maioria. Sou desprovido de um traje especial para as minhas caminhadas: admiro quem possua completa roupa de jogging, gosto principalmente de certas calças femininas, mas eu me basto ao meu velho jeans, ao meu velho par de tênis. O passo que emprego, embora um pouco mais rápido do que o normal, está longe de ser atlético. Na verdade, evito olhar para as pessoas correndo ao meu lado, se não me canso prematuramente.

Também cultivo certos hábitos, durante a andança no lago, que escandalizam os puristas. Às vezes fumo (atenuante: sempre jogo as bitucas no lixo) e outro dia mesmo me hidratava com um resto de vinho, bebendo no gargalo. Não é exatamente uma coisa geração saúde. Nem é questão de fazer um social: muito raramente troco palavras com algum conhecido, até mesmo porque a maioria das pessoas de meu convívio não é ligada à área.

Mas então… Quem sabe seja somente a paisagem agradável, a inspiradora mistura de cores, especialmente no fim da tarde? Ou o clima fresco da região, ou o fato de pensar em movimento ser melhor do que pensar parado. Não sei, mas agora, pesado e refletido, posso dizer que não menti: gosto de andar no lago.