No lago

Estava com minha namorada, naquele jeito em que não precisam ser ditas muitas palavras. Mas eis que ela, sempre doce, resolve me surpreender com uma pergunta vinda do nada, graciosa e natural, rompendo o silêncio: “O que você gosta de fazer?”. Poderia inquirir por que diabos ela estava perguntando aquilo naquele momento (no fundo queria saber), mas seria uma barbaridade, um atentado contra sua espontaneidade encanto.

Resolvi então entrar na brincadeira e responder sem pensar muito, no que chamam de fluxo de consciência. Fui lá dizendo, ficar com você (evidente primeira posição na lista), ouvir música, assistir a filmes, ler, escrever, conversar com amigos sem me preocupar com o horário, andar no lago…

Andar no lago?

O negócio do fluxo de consciência funcionava mesmo, peguei-me de cara com minha própria resposta. Como eu, notório sedentário, podia haver mencionado aquilo e ter omitido ações bem mais óbvias, como “comer”? Impressionante.

Talvez… Andar no lago, para mim, não está relacionado a exercício físico, como para a maioria. Sou desprovido de um traje especial para as minhas caminhadas: admiro quem possua completa roupa de jogging, gosto principalmente de certas calças femininas, mas eu me basto ao meu velho jeans, ao meu velho par de tênis. O passo que emprego, embora um pouco mais rápido do que o normal, está longe de ser atlético. Na verdade, evito olhar para as pessoas correndo ao meu lado, se não me canso prematuramente.

Também cultivo certos hábitos, durante a andança no lago, que escandalizam os puristas. Às vezes fumo (atenuante: sempre jogo as bitucas no lixo) e outro dia mesmo me hidratava com um resto de vinho, bebendo no gargalo. Não é exatamente uma coisa geração saúde. Nem é questão de fazer um social: muito raramente troco palavras com algum conhecido, até mesmo porque a maioria das pessoas de meu convívio não é ligada à área.

Mas então… Quem sabe seja somente a paisagem agradável, a inspiradora mistura de cores, especialmente no fim da tarde? Ou o clima fresco da região, ou o fato de pensar em movimento ser melhor do que pensar parado. Não sei, mas agora, pesado e refletido, posso dizer que não menti: gosto de andar no lago.

2 comentários sobre “No lago

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