Impressão

Nunca a havia visto, nem em fotografia. No entanto, com a quantidade enorme de informações que me davam, eu (assim achava) podia ter-lhe uma imagem bastante clara. E não simpatizava com a moça.

O pior é que não eram só dados soltos, descontextualizados, inocentes. Sua descrição, repetida tantas vezes, com riquíssimas variações sobre um mesmo tom, vinha geralmente acompanhada de um “Você tem de conhecê-la, vão se dar muito bem”. Isso quando não tinha de ouvir um irritante “Vocês são parecidíssimos – não fisicamente, mas no jeito”, ainda mais irritante quando garantiam que era muito bonita. Eu não podia saber, pois a madame, pelo jeito, odiava ser fotografada, achar uma foto dela era coisa dificílima. Que frescura.

De qualquer modo, depois de tanta falação, não pude deixar de ficar um pouco apreensivo quando disseram que ela também estaria na festa. A princípio houve certo alívio, “Finalmente, vão parar de encher meu saco”. Mas chegou uma hora em que me peguei pensando se determinada camisa a agradaria: odiei-me por isso. Aquela criatura havia atingido um patamar mítico, impossível não idealizá-la. Eu imaginava as perguntas e antecipava as repostas. Para quê? Talvez não falasse comigo, como eu perdia tempo com bobagens. E nem sequer sabia se ela era mesmo bonita.

Ela era bonita, foi a primeira coisa que notei. Os desgraçados não haviam mentido. E andava com segurança, coisa rara de achar. E fumava com elegância, coisa rara, raríssima de achar. Além do mais, era peituda, uns peitos majestosos, coisa não tão rara de achar, mas igualmente atrativa.

Embora fosse tentador, não iria lá puxar conversa. Sentia que todos os olhares da festa me flechariam caso tentasse algo do gênero – uma possibilidade aterradora. Mas de observá-la agora, percebi algo que nunca havia me ocorrido. Também falavam para ela sobre mim. E não era pouco.

Alguém a incitou a tocar piano. Ela tocava muito bem, estava cansado de saber. E – como agora ficava evidente! – a moça também me sabia um grande admirador. Um grupo se juntou ao redor. Diante das 88 teclas, concedeu-me uma trégua:

− O que você quer ouvir?

− Qualquer coisa. Impressione-me.

− Eu não preciso impressionar você – soprou sem nenhuma arrogância.

E aí fiquei realmente impressionado.

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