Sinestesia

Em algum momento de minha acidentada vida colegial, aprendi o significado desta palavra, sinestesia. Ela voltou-me à cabeça esses dias. Refere-se a uma relação entre sentidos diferentes. Usada como figura de linguagem, existem casos clássicos, que chegam a encher o saco: o “doce amor”, a “crítica ácida” e as “cores harmônicas” são velhos clichês sinestésicos.

No entanto, para além do mero lugar-comum feito para preencher discurso pomposo, há vezes em que a união entre os sentidos parece tão natural que é impossível dissociá-los. Penso nos sons. Um acorde menor, por exemplo, guarda uma forte noção de tristeza. Consenso. Mas e quanto à felicidade?

Parece-me que um momento feliz está vulgarmente associado a barulho. Muito barulho. Felicidade é gritaria, música alta, agito. E pode reparar, aquela sua amiga que faz questão de viver dizendo o quanto é feliz também faz questão de emitir notas de dar inveja a Tetê Espíndola quando encontra algum conhecido numa festa. É para mostrar toda a alegria.

Tem-se então a felicidade como uma senhora exibida e espalhafatosa. No cinema, em se havendo a necessidade de ilustrar uma cena de glória plena, já vão enfiando explosões de fogos de artifício − ícone máximo do kitsch. Tal felicidade alegórica deveria ser enquadrada por poluição sonora e visual.

Eu, por mim, desconfio dessa felicidade rumorosa. Soa-me mais como coisa de quem quer provar algo a si mesmo. Longe de querer ser estraga-prazer, mas sempre fico com um pé atrás quando alguém, sem nenhum pretexto, vem me afirmar o quanto está feliz e radiante. Não sei. Será?

Tenho que a felicidade, ao contrário do rezado pelo senso comum, é uma pessoa discreta. Pouco afeita a luzes e brilhos, evita tumultos, é caseira e prefere um escurinho ao multicolorido. Não é explosiva − pelo contrário, é serena, constante. Conta pouco de seus fatos e feitos. Se se pode apontar um defeito nela, talvez seja um pouquinho de egoísmo. Mas nada que chegue a depor contra sua índole. A felicidade é boa. A felicidade é silenciosa.

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6 comentários sobre “Sinestesia

  1. Bom… tudo tem que ter sua própria representação ou sinestesia, como queira chamar. A felicidade, por consenso, é afirmada, demonstrada, por agito, gritaria, uma explosão da sua personalidade para a alegria.
    Se estamos felizes, sorrimos, rimos, ateh gritamos, algumas vezes. Então, na verdade, existem várias formas de felicidade. Tem aquela que quer contar a todo o mundo, tem aquela que não conta mas seu estado de espírito fica agitado ou até histérico, tem aquela felicidade silenciosa, quando você se sente completo no seu interior, seu espírito sorri… podemos dizer então que a sinestesia da felicidade é múltipla, cada qual a seu momento e a seu propósito.

    Muito bom o texto, muito bem escrito também. Fico feliz em saber que ainda temos pessoas que sabem escrever.

    Abraço

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