Do sono

Dormir é considerado por muitos uma perda de tempo; outros, pelo contrário, dizem ter no momento de sono o ápice do seu dia. Eu, confortavelmente, fico no meio do caminho: não acho prazeroso o ato de dormir em si (sobretudo quando vêm pesadelos com antigas professoras colegiais), mas ficar sonado é tão medonho que, por oposição, desabar na cama acaba sendo divino mesmo.

O pavoroso do acordar cedo me levou a odiar as manhãs por muito tempo: tinha de me levantar, ainda com o céu escuro, um zumbi perfeito, para encarar as professoras (as mesmas dos pesadelos de até hoje) e sentar numa carteira desconfortável. Tudo isso associado deu numa raiva injustificada − as manhãs não tinham culpa.

O que se pode fazer, quando há espaço para tanto, é passar a se levantar já com o sol a pino. Mas há complicações sociais: o notívago é freqüentemente mal visto. Não adianta você tentar explicar que, durante a noite, além de uma farrinha ocasional, você trabalhou, leu, escreveu – não, o rapazola vai continuar escandalizado por você não estar de pé às dez da manhã. Filho da puta.

No entanto, convenhamos: acordar cedo tem suas vantagens, é o melhor horário para realizar várias coisas. E a madrugada tem tantas outras, silêncio, comodidade, clima inspirador. Como combinar os dois períodos mais produtivos do dia? A resposta traz os entraves de toda obviedade óbvia demais: em se estando acordado de madrugada e de manhã, e alguma maldita hora precisando dormir, elimine as tardes e os começos de noite – desprezíveis.

Assim você pode cumprir seus afazeres com toda a tranqüilidade na doce madrugada e aproveitar para de manhã fazer moral com aquele seu vizinho velho desocupado que vigia a vida de todos. Saia para comprar pão às seis, dê-lhe bom dia. Em pouco tempo, todos saberão que você é um rapaz trabalhador. E enquanto ele faz sua propaganda, você estará dormindo, à tarde, depois de um bom almoço.

O único inconveniente desse plano é o pequeno detalhe dele ser insustentável: o mundo funciona à tarde. Uma pena – fora isso, a idéia é perfeita. Enquanto não dá para executá-la, continuo com meu sono desregulado.

Passando em frente à banca de revista, reparei na manchete: “Dormir certo mudou minha vida”. Eu não quero que minha vida mude.

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