Fragmento de roteiro

Decide, então, que vai parar de fumar. Não que esteja realmente precisando: não houve nenhum sinal de alerta do corpo, seu fôlego é bastante razoável, mesmo para alguém que não fume. A questão é outra, apenas caso de eliminar um hábito perfeitamente dispensável. Também há um componente desafiador, coisa que o atrai bastante, ver se ele realmente conseguirá cumprir uma meta proposta. Agora já está bem para iniciar tarefas exigentes de força de vontade. E mal não vai fazer, largar o cigarro, ele que já nem é dos maiores fumantes. De quebra, com certeza irá agradá-la. Ela não fuma, detesta.

Assim, sem mais nem menos, resolve o plano e o põe em ação. Começa agora mesmo, por que esperar? Tudo parece adequado: é segunda-feira – dia consagrado para o início de árduas empreitadas −, é manhã e seu maço acabou, teria de comprar outro e não o fará.

No trabalho, primeiro dia, é mais fácil do que esperava. Motivador. Parece besta, de tão simples, é só não fumar. E ainda bem, ninguém repara quando ele não sai no horário habitual para seus benditos tragos. Até o Jaime, com aquele Camel de filtro amarelo tão convidativo, não pergunta nada e nem o comove.

Os dias passam e o sucesso é notório. Se sentiu vontade de fumar, é algo como ter vontade de comer torta de morango. Imaginar a possibilidade é tentador, mas ele não precisa fazê-lo. Os colegas, claro, já perceberam, todos têm uma palavra cretina de estímulo. A não ser o Jaime, uma ponta de decepção, um “Até tu, Brutus?” no ar. Para ela, não fala nada durante a semana; prefere que perceba sozinha, seria uma grata surpresa, estava certo.

Sexta-feira à noite, coquetel de lançamento de um livro da editora. O autor presente – fumante. A comida é boa, também é boa a bebida. E beber dá vontade de fumar, ele percebe mais nítido do que nunca. Deus, parece que todos na maldita festa estão de cigarro na mão. Já se irritou tanto com a geração saúde, já perdeu tanto tempo por não achar alguém com um isqueiro para lhe emprestar, e agora num antro da nicotina. Poderia enrolar o salão e tragá-lo. Tormento.

No dia seguinte, não resiste, conta a ela da iniciativa. Estava fácil, até o suplício da noite anterior, precisaria de apoio. Mas que não se preocupasse, diz brincando, ficaria saudável para ela. Que parece gostar, sorri, mas não consegue conter uma advertência:

− Que bom, que bom, fico feliz. Mas olha, não precisa fazer nada para mim, eu gosto de você do jeito que você é. Faça por você mesmo.

− Meu amor, pode deixar, não é exatamente algo altruísta, sei que quem vai ganhar sou eu mesmo. Mas não há como tirar sua importância do processo, entende? Você me dá vontade de fazer algo por mim.

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