Corta!

A preguiça, junto com outras delícias como a gula, é um dos sete pecados capitais. Não estou à altura de poder discordar de sua força maligna, contestar os pecados capitais deve ser ainda pior do que cometê-los, mas ouso afirmar que até mesmo em tão terrível vício há algo de bom. A eterna preguiça intrínseca à raça humana, e a alguns outros sintomáticos animais como o bicho-preguiça, pode motivar invenções realmente ótimas, facilitadoras de nossa vida.

Da roda até o miojo, tudo tem um dedinho de indolência por trás. Não demora, os bichos-preguiça vão se tocar e descobrir as benesses da roda – para conseguirem o miojo leva um pouco mais de tempo, mas ainda acredito que eles chegam lá.

Penso na preguiça como fator de surgimento de um fenômeno magnífico, a edição. Outros problemas certamente influíram, como a falta de espaço, mas a imagino sendo criada por algum antigo que percebeu não precisar copiar o blá blá blá todo de um chato qualquer, bastando se ater ao essencial – no caso de existir alguma essência. Chatos sempre houve e sempre haverá, mas o primeiro editor foi alguém original e influente como poucos, seu invento é usado até hoje por crentes e ímpios, bons e maus, corinthianos e palmeirenses.

Admita-se o fato de ainda haver algumas poucas pessoas que parecem desconhecer as vantagens da edição, de Fidel Castro a J.K.Rowling – mas eles têm seus sólidos motivos. Exceções à parte, poder livrar-se da encheção de lingüiça é uma bênção.

Só é complicado quando se passa a confundir o benéfico processo de editar com a simples censura. A edição deve vir para atender a critérios estéticos e práticos, jamais para omitir pensamentos incômodos ou alguma opinião dissonante daquela tida como correta. Às vezes, achar essa fronteira é difícil; contudo, na grande maioria dos casos, a picaretagem fica evidente.

Mas mesmo quando a intenção não é perversa, pode-se cometer bobagem editando. A busca da concisão máxima pode resultar na extinção de um floreio que traria justamente o encanto diferencial, ou até mesmo na deturpação de sentido. É preciso tomar cuidado.

O General romântico

O General Cunha Macedo, gaúcho, foi uma das figuras mais lendárias do Exército Brasileiro. Durante a ditadura militar, identificado à linha dura, apoiou entusiasticamente o AI-5. Embora não seja apontado como diretamente responsável por casos de tortura, defendeu de público o recurso, “em casos necessários”, por diversas vezes, em discursos e memorandos – admissão rara mesmo entre os mais conservadores das Forças Armadas. Gabava-se de gozar da intimidade de presidentes. Em 1975, em festa na casa de um cunhado do General Garrastazu Médici, com a presença do então ex-Presidente, Cunha Macedo escandalizou os convidados, sendo aconselhado por um assistente, em face do visível mal-estar generalizado, a deixar o recinto. Aconteceu que o General, embalado por largas doses de bom scotch, e com o desajeitado de quem usualmente só versava sobre a guerra, deitou o verbo sobre o amor. Como era comum naqueles tempos, houve alguém para anotar as palavras de um Oficial do Exército. Transcrevemos abaixo os fragmentos do arroubo de Cunha Macedo aos quais tivemos acesso. O General morreu em novembro de 2006, aos 95 anos:

O amor, o amor realmente existe; por incrível que pareça, não é coisa inventada para vender romances imorais [risos dos presentes]. A ingenuidade está em achar que o amor deve ser coisa tranqüila e plácida, um caminho para a paz. Não. O amor é belo, belo e forte. E como tudo que é belo e forte, tem algo de violento e insano. […]

Outro erro comum é, em se amando, buscar fugir da dor intrínseca ao ato de amar. Quem faz isso não é digno do sentimento. “Esquecer”, “tentar outro rumo”, francamente… Covardes! Um homem de fato se orgulha da ferida excruciante que leva consigo, como uma marca de guerra. E deve beijar o fundo do poço, para depois se reerguer. O que os pulhas vêem como “humilhação”, na verdade, é lutar até o fim, a conquista ou a morte. […]

Vivem acontecendo, por infortúnio, fatos extremos e abjetos, que ferem a honra e a tradição; nesses casos, é preciso presteza e energia na resposta – pode ser com a Pátria, a família, a religião ou o amor, é tudo a mesma coisa. Então eu digo: o assassinato passional seguido de suicídio, quando aplicado com justeza, é ato corajoso e nobre.

(Embora o texto acima mencione figuras e passagens históricas, a situação descrita e o General Cunha Macedo são fictícios. Quaisquer semelhanças com fatos reais, por assustadoras que sejam, são mera coincidência.)

Private joke

Meu olho está vermelho, arde. E o substantivo no singular está bem empregado, porque apenas o olho direito apresenta irritação. Uma curiosa fatalidade. Com meus olhos, contemplo meus olhos no espelho e lhes avalio a diferença. Não sei qual é o mais real, de qual deveria gostar mais. A simetria está rompida, eis o fascínio.

Dizem que, na mulher, um seio é sempre maior do que o outro. Nunca ouvi falar de nenhuma teoria afim acerca de olhos; no máximo, alguns casos de cor da íris ligeiramente dessemelhante em cada um deles. Mas no meu caso, refiro-me ao branco do olho mesmo – não sei o termo correto –, que no olho direito não está tão branco assim, aparece entremeado de linhas vermelhas. Pequeno acidente doméstico. Lúcia achou que mereceria uma crônica: talvez, talvez fosse uma boa mesmo, mas ainda não é caso de relatar o caso. Paciência. Quem sabe com algum distanciamento. Só os olhos me interessam.

O fato de se mostrarem díspares me faz apreciar melhor cada um deles. Lembro-me de suas existências independentes. É triste ser lembrado apenas como parte de um conjunto, todos querem ser tidos como indivíduos – não creio que com meus olhos direito e esquerdo seja diferente. Uma maldade, falar sempre em “olhos”, sempre generalizando. E se um olho não for com a cara do outro, o fardo de suportar a existência próxima acentuado pelas associações inevitáveis?

Olhos se apresentam em pares, são gêmeos. Nem por isso deixam de merecer tratamento diferenciado. A propósito, sempre me pareceu uma bestialidade as mães de gêmeos univitelinos os vestirem com as mesmas roupas. Uma uniformização meio fascistóide, eu acho. A desculpa de que é “bonitinho” nunca me convenceu. Não acho bonitinho.

Breve, meu olho avermelhado deve voltar à cor alva, habitual dos olhos não inflamados; procurarei, então, lembrar-me do ocorrido para respeitá-lo em sua unicidade. Enquanto isso, aproveito a convalescença para mirar um olho no espelho, e um outro olho, observando-se mutuamente, num devaneio meta-sensorial.

Moda outono-inverno

E agora faz frio. Continua sendo um desperdício de tempo escrever estas linhas, mas pelo menos o clima é mais aconchegante para se estar trancado em casa à frente do computador. A chegada do inverno – que nunca acontece conforme reza o calendário – traz alguns mitos, com doses variadas de veracidade.

Aumento da libido, mais vontade de urinar, dormir, comer… Intriga-me particularmente a máxima segundo a qual as pessoas ficariam mais elegantes no inverno. Há, sem dúvidas, razões justas para a afirmação: imaginar, sei lá, Catherine Deneuve com um casaco de peles evoca um símbolo inequívoco de distinção. Com todo o respeito e apreço ao nosso clima tropical, que traz visões tão estimulantes, barriga de fora, shorts e chinelo não são lá muito sofisticados. Por mais que as havaianas conquistem o mercado exterior, não veremos a Rainha Elizabeth usando o glorioso calçado brasileiro – talvez o príncipe William.

Algumas tentativas de emular o refinamento do inverno alheio por aqui, no entanto, enchem-me o saco. Aquelas árvores de natal artificiais, com medonhos flocos de neve como adorno, são-me uma barbaridade. Merecem uma chinelada de havaianas.

Voltando às roupas de frio, têm o benefício extra de oferecer uma certa camuflagem que os gordinhos precisamos. A robustez chama mais a atenção acompanhada de trajes curtos; já os trajes pesados deixam maiores os magrelos – é um nivelamento (parcial, evidentemente) divertido.

Mesmo com todas essas vantagens, é preciso tomar cuidado com o figurino invernal. Se a temperatura é realmente rigorosa, a justaposição de peças pode resultar em visões desagradáveis. Algumas combinações cromáticas que vejo por aí são de fato uma lástima, botam por terra a teoria do requinte nesta época do ano.

Outro inconveniente, de ordem financeira, é o fato de blusas, jaquetas e afins serem mais caros do que uma simples camiseta. Logo, afora para poucos privilegiados, a possibilidade de em pouco tempo de inverno seu círculo de conhecidos decorar seu rol de roupas é bem grande. Sorte que todos estão no mesmo barco e as fraquezas se anulam.

Pequeno ensaio despropositado sobre o limão

Poucas frutas são tão versáteis e úteis quanto o limão. Na verdade, difícil é imaginar uma sociedade deslimonada. No entanto, fiquei sabendo que o limão só se popularizou em terras brasileiras no século XX, durante o surto da gripe espanhola, por suas propriedades medicinais. Só que um limãozinho na época era bem caro, custando de dez a vinte mil réis cada unidade. Não sei exatamente quanto isso representa, mas parece bastante.

Hoje em dia, ainda bem, limão é coisa barata, baratíssima. Já vi, em promoções, o quilo custando apenas alguns centavos (de reais, não de réis). Se, para o consumidor, o custo é tão irrisório, penso na quantidade que o produtor deve colher para ter algum lucro. Não sou muito ligado à área do agronegócio, mas creio não ser exatamente a melhor das escolhas para plantio. Porque, isso também é relevante, limão dá em qualquer canto. Todo mundo tem acesso fácil. Roubei, na infância, uma quantidade enorme da fruta em árvores de vizinhos. Depois de algumas limonadas, não sabia mais o que fazer com aquilo tudo – era mais pelo prazer lúdico da ladronagem.

E além da clássica limonada, há diversas outras utilidades para nosso amigo, do qual tudo se aproveita, folhas, casca, suco. Na impossibilidade de mencionar todas, cito algumas que mais me aprazem: ingrediente principal para bolos, balas, mousses, chás, refrigerantes; base da famigerada caipirinha, um de nossos maiores produtos de exportação; excelente tempero para carnes e saladas; “toque especial” em molhos; verdadeira panacéia, sendo empregado em remédios, xaropes e produtos de limpeza. Por fim, o sorvete de limão, merecedor de parágrafo à parte.

Sorvete vagabundo é coisa complicada. Melhor economizar um pouco e comprar de uma marca melhorzinha. No entanto, se a dureza for irremediável, aposte no picolé de limão. O gosto do mais sofisticado é muito próximo ao do mais chinfrim. Por isso, é um campeão de vendas e sempre o primeiro sabor a acabar nas festinhas em que rola boca livre de picolés.

Nem tudo são vantagens. Se em contato com a pele e exposto ao sol, pode causar queimaduras. Lembro de uma professora do jardim de infância que certa vez apareceu com a mão arrebentada, explicou-se, era por causa do limão. Não sabia desse poder todo. Mas, afinal de contas, é só tomar cuidado. O que me intriga é a dificuldade de achar um limão na cor popularmente conhecida como verde-limão.

Ato ignóbil nº 5

Bela, ela era bela, acho que ninguém contestaria. Embora essas coisas de gosto sejam complicadas, aquela lá era para agradar os mais vários públicos. Os sofisticados teriam motivos para encanto; os mais chegados às simples tentações da carne também não ficariam decepcionados. Bela. Uma qualidade ser bela assim.

Como qualidade adicional, estava sentada na minha mesa do bar, de onde podia mirá-la e trocar frivolidades. Uma delícia. Acho que cheguei a segurar sua mão, no meio daqueles risos idiotas, daquelas meias-verdades e completas mentiras. Claro, sempre vinha um idiota para atrapalhar, tecer alguma idiotice complementar. Por que não sumiam todos?

Deus não ouviu minha imprecação, ninguém sumiu – mas a comida chegou, o que já era um consolo. Melhor acelerar a história a partir daqui. Nós todos comemos, e finda a refeição ela palitou os dentes.

Sim, é isso mesmo. Ela pegou aquele infame paliteiro verde desbotado, deu dois tapinhas no fundo, fez saltar a varinha de madeira, segurou-a delicadamente entre os dedos e a trouxe aos caninos. Inacreditável. Ficou lá, cutucando nacos perdidos de carne, na maior naturalidade do mundo. Teve o recato (a cara de pau) de fazer uma barreira visual com a mão desocupada, tapando a boca. Céus, que nojo. Não lembro a destinação dada ao palito usado, estava chocado demais para observar, mas hoje gostaria de saber o que fez com a prova do crime.

Como podia, totalmente incompatível, as unhas francesinhas, ela mesmo pintava, havia me dito, delicadeza plena. É uma incongruência uma mulher de unhas francesinhas – aquilo deve dar um trabalho desgraçado para fazer – palitar os dentes. Se ainda fosse uma de vermelho descascado e roído, talvez. Não, nem assim.

Esse ato ignóbil é imperdoável, independentemente de sexo, raça ou religião. Se é justamente um dos exemplos mais clássicos, dado pelas mulheres, de limites da grosseria masculina… E era o que ela acabara de fazer, na minha frente! Acho que nunca havia visto uma mulher palitar os dentes – não preciso ver de novo.

Feia, ela ficou feia, acho que ninguém contestaria.

Fim de semana em Londrina II

Não foram só mazelas no fim de semana londrinense. Houve coisas muito boas no Cine-Teatro Ouro Verde.

(Esqueço-me. O local não é mais cine-teatro, graças a uma genial reforma de estrutura. Foi adicionado um pilar e foi retirada a possibilidade de se projetarem filmes. Troca justa. De modo que agora é apenas Teatro Ouro Verde, 55 anos de tradição. Mas isso já é uma mazela, relevemos este parêntesis.)

Dois grandes concertos musicais. Na sexta-feira, caso típico de mal que vem para o bem, lá houve a apresentação de Yamandú Costa. Estava inicialmente marcada para a Concha Acústica, ao ar livre, mas a organização transferiu o show, na última hora, por conta de uma chuva que não veio – merece reprimendas pela desorganização. A despeito disso, convenhamos que o Ouro Verde foi mesmo palco mais adequado.

Yamandú tem domínio pleno de seu instrumento. Um virtuoso de 27 anos. Como é comum a jovens instrumentistas, no entanto, às vezes peca por preterir a estrutura das peças musicais em favor de demonstrações acrobáticas de velocidade nas escalas.

Na primeira parte da apresentação, solo, grata surpresa: viu-se um Yamandú mais comedido, tocando sempre passagens dificílimas, mas com a beleza à frente do exibicionismo. Quando ganhou o acompanhamento de Alessandro Kramer no acordeom, contudo, tendo uma base confortável, a sujeira por vezes deu sinal de vida. Nada que comprometa a graça do evento, vale ressaltar: dois músicos de altíssima qualidade, anos-luz além do cancioneiro radiofônico. A lamentar certa burrice do público, desprezando belíssimas passagens harmônicas e vibrando com qualquer pancada no instrumento.

No dia seguinte, Ná Ozzetti cantou no mesmo local, acompanhada de Dante Ozzetti, seu irmão, no violão, e de Sérgio Reze na percussão. Quando algo é sublime, fica meio besta dar explicações. Quem não foi – e tudo custou apenas dez reais! – perdeu algo grande. Devo destacar, contudo, sua extrema facilidade com notas rápidas e saltos melódicos. Ná é, para este cronista, a maior cantora em atividade do país. A interpretação de Dante também me fez pensar no nível do violão brasileiro. O cara toca muito, muito bem. Ainda assim, é tido apenas como instrumentista mediano, dada a quantidade, em nosso país, de talentos absurdos nas seis cordas – sendo um deles nosso caro Yamandú.

E com tanta riqueza sobrando, somos obrigados a aturar excrementos sonoros entupindo rádios e televisões. Por quê, para quê? Mas houve a luz da esperança no fim de semana londrinense, com duas noites de casa cheia no Cine-Teatro – ops! –, Teatro Ouro Verde.

Fim de semana em Londrina

Um rapaz de 19 anos morreu no último sábado, dentro de sua própria casa. Ele viu o pai reagir a dois assaltantes e ser agredido com coronhadas. Tentando ajudá-lo, acabou levando uma bala no abdome. Morreu. O nome do jovem era Rafael.

Até aí, mais um daqueles crimes aos quais estamos vexatoriamente acostumados. Milhares de infortúnios semelhantes devem ter ocorrido no fim de semana em todo o Brasil. Passamos os olhos nas manchetes de jornal, exclamamos um “Que horror!”, mas estamos embotados demais para sentir. Vergonha.

Acontece que o jovem era de Londrina e Londrina é a minha cidade. Ainda assim, muito infelizmente, não dá mais para ficar chocado com um assassinato por estas plagas. Coisa corriqueira, acontece às centenas por ano – embora o Sr. Roberto Requião considere a falta de segurança daqui “uma invenção da imprensa”.

E acontece que o homicídio não ocorreu nas trevas da madrugada. Foi assim, em plena luz do dia, três da tarde, pai e filho lavavam o carro na calçada, dois assaltantes os obrigaram a entrar em casa e lá se deu a desdita. Já começo a me impressionar.

E acontece que a região na qual moravam está longe de beco escuro onde explode a violência. Jardim Presidente, zona oeste, só casarão por lá. Fui a uma divertida festa, repleta de universitários, no mesmo bairro, no dia anterior à desgraça. Quem sabe não tenha estado na mesma festa, o rapaz, pouco mais novo do que eu?

E, por fim, acontece que Rafael cursava o primeiro ano de relações públicas, no departamento de comunicação da Universidade Estadual de Londrina. Uma ex-namorada faz o mesmo curso. Eu mesmo só deixei aquele cantinho ano passado, depois de quatro inglórios anos de jornalismo. Como o rapaz era primeiranista, não deu para conhecê-lo. Mas de vez em quando ainda passo por lá, devo ter cruzado com ele.

Pensando nisso fico verdadeiramente abalado.

Está próximo, está próximo. E é triste um assassinato comum [sic] não ter mais o poder de causar indignação, assombro. O sangue há de respingar na pele para atentarmos à barbaridade de uma vida humana sendo ceifada. Minha solidariedade aos amigos e familiares.