Ingmar Bergman

Lembro-me bem qual foi o primeiro, eu tinha uns sete ou oito anos, não sei, certamente menos de dez. Meu pai colocou uma fita para eu assistir, já era tarde – para meus padrões à época –, passava da meia-noite, mas vi tudo atenciosamente até o fim. No começo achei engraçado aquele argumento, um cavaleiro medieval desafia a morte a uma partida de xadrez; logo percebi no que estava vendo, contudo, algo tremendamente sério. Não entendi muita coisa, mas entendi o suficiente para ficar tocado. O pai falou que se tratava de uma “metáfora sobre a condição humana”, então o dia em que tomei contato com a obra de Ingmar Bergman, por meio de seu O sétimo selo, foi o mesmo em que aprendi o significado de metáfora. Um dia importante.

Depois vieram outros, não sei ao certo qual foi o segundo passo, eu entrava pela adolescência, começava a estudar a história do cinema, queria ver mais coisas daquele diretor com fama de “difícil” que havia me causado impressão tão cedo. Acho que foi Gritos e sussurros ou Fanny e Alexandre, difícil precisar; a partir dali, isso é seguro, definitivamente me conquistou. Então revi O sétimo selo e fiquei novamente espantado – como fico sempre, de maneiras diferentes, a cada outra vez que torno ao filme.

Os temas são simples, inteligíveis a todos, a fragilidade da vida, a existência (ou não) de Deus, os traumas de infância, a crise das instituições Família e Estado, a dificuldade de se manterem relações; tudo é abordado, no entanto, de maneira tão intensa, tão profunda. Desconheço outro autor de cinema que tenha chegado tão longe na análise da psique humana. E a beleza das imagens! Não é preciso fazer nenhum curso de fotografia para ver ali um trabalho diferenciado.

Apesar de sua idade avançada, já ia pelos 89 anos, não me passava pela cabeça que fosse morrer. Outras personalidades pelas quais tenho admiração, mais jovens, causavam-me receio maior nesse sentido. A primeira razão, óbvia, é que Bergman estava trabalhando até agora há pouco, e com maestria. Nos extras do dvd de seu último título, Saraband, de 2003, aparece totalmente no controle de sua obra, falando de maneira precisa e imponente.

Mas o principal motivo para eu ficar meio abestalhado com sua morte, de maneira quase infantil, é outro: os assuntos abordados em seus filmes são de tal modo atemporais que me parece incrível sua partida. Ao menos há a felicidade de ninguém tê-lo visto gagá. Bergman morreu lúcido. Retardados como os que riram na exibição de Gritos e sussurros, ainda este mês, pelo Videoclube o qual coordeno, não poderão se gabar de tanto.

Ainda assim estou bem triste. O Danilo foi para a Suécia ano passado. Colocou-me para conversar pela Internet com um camarada de lá. A primeira coisa que eu lhe escrevi foi “É uma honra falar com alguém do país de Ingmar Bergman”. Acho que o mundo perdeu o maior vulto do cinema de todos os tempos e um dos maiores artistas do século XX.