Virada e viradas

Nunca tive competência para entender de ciência – e digo isso das ciências exatas e naturais, que estão lá, rigorosas, com regras verificáveis e aplicação na natureza. Logo, não é surpreendente, se falho em dominar esse conhecimento mais palpável, que as tais das ciências ocultas, herméticas por caráter e designação, pareçam-me ainda mais imperscrutáveis.

Fico admirado com esses tais de ocultistas, gente superior, evoluída. Governos gastam milhões em pesquisas para cura de doenças, muitas vezes em vão; os magos, apenas com pozinhos e palavras cabalísticas (não sei o que significa “cabalístico”, mas sem dúvida é uma bela palavra), conseguem reverter qualquer moléstia. Alguns seres mais brutos poderiam questionar a razão de, uma vez na posse de tão poderosas armas de cura, não se ensinar por aí o modus operandi da coisa toda. “Der”, como diria minha prima Helena de seis anos, se os ocultistas fossem sair revelando por aí o que sabem, não levariam esse nome. A alma e o charme do negócio estão no mistério mesmo.

Ritos e sortilégios não são para qualquer um, tenho perfeita noção disso. Apenas alguns poucos iluminados merecem acesso às sagradas práticas, como, por exemplo, o imortal Paulo Coelho, que alega dominar o clima, fazendo chover quando bem quiser – não tenho razões para duvidar de seu poder. Tá certo que os bruxos encontram mais dificuldade em trazer a chuva ao árido nordestino do que à tarde paulistana, mas apenas por razões muito além do que pode supor nossa vã filosofia.

Ainda assim, consciente e resignado às minhas limitações, não pude deixar de pasmar quando li a manchete de jornal, “Tarô mostra que 2008 vai ser o ano da virada”. Exponho aqui, sem medo do ridículo, toda a minha boçalidade: como funciona esse negócio? Até onde saiba, um carinha pode adivinhar o futuro pelo que lê nas cartas, tornadas de acordo com um ritual. Mas e se cinco minutos depois de uma consulta (não sei se é o termo correto) ele fizer outra? As cartas viradas serão exatamente as mesmas? Ou, pelo contrário, o futuro está sujeito a alterações a cada vez que um pobre diabo resolver jogar tarô?

Com um destino tão volúvel, 2008 tem tudo para ser realmente o ano… Faço apenas uma correção de número: das viradas.

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Vantagens do bordão

Eu gosto de bordões. E acho que a maioria das pessoas também gosta, dada a facilidade da proliferação por aí. De novelas a histórias em quadrinhos, passando por desenhos animados, séries cômicas ou clássicos da literatura, há uma lista enorme de frases identificadoras arraigadas no imaginário popular. Um recurso democrático: de Guimarães Rosa a Chico Anísio, quem se mete a criar um personagem vai acabar tecendo bordões, perenes ou não.

Na verdade, há ditos que sobrevivem às figuras da narrativa. Assim, de memória, posso dizer que lembro com clareza do “chique no último”, bordão repetido à exaustão em novela de alguns anos atrás, mas não faço idéia de quem seja o personagem que deu vida à fala e nem sei qual é a novela de referência – aliás, provavelmente eu nunca assisti a um capítulo dessa novela, seja lá qual for, incorporando o bordão ao meu repertório graças à difusão em massa em outros meios.

A teoria é absolutamente de botequim, mas me dou ao luxo de opinar que em tempos de globalização, de personalidades anuladas por determinismos sociais, de imperativos do consumo e da moda – chega, daqui a pouco vão me confundir com militante do PSTU. Mas enfim, nesses tempos de merda em que todo mundo é mais ou menos igual, os bordões são entidades individualizantes – daí seu charme e apelo.

Por isso, há alguns meses, iniciei campanha pessoal entre meus amigos para que cada um criasse seu próprio bordão. Qual a necessidade de restringir a técnica a personagens quando pode ser tão útil na vida real, com pessoas reais? Um bordão pode dizer muito sobre alguém; ademais, teria excelente caráter referencial: vamos na casa da Fernanda?, que Fernanda?, aquela do “ele merece um rato morto”, ah sim, ela é uma figura.

Para dar exemplo, dei início à manobra e criei meu próprio bordão: “esse é o espírito”. Com o perdão do trocadilho, considero-o um bordão espirituoso, bom para dar um fim a conversas bestas. Consegui fazer com que a Amanda inventasse um, “Temos que trabalhar isso” – excelente! –, e a Cíntia forjasse outro, “Sai fora!” – também muito pegajoso. A idéia parecia promissora, mas por razões imponderáveis a coisa não passou daí.

Mas não desisto, sonho com o dia do acesso universal aos bordões: cada um com uma marca autoral, a marca de uma personalidade; todos livres da tirania e da repetição alienante e despropositada. O povo emancipado pelo bordão: esse é o espírito.

De presentes

Deu-lhe flores, rosas, como era adequado, conforme a tradição. Para fugir um pouco ao lugar-comum, amarelas em lugar das óbvias vermelhas. Rosas amarelas!, orgulhou-se da escolha, perfeito equilíbrio da beleza clássica com um toque do original. Ela as recebeu com um sorriso gentil, como não poderia deixar de ser, mas que não escondia algo meio… “Que foi?”, nada, são lindas. Por favor, fale. Deixa, você não merece minha chatice, é que flores, acho bonitas, mas sei lá, não me encantam. Elas murcham. Um golpe, mas sinceridade leva à confiança, tentou pensar assim.

Deu-lhe um livro, sonetos do Vinícius, tão forte e atemporal. Compôs junto à contracapa derramada dedicatória. Olha o que você me escreve, menino!, e se outra pessoa pegar o livro? Mesmo em tom de brincadeira, a censura não deixou de feri-lo. E agora se tocava, por que presentear com objeto de gosto tão pessoal? Tinha mais a ver com ele próprio do que com a namorada, quanto egoísmo. Ela mal podia distinguir um soneto de uma sonata de um sonífero. Vamos tentar outro campo.

Deu-lhe lingerie, um conjunto mui caliente, empolgadíssimo ao pagar tanto por tão pouco pano. Ela olhou bem a calcinha, minúscula, olhou para si mesma, acho que não vai caber. Nunca mais tocaram no assunto.

Deu-lhe… É embaraçoso, mas ele se lembrou de um filme do Woody Allen, uma cena tão romântica, resolveu ousar, mesmo sendo tão antigo, mesmo arriscando o ridículo. Okay, vamos lá: deu-lhe uma caixinha de música. Foi ridículo. Primeiro a estranheza, depois abriu, a valsa começou a tocar, não pôde conter um riso barulhento. Ainda tentou se desculpar, não é isso, gostei, só me surpreendeu, é diferente, não, esquece (ai constrangimento!), é besta mesmo.

Deu-lhe, desesperado, um porta-retratos, não conseguiu pensar em mais nada. Nas festas de 15 anos, pelo menos, era o tipo de coisa que passava sem ser vexatório. E era um belo porta-retratos. Ela não deu muita bola ao presente, como já era de se esperar, mas quanto ao plástico-bolha que o envolvia… Parecia criança, arregalava os olhos e gritinhos a cada estouro; tão bom ver aquele sorriso de quem consegue a felicidade sincera do instante! – toda a importância do mundo deslocada, que seja por dois minutos, em pequenas bolhinhas de ar. Então fique feliz com seu plástico-bolha e sinta-se presenteada porque chega: não vou lhe dar mais nada.

O buraco negro

Esta semana entre Natal e Ano Novo não é séria. Fica quase como uma suspensão do tempo, um espaço vago, um desperdício do calendário. Não me espantaria se em breve alguém decidisse interromper o ano em 25 de dezembro: nestes tempos velozes de globalização, seis dias ociosos é um luxo cada vez mais impossível.

Pensar nessas bobagens todas, de algum modo curioso, dá a mim uma fome desgraçada. Então decido ir comer um lanche, mas não um sanduíche qualquer: quero um verdadeiro atentado calórico, uma bomba protéica e lipídica – como estamos neste buraco negro anual, não preciso me preocupar com a ingestão de gorduras trans. Aliás, “Gordura Trans” soa a mim um ótimo nome para restaurante; acrescido do slogan “Sabor à frente da saúde”, temos um sucesso garantido.

Enquanto não tenho fundos para empreendimento próprio, visito as bodegas alheias. E para honrar a gororoba prestes a vir, decido lavar as mãos antes da refeição, tal qual mamãe ensinou, e depois enxugá-las. Mas sabe o que é muito foda? Não há papel, nadinha.

Sim, senhores, a preocupação ecológica chegou às lanchonetes mais lazarentas. Salvemos as árvores! Em vez de criminosas folhas de papel, coloquemos umas maquininhas que só fazem barulho e absolutamente não secam as mãos – mas não, não deve ser esse o motivo da troca tecnológica, o papel higiênico ainda prevalece, sem notícia de uma engenhoca substitutiva.

É uma máquina abjeta e absolutamente inútil. Há estabelecimentos que já aderiram a ela, mas ainda preservam disponíveis algumas folhinhas vagabundas – nesse caso dá para se virar. Mas e, como agora, quando ela reina suprema, tudo a fazer é resignar-se?

Nem adianta tentar burlar o sistema: nas caixas de papel, há o aviso “duas folhas são suficientes” – você simplesmente ignora, pega umas trinta e se dá por satisfeito. Mas com este instrumento eletrônico do inferno, o truque não dá certo. Está escrito “Esfregue as mãos sob o vapor por alguns segundos”, e mesmo que você passe o dia inteiro lá embaixo, com as mãos em carne viva, elas não ficarão mais secas por isso.

É economia o problema? Duvido. Cada uma das crianças (as únicas entusiastas do negócio) que passam meia hora brincando de fazer ventinho compensam no gasto com energia elétrica a poupança de papel.

Volto para meu lugar com a idéia de protestar novamente, da maneira que sei fazer. O lanche chegou. E essa gordura toda e as minhas mãos úmidas tornam mais tangível o buraco negro.

Boas festas

O Espírito Natalino e o Espírito Absoluto, de Hegel, sempre estiveram para mim no mesmo patamar: de ambos ouço falar faz tempo e não consigo compreender porra nenhuma. Falha pessoal e intransferível, como sempre.

Neste ano, pelo menos, estou em condições de compreender algumas nuances do primeiro e mais popular espírito. Nada definitivo e completo, mas creio já serem de valia algumas reflexões esparsas sobre fraternidade, sinceridade, união, companheirismo e outros desses vagos valores correlatos que dizem estar relacionados ao Natal.

A questão que se me afigura é a seguinte: em não se podendo passar o feriado de 25 de dezembro com a família, com quem eu me sentiria confortável para dividir o dia do Papai Noel? A resposta à pergunta dá o valor preciso e exato de minha real gama de amizades:

[…]

E o pior é que, incorrigível como sou, lembro da canção Blue Christmas e não consigo deixar de ver certa beleza em estar tão absolutamente miserável. Faço apenas o reparo de que talvez uma tristeza com flocos de neve fosse mais charmosa, este calor do inferno não é adequado para se estar deprimido.

A Lúcia, quando disse “Mãe, o que faço, simplesmente desligo?”, sem fazer questão de impedir que eu escutasse, fez-me sentir como se o mundo inteiro desistisse de mim; por sua vez, quando ela gritou “Por Deus, deixa eu dormir, tenho que acordar cedo, não é todo mundo que levanta às quatro da tarde”, foi como se o mundo me cuspisse.

Tomar a Lúcia pelo mundo é de um romantismo imbecil; ademais, eu poderia responder que se levanto tarde é porque posso, e ganhando o dobro do que certas pessoas conseguem despertando às cinco da manhã. Mas o ódio e a réplica estúpida não ornariam bem com minha indomável alma de bom moço: calei-me e me pus pronto às misérias adicionais, que não tardaram a vir.

E é evidente, o problema principal não é a Lúcia, nem minha família insuportável, nem o mundo individualista e opressor: a merda toda está comigo mesmo, mas eu não sei tratar disso de outro modo que não com uma crônica inócua e constrangedora.

Memórias

Um acaso único na vida, digno de orgulho e da admiração alheia. Mas quando paro a pensar no potencial inexplorado da situação, esqueço da grandiosidade do momento e só lembro do que não foi e poderia ter sido.

Estava de férias, em Madri, com meus pais e meu irmão. Vitimados pela enorme diferença de fuso horário em relação ao Brasil, recolheram-se todos cedo em suas agradáveis camas box. Eu fiquei sozinho, só consigo dormir muito tarde – pouco me importa qual seja o fuso horário do mundo, o meu sempre leva vantagem.

Aproveitando as vantagens de estar no Velho Continente, resolvi dar umas voltinhas nos arredores de Puerta del Sol, logo ali perto do hotel, sem me preocupar com questões de segurança terceiro-mundistas. A pé, sozinho, à noite, triste, em terra estrangeira – poderia chover para termos o cenário perfeito de um conto romântico, mas não: estava seco e quente pra caralho.

Não demorou muito, apenas alguns minutos de caminhada a esmo, vejo em restaurante com cadeiras na calçada, comendo solitário e incógnito, João Gilberto. Eu já sabia que ele estaria se apresentando em Madri durante minha estada na cidade, mas os ingressos para o concerto, caríssimos, haviam se esgotado faz tempo. Pouco importava, tinha-o agora em minha frente.

Deixar passar a oportunidade seria arrependimento certo para o resto da vida; no entanto, falar o quê, um retardado “Admiro muito o seu trabalho”? Indigno. Penso nos grandes mestres da música brasileira ainda vivos, e acho que aí me veio a solução para a abordagem. A fama dele é de excêntrico mesmo, fui confiante na aproximação íntima e sem olás:

─ Sabe, João, acho que você deveria gravar um álbum só interpretando canções do Dorival Caymmi.

Ele sorriu em resposta, um sorriso travesso. Ato contínuo, gestos mágicos seus fizeram surgir um violão de alguma mesa vizinha, trazido por mãos discretas. Eu me sentei à mesa de João Gilberto e ele começou a tocar, só para mim, “Rosa Morena”. E logo depois, “Samba da Minha Terra”. E logo depois, “Doralice”.

Não houve nem tempo para ter vontade de alguma testemunha da façanha. Era só eu e João, calado. Dirigiu-me a palavra uma única vez, para murmurar com desapontamento quase infantil:

─ Você fuma.

(Evidente, não ousara fumar na frente dele, mas ele pôde flagrar uma carteira de cigarros no bolso de minha camisa.)

Tentei responder de maneira espirituosa: “Sim, mas é bem pouco. Não porque não goste, nem por cuidados com a saúde, mas por indisciplina mesmo. Ser um viciado exige uma regularidade de horários impossível para mim”.

Não sorriu – fez melhor. Tocou a última da noite, “Quem Vem Pra Beira do Mar”, canção que jamais registrou em disco. Poucos no mundo tiveram o privilégio de ouvir essa pérola na voz (e no violão) de João Gilberto.

Dada a noite por finda, cumprimentou-me com a cabeça, levantou e saiu, murmurando consigo mesmo, distraído, “Um disco só com Caymmi…”.

Ele não sabe meu nome: se resolver gravar o álbum, não poderei constar na lista de agradecimentos. Tudo bem, acho que não corro esse risco.

Manuscrito

“André, o que você está escrevendo não tem pé nem cabeça!”

Eu estou bem aqui. É bom, depois de tanto tempo, ouvir um silêncio tão quietinho assim, o silêncio da cidade não é tão calado – credo, daqui a pouco isso vai parecer romance bucólico do Domingos Pellegrini.

Alguém deu o aviso de que eu gostava de sorvete de flocos, trouxeram-me um pote enorme. Mas eu gosto de sorvete de flocos da Kibon, não é simplesmente qualquer flocos – o boato veio torto, como é comum à natureza dos boatos. Mas que posso eu fazer, recusar o doce? Jamais, seria descortesia. Encaro esse flocão vagabundo, com granulado ordinário ocupando o lugar cabível ao chocolate verdadeiro.

As pessoas são gentis, afáveis, buscam ser compreensivas e querem fazer o melhor. São de uma estupidez comovente, não posso reclamar. A verdade é que todos me tratam bem – com a substancial exceção de mim mesmo. Esqueci de tomar os remédios, de novo; fico bravo quando têm de me lembrar, sinto-me humilhado, mas admito que gosto de um certo acompanhamento maternal, os cuidados todos me aprazem. Um tanto contraditório, não?

A enfermeira é bonita, ouve-me com atenção e nunca tem nada a dizer. Poderia querer mais da vida? A Carla me mandou um postal de Amstedan, deve estar fumando horrores de maconha por lá – se ela não soubesse que estou nesta situação, teria a mesma delicadeza?

É um alívio estar isolado… Para ser melhor, poderiam me tirar este papel e esta caneta, nada de útil pode vir deles. Como me deixam com estas armas nas mãos?, quanto amadorismo! Quando lembro desses pormenores, chego a recear pelo meu futuro. Mas logo me animo ao sentir estes lençóis, limpos e grandes, nunca dispus de peças de cama tão magníficas. Quer coisa mais horrível do que lençóis se desprendendo, deixando o corpo no asqueroso contato direto com o colchão?

Sinto falta de sair para comer, mas o rango é até decente. Eles sempre colocam ervilhas, devem estar com um lote para vencer, ainda bem que gosto delas, conheço gente inimiga das bolinhas verdes. Quando vier, traga uma garrafa de Pinot Noir: eles parecem não considerar vinho “bebida alcoólica”, sempre deixam passar, acham até distinto.

Se não nos virmos até lá, feliz natal e próspero ano novo. Passe a virada de verde, esse papo de branco é balela, não dá sorte porra nenhuma.

Ode ao velho pançudo

Elevador.

Atrasado como sempre, espero o maldito ─ penso se não seria mais rápido usar a escada para dar conta dos onze andares abaixo, mas não pago para ver. E o diabo é que quando ele se dá ao luxo de surgir, mesmo não sendo funcionário público, é pouco suscetível a apelos de pressa: seja qual for seu caso, o elevador não aumentará a velocidade.

Às vezes até dá umas paradinhas sarcásticas, como agora, para receber um portentoso ancião sem o menor resquício de pressa. Só faltam cinco andares, não há brecha para a ousadia de puxar assunto. Ledo engano. Juro, não há qualquer pretexto, qualquer antecedente, qualquer motivação inteligível, nunca o vi mais gordo ─ o que vem bem a calhar, pois, ato contínuo a sua entrada, olha para mim e brada, sem cerimônia:

─ Essa pança, depois dos 60, começa a crescer e não pára mais.

Olha, admito minhas deficiências em estabelecer comunicação rapidamente, custam-me a (justa, talvez) pecha de anti-social e rabugento. Mas mesmo você, leitor simpático e popular, diga-me com toda a franqueza: há resposta possível para arroubo tão despropositado, assim, em intervalo brevíssimo de tempo?

Qual o poder desta caixinha móvel chamada elevador que faz as pessoas se motivarem a fazer confissões as mais íntimas como se não fossem nada? O cara nunca me viu, possivelmente nunca mais tornará a me ver, e mesmo assim se sentiu à vontade para dividir comigo, numa convivência forçosa de 20 segundos, o fato de a nojenta pança dele não parar de crescer. Que tenho eu a ver com isso? Velho escroto.

Mas, aparentemente, ele não quer resposta: à chegada ao térreo, sai faceira e lentamente, com sua pança horrível, ignorando o sentido de constrangimento. Estou apressado, mas ainda tenho tempo de invejar o Matusalém: em pouco, tomará o elevador para a subida de volta, e talvez se sinta bem ao declarar a um qualquer suas hemorróidas; horas depois, torno também ao infame meio de transporte, sem confissões, sem hemorróidas, sem pança, sem respostas, eternamente constrangido e infeliz.

Manifesto contra o panetone

Há pessoas que verdadeiramente gostam do Natal: vão fundo no espírito, evocam esperança, companheirismo, liberdade, igualdade, fraternidade – sem precisar derrubar nenhuma Bastilha –, empanturram-se de peru, trocam presentes inúteis, visitam detestáveis tias-avós esquecidas pelo resto do ano, dão gorjetas aos porteiros e se sentem mais próximas do céu por isso. Eu não fico radiante com a coisa toda, deve ser minha alma embrutecida, mas até consigo entender.

O que não entendo de jeito nenhum é o panetone.

Por que diabos é chegar a época do Natal para começarem a multiplicar esse execrável doce? Alguém vai querer me convencer de que o negócio é bom? Fossem gostosos, panetones seriam comidos durante todo o ano, não apenas em época natalina – por acaso alguém deixa de consumir chocolate após a páscoa?

E ainda se fosse iguaria muito especial, coisa que dependesse de estações, clima, fases da lua… Mas não creio haver dificuldade para forjar um bolinho com manteiga, açúcar, farinha e aqueles instrumentos de Lúcifer conhecidos como frutas cristalizadas (quem em sã consciência consegue defender as frutas cristalizadas?).

Economicamente, a questão é muito simples: houvesse demanda pelo panetone de janeiro a novembro, a oferta se adequaria para disponibilizar o produto sempre. Nesse ramo, ninguém perde a oportunidade de ganhar dinheiro. Por isso o sorvete de flocos da Kibon continua acessível faça chuva ou faça sol, o danoninho não sai da parada de sucesso há anos – porque são ótimos e todo mundo os quer o tempo todo.

Agora, como o panetone é uma porcaria consumida apenas por força de tradição, jamais por seus atrativos gastronômicos – nulos –, ninguém vai procurá-lo para comer no Corpus Christi, no Dia da Independência ou em festinhas de criança, apenas no Natal – o que ajuda a explicar por que o índice de suicídio no dia do nascimento de Cristo é tão alto.

E se depois dessa demonstração científica, alguém continuar me garantindo que gosta de panetone, só posso chamar o ser de mentiroso.

Festa de formatura

À direita, podemos ver, com os cotovelos na mesa, o professor de química. Está de saco cheio e o demonstra sem o menor pudor. Mas não adianta: acham que a carranca faz parte do tipo, dão risada, vão correndo até ele para agradecer por tudo e para afirmar que aquela anotação havia sido injusta. Sempre as mesmas figuras. E por que diabos tem de ser todo ano este maldito filé ao molho madeira? E não cai bem sair cedo e não cai bem beber muito – duas restrições que, combinadas, tendem ao desesperador. Sua mulher não compartilha da última limitação, falando ainda mais do que o habitual. Pelo menos, pensa, alguns lembrarão de mim agradecidos – ele não sabe, mas está enganado.

Um pouco adiante, observa-se um casal, orgulhosos pais de Michele Hoffner, formanda que pretende seguir a carreira de medicina. O Sr. Hoffner está torto de uísque, ergue a cabeça para procurar a filha no meio da confusão e se pergunta se ela ainda é virgem. A menina terá um futuro brilhante. A Sra. Hoffner acha que deu uma excelente educação à Michele: contratou as melhores babás, depois a enviou à melhor escola e a ensinou a andar de salto alto. Daqui a pouco se juntará à garotada para dançar algumas daquelas velhas canções. A menina terá um futuro brilhante, concorda com o marido – eles não sabem, mas estão corretos de um jeito ou de outro.

Na pista, a quase totalidade dos formandos se diverte. A banda é horrível, mas quem se importa? Tomando alguma coisa, tudo fica divertido. É certo que são menores de idade, mas bebem sob conscienciosa tolerância dos pais e do colégio, afinal, só se forma uma vez na vida. Ninguém quer pensar no futuro. Um grupo de garotos vai ao banheiro para fumar e contar vantagem. As meninas gritam, colocam os braços para cima e estão muito felizes (ou imaginam estar, o que dá na mesma). Maquiagem escorrendo, gravatas se afrouxando – eles não sabem, mas mentiram quando prometeram continuar sendo amigos.

Ali, no canto, a menina se sente triste e não sabe ao certo o porquê. Descalça, largada no sofá, parece cansada. Uma impressão vaga de que aquilo tudo é meio falso, talvez seja inveja: falta-lhe uma grande turma, um grande segredo, uma grande história, um grande plano. É mau ser única e ficar sozinha – ela não sabe, mas justamente por isso é a mais bonita da festa.