O frio do verão

Meu pai disse que este janeiro está com cara de julho. Realmente estranho, a uma semana do carnaval, nuvens no céu, as moças com blusa, nada de sol tórrido – será que vai dar samba? Mas eu gosto do tempo assim, não acho ruim não. Londrina está suave e preguiçosa, em cores frias, enevoada. Daqui da janela do meu quarto, o lago é quase um quadro impressionista.

Além do mais, acho que o pai exagerou. Não está aquela coisa gélida do inverno, apenas longe do clima escaldante esperado para o auge do verão. Uma temperatura amena, agradável, boa para assistir um filme juntinho com a pessoa amada, para andar a pé até mais tarde sem se incomodar com o suor e com o horário, para ouvir um piano enquanto se fuma um cigarro de filtro branco. E se essa descrição parece muito idílica para o leitor, devo dizer que a programação musical do Valentino está melhor do que na “alta temporada”.

Até entendo que a mocinha ávida por muito agito, aquela vibe, gente bonita, azaração, beijo na boca, baixo astral ficou da porta pra fora, esteja um pouco decepcionada com a falta dos intensos raios solares. Que posso dizer? Pena para ela. E não tem aquele papo de aquecimento global, praias inundando, continente derretendo, etc? Quem sabe este friozinho em janeiro não seja sinal de que as coisas não vão tão mal assim – e aqui está um otimismo muito atípico para este cronista, deve ser mesmo por causa do tempo agradável.

Sim, eu gosto do nebuloso. Lembro de uma entrevista do meu querido Woody Allen, não posso transcrever a passagem porque o livro está com o Grota, mas ele dizia algo mais ou menos assim, que quando o céu está cinzento a maioria das pessoas fica para baixo, de mau humor; ele não, não sabe por quê, mas acordando com o nublado fica com a impressão de ter pela frente um ótimo dia. Pra variar, concordo com o Woody. E isso me lembra de agradecer ao Danilo por trazido para mim camiseta com uma caricatura representando o cineasta, belo e inusitado presente – aposto que em Londrina ninguém tem! E é em preto e branco, bem adequada…

Por essas e por outras, estou quase feliz. Só me arrependo de ter perdido dinheiro comprando um ventilador nos primeiros dias do ano, quando ainda estava fazendo um calor desgraçado.

Anúncios

Eu te adoro

Foi aquela coisa engraçada da cadeia de pensamentos soltos: uma coisa leva à outra e você mal sabe como começou. Algo sobre aulas de redação, tenho de preparar um programa, daí veio discurso literário, linguagem oral e escrita, peguei-me refletindo sobre quão antiquado soa o uso da segunda pessoa em grande parte do país – e mesmo nas regiões onde é empregada de forma corriqueira, conjuga-se erroneamente: “Tu vai”, falam os gaúchos.

Daí lembrei que, muito apesar disso, uma das frases mais populares da língua é dita na segunda pessoa, do Oiapoque ao Chuí: “Eu te amo” tem muito mais força do que “Eu amo você”, para não mencionar o ultra-raro “Eu a/o amo”. Por que será?

Não perdi muito tempo com divagações lingüísticas e parti a outro tipo de viagem. O “Eu te amo” é um tabu para muitos casais; da tragédia mais desgraçada à comédia mais franca, a situação dramática na qual um declara ao outro seu amor e não obtém a esperada recíproca já foi explorada zilhões de vezes. Por outro lado, embora a frase possa ser tão custosa, já ouvi discursos contra a banalização do “Eu te amo”, que estaria sendo indevidamente usado por aí. Tem gente mandando ver as três palavrinhas a torto e a direito, e pelo jeito os travados com a sentença querem impor seu bloqueio: “Eu te amo não é bom dia!” – então tá.

Mas contra o “Eu te adoro” ninguém impõe limitações. Pode ser usado em referência à mãezinha querida, ao excelente pediatra ou àquele padeiro simpático sem patrulha ideológica. Seria uma frase mais amena, despida da sacralidade do “Eu te amo”; no entanto, “adorar” é justamente um termo bíblico. Fiquei confuso e fui ao dicionário.

Ele me diz que adorar é “render culto a (divindade)”, “reverenciar”, “idolatrar”, “venerar” e (aqui está!) “amar extremosamente” – algo superior a um amor qualquer, portanto.

Esses rodeios todos, nem sei como cheguei aqui, mas de algo o devaneio me serviu: quando eu lhe disser, não entenda como algo menor, mas com toda a religiosidade, a devoção extrema que lhe tenho e não consigo com mais arte exprimir. Eu te adoro.

Justo você?

Confesso: tenho poucos conhecidos negros. Também não devo me envergonhar disso, fatalidade, o meio em que vivo, os lugares que freqüento não me oferecem muita oportunidade de convívio. Na escola, não havia; na universidade, mesmo depois do regime de cotas, vejo um ou outro; nos bares, teatros, casas de show e quetais, são lastimável minoria. Infelizmente, os escombros da escravatura restringem o acesso dos negros a muitos locais e posições – e nem tomo por base a elite econômica, à qual infelizmente não pertenço. Admiro, com triste falta de contato mais próximo, a herança da cultura negra para a arte brasileira, em especial pela base rítmica legada à MPB. Há aquela pergunta clássica de avaliação de preconceito, e juro pelo que há de mais sagrado não sentir problema algum, nem estranheza, ao imaginar uma filha minha se casando com um negro.

Homossexuais, tenho alguns amigos. Acho-os, de um modo geral, espirituosos e sagazes. Não vou dizer que não conheço bichas insuportáveis, imbecis há de todos os tamanhos e feitios e também há homossexuais entre eles. Mas pelo por mim observado, puro achismo, evidentemente, mas ao encontro de um certo senso comum, os homossexuais parecem ser mais sensíveis e elegantes. Já manifestei, neste espaço mesmo, meu apreço por artistas gays, de Michelangelo a Freddie Mercury. Não, não fico chocado ao pensar na possibilidade de um filho meu homossexual.

Considero-me ainda com certa inclinação política à esquerda, por um conceito simples, talvez simplista: acredito na obrigação do Estado de garantir o básico ao cidadão (saúde, educação, transporte, etc.); não acredito na livre-concorrência como reguladora da economia. Que mais posso dizer? Decepciono-me a cada dia mais com essa esquerda (esquerda?) comandando o Brasil, mas não revisei minhas idéias sobre os estragos de anos sob o poder da direita. Acho irritantes as tentativas de imbecilização dos esquerdistas por parte da direita e de demonização dos direitistas por parte da esquerda. Pode haver inteligência em todos os pontos do espectro político, falta tolerância e honestidade.

Sou agnóstico, mas respeito todas as manifestações de religiosidade – mais do que isso, acho-as comoventes e me entristece ser incapaz de crer em Deus.

Sem preconceitos raciais, sexuais, políticos, religiosos… Tá, para não me acusarem de bancar o perfeitinho: é feio, eu sei, mas acho cômicos ares de superioridade e arrogância em alguém do Tocantins.

Edu Lobo

De novo, novamente e ainda mais uma vez. Esse negócio de repetição obsessiva está ligado à infância, eu sei. Mas que posso fazer se quando encasqueto com uma canção ouço-a exaustivamente? – ademais, não vejo muito problema em uma infantilidadezinha de vez em quando, é muito melhor do que a chatíssima pretensão de maturidade a qualquer custo.

Há alguns meses, era Meia-noite, na interpretação de Djavan; agora é Canto Triste. Em comum, as duas músicas têm o mesmo autor, o grande Edu Lobo. A primeira com letra de Chico Buarque, a segunda letrada pelo poeta Vinícius de Moraes. É, não me podem acusar de mau gosto musical.

Eu ficava curtindo Meia-noite, “Os soluços dobram tão iguais…”, tantas e tantas vezes, céus, os vizinhos teriam reclamado mais não fosse a melodia tão suave e bela. Até tenho a harmonia cifrada num velho songbook, mas falta-me competência para desvendar aquele mundo de acordes dissonantes com um mínimo de fluência. Por sorte, o camarada Alessandro tem de sobra a habilidade que me falta ao violão. Quando descobri que ele conhecia o tema, uma felicidade: foram várias noites mandando ver nossa interpretação no Pé na Cova, ele tocando e eu a exigir o máximo de minhas pobres cordas vocais. Mas acho que a coisa deve ter saído decente, infundimos admiração até em quem torcia o nariz pra Chico Buarque e nunca tinha ouvido falar de Edu Lobo – muito menos dessa canção obscura de seus repertórios.

Agora é Canto Triste, mas não sei por onde anda o Alessandro, nunca mais apareceu no Pé na Cova… E eu continuo com dotes modestíssimos ao violão. Não faz mal, contento-me em escutar sem tentar reproduzi-la. Que melodia hipnótica e arrasadoramente triste! E a letra do Vinícius, aquelas coisas que só ele consegue, rimar “bem-amada” com “namorada” e ainda ficar lindo e original.

Infelizmente, acho que o Edu vai precisar morrer para lhe darem o devido valor. Por importância história, influência em gerações posteriores, conteúdo lírico, pioneirismo e outros fatores externos, há vários compositores brasileiros de música popular em um grau superior: Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi, o próprio Chico Buarque, Caetano Veloso – pelo menos esses devem ser citados sem sombra de dúvida antes dele. Mas se levada em consideração apenas a qualidade da criação musical, em minha modesta opinião, Edu Lobo só fica atrás do maestro Tom Jobim.

Ângela

Ângela, por que tão triste, assim, agora? Não era esse seu desejo? – e você me garantiu ser “decisão pesada e refletida, demorei justamente para não me deixar levar por coisa de momento”. E, vejam só, seja com tudo pesado e refletido ou leve e irrefletido, pego-a chorando, chorando. E tudo quanto existe parece chorar também.

Não poderia enxergar, estava tão longe, mas juro que vi seu rosto na janela daquele avião. Você disse que me viu também, naquela espera inútil e impotente das partidas, uma sensação dolorosa de alívio quando decolou. Mas você ainda voltaria, sabíamos. Voltou. Eu morro de medo de voar, sabe bem, e ficou me provocando com detalhes da viagem, “Lá embaixo a Terra parece um mapa, é tão lindo, você precisava ver”. E ante minha careta, consolou-me mordaz com um “Mas as nuvens quase sempre encobrem, não precisa se preocupar”.

Tudo era mais fácil, tudo era provisório. A dúvida tem suas vantagens: não se precisa escolher, economizam-se as perdas (parecem-me sábias as palavras da analista, embora num sentido totalmente oposto àquele em questão). E se você optou, à minha revelia, só posso aconselhar, patético, não tente evitar a dor. Encare-a, beba-a e faça dela força.

Sempre, Ângela, você foi mais de insinuar do que de estender, fácil, as respostas. No entanto, dentro de seu próprio mistério, agora está tão diferente… Seu rosto, singular, mesmo para mim, que lhe conheço tantas nuances. E de repente, não sei se profundamente otimista ou com um fatalismo devastador, me pego achando que finalmente é o tal do amor a nos surpreender, Ângela.

Tarde demais. Mas há “tarde demais” nessa matéria? Deve haver uma resposta, mas não sei se quero ouvi-la. Deve haver uma saída, falta-me coragem para tomá-la. Quisera uma vez na vida não me preocupar com o futuro; relevar, superior, o passado. E me atentar apenas ao presente único, belo e bastante, desta madrugada quente e envolta em neblina: súbito, eu a vejo em minha frente, Ângela, cheia de mistério, enquanto nos surpreende o amor.

Para o amigo Leonardo Borges, sob a bênção de “Ângela”, de Tom Jobim.

A vagabunda feliz

Lembro-me de nós, há alguns anos, sentados nesta mesma mesa, exatamente esta mesa; tocava uma música barulhenta, não deve ser a mesma, mas, de qualquer modo, muito parecida à de agora, música barulhenta é tudo uma porcaria só; e estávamos tristes, como neste momento, embora à época fôssemos mais unidos – logo, tudo era mais fácil. Mas havia uma diferença fundamental.

Quando aquela mulher, logo ali à frente, toda saltitante, toda gritando, com um sorriso escandaloso, com uma roupa deprimente de tão vulgar, passou por nós, você parou de pensar na morte da bezerra para dar início a um enfático discurso, com o qual me identifiquei à perfeição. (Naturalmente, a mulher de agora não é a mesma de então, mas uma vagabunda perfeitamente análoga. Até esse piercing dependurado no umbigo é igual.)

Embora, modéstia à parte, eu seja bom para recordar passagens fielmente, não lembro de suas palavras exatas; tampouco vou conseguir o tom tão deliciosamente raivoso de sua imprecação. De qualquer modo, você disse mais ou menos assim:

Tá vendo aquela biscatinha ali? Ela pula, não pula? Ela canta, não canta? E grita e joga os braços pra cima e diz “amigaaaaa” e sai se esfregando em quantos homens sua fúria uterina der conta. E olha esse sorrisão escroto e essa cara de quem podia estar no último dia da vida que ia morrer em paz. Ou seja, dá toda a pinta de que é feliz, não é? Certo? Errado. Pois eu te digo que nós dois, com essa cara de bunda e bebendo este conhaque barato somos mais felizes do que ela. Tudo isso que você tá vendo é uma máscara, um disfarce para a insignificância da sua vida. E gritando e fazendo essas putarias todas tenta se afirmar para suas semelhantes, mas não consegue se afirmar para si mesma. À noite, ela encosta o rosto no travesseiro e chora. E sente um vazio que nem sabe de onde vem. E quer ser uma pessoa melhor, mas não sabe como. Então desiste e vem pra este antro de novo. Eu te juro, ela não é feliz.

Mas ela passa aqui novamente, anos depois, e continua alegre; nós dois, ainda soturnos – nem mesmo parar de pensar na morte da bezerra você consegue. Então agora tenho certeza de que esta vagabunda é verdadeiramente feliz.

Eu vi um Brasil na TV

Domingo à tarde, não há muito a fazer. Droga. Minha irmã, no entanto, vejo agora, olhem só, encontrou o que fazer. Largada no sofá, assiste ao programa do Gugu.

Deus, isso é revoltante. E me leva a pensar, leva-me a retificar a impressão imediatamente anterior. Na verdade, há uma porrada de coisas a fazer num domingo à tarde, assim como há em qualquer dia. Evidente, assistir ao Gugu, vivendo este bendito domingo à tarde, é uma dessas coisas. Mas, céus, existem melhores opções.

Que seja andar por aí. A tarde é convidativa e o sol, teimoso, brilha, apesar do programa do Gugu. O lago é pertinho de casa, uma caminhada seria agradável, várias mulheres em calças de ginástica embelezando o passeio. Com efeito, minha irmã, nesse ponto, não teria muito a admirar, mas, que diabo, há outras belezas a reparar com o lago refletindo o sol. E mesmo se o sol se rendesse e começasse a chover, haveria a gentil possibilidade de um banho de chuva, o banho que chega mais próximo daquele clichê de “lavar a alma”.

Okay, sejamos condescendentes com a irmãzinha, vai ver ela está cansada, trabalhou a semana inteira, não quer sair de casa, o ar-condicionado está aconchegante. Neste apartamento estamos cercados de livros, muitos deles ainda emplastificados, duvido alguém chegue a lê-los. Alguma coisa, de Stephen King a James Joyce, deve servir para embalar seu tédio vespertino dominical.

Mais complacentes ainda: ler exige esforço e concentração, fiquemos com as facilidades da TV. Há 73 canais disponíveis, filmes, bichinhos, documentários, séries gringas, desenhos, videoclipes, discursos políticos, receitas culinárias. Por que escolher justo o pederasta enrustido do Gugu? Ainda fosse o Sílvio Santos, tem um certo espírito…

Ouvir música, que tal? Lembro de ouvirmos Beatles juntos e acompanharmos, nem faz tanto tempo, ela fazia a voz mais aguda, claro, geralmente a do Paul, e eu mandava ver na minha melhor imitação do Lennon. Era bacana. A gente também jogava xadrez; a desgraçada, mais nova, sempre ganhava de mim, sentia-me meio humilhado. Nem sei se ela ainda pratica. Agora assiste ao Gugu.

Por que cargas d’água alguém assiste ao Gugu? É intrigante. Em sendo minha irmã o objeto da dúvida, a questão se torna mais devastadora ainda. Estou curioso e triste – mas nem me passa pela cabeça perguntar-lhe os motivos.

Bênção

Você veio muito doce e me perguntou, com as sobrancelhas arqueadas, o que significa “quimera”. Nem precisava se explicar, eu sabia você andara ouvindo aquele velho álbum da Elis, daí vinha a dúvida, e tive muita preguiça de responder. No entanto, achei meigo o modo como chegou a mim, senti-me paternal, detentor de sabedoria longínqua.

Não pude evitar, ainda assim, resposta um tanto grosseira, apenas resmunguei “algo a ver com mitologia, um monstro, funciona no sentido figurado como algo grandioso, dê uma pesquisada para saber mais” – fugi da resposta e devo ter decepcionado minha filhinha. Mas você deu meia-volta, obediente, e não duvido tenha mesmo procurado no velho Aurélio. A esta altura, sabe bem mais de quimeras do que eu, e está apta a enfrentá-las. Que bom.

Pior foi quando chegou, alguns dias depois, com o mesmo ar, com as mesmas sobrancelhas e ainda com o adendo de um nariz avermelhado, não sei se por gripe ou fator distinto qualquer, perguntar-me sobre outro termo.

Que pensa de mim, sou por acaso dicionário ambulante? E como odeio quando se recrimina, “Não posso errar na frente do André” – pior, creio você acha esse tipo de babaquice ser lisonjeira para mim, quando apenas me enche o saco, sobremaneira.

Você queria saber o significado de “indulto”, e daí estanquei e parei com as rabugices e fiz você sentar em meu colo e afaguei-lhe os cabelos e me pus a falar sem pressa alguma.

Porque “indulto” é palavra importante, conquanto pouco usual; indulto é palavra bonita, amena e graciosa, palavra solene muito embora acessível a todos. E todos deveriam conhecer o indulto e praticá-lo, e é realmente uma pena a maioria conhecê-lo quando lê nas páginas policiais sobre o “indulto de Natal”, uma papagaiada útil a cafajestes ansiosos para se livrarem de justas grades.

E assim, juntos, findo o mau humor sobre o qual você não tem responsabilidade e não deveria aturar, espero possa ver em seus olhos o imerecido perdão – conceda-me o indulto, passado o 25 de dezembro e ainda distante do carnaval.

Boicote

Até parece que resolveram acudir aos pedidos deste porco que vos escreve. Outros quatro vereadores de nossa Londrina, além do já afamado Henrique Barros, foram denunciados por formação de quadrilha e concussão – e esta nada mais é, conforme já aprendi, do que a velha pilantragem de usar cargo público para vantagem econômica indevida. Fiquem os nomes registrados: Osvaldo Bergamin (PMDB), Flávio Veodato (PSC), Renato Araújo (PP) e Orlando Bonilha (PR). Patrícias e demais Henriquetes podem ficar descansadas: o Sr. Henrique Barros não é, agora oficialmente, um corrupto solitário. É um corrupto acompanhado, o que não atenua de forma alguma sua culpa, mas é um alento à justiça.

E vejam só, que beleza!, também foram divulgados os nomes dos “empresários coagidos”, eufemismo doce para a baixeza de quem se presta a despender verba para conseguir um jeitinho a seu favor. São os honrados empreendedores o Sr. Alexandre Guimarães, o Sr. Carlos Messas e o Sr. Maurício Sérgio de Biagi.

Adotarei – e sugiro, sem muitas esperanças de adesões, que sigam minha conduta –, além da óbvia medida de não votar jamais em nenhum dos vereadores envolvidos no caso, a política de não freqüentar nenhum dos estabelecimentos dos empresários supracitados. Afinal, não existiriam corruptos não fossem os corruptores.

Analisemos a dificuldade da tarefa começando pelo último dos nobres capitalistas: Biagi é dono da Higiban e da Flex, indústrias relacionadas a materiais sanitários metálicos. Queria um terreninho doado pela prefeitura, coitado. Bem, no acaso de eu precisar de material sanitário metálico, creio poder contar com outras fontes. Próximo.

Messas ansiava pela aprovação de um condomínio em área ilegal. Até aí, fácil de boicotar. Mas acontece que esse senhor também é proprietário da churrascaria Galpão Nelore. Uma boa churrascaria, admito. Há de haver outras, no entanto, e na verdade eu já estava costumado a pisar lá com freqüência não superior a anual.

Por fim, o Sr. Guimarães, nome mais afamado. Dono do Mercado Guanabara, para o qual comprou uma licença permitindo horário de funcionamento mais amplo, e do Empório Guimarães. Esses eu nem precisava de motivações políticas para evitar: o Mercado Guanabara é uma porcaria, péssimo serviço, péssima comida, fez fama junto a novos ricos, ansiosos por um lugar descolado para poderem ir de bermudas, julgando-se descolados por comerem um sanduíche asqueroso de mortadela copiado do Mercado Municipal paulistano. O Empório Guimarães é até bonitinho, mas é incompatível para uma boate que se pretende a mais elegante de Londrina não contar com uma lotação máxima, deixando se espremerem lá dentro quantos infelizes houver para entrar. Visão pequena, de lucro imediatista, típica de quem julga manejar leis e Justiça.

Isso tudo posto, a tarefa é mais simples do que imaginava.

Da certeza

Ruim dormir quando está cedo, quando não se tem sono.

Mas, na verdade, o relógio marca horas avançadas, a maioria dorme o sono dos injustos, é cedo apenas para os meus próprios e deturpados padrões. Por quê, então, forçar o sono inexistente, quebrar o hábito tão antigo? – e que, convenhamos, até agora não me tem sido prejudicial, não isso.

Apenas uma vaga vontade (espontânea, necessário dizer) de fazer o certo, embora seja difícil defini-lo – Deus, muito difícil. Mas há coisas, embora pequenas, que me vêm fácil à mente para ajudar na conceituação. Dormir em horário um pouco mais razoável é uma delas; há algumas outras, não as listo por pudor, fazem conhecidos me olharem com espanto ante a recente mudança de hábitos.

Tudo para estar à altura.

Não que você me peça, nem que ligue de fato para os esforços ou que ofereça esperança de recompensa: posso dizer, nobremente, sem modéstia, isso tanto me faz. É apenas uma necessidade minha, pessoal, urgente e intransferível, de tentar fazer o certo para tentar estar à altura.

Porque você é certa.

Não, nada de bom-mocismo retrô, não me entenda mal: você é certa porque é a pessoa certa, na hora certa, e faz as coisas certas e fala as coisas certas mesmo quando doem – você sabe chegar ao ponto, menina. Não sei lidar muito bem com isso, estou percebendo, só faço revelar meu encantamento. Um pouco constrangedor, né? De prático, posso deitar mais cedo.

Mas o sono não quer vir. “Fecha os olhos que uma hora você dorme”, lembro de minha mãe impaciente com o filho irrequieto. Eu fecho os olhos e, juro, mãe, não há sono nenhum. Nem a escuridão há completa: de algum lugar entre as pálpebras e o mundo surgem cores, formas. Não, mãe, eu não bebi nadinha, desta vez é verdade, a miragem psicodélica vem de fonte mais pura.

Olhe esta mancha vermelha, e rápida vira azul, e tudo se retorce e adquire aspecto de paisagem. Imagino alguma coisa e tento visualizá-la: com algum esforço e boa vontade, até dá certo (certo, certa). Um livro, um balanço, um candelabro. Penso em flores, você gosta tanto de flores… Ainda não dormi.