Leite condensado

A natureza é suscetível a erros; a indústria, não.

Meu amigo Gabriel Borges, frasista à altura de Nelson Rodrigues, é o autor da preciosidade que escrevi acima. Embora seja evidente exagero para fins cômicos, às vezes me pego, pequeno burguês, realmente extasiado com as maravilhas únicas do setor secundário.

O leite condensado, por exemplo.

Os defensores das “delícias campestres” que me perdoem, mas a fauna e a flora, sem uma ajudinha, não conseguem produzir semelhante quitute. O leite condensado e a roda são as provas máximas do domínio humano sobre a natureza. E assim como se usa a roda nos mais distintos lugares, sem se avaliarem as circunstâncias de sua criação, o leite condensado é para ser desfrutado dispensando especulações sobre sua feitura.

Eu deveria saber isso. Mas não, como o menino abestalhado que, acho, sempre serei, fui lá perguntar, sem anúncio ou introduções explicativas, a minha protetora:

– Ô mãe, como faz leite condensado?

O bom é que, decerto já acostumada, foi logo respondendo sem estranhar a gratuidade do questionamento: com leite e açúcar, oras. Só isso? Só, e haja fôlego para ficar mexendo sem parar… Antigamente, as coisas demoravam mais.

Saí ligeiro do assunto, como quem não quer nada. Foi à calada da noite: insuspeito, procurei na rede por “leite condensado caseiro” e me dispus a proceder à tenebrosa experiência na madrugada amiga.

A mãe não tinha completa razão: além de leite e açúcar, o negócio levava uma colher de manteiga e quatro de maizena. Mas, de fato, pelo jeito, ia dar um trabalho lascado para fazer: coisa de uma hora entre fervuras, diluições e muita ginástica com a colher de pau. Se dá mão-de-obra, deve ficar bom, pensei, à luz do senso comum.

Confesso, foi divertido: senti-me como cientista louco entre borbulhas e fumaças, condensações, liquefações e sei lá mais o quê – a maldita dor no braço do day after eu relevo. E foi gloriosamente que, depois da longa, hercúlea empreitada, estanquei defronte um grude com cor de leite condensado, textura de leite condensado e gosto de… Amido de milho, terrível. Resta agora um recipiente ocioso na geladeira, poderia ser aproveitado para melhores fins.

Antigamente, as coisas demoravam mais – e não eram necessariamente melhores.

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