Corrigindo a correção

Ontem, uma crônica minha, com o título “Andar de mãos dadas”, escrita originalmente para este espaço, em janeiro último, foi republicada na Folha de Londrina. É ótima, para mim, a divulgação de meu trabalho num jornal de grande circulação na cidade: ser reconhecido, ter o nome comentado no meio, fazer contatos, etc. Devo reconhecer, ainda, que muito me envaidecem elogios a meus textos: quando lançado no blog, o “Andar de mãos dadas” já recebera boa acolhida; na Folha, agora, com visibilidade bem mais ampla, ganhei novos afagos. Modéstia à parte, a crônica é legal mesmo.

De modo que não pegaria bem reclamar da edição do jornal. Mas, que diabo!, estão lá, com meu nome e até uma foto revelando minha cara apalermada – exigência da coluna –, erros que não cometi. O leitor não tem como saber de minha falta de responsabilidade se identificar desacertos. Isso me incomoda. Tudo bem, a coisa é pouca, devo admitir. E se já não são muitos os que perdem tempo com as baboseiras deste escriba, menos ainda hão de se deter para recriminar solecismos.

Não vou lá pentelhar a Folha pelas alterações no texto, acho que não cabe, quem escreve para jornal está sujeito a edição. Mas também não devo aceitar passivamente mudanças indevidas. Cabe aqui uma reflexãozinha barata sobre as emendas: não sou daqueles que consideram vexatórias e pentelhas as correções públicas, com um mínimo de educação a coisa é educativa. No entanto, ao se assumir como corretora, a pessoa assume grande responsabilidade, perdendo o direito – humano, dizem – de errar. Ou não mexa ou mude com propriedade.

Sobra para você, hipotético leitor, aturar minhas lamúrias. O primeiro parágrafo da crônica era simplesmente “Lancei, em forma de piada, lá pelas tantas, na mesa do bar:”, ao que se seguia a descrição da piada em novo parágrafo, iniciado, evidentemente, em letra maiúscula. O editor da coluna deve ter considerado ousadia descabida um parágrafo de apenas uma linha e ainda terminado em dois pontos, resolveu juntar os dois primeiros parágrafos. Até o compreendo. Mas o resultado, “Lancei, em forma de piada, lá pelas tantas, na mesa do bar: Andar de mãos dadas é o máximo da confiança […]”, é um contra-senso, facilmente corrigível se se colocar em letra minúscula o “a” de “andei”. Eu sei, uma besteirinha, mas é desatenção imperdoável a quem se propõe a mudar um texto que não é seu. Insisto nesse ponto.

A outra falha foi mais grave. Não aceitaram minha frase “Os homens riram com gosto; as amigas, com o rubor de quem não quer admitir, mas no fundo concorda.” Deixe-me explicá-la: o ponto-e-vírgula depois de “gosto” marca o início de uma listagem; a vírgula depois de “amigas” indica a omissão de um verbo implícito (“riram”, no caso); por fim, a flexão verbal, no singular, “concorda” está justamente concordando com o sujeito “quem não quer admitir”. Se acharam o período muito hermético, vá lá; mas não trocassem por “Os homens riram com gosto; as amigas – com o rubor de quem não quer admitir – mas no fundo concordam”, uma baboseira absolutamente desprovida de sentido. Ainda fizeram outras alterações inócuas na paragrafação, com o único intuito possível de mostrar serviço.

Assumir erros próprios já é um processo doloroso; reconhecer os alheios é inaceitável. Fica aqui meu avexado protesto. Mas tudo bem: se a divulgação jornalística de meu texto, mal transcrito, mas ainda puro de intenções, fez alguém feliz – e eu sei que fez –, a coisa toda valeu a pena.

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Jejum

Independe de crenças religiosas e até da veracidade dos fatos – sabe-se da falta de apuro da data escolhida, calculada com base em luas, sóis e outras complicações astrológicas. A Sexta-Feira Santa, pela enorme simbologia da crucificação do homem que, entre outros feitos, definiu a ética e a moral ocidentais, merece o respeito de crentes, ímpios e céticos reticentes, como eu.

Jesus Cristo foi um cara bacana. Qualquer pesquisada displicente no Antigo Testamento basta para se encontrarem enormes barbaridades cometidas sob a pretensa chancela do Senhor: perseguições, torturas, assassinatos dos mais vários gêneros, incluindo o genocídio e o infanticídio, relativização da malignidade do estupro, etc. Também há no Novo Testamento, embora em menor grau, passagens revoltantes, aos olhos de hoje, da lavra de Paulo, seu principal escritor, notadamente as que expõem um abjeto machismo. Sobre a vida e obra de Cristo, no entanto, pouco de ruim pode ser dito. Os mais renhidos detratores das religiões sempre vão apontar algum trecho obscuro de incitação à violência ou coisa parecida, mas há de se convir que o saldo de suas boas e más ações é largamente positivo.

Dar a vida por uma causa que acreditava justa não é seu feito mais honroso – até aí, os kamikazes, os homens-bomba e qualquer suicida, de um modo geral, igualam-no. A beleza e coerência de seu sacrifício, a pacificidade de suas lições, distinguindo-os de outros profetas e mártires: aí está seu diferencial. Jesus deu a outra face, amou inimigos, amou ao próximo mais do que a si mesmo. Sua mensagem transcende sua existência.

Em respeito a sua memória e a sua Paixão, muitos guardam jejum na Sexta-Feira Santa. Em anos anteriores, por fraqueza de crença, não o pratiquei; este ano, no entanto, algo me tocou e a meu modo adotei a tradição: comer bacalhau, carne de sessenta reais o quilo, seria um desrespeito à humildade daquele que dividiu a História. Resignei-me a um modesto churrasco de alcatra, comprada no Carrefour, em promoção, a R$ 7,90 por cada quilo.

Filosofia barata e desconexa sobre o beijo e o abraço

O beijo é um índice de muita intimidade entre duas pessoas. Sintomático: as putas podem praticar várias formas sexuais, mas, diz-se, elas não beijam seus clientes, pois seria contato excessivo. Aqui, fique claro, tratamos do beijo na boca, e entendamos por “beijo na boca” a modalidade em que, além da boca, costuma-se usar outra parte do corpo humano, a saber, a língua, além de aparições ocasionais dos dentes. No tangente às putas, contudo, mesmo o beijo no rosto é ato raro: convenhamos, seria meio estranho cumprimentar a meretriz com beijinho antes de contratar seus serviços.

Tirando as putas da jogada, no entanto, pode-se constatar uma inaudita distribuição de beijinhos por aí (agora me refiro a beijos no rosto, embora, não raro, as mesmas observações possam ser feitas sobre beijos daqueles ditos “de cinema”). As pessoas mal se conhecem e saem se beijando, uma promiscuidade. Os cariocas chegam a cometer o exagero de, não se contentado com o singular beijo de saudação, beijar duas ou três vezes a vítima. E é beijo pra entrar, beijo pra sair, beijo de felicidade, de tristeza – imagina quantos um carioca comum tem de distribuir em um evento social, digamos, um baile funk? Chega a ser maçante. (Quando você estiver chateado por ter de se despedir daquela roda de amigos que parece tender para o infinito, beijando um por um, lembre-se que o carioca, cumprindo a mesma tarefa, teria trabalho dobrado ou triplicado.)

Já o abraço, embora não envolva contato de mucosas e troca de fluidos – sendo aparentemente menos íntimo, portanto –, é, muito curiosamente, guardado para situações especiais. Mesmo levando em consideração seu caráter unisex, pode ser considerado raro quando comparado ao beijo, mais restrito – no Brasil, homens heterossexuais não costumam se beijar. Tenho amigos de infância que devo ter abraçado umas duas ou três vezes.

Acho que as pessoas se abraçam pouco. A proliferação indiscriminada de beijos por aí poderia ser substituída por abraços. Além de tudo, seria mais higiênico. E é curioso como, em correspondência pela Internet, os abraços costumam ser enviados a torto e a direito. Gente que não deve abraçar a própria mãe escrevendo abraços para o ignoto atendente do Submarino. Seria sintoma de vontades reprimidas?

Se eu recebesse todos os abraços virtuais a mim enviados, seria pessoa bem menos carente.

A rede

Para minha mãe

A Internet possibilita maravilhas para a pesquisa e para a comunicação. Alguns argumentam sobre a ambigüidade do volume de informações, caudaloso a ponto de não se poder distinguir o verdadeiro do falso, o profundo do superficial. Deve-se lembrar, no entanto, que, com um pouco de apuro – facilitado pela própria rede –, dá para se separar perfeitamente o joio do trigo.

Recebi por e-mail, dia desses, uma série de poemas denominada “A mulher e o signo”, atribuída a Vinicius de Moraes. A coisa de fato lembrava seu estilo, mas como tudo do mundo virtual merece desconfiança, resolvi checar uma edição da Poesia Completa e Prosa do nosso poetinha – nada constava. Olhando seu site oficial, também nem sinal de mulheres e signos. Por fim, para desencargo de consciência antes de dar como de autoria falsa o poema, resolvi consultar a biografia sobre Vinicius escrita por José Castello. Surpresa: havia um parágrafo explicando as circunstâncias da construção dos versos. Fiquei confuso.

Num lance de ousadia, desses que você nem espera resposta, resolvi escrever para Eucanaã Ferraz, notório poeta, Professor Doutor da UFRJ e organizador das últimas edições da obra de Vinicius. Descobri seu e-mail no site do CNPq e mandei ver:

“Prezado Sr. Eucanaã Ferraz,

Sou grande admirador da obra de Vinicius de Moraes.

Recebi, há alguns dias, por e-mail, um poema chamado “A mulher e os signos”, atribuído a Vinicius. Pareceu-me muito com o estilo de seus textos mais descontraídos, mas não pude achar o poema na edição da Nova Aguilar, de 2004, da Poesia Completa e Prosa de Vinicius de Moraes, que o Sr. organizou. Tampouco o encontrei no site oficial do poeta. Procurando na biografia escrita por José Castello, no entanto, há referência ao poema. Por que não consta em sua organização? Onde foi, originalmente, publicado? Se o Sr. puder me auxiliar nessas questões, seria um imenso favor. Meus parabéns pelo seu trabalho.

Grato,

André Simões”

E eis que, dois dias depois, chega-me a resposta, rápida, útil e em um tom muito mais pessoal do que poderia esperar. Nos tempos áureos do correio, isso seria possível?

“André,

O conjunto “A mulher e o signo” pertence, de fato, a Vinicius. Não o coloquei na edição da Nova Aguilar por diferentes razões. Cito apenas duas: por um lado, não seria o caso de reuni-los como um livro “de carreira” do poeta, pois os poemas não se sustentam a tal ponto; por outro lado, resolvi acrescentar o mínimo ao que já se encontrava reunido na parte Poesias coligidas. O fato de os poemas não se encontrarem no site deve-se ao fato de que este reproduz o conteúdo da obra publicada na Nova Aguilar.

Os poemas foram originalmente publicados em 1980, pela editora Rocco com desenhos de Otávio F. de Araújo.

Um abraço,

Eucanaã”.

Para não dizer que não falei bem da soja: shoyu é bacana

Choveu bastante esse sábado. Fizera planos de começar uma rotina de corridas no lago, tive de (novamente) adiar; havia combinado de tomar um café com uma amiga à tarde, o céu desabando a fez desistir da idéia; por fim, decidi que as intempéries não me venceriam por completo e fui ao cinema, programa bem ameno. Ainda assim, na volta, fiquei pensando se não teria sido melhor ficar em casa assistindo ao Zorra Total: a curta caminhada até o estacionamento foi suficiente para me encharcar e enlamear uma de minhas poucas boas roupas.

Enfim, a chuva arrebentou com meu fim de semana, porque o domingo já estava comprometido com o aniversário de um amigo, próximo demais para eu poder faltar à comemoração, longínquo demais para eu ter alguma possibilidade de me divertir em sua festa. Muitos ali deviam pensar como eu, pois as caras não estavam das mais animadas. O aniversariante ainda teve de apelar: para formar um quórum que justificasse a boca-livre, chamou pais, irmãos, primos e um tio de chapéu. A coisa estava feia.

Seguindo a política do velho ditado “Tá no inferno, abraça o capeta”, resolvi sentar-me ao lado do tio de chapéu e puxar um papo sobre – que outro assunto poderia ser? – o tempo.

─ Que chuva a de ontem, hein? Não deu trégua, estragou o meu dia.

─ Chuva não estraga nada, rapaz. É bom pra soja.

Pronto. Era só o que me faltava. Eu conheço bem o tipo que fala uma monstruosidade dessas: são os mesmos velhos notórios por arrastar incautos a pescarias e depois mandá-los calar a boca porque estão “espantando os peixes”. Eu não caio mais nessa, levantei sem dizer tchau e o deixei junto com seu chapéu, sozinhos torcendo pela prosperidade da soja.

Quer dizer que quando São Pedro resolve emporcalhar meu fim de semana ainda devo ficar grato porque algum fazendeiro deste meu belo Paraná estará enriquecendo? Sei da ignorância de minhas palavras, o balanço comercial positivo é importante, e o superávit, e a economia, blá blá blá. Mas no momento só consigo lembrar de que, particularmente, a soja não me apraz e de quão irritantes são os plantadores e comedores profissionais da leguminosa. Além do mais, por que diabos o velho de chapéu tinha de vir com aquele ar de superioridade senil, “estraga nada, rapaz”? E estou tão bravo que nem vou concluir este arremedo de crônica: em vez de plantar batatas, vão todos vocês mastigar soja.

Desilusão

Está ficando com ela faz meses já; inevitavelmente, quase sem querer, o negócio vai tomando um rumo sério. Começou muito por acaso, um não exigia nada do outro, nunca pararam para pensar se de fato combinavam, mas ainda assim – ou talvez justamente por causa disso – continuaram juntos, e juntos neste restaurante agora estão. É quando, na TV, passa uma reportagem sobre a pena de morte. Você, que sempre se deu bem com ela nas banalidades deliciosas da vida, sente vontade de perguntar sua opinião sobre um assunto daqueles ditos “sérios”, parece um passo importante para um relacionamento. Eu entendo, mas vá por mim: melhor não. Esqueça a pena de morte e puxe um papo sobre as calças femininas de cintura alta, parece que estão voltando à moda.

Você acompanha há algum tempo o blog daquele rapaz e acha que os textos dele têm tudo a ver. Nunca teve vontade – ou coragem? – de comentar lá, trocar e-mails ou qualquer coisa do tipo, mas, de modo curioso, é como se o conhecesse, fizesse parte de sua vida, soubesse como ele reagiria em determinada situação. Um dia, por ventura, fica sabendo que ele faz aulas de francês na escola da mãe de sua amiga: é só aparecer e exercitar a gloriosa prática do encontro casual forçado. Agüente firme e esqueça que o garoto dos posts legais existe em carne e osso.

Se você admira muito um artista, é natural que ele ganhe, a seus olhos, uma certa aura, um ar de intocável. Daí surge a chance de encontrá-lo, é conhecido de uma amiga de um amigo de um primo, estará presente numa festinha de aniversário – quem diria, festa de aniversário, coisa tão burguesa! –, quem sabe possam trocar idéias, você sempre quis perguntar como veio a idéia daquela canção, a coisa toda é muito tentadora. Pois resista, invente uma desculpa, não vá à droga da festa.

Às vezes é melhor manter a ilusão.

Saindo de lá, estava sem carro; era voltar a pé mesmo, fazer o quê… Uma tristeza triste. Do nada, uma vontade louca de mijar: parei num posto de gasolina e girei a cabeça em todos os sentidos possíveis, na busca inútil de um banheiro. Quando, derrotado, já saía a procurar outro canto para despejar minha urina, veio um frentista simpático, percebendo minha aflição, ensinar-me onde era o “WC” – assim estava pintado na porta. Fiquei tão comovido com a bondade gratuita do funcionário que até dei descarga.

Para reclamar

─ Ninguém nunca reclamou.

Meus olhos e meus ouvidos sentiram o impacto da frase que você acabara de soprar, magnífica, com um sorriso cínico, ombros arqueados e o narizinho para cima. Preferi ficar quieto; afinal, sua sentença surtiu o efeito esperado: seu contendedor calou a boca, tomando uma cor indefinida – verde, amarelo, roxo? – de vergonha. Mas agora, cá entre nós, vale a pena enfocar alguns pontos.

O imbecil merecia ser humilhado da maneira que fosse, tudo bem, mas tome cuidado… Se você estivesse debatendo com alguém um pouco menos obtuso, correria o sério risco de sofrer justa contestação. Esse negócio de “ninguém nunca reclamou” virou uma espécie de trunfo – e você soube usá-lo com perfeita interpretação, admito – para se esquivar de pergunta constrangedora saindo por cima e ainda mantendo a elegância. No entanto, como a maioria das expressões de efeito, carece de sentido se for analisada razoavelmente.

Afinal, venhamos e convenhamos, ninguém nunca reclamar é alguma grande coisa? Por Deus, não mesmo! É apenas o mínimo que se pode ter para não incitar ao suicídio – já pensou se alguém reclamasse? Nessa matéria, meu bem, como, de resto, em toda a vida, impera a falsidade. Ninguém nunca reclama para ninguém, salvo em casos extremados; logo, não terem reclamado está longe de razão para contar vantagem. Com tudo isso que você tem, chega a ser risível.

Não seja ingênua: se ele disser que você é o máximo, suprema, poderosa, dotada de técnicas inatingíveis ao resto da raça humana, daí pode ter segurança de que, mesmo descontada a empolgação do momento, o negócio está sendo okay. Nós falamos qualquer coisa.

Seria mais digno, em minha opinião, dizer logo “Acho que sou mais ou menos, tenho minhas inseguranças, mas eu me viro, dá pra brincar legal”. Não passaria para os tontos como dito espirituoso, é verdade, mas…

“Ninguém nunca reclamou”? Valorize-se, menina, só olhar no espelho, você é mais, você é melhor, você é tão… Para ter uma idéia, até das minhas crônicas é raro alguém reclamar.

André Simões responde

Para preservar a identidade dos questionadores, serão usados nomes fictícios.

“Caríssimo, preciso da sua ajuda… Minha nova chefe tem o péssimo hábito de me cutucar. Começou com um tapinha, crendo-se íntima com apenas uma semana de convivência (horrível). Devoluiu para estocadas ferozes com o indicador, chegando ao cúmulo de usar o lápis pra me chamar a atenção ─ não obstante eu trabalhe a 30 cm dela! Não agüento mais a situação, mas você há de concordar que é foda eu virar para minha chefe e dizer ‘dá pra você parar de me relar?’. Sua agudeza como cronista poderia me revelar uma solução? Estou desesperado.” (Maximiliano Dimas, 22 anos, São Paulo)

Já tentou a velha estratégia da retribuição? Cutuque-a também. Encoste no ombro dela e, como quem não quer nada, brinque com a alça de seu sutiã, em movimentos delicados de esticar e bater. Podem acontecer alguns daninhos colaterais, como um processo por assédio sexual, mas ela certamente pensará duas vezes antes de tocar em você.

“É terrível, eu sei, nesta altura do campeonato minha mãe ainda me dá hora para voltar. Tentei inventar uma desculpa para o último atraso ─ estava de boa na casa do meu namorado e não reparei nas horas ─, mas só me saíram gaguejos e levei um puta esporro. Não quero que isso aconteça mais, mas também não me sinto confortável sendo totalmente submissa. Como faço para domar a fera?” (Eva Braun, 20 anos, Londrina)

A arte da mentira se baseia na transmissão de confiança. E como se fazer confiar? Criando uma história tão boa que você mesmo acredita em sua lorota. Encha-a de detalhes aparentemente desprezíveis, isso dará verossimilhança a seu causo; a vítima da fraude, impressionada com as nuances, não pensará na possibilidade de estar sendo engambelada. Por exemplo, você poderia ter contado a sua mãe que se atrasou porque uma amiga passou mal e teve de ser levada ao hospital. Se ficar só nisso, a coisa pode parecer falsa; mas experimente acrescentar um compungido “E o médico que atendeu a Ana, vendo ela naquele estado lastimável, ainda fez graça, ‘a mocinha exagerou na cachaça, hein?’, achei super anti-profissional”. Ninguém duvidará de sua triunfal cascata.

“Tento parar de fumar e não consigo. Já usei balinhas, adesivos, xarope, reza brava, nada funcionou. Que faço da vida?” (Walter Raleigh, 28 anos, Rio de Janeiro)

Fumar é como tudo na vida: em excesso, faz mal. Em vez de ser tão duro consigo mesmo, parando de uma vez, dê uma diminuída. Estudos recentes compravam que fumando com moderação, até cinco cigarros por dia, há grandes benesses para o organismo: os brônquios se expandem, o ar quente circula pelo sistema respiratório e a traquéia ganha mais pressão.

Ode à pescaria

Pescar, eis uma atividade tediosa.

Peguemos, a título de exemplo, algo detestável aos olhos do senso comum. Hmm, lavar roupa, todos hão de concordar, creio eu, ninguém consegue obter prazer com esse serviço. No entanto, e este no entanto faz toda a diferença, enquanto se lava a maldita roupa, pode-se cantarolar, ouvir rádio, ver televisão, conversar com algum desocupado boiando pela área ou, na pior das hipóteses, gritar com toda a força praguejando contra a terrível missão que se faz forçosa.

Agora, meus amigos, relembremos um pouco sobre o rito da pescaria. Você se enfia, geralmente sob um sol desgraçado, em alguma área repleta de mosquitos ávidos por testar sua sanidade mental. Arma-se de uma vara com uns apetrechos, joga um anzol com alguma isca nojenta qualquer na água e espera que um pobre peixinho, que pode até ser bonitinho, com escamas douradinhas, seja lenta e dolorosamente morto por um ritual de tortura que envolve cortes, asfixia e eventuais marteladas na cabeça.

Até aí tudo bem, eu não dou a mínima para os peixes. O problema é que o processo todo pode demorar muito, os peixes estão espertinhos depois de serem tantas vezes fisgados. E daí, se você resolve puxar um papinho, cantarolar, assoviar, martelar um ritmo com os pés, qualquer merda para espantar a dilacerante pasmaceira, ouvirá em questão de instantes a repreensão de um velho chato qualquer dizendo “assim você espanta os peixes”.

E se você agüenta firme toda a provação, na melhor da hipóteses, o que conseguirá no final? Adivinhe, sabiducho: um peixe.

E eu não gosto de peixe. Também não gosto de bois ou de galinhas, mas gosto de comê-los. Com peixe, nem isso. Meu peixe preferido para alimentação é atum em lata. Até o famigerado bacalhau não me comove, troco-o por um filé com fritas sem pensar duas vezes. De tanto amar a tarefa, desenvolvi incomum habilidade: consegui passar horas num Pesque Pague sem pegar nem um peixe sequer. Entendidos garantem que é um feito e tanto.

Em uma frase: pescar é a pior atividade do mundo. Que o digam Simão, André, Tiago e João: preferiram seguir Cristo a prosseguir no métier.

Da impossibilidade do tédio

Entendo a angústia, quisera não entender tanto. Conheço de perto a ansiedade, a tensão paralisante, o remorso, as fobias despropositadas – todo um belíssimo rol de neuroses para psicanalista nenhum botar defeito. Mas, céus, não consigo de maneira alguma compreender que diabos é esse negócio de tédio.

Conhecidos, desconhecidos, colegas, amigos verdadeiros e falsos – uma porrada de gente vária vem manifestar seu contentamento agora que passou o carnaval, e o ano efetivamente começou, e foram retomados os estudos, o trabalho, a putaria rotineira, ao maligno tédio das férias pôs-se um termo.

Essas pessoas têm problema – não quero me vangloriar de nada, eu também tenho, até em grau maior, mas de ordem diversa.

Como poderia sentir tédio? Há, em minha estante, centenas de livros me esperando, ainda não os li. Vou me sentir mal se, ao morrer, não tiver tomado conhecimento de determinados clássicos, creio ser obrigação de uma pessoa intelectualmente esclarecida passar por algumas obras fundamentais para o estabelecimento de nossa cultura – não cheguei à milésima parte delas, longo trabalho pela frente, não posso morrer tão cedo.

E ainda há os álbuns, sou deles um dos últimos crentes obstinados, muitas canções boas e nem tão boas assim para escutar repetidamente, incansavelmente, sem falar no mundo de música que ainda não conheço e pretendo explorar. Os filmes, tanto diretor que conheço o nome, sou capaz de escrever uma mini-biografia, mas ainda não conheço direito seus trabalhos…

E para quem acha que esse papo está muito intelectualóide, pô, sempre há os amigos – para fazer, desfazer, reconciliar, sair junto, escrever uma carta, telefonar de madrugada.

E há a família – para confortar, proteger e perturbar. E ainda há a comida para se empanturrar, o lago para correr, o álcool para se embriagar, planos doidos a fazer, mil amores para sofrer… Definitivamente, não tenho tempo para o tédio.

É um sentimento muito romântico, muito século XIX. Naquela época, não havia rádio, TV, Internet, globalização, lasanha congelada, Sílvio Santos – embora, sobre esse último ponto, haja controvérsias.