Natal

Nasceu, há algumas horas, um menino. Longe, do outro lado do globo, “a muitas léguas daqui”, como estaria escrito nas antigas fábulas. Desse bebê remoto, desconheço as feições, as circunstâncias da vinda ao mundo, nem sequer sei seu nome; pouco ou nada posso falar de sua mãe, muito menos do pai.

Foi ontem, 8 de abril, mesmo dia do nascimento de Edmund Husserl, John Fante e Kofi Annan. Talvez seja mais impressionante saber que nessa data morreram Nijinski e Picasso, dois grandes nomes da arte do século XX. Evidente, não sabia desses fatos, pesquisei, provavelmente um dia o menino fará o mesmo, as pessoas gostam de saber sobre eventos históricos em seus aniversários. Ele pensará no século XX sempre como um intangível passado – não é estranho? Pelo menos para mim… É, sei muito pouco sobre o garoto.

No entanto, afeta-me por ele uma grande ternura, quase inexplicável. Quero-lhe muito bem. Que viva feliz e inspire felicidade a todos a sua volta, cresça honesto, sensível, bem-humorado, bonito e espontâneo. Poderia também gostar de Beach Boys e Woody Allen, mas talvez isso seja pedir demais, talvez não seja tão importante – bem, é importante, mas secundário.

O bebê tem roupinhas azuis – o homem, o que terá? A criança motiva telefonemas, deslocamentos, esperanças e projeções – o adulto, quais seus interesses, o que e a quem motivará? Ele agora é puro, a pureza inconteste dos recém-nascidos – como as máculas o transformarão? É um mistério, mistério tão belo quanto a vida. Gostaria de chegar a descobrir algumas respostas.

Talvez nunca venha a vê-lo, seria lamentável. Não apenas pelo fato triste o bastante de não travar relações, papear com o rapaz, aprender-lhe os gostos e desgostos, mas também porque não conhecê-lo seria índice de um sonho irrealizado. Nesse caso, é bastante provável que o garoto jamais ouça falar de minha infame pessoa, meu nome um completo vazio de significado. Não importa: sempre me lembrarei de seu nascimento. E a cada 8 de abril, a meu modo, hei de lhe dedicar uma oração.

Resoluções para abril

Tenho de renovar minha carteira de motorista, tenho de cortar meu cabelo, providenciar algumas calças agora que engordei, retirar papéis velhos das minhas gavetas – deixei passar o fim de ano e não fiz a tradicional faxina. Decorar as harmonias do João Gilberto para apresentar à sogra, comprar filmes Fuji ISO 100 para a velha Nikon Fm10, o Flávio me vendeu por R$ 710 e o Prof. Dr. Paulo Boni me assegurou que era um bom negócio. Sabe o que queria?, visitar a Jana no Rio, visitar a Amanda em São Paulo, ver a Marcela em BH. Pena não ter mais nenhum conhecido em Florianópolis.

Pretendo ser mais compreensivo com o Marcos, o escroto do namorado da minha irmã, ele deve ter merda na cabeça. Seria lindo um dia sair dirigindo, sem saber exatamente para onde, e quando acabasse a gasolina – ou o álcool –, encher novamente o tanque e voltar. Seria lindo conhecer Bora Bora, mas eu não tenho dinheiro para tanto, seria lindo conhecer qualquer coisa, seria lindo conhecer Guarapuava, a maior cidade do Paraná em área.

Queria uma casa no campo, onde não precisasse compor nada, nada, muito menos “rocks rurais”, e pudesse esquecer de todos os amigos, do peito, da barriga, do braço ou do rabo. Ser menos agressivo, e descontar as frustrações e recalques em forma de arte. Escrever o roteiro de um filme, e que ele fosse premiado, sem PROMIC ou Rouanet. Morar com a mulher amada e praticar o ato sexual todos os dias, até enjoar: melhor, nunca enjoar.

Disponibilizar o céu para todos, estupradores, genocidas, torturadores, canibais. Dançar ciranda com Mengele, Pinochet, Gandhi, Freddie Mercury e Madre Teresa de Calcutá, todos numa nuvem fofa. Convencer Alex Atala da qualidade de meu omelete, convencer Dori Caymmi da beleza de “Surfin’ USA”, em seus três acordes.

Fazer mais versões sertanejas, com letras de corno, para melodias eruditas – a do Noturno Op.9 Nº2, de Chopin, está pronta. Tomar, finalmente, um café com a Samantha Calijuri, ainda que eu não beba café. Travar conhecimento com o dono da Kibon, resultando numa amizade tão profunda a ponto de me fornecer, de graça, em caráter vitalício e ilimitado, o magnífico sorvete de flocos.

Seu sorriso

Longe vai o dia em que admirei, pela primeira vez, seu sorriso. Numa perspectiva objetiva, é claro, faz muito pouco, um qualquer veria exagero de minha parte. Mas o tempo é o de cada um, não é?, e tamanha foi a impressão em mim causada, e tantas foram as histórias desde então – historinhas deliciosas, embora nem sempre felizes, nossas, dentro da grande História do mundo –, que a mim parece ter sido há eras, um marco definidor, o dia do feitiço, do qual ainda não consegui me livrar, nem sei se quero, do bem ou do mal.

Isto pode parecer indelicado, mas o vício da sinceridade – que, estranho, só aparece com você – me leva a confessar: não lembro exatamente da primeira vez, da primeira apresentação, nobre e exclusiva, só para este sortudo, do seu sorriso. Seja lá como for, desde então sua aura me acompanha, e me encoraja, e me leva a lutar, até a me violentar, para ser digno de merecê-lo. E vale a pena, pois seu sorriso é redentor, redenção e carícia, de bálsamo um baú.

Lá está, em seu sorriso, um pouco da essência misteriosa também presente na dança de Fred Astaire, nas bailarinas de Degas, nos closes de Bergman, no falsete de Brian Wilson, nos sonetos de Vinicius, nos templos de Gaudí, nas tragédias de Shakesperare. De onde vem? Quem a criou? Deus? Como indentificá-la e descrevê-la? Só resta admirar e crer no mistério. Um pouco do lugar-comum: é química, é mágica [sic].

Idéia, no conceito de Platão. Um suspiro: ai…

Aparece, junto com seu sorriso, de maneira involuntária, acho, uma contração ligeira de ombros, é tão bonito! É um gesto tímido, há pudor nesse movimento, o recato necessário à beleza de toda mulher – permita-me ser um pouco machista aqui, mas no geral você é mais do que eu. E esse recato necessário também necessita ser sublimado em momentos-chave: você sabe, domina essa arte, porque é mulher, linda, plena.

No momento preciso de seu sorriso, você remoça dez anos, é uma criança, desarma-se. E veja que bela contradição: nunca ninguém foi tão forte ao se desarmar, mostrando-se superior e impávida, pronta aos desafios que a vida traz.