Carta paulistana

Chegando a São Paulo atrasado, mais de uma hora, por conta de chuva e do congestionamento na marginal, ambos previsíveis. Para completar, metrô lotado, eu com mochila e mala enorme. Desci na Sé, para mudar de linha, e depois no Paraíso, justo essas duas, oito da manhã: dá para imaginar o tranco, também previsível. Você não agüentava mais isso, todo dia deve ser o inferno, mas pra quem visita uma vez por mês dá até pra sentir uma certa poesia do caos. O não previsível foi minha anfitriã, que se prontificara a me receber, deixando-me esperar mais de duas horas por sua chegada, havia passado a noite com o namorado, largou seu apartamento trancado, e “esqueceu” de acordar cedo para voltar. Beleza. Nem pude reclamar muito, hospedagem grátis, né? E além do mais, a Amanda é adorável, não é uma falhinha dessas que a fará descer no meu conceito. Um soco nos dentes já equilibrou a situação.

Além do mais, de certa maneira foi bacana ter ficado de bobeira tanto tempo, pude apreciar as redondezas, o frenesi paulistano: fiz amizade com o tiozinho da padaria, com a moça que distribuía os jornais gratuitos, com a menina de bela-bunda-numa-calça-apertada que me perguntou – justo a mim, de mala enorme e ares de perdido, que sem noção! – onde ficava o Hospital do Coração.

Mas o mais divertido foi no viaduto do Paraíso. Notei uma pequena multidão se apertando para ver algo e corri juntar-me ao grupo na esperança de presenciar algo realmente notável: a fama do paulistano é de não se impressionar com nada, se baixasse um marciano na Praça da República ele não ficaria nem no Top 10 dos mais esquisitos.

O espetáculo do viaduto, no entanto, comoveu alguns passantes: uma menina com asas planava sobre a 23 de Maio. Geralmente, quando alguém impressiona por fugir da média, é por expor algo agressivo, berrante. Mas a menina com asas era só suave poesia na manhã paulistana, saltava do viaduto, voava leve por uns instantes e depois voltava, sereno sorriso. Não sei qual era o truque, se é que havia truque, mas o vôo era real, palpável. Apaixonante, a menina com asas. Logo, as pessoas se cansaram, já indiferentes à beleza, sabor da novidade com gosto rapidamente perdido, tal qual chiclete vagabundo. Seguiram o rumo de suas vidas. Eu, que custo a achar um rumo, ainda pude ficar sozinho, não sei exatamente quanto tempo, admirando a menina com asas. Ela até me olhou um pouco, tenho a esperança de que tenha gostado de mim, embora ela tivesse asas (!) e eu, apenas uma mala enorme e o eterno ar de perdido. Daí ela entrou numa nuvem e não mais a vi, hora de ir para casa, a Amanda provavelmente já chegara.

Voltei para o mundo real, mas sei que voltarei a vê-la, a menina com asas. De algum modo – mesmo com tão pouco tempo juntos, eu posso sentir – ela espera alguém que a entenda, acompanhe seus vôos e a acolha quando o chão se fizer chamar. Ai, ele sempre chama! Mas eu quero estar lá, fazer-me digno para a menina com asas não precisar se recolher à nuvem.

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