Ressaca eleitoral londrinense

O Sr. Luiz Carlos Hauly é o maior culpado pela volta do Tio Bila à prefeitura de Londrina. Assumiu a responsabilidade de ser a candidatura anti-Belinati da vez e não deu conta – o que até um mosca-morta como o Nedson foi capaz de fazer, aproveitando a enorme rejeição belinatista.

A incompetência de Hauly seria só triste se não fosse revoltante. Barbosa Neto era obviamente o nome com mais chances para vencer o digníssimo tri-prefeito no segundo turno, mas o tucano, não-convencido de seu patente estigma loser, resolveu tomar-lhe a vez. Para tanto, lançou mão da desconstrução de candidatura, marca registrada de seu colega José Serra – Roseana Sarney e Ciro Gomes que o digam. O fato de Barbosa Neto, certamente ressentido, ter feito merda depois, apoiando Bila, em nada diminui a torpeza da metodologia tucana, que além de ser intrinsecamente baixa, vale-se de formas escusas para anular o adversário a qualquer custo: empréstimo de candidaturas nanicas para fins difamatórios, uso de testemunhas desqualificadas e, no famoso caso Lunus, até manobra da Polícia Federal.

Mas nem assim Haulão conseguiu vencer, puta que o pariu. Seu carisma, historicamente sofrível, nestas eleições atingiu patamares inacreditáveis. Para compensar, resolveu brincar de missionário. Eu vi, ninguém me contou, Hauly dizendo coisas como “minha candidatura é de Cristo”, “eu entrego as eleições pra Deus” e, às raias do retardamento mental, um “Xô Satanás” para se referir a uma contrariedade. Então vai, entrega pra Deus e fica aí com essa cara de bunda pra ver no que dá.

Nem dá pra ficar com raiva de Belinati. Ele foi o mesmo patife de sempre, com seu populismo abjeto e sua retórica escapista – que infelizmente podem ser vistos como carisma, identificação com os pobres, astúcia verbal, etc. De qualquer modo, já era sabido o jogo de Bila e o precedente de como derrotá-lo estava aberto. Hauly deve se envergonhar de sua incapacidade e nunca mais se candidatar a cargo executivo nenhum.

Quanto ao Barbosa, sua decisão de apoiar Belinati no segundo turno se mostrou politicamente acertada, embora moralmente reprovável. Eu mesmo, quando soube de sua descambada, fiquei, além de mortalmente decepcionado, pois cheguei a cogitar dar-lhe meu voto no primeiro turno, com a impressão de que era uma imbecilidade tremenda jogar fora duma vez todo o esforço construído lentamente para conseguir a confiança da classe média – o próprio Hauly, como se tivesse moral para analisar estratégias políticas, disse coisa parecida.

A grande resposta das urnas é Quem precisa da classe média? Belinati está aí de novo e Barbosa se credencia para ser seu sucessor político. A típica elite londrinense (o termo recende ao mais arcaico esquerdismo, mas é inevitável usá-lo) considera o mundo aquilo que se apresenta diante do nariz: tagarela nos shoppings contra o Lula e acha que os índices de aprovação presidencial só podem ser manipulados. Do mesmo modo, tinha certeza de que Hauly iria ganhar.

“No segundo turno, até um poste derrota o Belinati, porque os eleitores dele já se manifestaram.” Quantas vezes, com diferentes palavras, ouvi essa tese? O excesso de confiança também foi decisivo para a tragédia, parecia não ser possível a volta do velho Bila. E mesmo aos que atentaram para a gravidade da situação, como fazer campanha, se daqui do mundinho parece que todo mundo vota no Hauly? De minha parte, praguejei um pouco nas minhas aulas, leciono num cursinho gratuito, estudantes teoricamente de baixa renda, a classe econômica tida como cativa do Belinati. Ainda assim, a maioria lá se dizia Hauly.

Por Deus, onde estão os eleitores do 11? Não adianta adotar a postura babaca de culpar só o Cincão. De fato, lá está o QG do belinatismo, mas só aqueles votos não garantiriam seu sucesso. Resta a triste conclusão da existência de muito eleitor envergonhado, que não declara, mas bota fé no “rouba, mas faz”. Triste. E repito: isso seria perfeitamente superável se o antípoda não fosse tão tosco.

A imprensa londrinense também foi de uma pusilanimidade inexplicável. Nem o JL, fundado pelo grupo de Wilson Moreira (!), teve capacidade de recomendar voto no editorial. A Folha, então, deveria ganhar prêmio de imparcialidade. Quando ninguém precisa, resolvem ser neutros. Na verdade, o único foco nítido de resistência anti-belinatista no jornalismo foram as crônicas do Paulo Briguet – ainda assim, sem a liberdade de citar nomes.

Agora é aquela velha histórica de tentar aproveitar os erros para o amadurecimento: a classe média tem de assumir sua posição de elite (embora isso seja uma contradição semântica) e notar a existência do mundo além do horizonte; os cidadãos e a imprensa devem se preparar para a fiscalização rigorosa e crítica do governo por vir.

E Hauly, por favor…