De quando se acaba o amor

Escrito para o Londrina Mais

Quando se acaba o amor, é bom – bem, para falar a verdade, nunca vai ser realmente bom quando o amor se acaba; tudo o que se pode tentar são paliativos, e é a isto que a crônica se dispõe.

Feita essa necessária ressalva, quando se acaba o amor, é bom caminhar desolado na chuva. Como nem sempre São Pedro colabora quando se acaba o amor, um banho longo e gelado também pode ser de alguma serventia, a ideia é o afogamento terapêutico.

Complementado com a necessária bebedeira, evidente. Mas não seja essa uma bebedeira vulgar: sorva algo a que o corpo não esteja acostumado. E se for abstêmio, entorne qualquer, qualquer coisa mesmo – pro diabo as convicções. Pelo mesmo raciocínio, se já for um ébrio convicto, dispense a tradição do porre de dor-de-cotovelo e aproveite para jurar nunca mais colocar uma gota de álcool na boca.

As juras são mais belas quando se acaba o amor. Jurar por Deus, por todos os santos, por Alá, Buda e Raul Seixas. Fazer promessas nobres, resoluções grandiosas, alternar brados assassinos e sinceras pretensões de castidade eterna. E se você, meu caro, levar a cabo qualquer uma das juras, das mais elevadas às mais indecentes, é um patife que nunca amou de verdade. Respeite a insanidade exclusiva do amor.

Pode-se correr aos braços maternos, à Morrissey, the soil’s falling over my head, se ainda há mãe. No caso de a Protetora Suprema não estar mais presente, deve ter sobrado algum amigo. Sim, porque mesmo os que estiveram distantes voltam quando se acaba o amor. Arrisco a dizer que gostam, pois assim eles o têm mais presente – mais do que mais presente, mais íntegro.

E há a possibilidade de voltar a praticar telefonemas despropositados às três da manhã, coisa que, quando se ama, só se faz para o ser amado (e olhe lá, depende do amado). Poucas coisas são melhores do que a certeza de ter várias pessoas para ligar às três da manhã, sabendo que jamais será inconveniente.
Não leia livros quando se acaba o amor; melhor, não leia nada. Nem assista a filmes ou a peças, nem perca tempo com qualquer forma de arte (música é um caso particular). Desnecessário dizer que é imbecil remexer papéis ou fotografias antigas.

Prefira jogar pingue-pongue, tomar sorvete, andar de bicicleta, caçar borboletas ou armar um churrasco. Aproveite o salvo-conduto para fazer coisas que não se permitiria normalmente, tipo sair de camiseta regata em público ou ir ao Empório Guimarães. A idéia é agir, andar, em detrimento da contemplação – a não ser para contemplar menininhas gostosas passantes (ou o equivalente, de acordo com a orientação sexual de cada um).

Todas essas são orientações decentes para a lamentável ocasião de quando se acaba o amor.

Mas o melhor mesmo é ter alguém na reserva.