Das chuvas em Londrina

Chove em Londrina. Chove muito. Chove tanto que é quase um convite à propagação do velho lugar-comum “está desabando o mundo”. Vendo o espetáculo dantesco – e lá se foi outro clichê – de árvores caídas, ruas interditadas, casas destelhadas e postes derrubados com fios de tensão dançando temerariamente, parece mesmo que desse jeito a Terra não dura muito.

Ainda assim, não é um, nem são dois, nem três que vejo pelas ruas, quando a tempestade dá um tempo, contemplando com fascínio os estragos. É muita gente maravilhada com a desgraça. Alguns mais empolgados tiram fotos e ressoam interjeições entusiásticas.

Prefiro me distanciar, acho tudo isso meio tétrico. Tá certo, há o encanto ancestral do homem pelos espetáculos da natureza, dá pra entender. Mas quando a coisa adquire essas proporções ameaçadoras, acho mais prudente certo retraimento respeitoso ante o imponderável, ante o Mistério. Não é coisa para se brincar.

O Mistério. Os meteorologistas podem vir com mil explicações, camada de ar frio, camada de ar quente, alteração brusca de temperatura, mudança climática pelo aquecimento global, sei lá mais o quê. Para nós, pobres mortais que não distinguimos cirros, cúmulos e nimbos, não é tudo uma grande força misteriosa?

Eu por mim, mesmo sendo homem de pouca fé – ou talvez justamente por isso – morro de medo de chuvas que se adequam à expressão “proporções bíblicas”. Lembro-me logo de Noé, dilúvio, castigo, necessidade de reconstrução do mundo…

E nestes tempos amargos é quase consenso que uma reconstruçãozinha do planeta não seria de todo mau, não é verdade? No caso particular de Londrina, então, haja vista consecutivos resultados eleitorais controversos, uma intervenção divina aplicada com parcimônia viria bem a calhar.

Mas por ora é só neurose, não há nenhuma punição dos céus. Existe é uma fatalidade da Natureza que, como tal e pelos prejuízos que vem causando, exige certa reverência que às vezes é esquecida.

Afora isso, não posso me queixar. O único castigo a que fui submetido foi ter de subir, pela consequente falta de luz no prédio onde moro, dolorosos onze lances de escada. Levando em consideração os quilogramas a mais acumulados ao longo da vida, chega a ser ajuda providencial.

Aventura n°27

Nunca espero mais do que seis toques de chamada ao telefone. Se o cara não disser “alô” depois disso, ou não está a fim ou não pode me atender – ambas me parecem razões justas para parar com a pentelhação. O número de tolerância (seis toques) eu aprendi num programa da Angélica: ela ligava prum camarada e se depois dessa espera ele não desse o ar da graça, perdia um prêmio qualquer. Falem o que for da Angélica, mas aqui ela demonstrou um senso de equilíbrio e ponderação perfeitos, praticamente sabedoria oriental: seis toques é o justo. Findos os seis toques – juro para vocês – desisto de telefonar. Mas às vezes é preciso encontrar a pessoa, de um jeito ou de outro. Infelizmente, era esse o caso – e eu não desistiria assim tão cedo.

Perguntei pra Julia se topava a missão, ela achou divertido e quis ir comigo. Fomos então para aquele fim de mundo onde o desgraçado devia ter se enfiado, já que parecia não estar em casa. Chegamos lá já anoitecia, eu estava mais chato do que o habitual, cansado, puto – e não havia uma campainha para tocar.

Qual é, por Deus, a dificuldade de se colocar uma campainha numa casa? E, podem reparar, as pessoas que não adotam esse tão prosaico mecanismo são aquelas que já moram longe da civilização. Por que não vão viver na Groelândia duma vez?

Pode haver coisa mais embaraçosa do que, em pleno século XXI, prostar-se em frente a um portão, bater palminhas e bradar algo como “Ô de casa!”? É como ser teletransportado ao Sítio do Picapau Amarelo. A Julia reprovou meu constrangimento, atribuiu-o ao fato de eu sempre ter morado em apartamentos e se pôs ela mesma a fazer as honras. Daí fiquei constrangido por razão diversa, precisar de auxílio para fazer “ô de casa”, que inaptidão completa. Até pensei em, orgulhoso, voltar ao ataque, mas a Julia é tão graciosa, até o “ô de casa” dela tem todo um charme, então a deixei trabalhando enquanto admirava sua tentativa.

Inglória tentativa, devo dizer. Quinze berrados minutos depois, parecia evidente que estávamos sozinhos.

Mas habitada ou sem vivalma, aquela casa guardava o meu objeto de desejo. O idiota que se danasse, eu só queria o que a mim pertencia – e eu sabia, tinha a estranha convicção de que só podia estar lá. Era urgente.

Arrombar o portão foi fácil, mesmo para a dupla de leigos. Entramos, abrimos gavetas, reviramos estantes, deslocamos móveis, descobrimos passagens secretas – mas finalmente achamos, escondida atrás de um quadro, a receita de pudim de caramelo da minha avó.

Dormi bem.