Uma noite no sertão

Para o desavisado que resolve passar no Da Silva em noite cuja programação oferece sertanejo universitário, a festa pode ser surpreendente. Nem tanto pelo conteúdo musical, que não oferece tanta novidade assim em relação àquele sertanejo de fins dos anos 1980. No cardápio, uma miscelânea que envolve canções originais, velhos clássicos do gênero e algumas escolhas inusitadas, de artistas díspares como Demônios da Garoa e Fábio Jr. – mas tudo processado e fundido num ritmo acelerado para velhas batidas de viola, como a guarânia e o cururu.

O interessante mesmo é o público da noitada: exemplares jovens (não necessariamente universitários), distintos e bem-nutridos da elite londrinense. Na vestimenta, nada de chapelões, fivelas gigantescas, botinas e quetais. Estão lá para curtir sertanejo universitário, mas, pelas roupas, bem poderiam apreciar um recital do Nelson Freire: a aparência é muito urbana, muito sofisticada, embora a música que os une seja barulhenta e simplória.

Todos parecem se divertir, menos o garçom Alan Santos, que, cúmplice, pergunta ao repórter deslocado o que está fazendo ali, para depois confessar, rabugento, que o que gosta mesmo é de “sambão”.

Grosso modo, o público pode ser dividido em dois grandes grupos. Os que já se dizem apreciadores do sertanejo de longa data fazem sempre questão de demonstrar certo orgulho pioneiro, mas não deixam de louvar a novidade universitária que trouxe mais fãs ao gênero. “Gosto faz tempo, sou sertanejo de raiz, mas é uma boa ver um novo público, a coisa globalizando”, afirma o estudante de Educação Física José Frazão, 21. “Meus amigos que não gostavam agora gostam”, comemora a fonoaudióloga Juliana Cardoso, 31. O vendedor Paulo Vitor, 20, que declara altivo suas raízes agrárias, aparece com a explicação mais sintomática da noite: “Os playboys, que antes achavam sertanejo brega, não ouvem mais putz-putz, agora vêm pra cá”.

Os neófitos, por sua vez, revelam que as razões para estar ali passam longe de significativas mudanças musicais no sertanejo: “Não sou grande fã da música, venho mais pelos amigos”, explica o vendedor Danilo Poujo, 24. “Não gosto, mas em todas as baladas só dá sertanejo. Ou você vai ou não sai de casa”, dramatiza Daniela Álvares, 29, desempregada. A estudante de psicologia Roberta Farias, 22, é de uma síntese quase poética: “Não gosto. O ritmo é tudo a mesma coisa. Venho pela modinha”, confessa, sem o menor sinal de rubor.

Se na música em si não se percebe muita diferença, por que afinal o sertanejo universitário é esse fenômeno que atrai um público novo e distinto? A resposta pode ser tão simples quanto a do garçom Alan, meio constrangido ao ser flagrado pelo repórter cantarolando uma melodia da dupla da noite. Mas você não gostava de sambão, meu caro? “É que a gente ouve tanto essa coisa que acaba grudando na nossa cabeça.”

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As aventuras do Dr. Gari

Há alguns dias, ganhou manchetes um concurso para gari no Rio de Janeiro. O extraordinário foi o fato de 22 inscritos terem se declarado mestres e outros 45, doutores.

Para completar a situação inusitada, o processo seletivo não inclui testes cognitivos, apenas provas de resistência física. Quem já frequentou nossas academias (não as de ginástica!) sabe bem que mestres e doutores não costumam primar pelo corpinho atlético. Assim sendo, é bem capaz de que, mesmo com tantos anos de estudo, falhem na ambição desesperada de se tornarem garis.

Deve-se fazer a ressalva de que, como os dados vieram de fichas de inscrição que não exigiam comprovante de títulos, muita gente atribui o fenômeno a erros na hora do preenchimento, ou a simples trote, ou a sei lá o quê – simplesmente se recusando a acreditar na possibilidade de mestres e doutores disputando um salário de R$ 486,10, com alguns (poucos) adicionais.

Seja como for, é um fato que incita a reflexão sobre o tão sofrido sistema educacional de nosso país. Também é divertido especular sobre o convívio de um Dr. Gari, recém-aprovado, com colegas mais antigos na profissão.

Imaginem o veterano tentando enturmar o novato:

– Rapaz, que goleada essa do Palmeiras, hein? Pra que time cê torce?

– Observo com severas restrições essa entrega frívola, de paixão desarrazoada, a um vício esportivo que sublima frustrações e embota a consciência social da nação. Perde-se tempo com futebol para não haver chance de se refletir sobre as mazelas…

– Ô, Zé Mazela! Acorda que o saco de lixo abriu, tá cego? – interfere um terceiro, repleto de consciência social.

Também seria interessante observar o momento em que o gari mais velho, cansado da lida ao fim da jornada de trabalho, tenta desabafar para seu companheiro.

– Deus do céu, hoje o negócio tá brabo… E agora ainda começa a chover, só falta cair um raio na minha cabeça!

– Tecnicamente, meu caro, os raios não caem, eles sobem, por um desequilíbrio entre as cargas positivas dispersas na base da nuvem e os elétrons espalhados na Terra. São os elétrons que fluem, procurando o caminho de menor resistência elétrica. Como o clarão é mais alto em cima, a impressão que se tem…

– Acho que eu ouvi minha avó me chamando, tenho de ir, até mais.

E o que dizer do gostoso momento em que se combina uma reunião de amigos para o fim de semana?

– Beleza, Fonseca. Então amanhã vamos no Pedrinho, pro churrasco…

– Permita-me corrigir – interrompe o Dr. Gari –, mas “vamos” é uma conjugação do presente do indicativo; já que estão falando de amanhã, o correto seria usar “iremos”. Sem falar da preposição…

– Tanto faz “vamos”, “iremos”, porque você não tá convidado de qualquer jeito. Cê é muito chato, doutor.

– Tudo bem. Tenho mesmo de ficar em casa para reler o sétimo tomo do “Em Busca do Tempo Perdido”. No original, claro.

– Olha, espero que encontre esse tempo perdido e traga pra gente na segunda-feira. Sem falta.