Keaton X Chaplin – a delícia das dualidades inúteis

Se formos parar pra pensar friamente, as dicotomias aplicadas à arte são, no mais das vezes, grande besteira: artistas não são competidores, muitas vezes posições tidas como antagônicas são complementares e, de quebra, não raro aqueles tomados como inimigos são até camaradas na verdade. Aceitemos isso como razoável.

Mas que é gostoso discutir, com paixão e de modo despropositado, sobre quem é melhor – de acordo com o nível intelectual e/ou etílico da conversa –, Sarte ou Camus, Chico ou Caetano, Beatles ou Stones, Corinthians ou Palmeiras, ah!, isso é.

No cinema, a mais notória dessas rivalidades é provavelmente a de Truffaut e Godard, que de fato, a partir de certo ponto de suas carreiras, quebraram o pau em proporções épicas. É um embate simbólico, dá muito pano pra discussões acadêmicas e pra papo de boteco, porque de certo modo revive a clássica oposição entre o apolíneo e o dionisíaco.

Outra grande disputa se dá entre os que preferem Buster Keaton e os que estão no time de Charles Chaplin. Não é, no entanto, uma disputa tão emblemática, principalmente por uma singela razão: Chaplin, passados quase cem anos de sua estreia cinematográfica, ainda é um ícone pop, perfeitamente reconhecível por criancinhas do mundo inteiro, por gente que nunca viu nenhum de seus trabalhos. Sua imagem, sua persona – a mais forte da história do cinema, a do vagabundo – superam em visibilidade qualquer um de seus filmes.

Já Buster Keaton só é um nome famoso entre iniciados. Sua mãe, sua tia, seu vizinho provavelmente nunca ouviram falar na figura.

O engraçado – ou seria melhor, o dramático – da história é que, nos anos 1920, ambos os comediantes do cinema mudo norte-americano gozavam de sucesso similar. A carreira de Keaton entrou em declínio depois de assinar um contrato predatório com a MGM: seu primeiro filme para a produtora, O Homem das Novidades (The Cameraman, 1928), é geralmente visto como seu canto de cisne; a partir daí, o ator (e diretor e produtor e roteirista, assim como seu antípoda) perdeu o controle criativo de seus trabalhos, sendo obrigado a obedecer às vontades dos estúdios. Chaplin, co-proprietário da United Artists, nunca teve semelhantes problemas, fazendo basicamente o que lhe dava na veneta, como as lendárias refilmagens de meses para uma única cena em Luzes da Cidade (City Lights, 1931).

A transição para o cinema falado acabou de vez com a fama de Keaton, que nunca conseguiu se adaptar adequadamente. Chaplin, em plena era sonora, obteve a proeza de fazer grande sucesso com dois filmes mudos, tidos geralmente, aliás, como suas maiores obras-primas, o já mencionado Luzes da Cidade e Tempos Modernos (Modern Times, 1936).

A decadência repentina de Keaton foi de tal modo sintomática que em pelo menos dois filmes – por sinal, suas mais notáveis atuações na era do cinema falado – interpreta papéis que são alegorias do artista em ostracismo: primeiramente, no clássico de Billy Wilder Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950); depois, em Luzes da Ribalta (Limelight, 1952), de ninguém menos do que seu pretenso rival Charles Chaplin.

Corre muito falatório em torno da única vez em que os dois contracenaram: há quem diga que Chaplin convocou Keaton para uma ponta com fins únicos de atestar historicamente sua superioridade, uma coisa meio “Estão vendo como sempre fui melhor? Ele é só um figurante num filme meu”; outros afirmam que o convite para um artista que passava por dificuldades é prova cabal de que nunca houve inimizade na relação, donde os mais afeitos a Keaton rebatem dizendo que sua participação no filme foi significativamente reduzida por Chaplin, porque o coadjuvante estava roubando a cena do protagonista e enorme ego chapliniano não permitiria isso… Mesmo mutilada (será mesmo?), a bela cena com Keaton e Chaplin juntos transcende qualquer debate sobre a maior excelência de um ou de outro.

Mas transcendido ou não, o debate permanece.

Há muitas razões para preferir Keaton a Chaplin, mas me parece que a mais difundida é uma falácia. É comum ler e ouvir por aí que Keaton seria uma opção mais cerebral ante o sentimentalismo exacerbado de Chaplin. Besteira. Mesmo nas primeiras produções chaplinianas havia uma preocupação político-social que nunca ocorreu a Keaton, ingênuo, sempre apoiado no humor físico e igualmente sentimental – basta dizer que todos os seus longas-metragens variam em cima de um único tema, algo próximo de um complexo de Hércules: o homem que é capaz das mais inacreditáveis proezas para conquistar sua amada. Não que a repetição de argumento seja um demérito, pois, justamente por ter em mãos uma linha de enredo sempre muito simples e ampla, Keaton conseguiu realizar vários filmes sem passar perto de esgotar seu vasto e expressivo arsenal de gags.

Outra razão duvidosa – mas perfeitamente compreensível – para gostar mais de Keaton está no charme de apreciar o obscuro: confere mais status intelectual fazer referências sobre aquele que, hoje em dia, para o público médio, é um perfeito desconhecido. Difícil conseguir impressionar alguém falando sobre Tempos Modernos, filme que rapazotes de quinta série, ou ainda mais jovens, veem na escola.

Feitas essas ressalvas, fique claro que Keaton não é só um produto cult – e aqui emprego o termo com a carga mais pejorativa possível. O cara é bom mesmo. E acessível. E atemporal. Como Chaplin, aliás.

Mas Keaton tem algumas coisas que Chaplin não tem.

Sua persona do “grande cara de pedra” é originalíssima e absolutamente genial: seja lá o que acontecesse, de bom ou ruim, com o protagonista vivido por Keaton, seu rosto permanecia impassível. Um comediante que não ri, enquanto o espectador extravasa e projeta suas próprias emoções.

Mais uma? Seu domínio da técnica de câmera rápida, aliado à facilidade de lidar com cenários móveis e ao traquejo (estamos em mil-novecentos-e-vinte-e-pouco!) na direção de sequências com muitos figurantes é algo único no cinema. O virtuosismo de Keaton nas cenas de velocidade, tanto como ator-acrobata quanto como diretor, tem qualquer coisa de hipnótico – uma perseguição envolvendo seu personagem equivale a um passo deslizante de Astaire ou a uma baforada de Bogart: momentos compostos de gestos absolutamente simples, mas nos quais se instaura a magia, com o perdão do lugar-comum.

Pra terminar, há de se convir que em seus melhores filmes, como Nossa Hospitalidade (Our Hospitality, 1923), Sete Oportunidades (Seven Chances, 1925), O Homem das Novidades e principalmente Sherlock Jr. (1924) e A General (The General, 1927), Keaton exibe uma sofisticação de mise-en-scène incomparável para o cinema norte-americano dos anos 1920. Sim, superior àquele cara da bengala, chapéu-coco e bigodinho. Tecnicamente, The Great Stone Face era melhor, e é uma vergonha que esteja tão incógnito.

Keaton é ótimo, são bons argumentos… Mas não tem jeito, não sigo a velha tendência humana de torcer pelo lado mais fraco: prefiro Chaplin mesmo.

Anúncios

Festival estúpido

Termina nesta semana o 1º Festival Gastronômico Sabor Londrina. Durante dois meses, de segunda a quinta-feira, 55 estabelecimentos da cidade, entre bares e restaurantes, ofereceram um determinado prato em preço promocional, nunca superior a R$ 12. De brinde, o freguês levava um produto Itaipava (cerveja ou água mineral).

Se você mora em Londrina e não tomou parte na brincadeira, ou nem sequer ouviu falar do Festival, pode ficar tranquilo: não perdeu nada. Eu sou entusiasta dessa coisa de comer fora, então quando ouvi falar do negócio me empolguei e quis participar, mas me decepcionei amargamente.

A ideia de mobilização gastronômica parece ter vindo da Restaurant Week, que há alguns anos agita algumas cidades do país, destacadamente São Paulo – e, por sua vez, a Restaurant Week brasileira foi inspirada num conceito original novaiorquino, que se espalhou pelo mundo, leio eu.

Na última edição da Restaurant Week, por R$ 27,50 no almoço ou R$ 39 no jantar, mais de cem estabelecimentos paulistanos ofereceram uma refeição com entrada, prato principal e sobremesa inclusos. A ideia é democratizar o acesso à cozinha de alta qualidade e movimentar de modo geral a cena gastronômica.

O negócio mexe com a cidade que é um assombro, filas enormes, discussões na imprensa, etc. Claro, por conta da demanda incomum, não faltam depoimentos contrários à Restaurant Week, geralmente dizendo que a qualidade dos serviços oferecidos decai muito em relação à temporada regular.

Mas, oras, pelo menos é um fato novo. E uma oportunidade do cidadão comum visitar lugares que jamais teria cacife de pisar. Imagina, bacalhau no Antiquarius por R$ 27,50, com entrada e sobremesa! É uma atração turística.

Aqui em Londrina, a ideia também era, em sua essência, democratizar o acesso à cozinha de alta qualidade e movimentar de modo geral a cena gastronômica. Só que em vez de bacalhau no Antiquarius temos a Batata Suíça Falcon “P”, a ridícula proposta do Villa Badú. Digam-me, que tipo de imbecil pensa, “Ah, hoje é segunda-feira, não é dia de sair à noite, mas estimulado pela possibilidade de uma Batata Suíça Falcon ‘P’ por 12 reais, quebrarei minha rotina”. Provavelmente nem de graça eu quereria uma Batata Suíça Falcon “P” – e haja vista confidência que ouvi da própria dona do Villa Badú, muita gente compartilha da minha opinião, simplesmente não aparecendo para reivindicar seu direito quando ela distribui cupons valendo batatas falcon, ou comandos em ação, ou coisa que o valha.

Fique claro que o problema não está na falta de bons estabelecimentos em Londrina: para o tamanho da cidade, come-se bem aqui, e com preços bastante razoáveis. Mas pouquíssimas boas casas aderiram ao Festival.

A grossa maioria dos participantes se formou de restaurantes meia-boca e botecos de maior ou menor porte. Pelo menos poderiam aproveitar para se unir e oferecer algo vantajoso, mas não: os descontos oferecidos nos pratos selecionados foram por regra insignificantes ou nulos. Todo o propósito de um Festival vai para o ralo, simplesmente não vale a pena sair de casa.

Divertido comentar dois casos particulares: no Vilão, por 12 pilas, no Festival, pôde-se apreciar uma porção de chilli com feijão. O gozado é que às quartas-feiras, em qualquer época do ano, pode-se comer o quanto se quiser de chilli com feijão, no mesmo bar, por menos de dez reais. Outra pior? O preço normal do cheese salada com uma porção de fritas, no Hamburguers, é de R$ 11. Já para o Sabor Londrina, como é, afinal de contas, uma ocasião especial, decidiram modificar o preço do item, aumentando-o para 12 contos. Curioso, perguntei a uma atendente a justificativa para a surreal oferta. Sem ficar vermelha, a moça disse que a diferença de preços vinha por conta do brinde Itaipava – mas, por Deus, o conceito de brinde não é… Deixa pra lá.

Como exceções à pilantragem generalizada, destaco o La Gôndola, que ofereceu uma massa simples, porém digna, e o Tomate Seco, que ironicamente faliu com o Festival em curso. Não tive oportunidade de ir ao Bella Itália nem ao Restaurante do Toninho, mas estes também pareciam contar com opções interessantes. De resto…

De quebra, a organização contou com um amadorismo vexatório: nos primeiros prospectos, anúncios, releases e folhetos propagandeando o evento, simplesmente não havia o endereço dos restaurantes participantes. Básico assim. Algum gênio deve ter percebido a cagada e com a coisa já pela metade foram impressos novos panfletos devidamente corrigidos. Também se destaca a breguice atroz de oferecer um livro de receitas àqueles que visitaram pelo menos dez dos estabelecimentos cadastrados. Sim, um livro de receitas. Ah, e as visitas deveriam ser comprovadas por meio de carimbinhos num “passaporte”.

Infelizmente, tudo isso diz muito sobre parte da elite londrinense, e o mesmo raciocínio se pode estender a áreas bem distantes da gastronomia: julgam-se antenados, de acordo com as mais modernas tendências, mas falham no básico, no essencial, no estrutural.

E é por isso que, não tenho acesso a dados, mas posso apostar, o 1º Festival Gastronômico Sabor Londrina não aumentou em nada o movimento das casas participantes. E é por isso que o 1º Festival Gastronômico Sabor Londrina foi, mais do que um fracasso, um engodo completo.

No cabeleireiro

O cabeleireiro queria conversa.

Muita gente vai a psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e quetais; outros preferem a segurança de emissários do Senhor e ouvem atentamente os conselhos de padres e pastores; o grupo mais numeroso, no entanto, acredito eu, não tem dinheiro para contratar profissionais da psykhé e prefere guardar certo distanciamento respeitoso em relação aos ensinamentos, essencialmente rígidos, da Igreja. Essa gente, então, frequentemente aluga os ouvidos de cabeleireiros, taxistas, garçons e outros profissionais de atendimento ao público cujo atendimento costuma se estender por um tempo mais longo.

Os cabeleireiros, taxistas e garçons sabem da tarefa adicional que tacitamente lhes é esperada e grosso modo, de bom grado, cumprem a função de ouvir vantagens e mazelas, passar um conselho ou outro, corroborar opiniões políticas contraditórias, analisar desventuras amorosas e relatar um pouco da própria experiência, etc. Assim, todo mundo sai feliz e não precisa gastar com terapeuta nem rezar cem ave-marias e temer o inferno.

Mas eu não sou assim, não sei bem por que, não é esnobismo… Só não me sinto confortável dividindo coisas íntimas com gente que mal conheço. Também não sou habilidoso com conversas fáticas, papear sobre o tempo ou o trânsito geralmente me deixa nervoso. Então costumo ficar quieto frente a cabeleireiros, taxistas, garçons.

Só que desta vez era o cabeleireiro que queria conversa. Difícil inibi-lo.

– Então, como foi de férias, pra onde foi, cê tá vermelho, esteve na praia?

– Quisera.

– Pra onde viajou então? – a possibilidade de eu ter ficado vermelho em Londrina por uma razão ou outra lhe era inconcebível.

– São Paulo.

– São Paulo? Ah, foi passar com a família, ver os pais…

Por preguiça de fazer uma correção que me parecia desnecessária, deixei-o seguir:

– Não tem coisa melhor do que voltar a ver os pais…

– Pois é…

O ruim da mentira é que quase sempre implica desdobramentos também mentirosos.

– Há quanto tempo está aqui?

– Seis anos – me vi sem remédio senão suspirar uma invenção qualquer.

– E agora não dá mais vontade de voltar, né? Quem sai de lá, aquela confusão, e vem pra cá… Embora aqui também não esteja mais tão tranquilo assim, né? Mas é uma cidade boa, seu lugar é aqui agora – vaticinou, e aquela conversa toda, além do aborrecimento de ter me levado a mentir, rumara para caminhos melancólicos: ainda bem que acabou logo.

Mas eu precisava esperar alguém, havia combinado de nos encontrarmos no salão para eu dar uma carona, fiquei fazendo hora com uma revista ruim nas mãos.

Até que o cabeleireiro passou a atender outro cliente e iniciou conversa corriqueira, sobre coisas da vida, tal qual havia tido comigo. Observei.

E súbito aquilo me pareceu muito interessante, até poético, de verdade.

Verde amarelo

É engraçado, embora também seja triste, rever com a imaginação cenas passadas nas quais você acha que poderia ter dado rumo diferente a um diálogo. Alguém diz algo, engole-se seco; passado um tempo, já em casa, imagina-se como seria fantástico se você houvesse respondido tal coisa: as palavras vêm rápidas, claras e bem-articuladas, por que não disse isso naquela hora, seria tão admirável minha astúcia verbal… Consegue-se até pensar em réplicas e tréplicas, e nas interjeições e nos risos de admiração dos circundantes ao ouvir tantas tiradas inteligentes.

Mas geralmente, é como disse, quando os períodos brilhantes surgem já se está na cama, olhando para o teto, e a coisa toda só serve para alimentar fantasias. Não sei, pelo menos comigo é tão comum…

* * *

Era uma festa daquelas que você tem de ir, porque seria um desperdício muito grande não dar o ar da graça. No entanto, quando se está lá, o sentimento mais sincero é “Que diabos estou fazendo aqui?”.

Eu estava de terno, que em sua natureza já não é a coisa mais confortável do mundo. Este estava ligeiramente apertado, mas era o que eu tinha, e não iria comprar outro só pra aparecer na porcaria da festa metida a besta. Pra completar, deus, estava calor, mas eu, jamais, no orgulho desarrazoado que me resta, cederia ao ordinário strip-tease socialmente autorizado tão comum nessas celebrações: o cara começa tirando a gravata, o blazer, abre a camisa, saca um charuto de quatro reais… As mulheres, por sua vez, trocam o salto-agulha por um par de havaianas que veio socado em alguma bolsa, o que não as impede, claro, de ficar com os pés emporcalhados pela mistura de poeira, cerveja quente e outros fluidos que fatalmente se imiscuem entre seus dedinhos. Que horror.

Nesse deprimente contexto, resolvi, que consolo, tomar uísque. Não que eu goste de uísque (até gostaria de gostar, acho bonito gostar, bebida de macho): prefiro drinks mais adequados a ladies, tipo gim-tônica, fazer o que, esse negócio de gosto não é coisa que se possa escolher. Mas como minhas únicas oportunidades para tomar uísque razoável se dão justamente nessas ocasiões, e embarcando na lógica decadentista da coisa toda… Um monte de pedras de gelo no copo e um pouco daquele líquido amargo e valioso.

Alguém me observara e, não obstante nunca ter trocado palavra comigo, sentiu-se no direito de tecer comentário.

– O negócio fica em tonéis de carvalho por não sei quantos anos, vale uma nota, e você vai e mistura com gelo? Água congelada?

Se eu fosse um cara espirituoso, teria respondido assim:

– Nossa, verdade, como é que não pensei nisso antes, que bobagem eu fiz! É mais ou menos como eu me sinto em relação à picanha, sabe?, quando fazem churrasco. Um corte bovino tão nobre, mais de vinte paus por quilo, e os caras vão lá e colocam sal em cima! Sal! Tão barato, tão vulgar… Argh!

Mas a pessoa em questão era uma mulher, alta, vestido decotado, verde…

Eu apenas sorri amarelo.

Um pouco de música

Canções homônimas são um negócio complicado: a comparação imediata é inevitável e, de repente, uma canção que é muito boa acaba ficando eclipsada por conta de outra melhor.

Lembro agora de “Isn’t it a pity?”, do George Harrison, presente em duas versões no clássico All things must pass, de 1970. Sempre achei uma bela canção, belo arranjo, aquela interpretação cheia de mellotrons e guitarras slide tão vinculada a uma época, mas que eu ainda acho bonito de ouvir. Interessante também a mitologia acerca da música: uma vez, no Pé na Cova, o Alessandro Prog me contou que o João Ricardo, para compor sua “Fala”, que entrou no álbum de estreia dos Secos & Molhados, usou a mesma sequência de acordes de “Isn’t it a pity?”, apenas a invertendo – num processo semelhante, aliás, ao que John Lennon fez com a “Sonata ao luar” para escrever “Because”. Nunca fui lá conferir a harmonia, mas a história é divertida, de qualquer jeito.

O problema foi quando eu conheci a outra “Isn’t it a pity?”, a dos irmãos Gershwin. Não há nada de errado com a do Harrison, só que a dos Gershwin é simplesmente uma das melhores canções já escritas. Linda melodia, modulações primorosas e aquela letra com o rimário virtuosístico do Ira Gershwin, que é uma das principais influências de Chico Buarque, conhecido como nosso mais formalmente rigoroso letrista – aquela coisa de rimar “sour” com “Schopenhauer”, ou, sutil, “has given me a” com “idea”.

A partir daí, passei a achar uma audácia do George Harrison escrever outra “Isn’t ia a pity?”, que soa como brincadeira de criança perto da dos Gershwin. Não se pode escrever uma canção com o mesmo nome de um clássico e passar impune – pensando bem, até pode, já que a “Isn’t it a pity?” setentista deve ser mais bem-sucedida comercialmente do que a dos anos 1930… E há também algumas exceções felizes, como Chico Buarque, que com sua “O que será?”, realizou uma das maiores obras do cancioneiro nacional, bem melhor do que as antecessoras “Que sera sera”, aquela cantada pela Doris Day no O homem que sabia demais, ou a “Que será”, canção de fossa do repertório da Dalva de Oliveira.

Voltando a “Isn’t it a pity?”, a quem não conhece recomendo fortemente que ouça, preferencialmente na versão de Ella Fizgerald para seu songbook dos Gershwin. O álbum (quíntuplo!), de 1959, é a reunião do melhor da canção norte-americana: composições dos Gershwin, arranjos de Nelson Riddle… e Ella cantando!

Que me perdoem os fãs de Billie Holiday, mas Ella sempre me soará superior. Li uma frase, atribuída a Ruy Castro, que dizia algo do tipo “Quando Ella canta que perdeu seu homem, parece que ele saiu para comprar cigarros e já volta; quando Lady Day canta o mesmo, seu homem foi embora para nunca mais voltar”.

Não consigo enxergar tanta poesia: quando Billie Holiday canta que perdeu seu homem (ou qualquer outra coisa) me parece uma toxicômana que dá indícios claros de que morreria antes dos 50; quando Ella canta, seja lá o que for – o respeito à melodia, a dicção claríssima, a limpidez da voz, a extensão assombrosa –, é belo. E basta.

How’s chances

As chances são as mesmas de topar com o Galvão Bueno saindo da Adega União; de o Empório Guimarães promover uma noite dedicada à música de Gershwin, Cole Porter e Irving Berlin; de, numa mesma noite e num mesmo lugar, Janeth El Haouli aparecer sem fita no cabelo, Kennedy Piau marcar presença sem chapéu e Carlos Ribeiro pintar na parada sem bengala.

As chances são as mesmas de o cardápio do La Gôndola passar a contar com dobradinha entre suas opções; de o Pé na Cova proibir frequentadores trajando bermuda e/ou chinelo e o Marco Antônio de Almeida ser barrado no estabelecimento por conta da nova regra.

As possibilidades são similares às de Domingos Pellegrini encher de sua chácara e se mudar para um edifício com vista para o Elevado Costa e Silva; de o Pátio San Miguel decretar férias coletivas por um mês; de a próxima lista de aprovados em medicina na UEL não contar com nenhum sobrenome japonês; de a dona do Musamar ser vista com o cabelo desarrumado – e, para permanecer no território capilar, de Irina Ratcheva decidir usar chapinha.

É tão provável quanto a Exposição Agropecuária contar com um estande do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra; quanto o Paulo Briguet repentinamente passar a defender o terceiro mandato consecutivo do Lula; quanto o departamento de Artes da UEL desestimular as instalações e colocar seus alunos para fazerem cópias de quadros de Velázquez.

Pode-se esperar que dê certo do mesmo modo que se pode esperar uma Metamorfose com um saldo de nenhum vômito e nenhuma cópula pública; estacionar perto do Ouro Verde, deixar o carro parado por horas e não receber a visita fecal de nenhum pombo; embriagar-se no Belini e, depois de tantas cervejas, receber a conta justa; a fusão entre Rob’s e Arnaldo Lanches pelo bem dos cachorros-quentes com frango de Londrina.

* * *

É, minha amiga, difícil vingar.

Não há nenhuma impossibilidade física, é diferente de torcer para a grama nascer azul com bolinhas amarelas. Mas não acontecerá e a razão é simples: não acontecerá porque não tem por que acontecer.

Ainda assim, é bonito que você tente, é nobre que você tente, eu digo para você tentar.

(Colaborou Marcela Ortolan)

Encontro noturno

Noite, muito tarde da noite. Estava sozinho, estacionei, desci do carro, demorou o que, três segundos?

– Posso dar uma olhada, fera?

– Ob-la-di, ob-la-da – rosnei, cabeça baixa, sem fazer questão de fazer sentido.
O maluco parece que se deu por satisfeito, deixou-me ir em paz.

* * *

Demorei-me no lugar apenas o tempo suficiente para comprar dois pães e um litro daquela coisa parecida com iogurte que vendem em saquinhos, acho que chamam de “bebida láctea”. Não é tão bom como iogurte, mas é barato e docinho, eu gosto, principalmente nos sabores de morango e coco. Pêssego não acho tão legal.

Não levo muito para descer do carro, andar 20 metros e comprar dois pães e um litro daquela coisa parecida com iogurte que vendem em saquinhos. Não quero me gabar, mas consigo cumprir essa tarefa em pouquíssimo tempo. Uma de minhas habilidades.

Passos tranquilos, orgulhoso da tarefa cumprida com eficiência, dirigi-me ao carro esperando escapar ileso. O maluco, contudo, anos de experiência, pouco impressionado com minha ligeireza, sentiu-se no direito:

– Tem dois realzinho aí, fera?

Não gosto de mentir, eu tinha os dois reais solicitados no bolso – e pouco mais do que isso. Mas confessar que gozava da posse de seu objeto de desejo para depois negar-lhe as duas pilas seria, mais do que falta de polidez, uma crueldade. Saí-me então com uma evasiva que me pareceu razoável:

– Olha, amigo, fiquei menos de dois minutos lá dentro, só comprei dois pães…

E aproveitei as reticências para abanar as mãos, meter-me no carro e fechar-lhe a porta na cara.

Prostrou-se então o maluco na minha janela, estendeu a mão. Não era fingimento, não era malandragem adquirida nas ruas para intimidar ou despertar pena. Ele realmente queimava de indignação, sentia-se lesado, traído. Havia olhado o carro com primor, por que diabos eu agora lhe negava os dois reais?

Olha, ao contrário de tantos outros notívagos, ilustres, não vejo glamour em mendigos, não consigo observar lirismo difícil e pungente nos bêbados, não admiro o desprendimento radical das convenções sociais.

Por outro lado, justo dizer em meu favor, não tenho nojo nem sinto repulsa por essas criaturas, ao vê-las não me vêm instintos fascistoides de purificação social; o sentimento também ainda não é de compaixão, nem desejo de lutar pela extinção das desigualdades e pela melhora da vida comum.

Ao ver um maluco desses, só sinto tédio, como em relação a tantas outras coisas na vida, só sinto tédio, meu deus.

Com tédio, encarei-o por longos segundos, nós dois separados pela janela fechada do carro. Eu sentado, ele em pé. Quando encolhi os ombros, deu-se por vencido. O vidro abafava o som, mas pude distinguir sua bênção em tom de maldição:

– Vá com Deus.

O primeiro reflexo foi retorquir simplesmente “Não acredito em Deus”, embora não seja de todo verdade. Mas ponderei: num mundo em que líderes de quadrilha, traficantes, homicidas fazem o diabo, mas creem piamente em Nosso Senhor, e em que seminaristas e padres, por sua vez, sofrem com crises de fé, talvez meu “Não acredito em Deus” estivesse semanticamente muito próximo do já antológico “Atira, filha da puta”, do conterrâneo Bortolotto. Preferi ficar apenas com meu cinismo:

– Muito obrigado, tenho certeza de que seu desejo é sincero.

E fui pra casa. Acabei nem comendo os pães, nem tomando o iogurte.